[Resenha] O jovem Karl Marx – Raoul Peck (2017)

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Por Antônio Lima Júnior Jornalista e militante do PCB

O filme “O jovem Karl Marx” (Le jeune Karl Marx, no original), dirigido pelo cineasta haitiano Raoul Peck, teve estreia mundial em 15 de junho deste ano. Semana passada, finalmente surgiu na internet a legenda em português, causando uma grande discussão sobre o tão esperado filme que aborda a juventude de Karl Marx.

Situando-se num período anterior ao Manifesto do Partido Comunista, a história começa com Marx e a perseguição ao jornal Gazeta Renana, ao qual escreve a obra Os Despossuídos, na Alemanha, baseado no furto de lenha pelos pobres em terrenos privados. Em paralelo, vemos o jovem Friedrich Engels escrever A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, entrando em conflito com sua vida de burguês na fábrica de seu pai.

Exilado, Marx encontra-se com Engels na França. Aqui vemos o ponto central da obra acerca da evolução do pensamento de Marx, ao mostrar o encontro deste com figuras notáveis do movimento dos trabalhadores da época, como Proudhon e Bakunin, mostrando também os embates e conflitos no campo do socialismo, como podemos ver na cena do discurso de Proudhon, onde há um conflito entre a condição do artesão e do proletariado, além da questão acerca da abolição da propriedade privada dos meios de produção.

Embora que Marx jamais tenha se encontrado com Proudhon ou que a obra de Engels escrita na época em que se encontraram tenha sido outro ao invés do mencionado, a licença poética do filme está utilizada para reforçar o crescimento teórico de Marx durante o período até o encerramento do filme, com a construção do Manifesto do Partido Comunista, após a transformação da Liga dos Justos em Liga Comunista. Ao ter o título de “jovem Marx”, o filme reforça aquilo que alguns marxistas hoje separam como a diferença teórica entre o jovem e o velho Marx em seus textos.

Vemos também o arquétipo do Marx jornalista, lutando para conseguir sustentar sua família com a publicação de seus textos nos jornais operários da época. O elogio de Bakunin aos escritos de Marx é gratificante e honraria qualquer jornalista da atualidade com suas palavras: "Consigo sentir o borbulhar do sangue nas tuas veias e ele borbulha nas veias dos seus textos".

Outro fator histórico importante do filme é a construção do processo produtivo de Marx, ao mostra-lo debruçado no estudo de clássicos como Ricardo e Smith para a elaboração de futuras obras, como O Capital, que ainda não fora pensado no período em que o filme transcreve. Além disso, há também a visibilidade dos confrontos que Marx tem com as correntes populistas do movimento operário da época, como na cena em que ele discute com Weitling acerca de seus discursos vazios de teoria. Em tempos em que vemos uma retomada do reformismo com os mesmos discursos da época de Marx para refutar sua teoria (academicismo, falta de aproximação com o proletariado, etc), essa cena é imprescindível para a reflexão das críticas de Marx ao romantismo conciliador dos reformistas.

Há ainda alguns elementos importantes que não podem ser deixados pra trás: a abordagem dos conflitos pessoais, a perseguição, o exílio e o espírito forte de Jenny, que ao recusar ser chamada como “Srta. Marx”, mostra que ela não é somente uma “esposa fiel”, mas uma camarada que lutou junto com Marx pela libertação do proletariado, rejeitando também a hegemonia do patriarcado.

O papel de Jenny na vida de Marx, assim como Engels, é fundamental para termos uma visão diferenciada do que muito se tem sobre a individualidade de Marx. Este jamais foi o que fora sem aqueles ao seu redor. Nas palavras de Jenny: "Sem revolta não há felicidade. Revolta contra a ordem existente, contra o mundo velho. É nisso que acredito".

Para os interessados em assistir ao filme ou aqueles que, como eu, estavam preocupados com a exibição cinematográfica da vida de Marx em tempos de midiatização apassivadora, podemos ficar parcialmente tranquilos. O jovem Karl Marx, apesar de uma estética romântica fruto das influências do atual "cinema alternativo", está longe de ser uma obra hollywoodiana ou que tenha por intenção desvirtuar a vida de Marx. É uma obra fundamental para a desmistificação e a difusão dos pensamentos daquele que mostrou que o proletariado nada tem a perder, a não ser os seus grilhões. Sem, óbvio, esquecer que a vida e a obra de Marx não se limitam à uma questão puramente literária, como a obra pode induzir em certos aspectos, mas está intrinsecamente ligada à mudança da realidade e do velho mundo em que vivemos.

Atualizado em 05.10.17