Olga, por Manoel Venâncio Campos da Paz Junior

O texto a seguir foi escrito pelo médico Manoel Venâncio Campos da Paz Junior, filho de Manoel Venâncio Campos da Paz - um dos fundadores da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e vereador pelo PCB em 1947. Os dois, pai e filho, estiveram presos em 1936. “Júnior” também sempre colaborou com o Socorro Vermelho, atendendo e operando de graça dezenas de militantes comunistas. Ficou preso no mesmo presídio que Olga e foi um dos presos a sair da cadeia para acompanhá-la naquela que seria sua ida ao hospital – na verdade, sua viagem para a Alemanha nazista.

OLGA BENARIO PRESTES

Vi Olga Benario Prestes pela primeira vez num sábado de sol, sentada num banco da Praia de Botafogo, conversando, animadamente, com o meu antigo companheiro de guarnição de iole a oito no Clube de Regatas Guanabara, Américo Dias Leite - o moleque Américo. Próximo a eles repousava, placidamente, o belo cão policial que, meses depois, serviria de pista à polícia política para prendê-la.

Américo Dias Leite voltara recentemente de uma demorada viagem à Europa. Ao vê-los em tão animado colóquio, não pude me furtar ao pensamento malicioso: o maroto do Américo trouxe um lindo “contrabando” feminino da França !

Só mais tarde, já encarcerados Américo e eu, vim a saber detalhes daquele encontro ocasional. Por ter voltado recentemente da Europa, podia receber quaisquer bagagens de lá, sem despertar o faro aguçado da polícia política. Por isso estava sendo procurado por aquela moça loura. Dela sabia apenas ser uma revolucionária alemã, esposa de um cidadão português, Antonio Vilar, ambos entrados no Brasil clandestinamente. O Américo não sabia nada mais do que isso e já era bastante. De fato, foi o suficiente para o famigerado Tribunal de Segurança Nacional condená-lo a vários anos de prisão.

Naquele momento, estavam acertando o melhor meio de desembaraçar as bagagens do casal, já chegadas ao porto e endereçadas ao Américo.

A segunda vez em que tive notícias de Olga Benário foi também de maneira fortuita e curiosa. Numa quarta-feira de Cinzas, nos últimos dias de fevereiro de 1936, ao chegar ao consultório, dona Lúcia, minha enfermeira, crivou-me com uma saraivada de perguntas indiscretas:

- “Doutor, o Prestes está no Brasil ? Ele está aqui no Rio ? É casado com uma mulher loura ?”

De início, pensei em não responder nada, acreditando tratar-se de uma provocação policial, embora já conhecesse bem dona Lúcia.

Naqueles dias negros, depois do fracassado movimento de 35, tudo era possível. A verba secreta[1] da polícia era distribuída com generosidade a todos aqueles que quisessem delatar ou trair.

Saí pela tangente, explicando vagamente que essas coisas sempre eram feitas da maneira mais sigilosa possível, com um mínimo de pessoas a par do segredo. Por que seria logo eu alguém capaz de conhecê-las ?

Dona Lúcia contou-me então a razão de suas perguntas e temores. Tinha sido procurada em sua casa, no Caxambi, por dois rapazes atléticos, que se faziam acompanhar por um belo cão policial alemão e estavam na pista de uma moça loura. Uma vez comprovada a identidade de dona Lúcia, nada mais lhe disseram. Apesar de estarem vestidos à paisana, todos os vizinhos afirmavam serem eles “tiras” da Polícia Especial, à procura de alguém de grande importância. Daí ter ela relacionado o sucedido com a caçada a Prestes e sua esposa, cuja prisão a polícia apregoava para breve, como de fato aconteceu: Prestes e Olga Benário foram presos no dia 5 de março de 1936, na rua Honório, no Caxambi !

