BLACK FACE: racismo, violência e suas formas de ser

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No dia 13 de setembro de 2021, ocorreu um episódio de prática de ‘black face’ numa aula do curso de pedagogia do Centro Universitário Cidade Verde (UniFCV) em Maringá-PR que foi repudiado em ato na porta da instituição no dia 27 do mesmo mês. O texto que segue foi elaborado como contribuição ao debate sobre as formas de violência racista e os tipos de reação e combate a elas.

Por Jeferson Garcia, militante do Partido Comunista Brasileiro e do Coletivo Negro Minervino de Oliveira, e autor do livro Racismo, capital e emancipação humana

Noite e dia vêm de longe
Branco e preto a trabalhar
E o dono, senhor de tudo
Sentado, mandando dar

E a gente fazendo conta
Pro dia que vai chegar (ei, vai chegar)
E a gente fazendo conta
Pro dia que vai chegar (ei, vai chegar)

Marinheiro, marinheiro (marinheiro)
Quero ver você no mar (mar)
Eu também sou marinheiro (marinheiro)
Eu também sei governar

Madeira de dar em doido
Vai descer até quebrar
É a volta do cipó de arueira
No lombo de quem mandou dar

Trecho de “Aroeira”, de Geraldo Vandré

Black face é racismo, mas por quê?

O racismo se manifesta de diferentes formas, algumas mais visíveis e outras menos. Todas são formas de violência – diretas ou simbólicas. A grande questão é que algumas delas são consideradas passíveis de empatia, outras nem tanto.

Costuma-se entender o racismo como a crença na superioridade de uma raça sobre outra. Normalmente, as pessoas que não acreditam que biologicamente os brancos sejam superiores aos negros – ou fingem não acreditar – apontam que o racismo não existe, uma vez que somos biologicamente iguais. Por isso, enxergam que se há racismo, ele é fruto de um problema cultural e moral, uma má educação. Um problema pontual.

O racismo aparece, portanto, como uma questão de ordem individual e subjetiva. Uma patologia. Assim, quando se pensa no racismo, logo se pensa em uma violência direta conjuntural – uma ofensa, uma discriminação – quando se impede alguém de frequentar um local ou quando se paga um salário menor a uma pessoa negra, indígena, cigana, judia, etc.

Porém, o problema é que o racismo é bem mais do que a crença na superioridade das raças ou a violência direta em forma de discriminação. Pois, acreditando ou não na superioridade de uma raça sobre a outra, o racismo continua existindo.

O Black face é um caso de violência racista, uma violência simbólica – e histórica. O Black face é uma prática racista porque ridiculariza pessoas negras com base em seus determinantes mais básicos, como a cor da pele.

Formas de ser do racismo

Quando pessoas brancas se pintam, usam vestimentas relacionadas à cultura negra, utilizam perucas de Black Power, exaltam os lábios ou glúteos para “zoação”, além de usar gírias para falar “como negros falam”, o resultado é sempre a chacota, a ridicularização da aparência e da cultura das pessoas negras, a sua transformação em pessoas animalizadas. Toda essa caracterização serve para alegrar e fazer nascer doces e ingênuas gargalhadas de pessoas brancas, como ocorreu na faculdade em Maringá.

Essa manifestação – forma de racismo – surge historicamente com essa função nos EUA e se generaliza pelo mundo, principalmente pelos países que tiveram sua formação social pautada por uma período de escravidão de pessoas negras.

Os antigos menestréis (shows parecidos com os atuais stand ups) tinham como “espetáculo” humoristas brancos que se vestiam de pessoas negras para fazer “graça” com a caricatura racista que fazem de pessoas negras. Além disso, como os negros eram proibidos de se apresentar em palcos, eram representados por brancos pintados, o que demonstra também a exclusão racista dos negros em diversos espaços naquela época e ainda hoje.

Ou seja, uma prática que se mantém, ridicularizando o negro, uma vez que serve para rirem do suposto comportamento de pessoas negras, a partir de como o racismo diz que nós somos. De representá-las como algo exótico, estranho e ridículo. Às vezes, objeto de fetiches, mas sempre inferiores.

Segunda forma de violência

Quando nos opomos a essa forma de racismo, uma violência de segunda ordem opera. Aqui entramos em alguns casos recorrentes. Muitas pessoas que não se dizem racistas, atuam como se fossem médicos, cirurgiões que portam um bisturi ideológico que disseca as manifestações e separa as que são saudáveis das que não são.

Estas são de dois tipos:
a) as violentas (quando tacamos fogo em algum local ou quando vamos para cima dos racistas);

b) e as exageradas (as vulgarmente conhecidas como mimizentas).

Geralmente essas duas formas são provocadas por uma minoria – racistas inversos – considerados ora vagabundos, ora vândalos, ora arruaceiros, mas sempre ressentidos. Pessoas que não aceitam sua vida miserável e jogam a culpa nas pessoas felizes, realizadas e banhadas em mérito.

