Mídia distorce informações sobre professor visitante da UFRJ

imagem*Redação Boletim da Aduferj e Elisa Monteiro

O tom sensacionalista com o qual a mídia brasileira tratou o caso do físico franco-argelino Adlène Hicheur põe em xeque a credibilidade das informações. Professor visitante do Instituto de Física da UFRJ, Hicheur foi apresentado à opinião pública do país como um perigoso terrorista.

Contribuiu para aumentar o julgamento do professor uma declaração do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, para quem o físico sequer deveria ter entrado no país, em 2013.

O professor foi preso na França entre 2009 e 2012, sob as novas leis antiterroristas, por trocar e-mails com um suposto militante da Al-Qaeda na Argélia. Foi processado no final desse período e condenado à prisão pelo tempo que já havia ficado, mas, em seu julgamento, não foram encontrados indícios concretos de seu envolvimento em ações terroristas.

Formação de quadrilha, tendo como intenção cometer atos de terrorismo, foi a acusação pela qual respondeu à justiça francesa.

No Brasil, Adlène Hicheur entrou no radar da Polícia Federal por causa de uma reportagem da Rede CNN sobre o atentado contra o jornal francês “Charlie Hebdo”. A reportagem mostrou um homem numa mesquita da Tijuca, no Rio, que exibiu símbolo de uma facção terrorista. A PF resolveu investigar os frequentadores do templo religioso e o professor Hicheur — que estava de férias na França, quando isso ocorreu —, pelo seu histórico, acabou alvo da investigação.

No dia 13, depois da repercussão de uma reportagem sob o título “Um terrorista no Brasil”, na revista Época, reiterando as acusações feitas por autoridades francesas, Hicheur comunicou a colegas da UFRJ e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) que decidiu interromper o seu contrato com a universidade e deixar o país, por se sentir perseguido.

Em carta a seus colegas da UFRJ e do CBPF, Hicheur afirma que, ao contrário do que disse a revista, sua prisão na França não era segredo para as autoridades brasileiras.

Defesa

O noticiário sobre Adlène Hicheur no Brasil repercutiu no exterior. Importantes pesquisadores da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN, da sigla em francês), e de outras instituições de pesquisa na Europa, divulgaram nota de solidariedade ao professor.

“(…) Prof. Hicheur nunca cometeu, direta ou indiretamente, qualquer ato criminoso ou terrorista. Ele cumpriu a sua sentença (…) e tem trabalhado pacificamente no Brasil. (…) é admirável que o Brasil tenha oferecido ao prof. Hicheur a possibilidade de retomar a sua carreira científica (…). O artigo que foi publicado recentemente na Época não tem fundamento na realidade”, dizem trechos da nota.

Quando foi alcançado pela repressão na França, com base nas novas leis antiterror, um comitê de solidariedade lançou o manifesto “Guantánamo à la Française” (http://soutien.hicheur.pagesperso-orange.fr). A polícia da Suíça (onde fica o CERN) também investigou Hicheur e não encontrou nada, como informam os jornais da época (http://www.adlenehicheur.fr/press/oc09m11/2011-01_13_LeMatin_CH.pdf).

Posição da reitoria

Até a tarde desta sexta-feira 15, a UFRJ não tinha recebido nenhum comunicado do professor visitante Adlène Hicheur solicitando seu desligamento da instituição. A direção da universidade divulgou nota afirmando que não é atribuição da universidade deliberar sobre antecedentes criminais de professores. O ingresso de Hicheur, informou a UFRJ, seguiu os trâmites habituais.

No dia 14, o Instituto de Física divulgou nota informando a substituição “do professor Adlène para evitar que influências não acadêmicas interfiram no andamento das aulas. Ele continua exercendo atividades de pesquisa na pós-graduação”.

“Excelente pesquisador”

Professor Titular do Instituto de Física (IF) da UFRJ, Leandro Salazar de Paula lidera a equipe de pesquisadores da qual faz parte Adlène Hicheur, no Laboratório de Partículas Elementares do Instituto de Física. Salazar o define como “um excelente pesquisador, brilhante”. Caso Adlène deixe o país, considera que haverá prejuízo para a pesquisa. Os dois também atuam como colaboradores do CERN.

Adlène Hicheur está na UFRJ desde junho de 2014. Por causa da limitação no idioma, primeiro atuou só como pesquisador. No semestre seguinte, começou a lecionar na pós-graduação sobre sustentabilidade de energias renováveis, e em Física Experimental II, na graduação.

A trajetória do professor visitante na UFRJ é destacada com louvor. De acordo com Salazar, foi o prestígio internacional de Hicheur como pesquisador que propiciou a presença de especialistas de centro de pesquisa de referência internacional de Zurique, em colóquio científico realizado pelo Instituto de Física em 2015.

Na UFRJ, o professor franco-argelino atua em várias linhas de pesquisa. “Somos nove pesquisadores, e estamos perdendo o mais atuante. A saída dele é muito negativa”, lamenta Salazar.

O professor brasileiro relata que a contratação de Hicheur pela UFRJ seguiu todo rigor exigido a um visitante estrangeiro. “A documentação estava completa, visto, nada consta etc. E tudo já havia sido checado anteriormente pelo CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas). Todas as informações foram esclarecidas, inclusive sobre o cumprimento da pena. Não havia nada de secreto”.

Salazar explica que, em caso de visitantes, a previsão de permanência é de um ano, prorrogável três vezes pelo mesmo período. “Teríamos todo interesse que Adlène continuasse conosco os quatro anos. Mas, mesmo que não tivesse ocorrido essa situação toda, não tenho certeza se ele ficaria esse tempo todo. Tanto é que veio primeiramente com uma bolsa de curta duração do CBPF. Só depois aceitou uma colaboração maior. E quando abrimos a vaga para docente, resolveu se candidatar”, relata.

De acordo com o professor Leandro Salazar, dois fatores foram determinantes para que Adlène Hicheur escolhesse o Brasil como destino acadêmico, depois de cumprir sua pena: maior agilidade na burocracia brasileira e desejo por um novo ambiente para seu recomeço.

“Quando foi solto, Adlène expressou aos colegas de área que seu interesse era voltar à vida científica”, conta. “A Europa paga melhor, mas o processo burocrático é mais lento”, observou Salazar.

Segundo o professor da UFRJ, o franco-argelino ficou chocado com a exploração de sua história pela mídia brasileira: “Adlène lidou em diferentes países com a questão. Mas nunca com essa exposição, com sua fotografia aparecendo repetidamente”.

Salazar disse que cientistas internacionais manifestaram sua solidariedade a Hicheur logo que o noticiário sobre ele chegou à mídia. “Na verdade, como brasileiro, fiquei envergonhado por tudo que aconteceu com ele, que essa incivilidade tenha afetado a opinião dele sobre a gente”, disse. A “receptividade dos brasileiros” era sempre citada por Adlène Hicheur como fator que contribuiu para sua fixação no país, lembra o professor.

Boletim da Adufrj de 21 de janeiro de 2016

http://www.adufrj.org.br/images/19012016B.pdf

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