Em tempos de crise, um convite a conversar sobre nós

Em tempos de crise, um convite a conversar sobre nóspor Marianna Rodrigues*

Nós, comunistas, tendemos a observar todo período de crise como possibilidades abertas – seja para as revolucionárias e os revolucionários, de organizar a classe e avançar na estratégia socialista, seja para os reacionários e conservadores, de impor brutalmente sua política de dominação e manutenção da ordem capitalista. Aliás, sabemos que essas crises são parte constituinte deste sistema, de modo que, periodicamente, mesmo que para setores da classe trabalhadora pareça estar ocorrendo algum tipo de melhoria de vida, logo aparecem pacotes de reforma, retiradas de direitos, corte de verbas e todo o instrumental necessário para manter intocáveis as fortunas dos patrões e seus agentes políticos, ao passo que ao povo trabalhador restam as migalhas.

Em nota recente escrita pelo camarada Edmilson Costa, secretário geral do PCB, todos esses elementos sobre o momento político brasileiro são descritos com maior qualidade – o que ele denomina de “reflexões sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucionária no Brasil”. (Link: https://pcb.org.br/portal2/17995/decifra-me-ou-te-devoro-reflexoes-sobre-crise-atual-e-as-tarefas-da-esquerda-revolucionaria-no-brasil). O que proponho, contudo, como complemento às análises políticas atuais, é buscarmos compreender como este momento tem afetado os modos de subjetivação do povo brasileiro, isto é, como nossa classe incorpora, para si, os elementos estruturais desta crise.

É que, ultimamente, têm sido cada dia mais gritante as dificuldades objetivas e subjetivas que dificultam o processo de organização política do povo, sobretudo no que se refere a encontrar um sentido nas lutas políticas atuais. Ainda que o novo ciclo de lutas iniciado em 2013, ano após ano, traga à tona novos sujeitos políticos e consiga massificar inúmeras pautas com ações de rua, a continuidade das lutas – ou o que podemos chamar de “organicidade na vida política” – é uma lacuna constante. Uma resposta muito frequente para isso é de que “as organizações políticas tradicionais” estariam “desgastadas”, e seu modo interno de funcionar não seria suficiente para agregar os novos sujeitos.

Não podemos ignorar essas críticas, pois, de fato, as novas dinâmicas da luta de classes trazem consigo também novos desafios para as/os comunistas e seu modo de organizar-se. No entanto, seria de uma simplificação absurda em relação à complexidade atual da sociedade direcionar a crítica, exclusivamente, aos partidos revolucionários e seu modo supostamente “tradicional” de funcionar.

Vivemos a era da consolidação plena do capitalismo monopolista, das reformas neoliberais que avançam violentamente, de processos profundos de recolonização, da máxima de que cada pessoa deve ser “a empresa de si mesmo”. Com essa filosofia imposta em todas as instituições presentes em nossas vidas (escolas, famílias, trabalho…), a tendência é a formação de sujeitos cada vez mais “individualizados”, totalmente assujeitados, voltados para uma lógica mercantil de gerir suas vidas e cuja forma de conduzir seu futuro é pensar, primeiro, na sua sobrevivência e, se houver espaço para outra coisa, normalmente é como ter maior comodidade/qualidade de vida – quem sabe um carro para não ter de enfrentar a péssima qualidade do transporte coletivo; quem sabe uma faculdade à distância para ter o diploma sem gastar tanto, porque as vagas nas instituições públicas são poucas; quem sabe voltar a trabalhar só no fim do seguro desemprego, já que nunca tiro férias e assim por diante…