As lutas contra injustiças e privilégios sociais são tidas como coisa de ressentido, que tem relação direta com a famosa “vitimização”, que seria se colocar numa posição de inferioridade para – por meio da “pena”, “dó” ou empatia – legitimar uma reivindicação social e privilégios raciais (sic!).

O ressentido – diz o racista – acusa o outro (em geral o branco) pela sua condição de inferioridade. O ressentimento, ainda na compreensão dos racistas envergonhados – faz uma dobradinha com a vitimização, como estratégias de ocultar a incapacidade dos indivíduos. Essa operação ideológica permite com que se deslegitime as ações, justifique o não pertencimento e apoio nessa luta de exaltados e ingratos e, ainda, legitima a violência policial.

Esse é um tipo de operação característico de uma época em que predomina a patologização das relações sociais. Tal patologização aprofunda uma análise individualista e desdobra-se em possibilidades de solução dos conflitos igualmente individualistas ou restritos às instituições e às relações sociais de tipo imediato e cotidiano. Perde-se, assim, a dimensão histórica e socialmente abrangente da origem, desenvolvimentos e formas de manifestação das relações sociais calcadas no racismo.

Os baderneiros antirracistas não são “cidadãos de bem”, portanto, merecem o que lhes é dado quando encontram a brutalidade da segurança pública – que mais defende vidraça e busto de velhos racistas e estupradores do que humanos.

Quando brancos ofendem de forma racista, considerando que os negros são ressentidos (mimizentos), estão construindo uma justificativa ideológica para sua ação violenta e a dos órgãos de segurança da propriedade privada. O que transforma monstros em Deuses é a ideologia!

A consciência cínica admite como normal a estereotipização de um grupo que, visto como minoria, é estigmatizado e rechaçado por duas vezes. Primeiro quando se zomba-ridiculariza – como no caso de Black face – e depois quando se deslegitima a própria possibilidade de protesto.

Aliados ou camaradas? Como agem os antirracistas?

A violência nesse caso de Black Face é um efeito, um sintoma de algo mais subterrâneo. Por isso é sempre importante ir ao fundo e descobrir o que há lá. Muitos que se colocam críticos do “racismo estrutural” – esse termo que diz tudo e nada ao mesmo tempo – chamam a nossa atenção para esse fato, como quem acaba de descobrir a roda e quer ansiosamente emprestar seus óculos para que os cegos possam enxergar.

Porém, o sintoma é o que há de mais real no cotidiano das pessoas, é a aparência que apresenta a ponta do iceberg. Mas a ponta faz parte do todo. Por mais que o racismo seja esse grande oceano, ele também se apresenta nas pequenas violências mais diárias, pequenos blocos de gelo em forma de preconceito e estereótipos – como o Black Face.

Black face é racismo porque é a lógica universal se expressando no particular e vice-versa, é a relação do todo e suas partes, que é muito maior que a simples soma delas.

Geralmente, os antirracistas mais moderados se equivocam mesmo quando acertam: impossível acabar com as manifestações do racismo sem acabar com ele, portanto, o foco deve ser mudar a forma de vida. Gênio!

Em muitos casos, tal afirmação reduz o campo de ação. Se perguntam: de que vale a manifestação contra casos “isolados” de Black Face? “Aí já é demais, vamos para o fora Bolsonaro que tá bom”. Estes muitas vezes são os revolucionários que gostariam de assistir o assalto aos céus pelas redes sociais ou aqueles que são antirracistas por conveniência – palavras vazias de ações.

Outro equívoco ao enfrentarmos o racismo é esse de buscar apenas suas determinações mais profundas, no âmbito do discurso, descartando as formas como ele se expressa no cotidiano, nas relações de trabalho, amorosas, nos ambientes e instituições – na vida e na militância.

Já é difícil lidar com antirracistas racistas, mas também com antirracistas imobilistas. Aqueles que te perguntam o que se passa, sem interesse genuíno pela resposta.

Uma premissa certa para posições equivocadas

É evidente que a origem social do racismo se encontra nas relações de produção do capitalismo. Todavia, o racismo tem autonomia relativa com essa sua origem e cria mediações e formas de existência diversas. Conhecemos bem como que na vida cotidiana essas mediações racializadas se expressam na família, na cultura, na educação, na violência mais direta, mas principalmente nessas mais camufladas. Quem nunca viu uma mulher negra ser usada como fantasia de carnaval? É o racismo, não vês?

Não basta dizermos que só se acaba com o racismo pondo fim à sociedade de classes. De certa maneira, conhecemos o caminho.

A violência, velha parteira

A violência simbólica, por meio da estereotipização das pessoas negras, de suas vestimentas, formato de rosto, lábios, cabelo, cor da pele, não é menos decisiva por ser simbólica e nem pode esperar para ser combatida.

Até porque ela cumpre uma função importante: disseminando a inferioridade dos negros, ela torna possível a violência cotidiana sobre os mesmos. Essa função tem tamanho conteúdo, que torna essa violência quase que invisível. Ninguém vê violência em ridicularizar um grupo social pela forma como os racistas veem esse grupo. As determinações do racismo são naturalizadas.

