CONFIANÇA NA VITÓRIA

Um fato que ocupou alguma atenção e se acompanhou de escaramuças no parlamento foi a aprovação da lei transitória de eleições que regerá as de dezembro. A direita se empenha em pôr um e outro obstáculo ao processo eleitoral. Com seu falatório insidioso, semeia dúvidas de todo tipo e nada lhe satisfaz. Entretanto, prepara todas as suas baterias, sobretudo midiáticas, para falar de “fraude”, segura de que outra vez perderá nas urnas. Ao final, com a estréia de um registo biométrico, o pais se encaminha para as eleições gerais e em março para uma nova Constituição Política de Estado. Este Estado é definitivo, como uma categoria completa: “Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário (…) descentralizado e com autonomias”.

A dificuldade reside em montar o quebra-cabeças que significa um Estado simultaneamente unitário e com três regimes autônomos (estaduais, regionais e indígenas-nacionais). Na Bolívia não há experiência sobre isto e será necessário avançar cautelosamente. Inclusive será preciso usar a via da tentativa-erro. Mas noutras matérias, como direitos sociais, exploração e cuidados dos recursos naturais, saúde, educação, política exterior, etc., a nova Constituição significa um avanço importante.

A direita reacionária, para alcançar seus objetivos contra-revolucionários, usará a violência política e inclusive o terrorismo. Derrotada em agosto-setembro de 2008 – logo da tomada e destruição de instuições oficiais nas capitais da chamada “meia lua”, as ações de intimidação e agressão a indígenas, o massacres de Porvenir (Pando) – parece que março e abril de 2009 eram os meses para voltar às eleições.

Quando acorre o atentado à casa do Cardeal Terrazas e a menos de 48 horas, em 16 de abril, se efetua a espetacular desarticulação de um comando terrorista dirigido por Eduardo Rózsa Flores, um inefável personagem difícil de classificar em outro espaço que não o de um, chamariam os psiquiatras, “limítrofe” ou, mais vulgarmente, na velha psicopatologia, um psicopata metido em trajes terrorista e há quase 20 anos a serviço das causas mais reprováveis.

Os fatos têm dado uma tácita confirmação a tudo o que o Partido havia advertido antecipadamente. A conspiração seguiria pautas bem traçadas: primeiro, derrubar Evo Morales com golpe de estado; segundo, magnicídio; mas acima de tudo, terceiro, separatismo não só como último recurso, senão como propósito final. Não são pautas sem nexo; podem ser intercambiáveis de acordo com condições do momento. A primeira variante foi ensaiada sem êxito, mas com um grande transtorno público no que se chama a “meia lua”. Agosto e setembro de 2008, mostrou a figura completa do separatismo: furor fascista e racismo exagerado que culminou com o massacre de camponeses em Porvenir, Pando. Não foi o clássico quartelaço, senão o que se denominou com acerto “golpe cívico-prefeitural”. Se envolveram comitês cívicos, normalmente cooptados pelas classes dominantes e sobre tudo as prefeituras a cargo da oposição mais radical.

A possibilidade da magnicídio sempre esteve presente e se não fosse o bom trabalho da inteligência nicaraguense poderia ter se concretizado em San Salvador para onde deviam viajar no mesmo avião os presidentes Chávez e Morales, convidados à posse do presidente Funes.

O separatismo das classes dominantes cruzenhas vem de longa data. Como regra, foi ativado nos momentos de crise política e sobretudo durante governos progressistas. O separatismo, quase nos mesmo termos atuais se deu há na época dos anos 30. O livro escrito por Enrique de Gandía, com o título de “Historia de Santa Cruz de la Sierra: Una Nueva República en Sud América”, já nas primeiras linhas resume o separatismo. Na operação do comando Rózsa as tendências separatistas explicitaram-se tanto que todos os juramentos de fidelidade à república da Bolívia, por parte dos conspiradores, haviam perdido qualquer credibilidade.

O planos separatistas não se limitam a nosso pais. Num modelo que se repete particularmente na Venezuela, com Zulia e no Equador, com Guayaquil. As ligações internacionais que se revelaram falam de um plano de alcance continental. Sua meta é acabar com o giro à esquerda. Malograr os governos de centro-esquerda e esquerda, particularmente aqueles que se “atrevem” a ferir interesses de suas oligarquias, das transnacionais, escapam à ortodoxia neoliberal ou empreendem, ao fim, um política interna e externa oposta a do império. Os fatos que se conhecem na Venezuela, Equador, Nicarágua ou na Argentina, confirmam que há um matriz que aplica, com ligeiras variações, o manual geral.

A revelação do ligações de Rózsa com os fascistas das Balcãs: ústachas da Croácia; a Szekely Legio (paramilitares) da Hungria, o grupo separatista húngaro Lelküsmeret 88 (Consciência 88), desempoeira velhos antecedentes e vínculos. Em particular, para o caso boliviano é importantíssimo constatar os vínculos da direita mais fascistizada do oriente com os ústachas. Estes vão desde Ante Pavelic aos envolvidos no novo exército croata, como é o caso de Mario Tadic Astorga. Pavelic foi o Poglavnik (caudilho) do Estado Croata Independiente (ECI) e do seu partido, o “Movimento Revolucionário Ústacha (Insurgente) Croata”. A razão de sua existência foi a secessão da Croácia e o ECI foi um desprendimento do reino da Yuguslávia sob a ocupação nazi. Há pois uma sorte de estigma congênito dos atuais separatistas de origem balçâmica com os de antes da II G.M.