Devemos esbravejar frente a esta busca insaciável pelo sossego em que encontramos boa parte da classe trabalhadora brasileira? Não, de forma alguma! Talvez até possamos concluir que esta é uma forma bastante elementar de responder ao que chamamos de reificação… Ora, se tudo gira em torno da mercadoria, então são poucos os escapes possíveis para uma certa preservação de si mesmo. É possível dizer, nesse sentido, que um dos maiores desafios da militância comunista neste século é transformar todas essas “filosofias de si” em um horizonte “para nós”. E, na práxis cotidiana das organizações de base, isso se manifesta na construção de espaços políticos mais acolhedores, em que os contatos iniciais com a vida política não sejam uma extensão da lógica hegemônica (qual seja, da disputa ácida, da picuinha, da necessidade de respostas imediatas pra tudo, etc). Além disso, devemos aprender com determinados movimentos de combate às opressões – de mulheres, LGBTs e negritude, dentre outros –, que vêm crescendo dia após dia. Embora haja muita disputa entre suas diferentes frações, é comum encontrarmos nesses movimentos muitos espaços voltados ao fortalecimento coletivo de cada militante, sempre em torno de muito companheirismo. Ninguém decidirá iniciar sua vida política em espaços onde o desgaste seja maior do que o que já vive no dia a dia brutal do capitalismo.

Outro elemento bastante evidente atualmente é a depressão, quase como um mal do século. Antes tida como “doença de ricos” ou “frescura”, a depressão assola um conjunto imenso da classe trabalhadora e juventude, inclusive de quem já milita organicamente. E não teria como ser diferente: seguindo à lógica da busca insaciável pelo sossego, o que as pessoas se deparam, na verdade, é com o aumento da jornada de trabalho e estudo, a dificuldade de ter um teto para viver, o medo de andar sozinha nas ruas, a falta de dinheiro para acessar o lazer, dentre inúmeros fatores. A lógica de ser “uma empresa de si”, além de não funcionar objetivamente, subjetivamente é também bastante perversa, levando a uma dosagem alta de medicamentos para suportar o dia-a-dia competitivo e/ou maçante (ninguém pode parar!), à solidão, ao desânimo. Enfim, este texto não tem nenhuma pretensão de trazer os elementos técnico-psicológicos do que significa a depressão, mas sim de enunciar alguns “sintomas” geradores de dificuldade quando falamos em “organização política”.

No cenário atual, de golpe parlamentar, de repressão violenta às manifestações de rua, de ascensão de grupos de direita conservadores e liberais, tudo isso somado aos males estruturantes do capitalismo neoliberal (que levam ao assujeitamento, à depressão), o desafio das comunistas e dos comunistas é bem maior do que fornecer um programa político mínimo ao povo brasileiro. Precisamos resgatar os princípios fundantes da práxis revolucionária, de solidariedade para/com a classe e rebeldia contra os dominantes! Precisamos valorizar o trabalho de base como algo maior do que a realização de plenárias, panfletagens e espaços de formação teórica. Tudo isso é fundamental, mas, em paralelo, diante de uma sociedade que traça seu futuro totalmente dentro das amarras do capital, é preciso abrir fissuras, saber que o povo está cansado, deprimido, pensando no seu clube do coração que está rebaixado ou que foi campeão… Quem sabe ache um tempo para ir à igreja ao final do dia, agradecer pelo pouco que tem e implorar por uma vida melhor… Quem sabe vá encher-se de cerveja no bar de litrão barato… Podemos encontrar esta entidade abstrata – “o povo” – em qualquer lugar, e todo este lugar será um espaço de diálogo. E dialogando com “o povo” também descobriremos que, mesmo distantes das organizações políticas, a indignação com o sistema é latente.

Justamente por isso não podemos é silenciar-nos neste momento. As dificuldades são imensas, somos poucos e nossas pernas parecem cansadas. A boa notícia é que o saldo político do PCB e seus coletivos partidários no último período é extremamente positiva: somos poucos, mas já somos muito mais do que nos últimos anos; e nosso crescimento não é apenas quantitativo, vide a qualidade política da mais jovem secundarista ao mais experiente sindicalista que tem integrado nossas fileiras.

Então se, por um lado, muitos novos sujeitos não têm visto um partido revolucionário como o PCB como alternativa, o grande fato é que tantos outros estão. E neste balanço dentre os que ainda não vieram, e aqueles que recém chegaram, a verdade é que a máxima de que “o comunismo é a juventude do mundo” mantém-se firme. Somos a juventude do mundo porque trazemos conosco um projeto revolucionário, capaz de tirar o povo de sua depressão e organizar sua indignação, para superar este período de barbárie em que vive nossa classe na sociedade do capital.

*Marianna Rodrigues é militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, e integrante do Comitê Regional do PCB-RS.