HÁ 40 ANOS DO GOLPE DE ESTADO NO CHILE:

Andrea Arancibia Eidelstein (chilena)

Quando o dr. Salvador Allende foi proclamado presidente do Chile, eu tinha cinco anos de idade, era setembro de 1970. Durante seu governo, no colégio, começaram a distribuir leite a todas as crianças por igual. A infância foi uma das prioridades do presidente.

Allende Realizou seu estagio para diplomação em medicina no Hospital Carlos Van Buren, como anatomopatologista, constatando pelas próprias mãos as dores do nosso povo. Depois de completar 1.500 autópsias em crianças e mendigos disse: “Sei quão dramática é a vida e sei quais são as causas da morte.”

Era divertido para mim, como estudante, esperar, à saída do colégio, o ônibus vermelho que dizia num de seus lados: “ETC de E.” e em cuja frente exibia cartaz onde aparecia uma criança com um livro aberto que dizia: “Crianças, subam! Os que usávamos esses ônibus éramos as crianças da alegria, pois em tal espaço não havia adultos e estávamos todos rindo, ninguém nos incomodava; dava na mesma ser pobre ou ser mapuche, porque éramos estudantes e essa condição era suficiente para poder usar esse meio de transporte gratuito e exclusivo.

Mais tarde, soube que um dos pontos do Programa da Unidade Popular era que “AS CRIANÇAS NASCEM PARA SEREM FELIZES”, ponto que nunca mais voltou a ser considerado após Allende. Ao se concretizar a conspiração que levou à morte do presidente Allende, o Chile caiu num abismo do qual ainda não emergiu. Vivemos na escuridão dos crimes que continuam impunes, com a tristeza dos danos irreparáveis: execuções políticas, desaparecidos, torturados e o drama para suas famílias e a sociedade em geral.

Durante a ditadura, quando três profissionais comunistas foram decapitados, soube que meu avô paterno era amigo de Santiago Nattino (um dos três decapitados). Foi a única vez na vida que o vi derramando lágrimas enquanto me relatava a amizade de ambos desde sua juventude, ligados pelo vínculo do trabalho publicitário e o amor à arte. Tomou minhas mãos entre as suas perguntando desesperadamente “Por que o assassinaram e dessa forma?” Nunca pude lhe responder, mas esse momento de dor permanece indelével.

Quarenta anos se passaram desde a imolação do presidente Salvador Allende, que permanece na nossa memória como um homem inigualável devido à sua retidão moral, defendendo com sua vida o processo revolucionário impulsionado pela UP (União Popular). Naqueles momentos trágicos do bombardeio de La Moneda, teve palavras de amor para o seu povo indefeso. Nosso amado presidente Salvador Allende entregou sua vida como um pai digno da nação.

Talvez por isso se agitam tantas bandeiras com o rosto de Allende em passeatas estudantis, e por isso ele é imortal. Sua voz ressurge agora no anseio por uma renacionalização do cobre; por suas mãos os mapuches tiveram a felicidade de recuperar milhares de hectares para viver em paz. Hoje, a Araucanía (territorio majoritariamente mapuche) sangra com a aplicação da Lei do Antiterrorismo.

Lembro-me de sua confiança no povo: “… Os primeiros dois ou três anos serão muito difíceis, mas na base de um governo justo e moral, em que não haja privilégios e fazendas só para uma minoria, o povo vai responder; esse é o grande trunfo que eu tenho, a grandeza, o patriotismo e a moral do povo chileno”.

Em sua campanha presidencial, junto com seus companheiros, ele embarcou no “Trem Da Vitória”, percorrendo todo o Chile. Em cada povoado, esperavam-no operários, modestos camponeses em suas carretas e centenas de crianças. Allende era recebido com aplausos, com lenços se agitando em meio a palavras de ordem. A lenta partida da locomotiva permitia que as pessoas corressem do lado dos vagões para acompanhá-lo com os rostos cheios de felicidade – que não mais tenho visto.

Esse mesmo trem nos aguarda neste setembro de 2013. Lá, na estação, já ecoam as caldeiras nas quais os fornalheiros labutam; os corrimãos brilham, já está chegando todo o nosso povo heróico que lutou até a morte em defesa de suas crenças. Ao longe, desde o norte, chega a pé uma coluna gigantesca de crianças, bebês, mulheres e trabalhadores: são os caídos na chacina da Escola Santa Maria; desde a Coruña, também vem outra coluna de trabalhadores mortos a tiros por soldados uniformizados; desde o sul, vêm os camponeses, mapuches e pewenches assassinados em Ranquil. O utópico Marmaduque Grove planeia um avião vermelho com a bandeira do socialismo. O presidente Balmaceda acordou para cumprimentar seu par. O impulsor da nossa industrialização, o presidente Aguirre Cerda, observa Valparaíso durante a chegada dos refugiados espanhóis . Allende vai em direção ao porto, em solidariedade para acolher o melhor da Espanha, que chega às nossas costas, graças a Neruda, que agora recita para o presidente alguns versos bonitos. Victor canta sua canção corajosa. Vários membros do GAP cercam o presidente que está do lado de José Toha, nosso sr. Quixote, cujo porte e lealdade lhe dão fina estampa; aproxima-se Miguel Henriquez e se cumprimentam a distância. O melhor do nosso país se põe de pé para cumprimentar o presidente Salvador Allende que nos espera nessa estação da “Vitória”.

Graças a esses homens heroicos, às quarenta medidas e a um presidente digno que quis a nossa segunda independência econômica, política e social, o sonho estava se tornando possível.

Nos carros enfeitados com guirlandas tricolores e bandeiras agitadas com o Programa da Unidade Popular, há 40 anos do magnicídio do presidente Salvador Allende, teus filhos te acompanham até a “Vitória”!

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