Alarmado, comuniquei imediatamente todos esses fatos a uma pessoa da maior responsabilidade dentro do PCB[2]. Porém, seja pelos fatos não terem merecido fé, dada a grande auto-suficiência dos dirigentes de então, seja por já ser tarde demais ? por fas ou por nefas[3]- a batida sistemática deu resultado e o inevitável aconteceu. Iniciou-se, assim, o rosário dos sofrimentos que iriam vitimar esses dois grandes lutadores revolucionários: Olga Benário e Luiz Carlos Prestes.

Revi Olga Benário Prestes na prisão, no Pavilhão dos Primários, onde tive a oportunidade de conviver com ela durante alguns meses e conhecê-la bem.

Apesar do seu adiantado estado de gravidez, que não estava evoluindo muito normalmente, e da constante ameaça de expulsão para a Alemanha nazista que pesava sobre a sua frágil cabeça de mulher, Olga era animada e disposta. Por várias vezes, nos dias em que estava bem de saúde, tomou parte no nosso programa da PR-ANL, um arremedo de estação de rádio, onde eu funcionava como locutor, lendo notícias que nos chegavam de fora, clandestinamente, ou anunciando números de canto pelos “artistas amadores”? os próprios presos políticos -, com o “slogan” criado pelo Barão de Itararé:

-          “Agrade ou não agrade, todos à grade para ouvir a PR-ANL, a ‘VOZ DA LIBERDADE !’

Os números cantados por Olga eram, invariavelmente a Internacional[4], em francês, acompanhada pelas demais companheiras presas, ou então a Bandiera Rossa[5] em italiano:

“Avanti popolo ! A la riscorsa !

Bandiera rossa!  Bandiera rossa!

Bandiera rossa que trionferá ! Bandiera rossa que trionferá !

E viva il comunismo i la libertá !

Viva Lenino, abasso il ré ! Viva Lenino, abasso il ré !”

A última vez que vi Olga Benário Prestes foi na noite de sua criminosa expulsão do Brasil. Talvez eu tenha sido a última pessoa amiga a vê-la antes de ser embarcada no navio alemão que iria conduzi-la para o seu negro destino, para as garras da Gestapo, para os campos de concentração nazistas e para a morte no forno crematório !

Numa noite fria e chuvosa de junho ou julho de 1936, depois da irradiação das notícias do dia pela PR-ANL, dos nossos cânticos patrióticos e do simbólico toque de silêncio pela ?banda de clarins?, quando já nos preparávamos para dormir, fomos surpreendidos pela notícia de que lá fora, no pátio da Casa de Detenção, havia um inusitado movimento e grande aparato bélico e que a guarda tinha sido duplicada, talvez triplicada !

Nem nas tenebrosas noites de transferência de presos políticos para a Colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande, tinha havido tal movimentação de “tiras” e de guardas, tal aparato policial. Os guardas e faxinas de nada sabiam ou estavam receosos de nos revelar a verdade, temendo uma explosão violenta de nossa parte.

Mais ou menos às dez horas da noite, chegou às grades externas do Pavilhão dos Primários uma malta de “tiras” da Ordem Política e Social, comandada por um tal “doutor” Carlos Brandes, que diziam ser alto funcionário do Itamarati, “servindo” na Polícia, onde desempenhava funções de ligação entre aquelas duas repartições. Acreditávamos, isso sim, que fosse um agente graduado do F.B.I, do Intelligence Service[6], ou da própriaGestapo alemã, servindo na polícia brasileira.

O que posso afirmar, com toda a certeza, é que o “doutor” Brandes era “gente fina”, um “tira” altamente colocado. Dias antes, havia sido designado para acompanhar meu pai em uma extraordinária visita médica domiciliar. Uma doente sua, de muito prestígio, movera céus e terras para obter tal favor. Na oportunidade, o “doutor” revelara-se um cavalheiro de fino trato e muito mando, consentido até que meu pai, após a consulta, recebesse a vista de amigos e parentes que ali acorreram pressurosos para vê-lo.

