O ódio transformativo e o sofrimento comunista

imagemPor Leojorge Panegalli, psicanalista e militante do PCB SC

Já podemos dizer que hoje a teoria dos cinco estágios do luto é algo integrado à cultura popular. Porém, o que Elisabeth Kübler-Ross descreveu como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação não pode ser entendido como fases linearmente progressivas. Muitas vezes pode-se pensar que a pessoa bem resolvida com a vida é aquela que se assemelha à figura do velho sábio, desapegado da vida mundana e capaz de lidar com as intempestividades dos outros com serenidade, não se deixando sobressaltar jamais. Nada pode ser pior para a saúde mental do que ter como ideal tal perspectiva.

A entrada de filosofias orientais dentro da cultura ocidental a partir do séc. XX propiciou, sobretudo, uma vulgarização da complexidade de tais filosofias. Da Yoga ao Zen Budismo, não são poucas as interpelações que a ideologia faz à classe trabalhadora desde um certo tipo ideal de desenvolvimento pessoal. Longe de afirmar que tais perspectivas são em si ideológicas e perniciosas, o que pretendo é defender que a ideologia liberal propõe uma tal mediação dos afetos — afetos estes que se apresentam como efeitos das contradições do modo capitalista de reprodução da vida — baseando-se numa assepsia afetiva, no sentido de que, atravessando todos os estágios supostamente rudimentares da estratégia em lidar com conflitos, devemos chegar a um ponto final estável, impassível e imutável. Além disso, também proponho uma disposição específica frente aos nossos afetos singulares e aos afetos expressos coletivamente enquanto classe em si, a fim de construir novos tipos de laço social da classe para si.

Circuito social do ódio

Todo e qualquer afeto cumpre uma função não apenas expressivo-individual, mas também uma função social. Ao longo do nosso desenvolvimento individual aprendemos que certas formas de expressão afetivas produzem efeitos sociais específicos. Um exemplo bastante popular e que ilustra bem esse processo de aprendizagem é o do filme “Divertidamente”, mostrando que até mesmo a máquina de moer gente do entretenimento de massas entendeu que a expressão da tristeza é uma habilidade social não natural e fundamental. Podemos aprender ou não que o compartilhamento da frustração, do sentimento de impotência e da angústia é um passo fundamental para a reconstrução dos critérios que definem sucesso, força e felicidade para si e para um grupo social. A possibilidade de desenvolver esta capacidade vai depender do grau de recepção que um dado grupo social é capaz de oferecer, tanto no sentido de suportar ouvir o conjunto de elaborações que fundamentam uma experiência como sofrimento — visto que o sofrimento é algo constitutivamente transindividual, já que sofrimento do outro sempre nos remeterá àquilo que temos em comum como causa do sofrimento — quanto da possibilidade de fazer aquela elaboração singular se inscrever no espaço simbólico comum, na cultura daquele grupo.

Não se trata aqui de propor ritualísticas ou algo do tipo, pois tão mais eficazes são os efeitos transformativos desta inscrição quanto mais coletivamente autoral ela é. Pensar na função da tristeza para a saúde mental já é também quase um lugar-comum. Toda a história das psicoterapias modernas se baseia na constatação milenar de que conversar com alguém nos ajuda a nos sentirmos menos mal. Contudo, um afeto ainda navega sem muito lastro: o ódio. Encaminhamos para um psicoterapeuta alguém num momento depressivo da vida, mas o que fazemos com aquele que opera seu sofrimento a partir do ódio? Pessoas assim comumente são tidas como um estorvo social. Produzem atritos de maior ou menor grau e trazem tensões ao ambiente. Fato é que as pessoas que têm a predominância da agressividade decorrente do ódio como expressão do sofrimento, pouco se detêm em grupos e ainda menos tomam como de sua responsabilidade o sofrimento e os efeitos disruptivos que produzem.