Perante tamanha violência, muitos dos que sofrem esses ataques acabam – por sobrevivência – sabendo o que acontece, mas se recusam a assumir as consequências e agem como se não soubessem o que se passa: sofrem em silêncio tentando fingir-se bem. É uma forma de defesa, justificável. Há várias formas de ficar doente, uma delas é negando os problemas. Outra é enfrentando e perdendo emprego – o que causa outras doenças em uma sociedade doente. É um beco sem saída.

Até mesmo quando respondemos ao crime, somos nós os suspeitos.

Sofremos a violência racista de modo self-service, podemos escolher à vontade: optando aceitar ser sutilmente animalizados e ridicularizados ou nos rebelar e sermos tratados como exagerados, irracionais, por não aceitar tamanha desumanização, quando gritamos nossas palavras de ordem. Neste ínterim, estamos sempre sujeitos a uma terceira violência: a agressão policial. Esta que certamente será justificada pela culpa dos vândalos que são violentos.

Chegamos então ao ponto de sintetizar o problema da violência. Ela visa primeiro silenciar, esconder e ocultar a realidade. Quando não é o suficiente, ela pode matar não só a crítica, mas até esconder o corpo de quem a faz. O que importa é manter a ordem.

É a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dar

Devemos escancarar a violência racista. Mas sem deixar de mostrar que as manifestações antirracistas também são violentas (e devem ser) – desde a capacidade de romper o silêncio, de tirar o véu nebuloso que mascara a realidade, até mesmo quando queimamos monumentos racistas em praças públicas.

Como se chama a praça no centro da cidade? Raposo Tavares né?…Temos que aceitar um bairro com nome de caçador de indígenas? Borga Gato?

A violência deles é justificável, a nossa violência é incômoda.

O Black face só deixa evidente a estrutura racista da cidade canção. Não há dúvidas de que as determinações dessa violência estão na própria relação entre formação da cidade, forças políticas, burguesia ruralista, que reproduzem por aqui um conservadorismo religioso – totalmente racista (mesmo que por vezes mascarado). O bolsonarismo maringaense tem peso nisso, mas esse bolsonarismo já existia antes de Bolsonaro sentir os ventos da presidência. Mas nem sempre se chama o demônio pelo nome, ele tem vários. Às vezes é parecido com Deus, usa sua casa, sua memória, e diz falar em seu nome.

É curioso como a violência existe onde aparentemente não há violência. A propaganda é boa, não podemos negar. Boa para quem? É possível sentir o silêncio da noite na boca dos ausentes.

Ainda bem que Maringá, essa cidade encantada, não faz parte do mundo.

A ação contra o Black Face é educativa e política porque ela combate a violência racista subjetiva e no imaginário. Esta última é efetiva quando incorporada pelo oprimido – quando ele absorve a ideia de sua inferioridade ou quando se esconde do embate porque precisa demonstrar que é comportado, para ser aceito, escondendo sua dor que lhe queima o rosto.

A violência revolucionária tem que quebrar a marteladas as paredes que sustentam e escondem a violência racista. A resposta dos alunos, a resposta do reitor e a resposta da faculdade perante o caso de black face demonstrou apenas como as determinações racistas estão enraizadas na subjetividade de tal forma que mesmo após o ocorrido a postura desses envolvidos foi se defender do “exagero” dos militantes, do chamado mimimi. Não há racismo, não há racistas, não há nada.

Essa violência é tão racista quanto a daqueles jovens que agrediram angolanos na porta do Bar Cacique no ano passado e em outros casos desta linda cidade, que espia os homens e mulheres de bem e os legitima com seu silêncio.

Aos negros cabe serem empáticos, calmos, controlados e resilientes. Uma gradação de apatia ensinada nos melhores centros educacionais.

As contradições foram abafadas, batidas e pisadas. Maringá segue a melhor cidade para se morar.

Mas nós estamos aqui.

Não deixemos que o discurso contra a violência desarme a violência necessária. Sejamos Fanonianos. Não podemos aceitar que nos digam o que é certo ou errado.

O sintoma precisa ser contido, pois é ele que nos fere mais diretamente. Mas sem isentar toda a ordem social, por mais aparente que possa parecer, esse não é um problema de pessoas mau educadas, de desinformação, de patologia. São relações racistas forjando pessoas racistas e enquanto houver classes sociais que se beneficiam do racismo, as suas manifestações continuarão existindo.

A história do black face é dolorosa para nós e o desconhecimento não é desculpa. A reavaliação é no mínimo o que deveria ter sido feito e para além da cobrança pontual do caso, precisamos educar nossa classe e, especialmente, a sua fração negra de que só a luta muda a vida.

Por isso, o lugar dos antirracistas é nas ruas, à esquerda camaradas!

Pela construção de uma barricada preta na frente de cada racista, para deixar claro que: nós estamos aqui.

Pretos e vermelhos, venceremos!

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