Uma época o separatismo crioulo foi, de alguma maneira, estimulado e assessorado pelos ústachas de Pavelic, quando este se refugiou na Argentina, durante o governo de Perón de quem foi Conselheiro de Segurança. A primeira ingerência de Pavelic, na Bolívia, foi através do M.N.R. E seu chefe histórico, Víctor Paz Estenssoro, relatada em detalhes por Hugo Roberts. O ascenso de Paz ao poder e a imposição popular de um programa avançado, na Revolução de Abril, cortou abruptamente estas aproximações.

A seguinte ingerência ocorreu em torno de 1957. Desta vez Pavelic, com maior entusiasmo, apoiou a Falange Socialista Boliviana (FSB). Walter Vásquez Michel é o homem que viveu estes episódios. Únzaga de la Vega, entusiasmado com a ajuda dos ústachas ordenou, sem embargo, a retirada da FSB da conspiração de 1957 por um profundo desacordo com Mario Gutiérrez. Este chegou a acordos para receber cooperação militar que implicava presença direita de forças brasileiras.

As atuais vinculações vão, seguindo a velha linha, desde a Croácia passando por Kosovo, enlaçando o embaixador Philip Goldberg e todas as ONGs e fundações e fachadas da CIA, DNE, HRF e, estendendo-se finalmente aos carapintadas argentinos, aos paramilitares colombianos e obviamente às organizações e personagens contra-revolucionárias da Venezuela (UnoAmérica).

Este conjunto estava financiado pelos elementos ligados ao empresariado e latifundiários cruzenhos, gastando dinheiro de mãos cheias. É óbvio que organismos ou agências internacionais têm sustentado generosamente os conspiradores e é provável que aportaram a parte principal. Não se preocuparam muito da compartimentação. Deixaram tantas provas que até a polícia mais inútil os havia localizado (hotéis, correios eletrônicos, recrutamento aberto de mercenários, etc). Compraram e íam comprar muito armamento. Pensaram até em mísseis. Não estava de nenhuma forma ausente a idéia de ir para a estruturação de uma formação paramilitar que serviria de núcleo a um futuro “exército separatista”.

Um fato que não se pode omitir nesta análise é que na trama conspirativa apareceram envolvidos militares. No começo, as referências incluíam alguns generais da reserva. Mas não demorou para se descobrir que Rózsa e seus patrões faziam extraordinários esforços para estabelecer contatos com militares em serviço ativo e também com policiais. A direção principal dos esforços se dirigia a tirá-los da linha de comando normal, a desativá-los em situações de emergência e também comprometê-los na constituição de forças militares e policiais “próprias”, sob o denominativo de autonômicas. Neste terreno movediço, as investigações continuam e nos deparamos com muito mais detalhes de sua estrutura. Vários dos mais ativos participantes na conspiração fugiram para o estrangeiro e muitos deles para os Estados Unidos, o que revela claramente suas fontes políticas, sua concepção e sobretudo seu sustento propagandístico, operacional e material.

Na dissecação dos elementos conspirativos não pode deixar de haver uma referência ao papel deletério que jogaram os meios de comunicação. Claro que sempre a direita tem um grande domínio dos meios de comunicação. Os últimos estudos especializados indicam que a parcialidade e manipulação, a concentração dos meios de comunicação é esmagadoramente favorável à direita, na busca de objetivos destinados a confundir e orientar em seu favor uma opinião pública desarmada, indefesa.

Apesar de todas as dificuldades, da inexperiência do governo – de seus muitos quadros novatos e sem informação, além dos oportunistas e infiltrados – foi infligido uma enorme derrota à direita. Virtualmente está encurralada, ideologicamente empobrecida e politicamente sem discurso. Sua proposta, mesmo em face das eleições, quando habitualmente agudiza sua oferta demagógica, reflete não só estar desorientada historicamente , senão presa num sentimento de que se aproxima uma nova derrota na arena da confrontação democrática. Esse sentimento derrotista é um mau conselheiro porque pode sugerir o retorno à ação violenta.

Apesar do acima exposto é obrigação da esquerda, das forças patrióticas, democráticas, anti-oligárquicas e anti-imperialistas unificarem suas forças em torno de objetivos programáticos, na busca do maior êxito possível nas eleições de dezembro e ao mesmo tempo que se execute uma sólida campanha eleitoral, que garanta o voto próprio e amplie a outros setores, particularmente da juventude e da intelectualidade.

Estamos frente a uma excepcional conjuntura histórica. Somente com o processo de mudanças se pode alcançar a conversão das forças motrizes revolucionárias para a construção de uma sociedade democrática, com justiça social, soberania nas relações internacionais e firmemente orientada para o futuro socialista.

(*) Marcos Domich é Secretário de Relações Internacionais do PCBoliviano

Traduzido por Dario da Silva.