Como seres sociais, temos no ódio um afeto antissocial por natureza, ao menos dentro de uma certa ideologia liberal de assepsia dos afetos. Assim, tais pessoas são jogadas para grupos onde este afeto pode circular em algum grau, sem que isso signifique o rompimento dos laços do grupo. Tão mais estáveis são estes grupos quanto mais o ódio contra algo tiver um papel agregador. O rebote desta estratégia é que a fidelidade do ódio a algo implica também na fidelidade a um líder ou ideal, pretensamente garantidor de uma consistência de si, e este líderes ou ideais, constitutivamente inconsistentes frente à complexidade da realidade, são intercambiáveis, promovendo, no processo de troca, rupturas improdutivas entre aqueles que mantêm a fidelidade e os que os abandonam em favor de uma nova promessa. Estas cisões comumente ocorrem sem uma elaboração suficiente do por quê se abandona aquilo que era organizador, produzindo um relançamento cada vez mais fanaticisado da adesão ao líder ou ideal.

Conseguimos localizar estes grupos balizados centralmente pelo ódio dentro do campo fascista, ao mesmo tempo em que conseguimos localizar nos grupos liberais a proscrição deste afeto. Organizações formais da classe trabalhadora historicamente orbitam mais próximas do campo liberal do que do campo fascista. A civilidade republicana foi, para o proletariado, não apenas um recurso em favor da organização e da luta pragmática, mas também uma estratégia de sobrevivência frente ao monopólio da violência que os Estados exercem sobre nós. Contudo, o ódio da classe produtora contra a classe exploradora também é um elemento constitutivo da natureza do laço social que estrutura as organizações de trabalhadoras e trabalhadores. Não é à toa que nossa bandeira é vermelha. Nos encontramos perpetuamente entre o rigor da análise material das possibilidades e a mobilização em favor da ação contra chances desfavoráveis, cujo combustível jamais pode prescindir de algum grau de desconexão entre o provável e o possível. Mobilizar e manejar o ódio também é um recurso fundamental para a realização de nossas pretensões rumo a um “ideal sem conteúdo”. Assim, podemos separar o tipo de manejo do ódio fascista como um relançamento regressivo, em favor de uma volta à consistência de um ideal enquanto o manejo comunista do ódio opera em favor do rompimento rumo a um ideal futuro, que ainda está por ser inventado.

Tendo em vista que, além de organizar certos laços sociais, a finalidade dos afetos é também produzir um tipo de modificação e reestruturação dos laços sociais, podemos nos perguntar qual é o efeito transformativo específico do ódio. Retomando os estágios do luto, elencados no primeiro parágrafo, podemos tomar a raiva como a emoção que carrega o afeto ódio — superficialmente faço a distinção da emoção como algo que carrega um componente mais episódico, que se apresenta em momentos agudos, enquanto o afeto é uma condição latente e constante. Se a negação busca evitar, a barganha postergar, a depressão anular, a raiva busca romper. Embora sejamos novamente tentados a ver na aceitação o melhor tipo de resolução de um conflito, é preciso entender que a aceitação não pode ser outra coisa além da permanência de todos momentos anteriores.

Sendo a sociedade constitutivamente incapaz de eliminar por inteiro a condição de ser falível e limitado como é o ser humano, a solução para o sofrimento não é o desligamento das ânsias, anseios e desejos, mas a capacidade de operar diferentes estratégias para lidar com diferentes desafios. Um luto bem feito, nesse sentido, é aquele capaz de manter uma negação da inevitabilidade da realidade tal como esta se apresenta num determinado momento, de agir para romper o que prejudica e pode ser rompido, de negociar o que é inegociável e de recolher-se frente ao intransponível até que se torne suportável. O ímpeto inegociável de rompimento não pode ser tomado como uma capacidade rudimentar, mas como um momento e uma estratégia fundamental, na qual devemos também poder nos manter pela duração necessária até que a efetivação de um rompimento transforme as relações sociais. Sem poder ter a indisposição absoluta como um dos elementos transformativos, não poderemos realizar a investigação social necessária que identifica os limites às fissuras de uma relação afetiva, visto que toda relação de produção é uma relação afetiva.