Tais liberalidades não eram comuns entre os “tiras” ordinários. Eles próprios viviam sob a permanente ameaça de passarem de porqueiros a porcos, como aconteceu com toda a guarnição da Polícia Militar da Ilha Grande. Esta viera parar no Pavilhão dos Primários, apenas pelo crime de ter demonstrado um pouquinho de solidariedade com as desgraças e misérias dos presos políticos. Haviam consentido que alguns felizardos, possuidores de uns magros tostões, comprassem bananas e outras frutas locais dos residentes, para melhorar e, principalmente, reforçar a precaríssima dieta do presídio.

Toda essa digressão serve apenas para mostrar a importância hierárquica do “doutor” Brandes, aliás, plenamente confirmada pela alta missão que lhe tinha sido confiada: “retirar, de qualquer maneira”? foram suas palavras textuais? “Olga Benário Prestes do Pavilhão dos Primários”.

De início, procurou dourar a pílula e falou manso:

- “A polícia soube que dona Olga estava doente. Ele estava ali para transferir aquela senhora que estava em risco de ter sua gravidez interrompida, um parto prematuro para um hospital, onde ela pudesse ter melhor atendimento, onde lhe fosse prestada melhor assistência médica por um especialista, etc.”

De fato, Olga Benário estava correndo risco de abortar. O médico do presídio a colocara em repouso absoluto, recolhida ao leito, com vários clisteres de láudano[7] por dia.

Porém, ante a nossa furiosa reação às suas alambicadas palavras, o “doutor” irritou-se e, embora continuasse a insistir que ela seria mesmo transferida para uma maternidade, mostrou as garras:

- “Bem, eu não vim aqui para discutir com os senhores ! Vim para cumprir uma missão. Os senhores estão assumindo uma gravíssima responsabilidade se tentarem reter esta senhora aqui.! Até parece que estão fazendo de caso pensado, para que ela aborte, perca seu filho. Depois, a polícia seria responsabilizada por tudo.

-“Eu apelo para o senhor, doutor Campos da Paz[8]- que já conhece o meu modo de proceder - para que acalme os seus companheiros. Explique a eles que eu não seria capaz de uma ação menos digna”.

E continuava:

- “Senhores, eu lhes dou a minha palavra de honra que esta senhora vai ser imediatamente internada em uma maternidade! Estou disposto a dar-lhes todas as garantias: já mandei buscar uma ambulância para transportá-la com todo conforto. O que eu não posso, de jeito nenhum, é me submeter à vontade dos senhores e deixar de cumprir as ordens recebidas!

E, por aí ia...

A essa altura dos acontecimentos, o Pavilhão em peso estava em polvorosa. Todos nós protestávamos, da maneira mais enérgica possível, por todos os meios ao nosso alcance. Pendurados nas grades das janelas externas, que davam para a Rua Frei Caneca, embora dela separadas por um espesso muro de fortaleza medieval, gritávamos para a vizinhança, acordada e assustada, tudo que estava acontecendo.

Contávamos toda a monstruosidade que pretendiam consumar: expulsar do país uma mulher grávida e doente, ameaçada de ter a sua gestação interrompida no sexto mês de gravidez. Além do mais, era esposa de um brasileiro e, portanto, pela lei, considerada também brasileira. Pedíamos que dessem a maior divulgação a esses fatos. Gritávamos, ameaçávamos a polícia com céus e terras, fazíamos uma barulheira infernal!

Foi então que o “doutor” Brandes, acuado e irado, deixou escapar toda a verdade. Disse a que viera:

-“Bem, eu levarei esta senhora daqui de qualquer maneira, por bem ou por mal, queiram os senhores ou não!”

Olga Benário, inteirando-se dessa última ameaça, por intermédio de uma companheira que, das grades do salão das mulheres assistia lá de cima ao nosso violento bate-boca com a polícia, mandou chamar meu pai e os membros do Coletivo. Disse-lhes que compreendia e agradecia do fundo do coração a nossa violenta atitude diante das miseráveis pretensões da polícia. Porém, ela não poderia consentir que nós nos sacrificássemos inutilmente. Qualquer reação nova de nossa parte, além daquelas que havíamos tido, seria mera loucura e poderia redundar num morticínio inútil. Estava disposta a ir:

-“Como eu quero viver para o meu filho[9], é justo que vocês também vivam para as suas famílias”, disse Olga.

