Mariátegui e a fundação do Partido Comunista do Peru

imagemAntonio Lima Júnior – militante do PCB do Ceará

No último 7 de outubro, o Partido Comunista del Perú – Pátria Roja, comemorou seus 91 anos de fundação. Fundado em 1928 ainda como Partido Socialista Peruano (PSP) naquela data, mudando a nomenclatura para Partido Comunista Peruano em maio de 1930, o desejo de sua fundação vem desde o período em que José Carlos Mariátegui, escritor marxista peruano, residiu na Itália entre 1919 a 1923.

Ao retornar para sua terra natal, Mariátegui logo inicia seu trabalho de agente organizador das ideias socialistas, contra as tendências liberais e buscando a organização do proletariado. Seu ato inicial se deu na realização de periódicos, em especial a revista Amauta, que, como ele escreveu em seu editorial “Aniversário e Balanço” em 1928, tinha como obrigação de durar, resistindo como um instrumento de organização para o proletariado peruano.

Durante o período entre seu retorno e a fundação do PSP, Mariátegui se somou à constituição da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), fundada por Haya de la Torre em 1924 como uma espécie de frente anti-imperialista. Entretanto, na medida em que Haya começa a transformar a frente em um partido, colocando a bandeira do anti-imperialismo como um programa isolado e abrindo mão do caráter da revolução socialista, como Mariátegui brilhantemente denunciou em seu artigo “Ponto de vista anti-imperialista” em junho 1929, restou-lhe a necessidade de enfim constituir um partido que tivesse como princípio o caráter do movimento revolucionário do proletariado.

Contra a viragem nacionalista pequeno-burguesa e demagógica do aprismo, o “grupo de Lima”, como era definido aqueles que junto de Mariátegui propagavam a ideologia socialista, fundam o PSP em 7 de outubro de 1928, elegendo-o como secretário-geral, tendo a tarefa de redigir o programa partidário. Escrito por Mariátegui, os princípios programáticos do Partido Socialista contém não somente a reafirmação do socialismo e da vanguarda do proletariado como “a força política que assume a tarefa da sua orientação e direção na luta pela realização dos seus ideais de classe”, como também apresentam reivindicações imediatas que colocam o PSP como uma organização que está situada nas exigências das massas.

Agravada a saúde de Mariátegui em seus dois últimos anos de vida, é nesses dois primeiros anos de vida do Partido que vemos a sua busca por estreitar laços com a Internacional Comunista, participando em junho de 1929 da I Conferência Comunista Latino-Americana, onde o PSP é duramente criticado, em especial pela tese sobre o problema indígena, apresentada por Mariátegui no congresso de constituição da Confederação Sindical Latino-Americana em maio daquele ano. A crítica causa o atraso na consolidação do PSP como seção da Internacional Comunista, bem como a oposição por parte de Mariátegui em apressar a mudança da nomenclatura.

Essa divergência mostra a ausência de consolidação no seio da Internacional sobre o problema apresentado por Mariátegui, causando um mal-estar com a figura do escritor peruano que renderia por anos. Entretanto, a singularidade do pensamento do amauta sobre a questão indígena na construção do socialismo no Peru hoje se aplica nos demais territórios da América Latina, como temos visto na organização do movimento indígena em resposta ao ataque dos projetos neoliberais.

Em 1º de março de 1930, durante reunião do Comitê Central, Mariátegui pede demissão do cargo de secretário-geral, pois sua saúde estava em estado grave, falecendo em 16 de abril daquele ano. É substituído em sua função por Eudocio Ravines, que teve a tarefa de mudar o PSP para Partido Comunista Peruano em 20 de maio de 1930, com o aval de Mariátegui antes de sua morte e comunicando as mudanças ao Komintern, na adesão do partido à Terceira Internacional.

O PCP, após a morte de Mariátegui e durante o resto do século XX, passa por um processo de fragmentação, em especial no período em que o movimento comunista internacional se dividia entre os pró-soviéticos e os pró-chineses. Assim, o PCP se ramifica ao ponto de existirem seis partidos que abraçavam o seu legado e o de Mariátegui. Na tentativa de se reorganizar o partido, uma dessas rupturas passa a se denominar como Partido Comunista del Perú – Patria Roja, a partir de sua VI Conferência Nacional em 1969.

Sem se perder no debate sobre os processos de reorganização do partido, daqui podemos extrair a importância do legado atribuído à figura de Mariátegui como um potencial organizador para o movimento comunista. Legado este que é coerente com a construção do socialismo, como mencionado acima em seus princípios programáticos. Daí a importância de ressaltar o papel de Mariátegui como um verdadeiro militante leninista, desde o seu trabalho na organização da propaganda socialista, em especial com a revista Amauta, até a consolidação dos instrumentos de luta do proletariado peruano, como a fundação da Confederação Geral dos Trabalhadores do Perú (CGTP) e o atual Partido Comunista del Perú – Patria Roja.

Viva o legado de Mariátegui!

Viva os 91 anos de fundação do Partido Comunista del Perú – Patria Roja!

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