Pedras na direção certa

Novos satélites nos aproximam
Mais e mais
Então a gente se vê nos telejornais
Agora mesmo pedras estão voando
Na direção certa

Marcelo Yuka

Tendo localizado os efeitos sociais da circulação do ódio e o afastado da mera crítica moral, cabe agora pensar sobre como podemos e devemos manejar esse afeto. Nesse sentido, o primeiro apontamento que faço é a necessidade absoluta de reconhecer a legitimidade do ódio sem fetichizá-lo. Agora já o compreendendo como um momento necessário e intransponível para a efetivação de uma transformação radical, é imprescindível que possamos suportar a sua circulação social naquilo que ele guarda de produtivo e disruptivo, evitando nos determos nele para além do necessário. Se é verdade que a vontade imperativa de rompimento pode ser tomada como elemento fundamental para um salto dialético, que finalmente precipita a destruição de uma tensão reorganizando seus elementos em uma contradição qualitativamente distinta, também esta vontade imperativa pode funcionar como esgarçamento eterno de uma contradição, sem operar um rompimento efetivo. De maneira condensada, poderíamos dizer que, quanto mais conseguirmos manejar o ódio que está direcionado aos elementos de uma contradição em direção ao ódio à própria estrutura de contradição, tão mais transformativo será o ódio, pois maior será a probabilidade de um rompimento em que a tensão de antes não seja mais a que opere preponderantemente.

Quando nos encontramos mais na condição de assujeitados (no sentido daquele que age em reação reflexa) do que de sujeitos (no sentido daquele que reage com fragmentos de criação), nossa frustração tende a espalhar-se para aqueles mais próximos. Podemos ver isso tanto na autofagia que o fascismo opera desde a classe contra a classe, quanto nas mais triviais tensões domésticas. Enfurnados em nossos microcosmos, tendemos a esparramar erraticamente nossos afetos, seja na forma do excessivo carinho familiar que não deixa espaço para a fraternidade de classe ou na agressividade doméstica que imputa ao semelhante toda a causa de frustração. Neste momento específico de isolamento e perda da variedade de relações sociais, é ainda mais importante nos atentarmos para os efeitos dessa concentração de investimento libidinal. Ainda mais num momento de retração da perspectiva de avanço das lutas populares, nosso ódio constitutivo tende a direcionar-se ou para quem está mais próximo ou para nós mesmos.

Investir libidinalmente em si mesmo não é apenas um tipo de auto idolatria. Também o ódio contra si é um auto investimento. Na impossibilidade de ver relevância no investimento em favor de uma ideia e contra outra, ou seja, em operar o ódio como estratégia de mobilização externalizadora da libido, a tendência é que aquilo que antes era ataque contra um objeto odiado passe a ser ataque contra si mesmo, seja por ódio contra a própria impotência individual, pelo sentimento de inautenticidade enquanto suposto fiel seguidor de uma ideia ou por ressentimento inconfessado contra a ideia com a qual se encontra amalgamado a tal ponto de confundir-se com a mesma. Superar este auto investimento deletério requer uma invenção autoral, mas a efetividade desta superação depende também do sucesso do compartilhamento desta invenção. Esta invenção não se trata de uma obra, uma ideia inédita ou algo do tipo. A invenção autoral que permite transmitirmos a singularidade da nossa elaboração de uma contradição é simplesmente a forma singular de participar de uma ideia universal. Como diria Lacan, o momento em que somos mais singulares é quando aderimos singularmente a uma obra humana universal.

A Ideia Comunista, seguramente, é a mais universal das obras humanas. Ou seja, para que possamos transformar nosso sofrimento, é necessário que consigamos encontrar um espaço onde compartilhar nossos afetos de maneira ampla, onde também nosso ódio possa circular, tendo sua legitimidade de existência reconhecida para que possa ser mais uma vontade coletiva do que uma impotência individual, mais uma invenção coletiva do que um inalcançável ideal ao qual se submeter e mais uma possibilidade real a ser construída dentro das suas condições objetivas do que uma promessa sempre decepcionante de algo infalível. O auto apredrejamento é a estratégia melancolizadora resultante do exercício do poder por parte da burguesia sobre trabalhadoras e trabalhadores, seja na desagregação dos laços intraclasse, seja pelo apelo ideológico da potência do ser social como supostamente autonomizado da sua determinação social objetiva. Mas não basta que elenquemos o alvo de maneira abstrata. A burguesia tem nome, sobrenome, arautos algozes, capatazes e executores. É necessário ter os inimigos em vista a cada passo da luta de classes. Se a propaganda comunista pode ter seu sucesso medido pelo grau de generalização da percepção de classe de que tais pessoas merecem nosso cuspe e nosso desprezo, o sucesso da agitação comunista pode ser medido pelo grau da expressão do ódio de classe por parte do proletariado.