“ESTAMOS NUMA ESCALADA DE AGRESSÕES OCIDENTAIS QUE PODEM PROVOCAR UMA CONTRARRESPOSTA DA RÚSSIA”

Os Estados Unidos estão movimentando suas forças por todos os lados – talvez – para provocar uma guerra com a Rússia”, disse, advertindo que o fazia “com muita preocupação”, o sociólogo norte-americano, James Petras na CX36. Petras dedicou quase todo seu espaço semanal na Radio Centenario (*) para analisar a escalada bélica provocada pelos Estados Unidos e pela OTAN na Ucrânia. “O senhor Obama está criando uma situação de tensão máxima, forçando a Rússia, cada vez mais, a responder”, afirmou e acrescentou que “outro fator que influencia sobre esta situação são os meios de comunicação de massas que bombardeiam o público tanto na Europa como nos EUA, demonizando a Rússia, como se a situação em Criméia fosse ponta de lança do conflito, e não o golpe de Estado e as medidas repressivas da junta de governo de Kiev”. Transcrevemos a análise da conjuntura internacional realizada por James Petras na CX36, nesta segunda-feira, 28 de abril de 2014, que você pode volta a escutar acessando o seguinte link:

http://www.ivoox.com/james-petras-28-abril-audios-mp3_rf_3064977_1.html

Efraín Chury Iribarne: Bom dia, James Petras. Bem vindo a Radio Centenario.

James Petras: Bom dia. Está tudo bem por aqui.

EChI: Qual tema preocupa James Petras atualmente?

JP: Poderíamos começar com o mais perigoso que é a situação na Ucrânia, onde os Estados Unidos estão movimentando suas forças por todos os lados para – talvez – provocar uma guerra com a Rússia.

Digo isto com muita preocupação, porque falar hoje de guerra significa uma guerra nuclear. Porém, aparentemente, conforme os dados que temos, Barack Obama quer impor novas sanções, está apoiando a militarização do Leste da Ucrânia; está mandando tropas norte-americanas à Polônia e aos países bálticos, está mobilizando a frota no Mar Negro. Ao mesmo tempo, tudo indica que os Estados Unidos têm preparadas outras medidas mais agressivas para fortalecer, por exemplo, os setores mais militarizados na Ucrânia; fala-se de um confronto pendente entre forças russas e ucranianas. Em outras palavras, o senhor Obama está criando uma situação de tensão máxima e forçando a Rússia, cada vez mais, a responder.

Ontem, por exemplo, as forças apoiadas pelos EUA assassinaram o Prefeito de Járkov, Guennadi Kernes, que era um apoiador da política autonomista para o Leste da Ucrânia.

Agora, o outro fator que influencia esta situação são os meios de comunicação de massas que estão bombardeando o público tanto na Europa como nos EUA, demonizando a Rússia, como se a situação na Criméia fosse ponta de lança do conflito e não o golpe de Estado e as medidas repressivas da Junta de Governo de Kiev. Continuando nesta linha, a imprensa supostamente progressista, como o diário La Jornada, do México, está tomando partido dos golpistas; assim, fala “do governo de Kiev” e da “oposição pró-Rússia”. Ou seja, os democratas que pedem autonomia e um referendo, simplesmente se apresentam como peças manipuladas pelo governo russo.

O diário argentino Página/12, talvez em menos grau, também permanece nesta linha de demonizar Putin, fala dos dois demônios, tanto do imperialismo ocidental como do imperialismo russo, como se fosse um conflito entre grandes poderes; em vez de ver o conflito entre os clientes da OTAN – designados pela OTAN – contra um povo que busca maior autonomia, um governo federal, a partir de processos eleitorais.

Existe pouca oposição na mídia, além da imprensa alternativa – como a Radio Centenario. Atualmente, existe uma propaganda muito perigosa porque não existe nenhum movimento contra a guerra, contra a guerra nuclear, contra as ameaças e as movimentações militaristas da OTAN. Por isso, acredito que a ausência de oposição e a cumplicidade dos Parlamentos e Congressos ocidentais, deixam Obama e os militaristas com as mãos livres para provocar uma confrontação nuclear.

Isto está pendente e é possível ver um processo avançando a saltos. A cada semana, a cada dia, há novas provocações. O que querem fazer é um cerco sobre a Rússia, tomar o controle completo com expurgos na Ucrânia, eliminando qualquer oposição autonomista democrática, para usar a Ucrânia como trampolim para ingressar diretamente na Federação Russa. E, também, a partir da tomada do controle da economia ucraniana, paralisar as empresas militares e industriais que estão funcionando entre a Rússia e a Ucrânia. Muitos dos motores da Força Aérea russa dependem das reposições e peças que vem de empresas ucranianas. E desde o golpe de Estado e da tomada de poder por parte da Junta pró-norte-americana, não existe nenhuma exportação de material ou peças de aviões de combate russos. Isto é parte do plano para debilitar qualquer comércio entre a Rússia e a Ucrânia.

