Retornar a Fidel quando a Amazônia queima

imagemPassaram-se 27 anos daquela advertência de Fidel, na Cúpula do Meio Ambiente no Brasil, quanto a que uma espécie biológica — o homem — está sob o risco de desaparecer, devido à rápida e progressiva destruição de suas condições naturais de vida

Autor: Elson Concepción Pérez

ERA o dia 12 de junho de 1992, no Rio de Janeiro, Brasil. Fidel Castro falou — breve, mas com maestria — na Cúpula das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Os presentes aplaudiram, embora houvesse alguns chefes de Estado na sala que não simpatizassem com o que ele dizia. Mas, pelo menos, reconheceram que suas palavras eram verdadeiras.

O que aconteceu desde então nessa mesma questão da mudança climática a que Fidel se referia quando alertou que «uma espécie biológica importante corre o risco de desaparecer, devido à rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o homem»?

Hoje, quando o grande pulmão do planeta que é a Amazônia arde incontrolavelmente, tenho certeza de que essas palavras de Fidel ressoam nos ouvidos de muitos. As razões são irrefutáveis.

Como explicar, então, que o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante os primeiros 20 dias dos incêndios que devastam as grandes florestas, estava culpando aqueles que «tentam minar sua autoridade» ou «tirá-lo da presidência» e atacava, sem nenhuma evidência, as organizações não governamentais, que ele acusou de «ter iniciado os incêndios»?, segundo aponta uma informação da BBC.

Explicações científicas mostram que, devido à derrubada indiscriminada da floresta amazônica, ocorre o desmatamento que reduz o nível de chuva local e a floresta se torna mais seca e, por sua vez, mais inflamável.

Portanto, é totalmente irresponsável que, em uma questão como esta, que afeta toda a humanidade, tenha-se deixado de lutar contra o fogo, nos primeiros 20 dias, o que causou uma das maiores devastações do ecossistema lembradas na história.

E volto a Fidel e a seu discurso na Cúpula do Clima, quando disse: «as sociedades de consumo são fundamentalmente responsáveis pela destruição atroz do meio ambiente». E exemplificou: «As florestas desaparecem, os desertos se espalham, bilhões de toneladas de terra fértil vão para o mar todos os anos. Numerosas espécies são extintas. A pressão populacional e a pobreza levam a esforços desesperados para sobreviver, mesmo às custas da natureza. Não é possível culpar os países do Terceiro Mundo, colônias de ontem, nações exploradas e saqueadas hoje por uma ordem econômica mundial injusta».

Após a Cúpula de 1992, muitas outras aconteceram. Seminários, workshops, compromissos não cumpridos, dinheiro que nunca apareceu para ajudar os países pobres a combater os efeitos das mudanças climáticas…

Foi assim que chegamos à Cúpula de Paris e, entre 30 de novembro e 12 de dezembro de 2015, foi elaborado o Acordo assinado por quase 200 chefes de Estado ou de Governo que se comprometeram a salvar a humanidade das adversidades do clima. Parecia que entre os assistentes e signatários estava Fidel e que suas palavras ecoavam nos ouvidos e nas consciências dos responsáveis por «salvar a espécie humana» porque «amanhã será tarde demais».

Mas a vida passou e, dois anos depois, em 2017, o mundo soube o quanto era capaz de fazer o novo presidente dos Estados Unidos, para romper com os principais acordos e convenções alcançados em anos de discussão, diálogo e entendimento mútuo. Trump, em uma de suas primeiras ações como presidente, rompeu com o Acordo de Paris. Descreveu a mudança climática como uma mentira e procurou a lata de lixo mais próxima para jogar os documentos assinados por seu antecessor, Barack Obama.

O pensamento futurista de Fidel, em 1992, de que «agora estamos cientes desse problema quando já é tarde demais para evitá-lo», não parece ser conhecido por esse homem, que do trono imperial ignorou o Acordo de Paris e muitos outros acordos essenciais para vida humana e a paz no planeta. E por sinal, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro — o Trump dos trópicos — quer imitá-lo quanto a sair do Acordo de Paris e ignorar os efeitos das mudanças climáticas.

Enquanto isso, a Amazônia queima e em algumas regiões do mundo parece se preparar um ambiente de guerra, onde estreitos e mares também podem se inflamar.

NO CONTEXTO

– A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, ocupa uma área de 5,5 milhões de km2, dos quais 60% pertencem ao Brasil.

– A região amazônica havia perdido 5.879 km2 de florestas nos últimos 12 meses, 40% a mais que no ano anterior.

Este ano, foram detectados 39.601 incêndios. Entre janeiro e agosto de 2019, o número de incêndios florestais no Brasil aumentou quase 84%, em comparação com o mesmo período de 2018.

No ano passado, o mundo perdeu 12 milhões de hectares de florestas, incluindo 3,6 milhões de hectares de floresta tropical primária, segundo dados da Universidade de Maryland.

A Amazônia não é apenas o lar de centenas de povos indígenas e milhares de espécies de animais e plantas, mas também tem uma função fundamental para regular o clima e as chuvas.

Entre outras funções, é de grande ajuda para minimizar as mudanças climáticas, pois armazena milhões de toneladas de dióxido de carbono.

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