Ao saber da resolução de Olga, o “doutor” Brandes acalmou-se: voltou a ser todo doçuras e sorrisos. Dispunha-se mesmo a permitir que um de nós, um médico preso político, e uma companheira de Olga a acompanhássemos até o hospital. Em definitivo, isso seria para nos certificarmos da pureza de suas intenções...

A companheira escolhida foi Maria Werneck de Castro, advogada, e o médico, eu.

Eram cerca de duas horas da madrugada e caía uma chuvinha fina e fria, quando o pequeno cortejo se pôs em marcha. Olga, deitada na maca, na frente; logo atrás, Maria Werneck e eu, acolitados pelo de novo solícito e amável “doutor” Carlos Brandes. Atravessamos alas de “tiras” armados de metralhadoras portáteis, mal encarados e decepcionados por tantas delongas, que tinham resultado em nada, pois lhes havia sido negada a oportunidade de exibirem suas qualidades de chacinadores. Lá na rua, uma ambulância nos esperava.

Seguimos na ambulância para o hospital da Fundação Gaffrée Guinle, na Rua Mariz e Barros, na Tijuca, que, sem qualquer informação sobre a nossa chegada, dormia a sono solto. Lá, na calada da noite - hora em que costumam agir os assassinos e ladrões -, completou-se a trágica pantomima. Metidos num “tintureiro”[10], Maria Werneck e eu fomos levados para a Polícia Central. Olga Benário Prestes seguiu na ambulância para o navio presídio[11] que deveria transportá-la para o seu trágico destino.

Era o começo do fim. Consumava-se aquele crime nefando: a entrega de uma indefesa mulher grávida à Gestapo de Hitler. Assim, o Brasil dava mais um passo no caminho do fascismo.

Esses fatos passaram-se em junho/julho de 1936[12] e o Estado Novo aconteceu em novembro de 1937. Vale assinalar aqui que, nem um só daqueles líderes que, após a queda do Estado Novo, tanto se enfeitaram com penas de “maquis”, teve o seu bem formado coração de católico praticante despertado por tal ignomínia. E muitos até desempenhavam importantes cargos no Governo. Nenhum deles protestou. O marasmo era geral: uma calma de pântano.

[1] Consta que essa verba era muito farta e servia para remunerar delatores e ?tiras? que mostrassem serviço.

[2] Dr. Ilvo Meirelles. (Nota do autor)

[3] Por isso ou por aquilo.

[4] Hino revolucionário da Internacional Comunista, cuja letra foi traduzida em várias línguas.

[5] Hino revolucionário italiano Bandeira Vermelha. Diz a letra: Avante povo!/Ao ataque/Bandeira vermelha!/Bandeira vermelha!/Bandeira vermelha que triunfará/E viva o comunismo e a liberdade./Viva Lênin, abaixo o rei!

[6] Serviço Secreto Inglês

[7] Láudano é um anti-espasmódico derivado do ópio. Em aplicações locais na vagina pode evitar as contrações uterinas.

[8] Meu pai, que junto à grade, confabulava com os outros membros do Coletivo. (Nota do autor)

[9] Na verdade foi uma filha, Anita Leocádia Prestes, que nasceu na prisão de mulheres da Gestapo, em Berlim, a 27 de novembro de 1936.

[10] Veículo para transporte de presos, hoje mais conhecido como camburão.

[11] Nessa mesma madrugada, Olga foi levada para o navio La Coruña, que zarpou em seguida para Hamburgo, Alemanha. Lá foi entregue à Gestapo, polícia política alemã.

[12] Na verdade, isso ocorreu em setembro de 1936, como documenta Fernando Morais, em seu livro Olga.

 
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