Obviamente isto vai prejudicar a economia na Ucrânia porque eles não podem exportar estes motores para outro país do mundo, pelas especificações tão particulares com a Rússia; então, vão fechar mais indústrias, vão perder mais mercados lucrativos, vão perder o gás subvencionado, etc. Em todo caso, é um desastre para a Ucrânia, não importa o império, porque eles apenas veem a Ucrânia como um instrumento para desarticular a Rússia e, por isso, fortalecem a parte militar da Junta. Estão se antecipando aos protestos do Oriente, do Norte e do Sul, que se somam aos do Ocidente ucraniano, e não tem nada a oferecer com esta agressão além de cumprir a missão a eles designada pela Casa Branca.

EChI: É possível que estejamos diante de um ataque atômico sobre a Rússia?

JP: Bem, é isto que estou dizendo.

Cada vez mais estão montando mais forças militares, cada vez mais estão estendendo o cerco sobre a Rússia, cada vez mais estão limitando a sobrevivência e o desenvolvimento da Rússia. Ou seja, sacaram a faca e colocaram-na na garganta da Rússia que, em algum momento, pode responder. Por exemplo, mandar tropas para ajudar os democratas na Ucrânia e conseguir alguma sobrevivência contra o assalto e massacre da população nas cidades do Leste. Se a Rússia mandar tropas, vai enfrentar maiores pressões econômicas e militares do ocidente. Nesta situação, quem sabe se, em algum momento, Obama não aperta o gatilho e ordena atacar militarmente as tropas russas na Ucrânia, começando, talvez, com armas não nucleares; porém, ao responder a Rússia, estaremos numa guerra e ninguém sabe que tipo de armas será usada.

É nesse pé que estamos no momento.

E o povo do ocidente vai sofrer um massacre na Ucrânia, que está planificada e organizada neste momento; assassinaram milicianos no Leste, assassinaram um Prefeito, montaram uma forte caravana de armas e caminhões blindados.

Estamos numa escalada de agressões ocidentais que podem provocar uma contrarresposta da Rússia.

EChI: Como é o equilíbrio armamentista neste momento, particularmente o atômico?

JP: Tanto a Rússia como os Estados Unidos têm armas nucleares suficientes para se destruírem mutuamente. Porém, talvez os cálculos ocidentais sejam de que eles possuam mais lugares para lançar ataques com mísseis, o que é uma política cega, pois a Rússia também tem mísseis que podem chegar à Nova York ou a qualquer outra cidade nos Estados Unidos.

Durante a Guerra Fria existia um entendimento e respeito a algumas esferas de influência – tanto russa como ocidentais –, mas isso foi rompido. Washington acredita que são os donos do mundo, dos países bálticos, dos Bálcãs, do Cáucaso e, inclusive, estão estendendo o cerco sobre a China.

Estamos numa fase muito extremista e a gente deve entender que tivemos presidente como Clinton, Bush, e agora Obama, que reduziram as fronteiras com a Rússia. Agora não existe nenhum cinturão de neutralidade ou cinturão de proteção. A política de Obama está apontando uma faca ao coração da Rússia.

EChI: Que outros temas preocupam você?

O outro tema é sobre o que está acontecendo na Ásia, onde Obama acordou com as Filipinas a montagem de uma enorme Base Militar lá, outra vez, depois de serem expulsos há 10 anos por um grande movimento popular anti-imperialista. Agora voltam, montando uma Base Marítima e uma Base Aérea dirigida contra a China. Os Estados Unidos estão fomentando conflitos marítimos com a China e utilizando-os como pretexto para montar todo um cerco. Como na Europa, que utilizam a tomada do controle da Ucrânia, agora montam, estendem e aprofundam as Bases Militares contra a China.

Não existem limites no militarismo que constitui a política da Casa Branca. O fato de empreender o cerco contra a China me parece outro indício de que a política imperialista tomou um caminho mais agressivo e militarista.

O mesmo está ocorrendo com o novo governo militar do Egito, onde ontem foi anunciado que 683 defensores do governo derrotado, o governo eleito de Mohamed Morsi, receberam sentença de morte. Estes 683 se somam aos 529 que já estavam condenados e tinham pendente a sentença de morte. Ao mesmo tempo, um oficial anunciou que dos anteriormente sentenciados à morte, dos 529, 422 comutaram a pena por prisão perpétua. Ou seja, mudaram de assassinato imediato para assassinato gradual. Porém, em todo caso, esse governo militar, a Junta Militar, recebeu mais de um bilhão de dólares em ajuda militar dos EUA para fortalecer esse governo, que está trabalhando ombro a ombro com Israel no bloqueio aos palestinos.

Este é outro aspecto do militarismo norte-americano.

Um grande abraço a todos os ouvintes.

(*) Escute ao vivo, às segunda-feiras, às 11:30 horas (hora local), as análises de James Petras na CX36, Radio Centenario, de Montevidéu (Uruguai) para todo o mundo através de www.radio36.com.uy

Fonte: http://www.radio36.com.uy/entrevistas/2014/04/28/petras.html

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)