Greve gigante dos professores de Los Angeles conquista importante vitória

imagemThousands of teachers marched in the rain demanding more school staffing and higher salaries.

Olhar Comunista

A greve de seis dias dos professores de Los Angeles terminou nesta terça-feira, dia 22/01, depois que professores e funcionários da educação pública aprovaram acordo costurado pelo Sindicato dos Professores de Los Angeles, encerrando por ora uma batalha que paralisou as escolas, deixando 600 mil estudantes sem aulas. O presidente do UTLA (United Teachers of Los Angeles), Alex Caputo-Pearl, declarou: “Hoje é um dia histórico em Los Angeles”.

O novo acordo com o distrito inclui um reajuste salarial de 6%, uma diminuição gradual no tamanho das turmas nos próximos anos e a contratação de mais conselheiros, bibliotecários e enfermeiros nas escolas. Líderes sindicais e o Distrito Escolar Unificado de Los Angeles fecharam um acordo provisório por volta da madrugada de terça-feira, após uma maratona de negociação de 21 horas, disse o prefeito Eric Garcetti. “É um acordo histórico”, disse o prefeito, que ajudou a mediar os dois lados da contenda. “O acordo reduz o tamanho das turmas e supre as escolas de suporte adequado”. Caputo-Pearl elogiou os mais de 30.000 professores e funcionários que fizeram piquetes por seis dias, muitas vezes sob chuva fria: “Estou muito orgulhoso de nossos membros, professores de sala de aula, conselheiros, enfermeiros, bibliotecários, psicólogos”.

O movimento chegou a reunir, no dia de 18 de janeiro, no Grand Park, 60.000 professores, funcionários, estudantes, famílias e outros apoiadores, os quais, saindo dos degraus da Prefeitura de Los Angeles e se espalhando por vários quarteirões em todas as direções, realizaram a maior assembleia da greve. Cantos e canções acompanhados por tambores de mão deram ao espaço uma atmosfera de celebração e confiança. Os metrôs e ônibus que chegavam ao centro da cidade passavam lotados de casa em casa, com educadores e aliados vestindo camisas vermelhas em apoio à educação pública.

A greve dos professores de Los Angeles, organizada pelos 33.000 professores unificados de Los Angeles, forçou o envolvimento do prefeito de LA, Eric Garcetti, e do recém-eleito Superintendente Estadual de Educação, Tony Thurmond. Professora da Van Nuys High School, em San Fernando Valley, Mary, a única conselheira universitária da escola (que atende 2.500 estudantes), disse ao jornal de esquerda Liberation News: “Estou aqui porque sou alguém que acredita na educação pública e que uma educação digna deve ser um direito para todas as crianças, não apenas para os ricos, não apenas para aqueles que são capazes de governar o sistema e frequentar uma escola charter”.

O sistema educacional estadunidense é organizado através dos chamados distritos educacionais e cada distrito possui uma delegacia de ensino responsável pela administração dessas escolas. O distrito de Los Angeles é o segundo maior do país. Nos últimos anos, a delegacia de ensino, na figura do superintendente Austin Beutner, vem promovendo um ataque à educação pública: cada vez mais, o distrito passa a incentivar as “charter schools”, que a grosso modo seriam escolas autônomas, que funcionam na lógica da gestão empresarial. Essas escolas funcionam mais ou menos como o modelo adotado no Brasil de Organizações Sociais: são administradas com verba da educação pública por entidades privadas, as quais possuem total controle do que é ensinado às crianças, sem precisar prestar contas às delegacias de ensino.

O Distrito Escolar Unificado de Los Angeles durante muito tempo recusou-se a atender as reivindicações dos professores quanto à redução do tamanho das turmas e por reajustes salariais justos, cortes nos testes padronizados, regulamentação das escolas charter não fiscalizadas, financiamento para contratar enfermeiros, bibliotecários e recursos para a educação especial e dos estudantes sem documentação, entre outras demandas. Mas os profissionais da educação em greve encontraram apoio na esmagadora maioria da comunidade, apesar da tentativa de desmoralização e divisão da categoria promovida pelas autoridades, que de tudo fizeram para opor estudantes e pais aos trabalhadores e trabalhadoras em luta. Uma pesquisa realizada pela Universidade Loyola Marymount demonstrou que 80% dos residentes no distrito de Los Angeles apoiaram a greve, tendo boa parte declarado um “forte” apoio ao movimento.

A cobertura da mídia variou do silêncio à desaprovação, mas as informações sobre a greve compartilhadas por canais alternativos atraíram a atenção e o apoio de trabalhadores em todo o país e no mundo. Quando o superintendente Austin Beutner disse que “talvez 3.500 professores” haviam se juntado à greve na segunda-feira, o número estava na verdade em torno de 33.000, com piquetes em todas as escolas do distrito.

A greve dos professores de L.A. não foi uma greve comum. Foi mais do que uma luta pelos salários de uma pequena parcela da força de trabalho. O foco na justiça social, educação pública de qualidade como um direito social e condições de trabalho humanitárias fez dela uma luta de combate à estratégia dos capitalistas de jogar sobre as costas da classe trabalhadora os custos da crise sistêmica do capital, via privatização e cancelamento de serviços públicos. Demonstrações como esta fazem parte do óbvio esgotamento do projeto neoliberal expresso em sua radicalização às últimas consequências, desde a retirada de direitos dos trabalhadores e do povo norte-americano até a precarização e privatização de todas as esferas possíveis, desta vez afetando um dos últimos bastiões públicos dos Estados Unidos: a educação fundamental e média.

Este é um momento profundamente significativo no cenário estadunidense, que vê, desde 2008, acirrar a luta de classes internamente, em reação às consequências da crise, que se revertem em ataques generalizados à classe trabalhadora do país. Enquanto as condições de vidas da imensa maioria caminham para um constante declínio, os milionários tornam-se bilionários. Nesse sentido, devemos, no Brasil e no conjunto da América Latina, continuar prestando a indispensável solidariedade internacionalista ao movimento dos professores e do alunado de Los Angeles e do restante daquele país, nas lutas de enfrentamento aos patrões e ao sistema capitalista, que fazem parte do processo geral de reorganização da classe trabalhadora estadunidense em defesa de seus direitos fundamentais, no rumo de uma sociedade igualitária.

Informações obtidas em https://www.liberationnews.org/eyewitness-the-los-angeles-teachers-strike-day-five/ Colaboração de Francisco Cânovas (UJC de São Paulo)