{"id":100,"date":"2009-09-03T02:26:38","date_gmt":"2009-09-03T02:26:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=100"},"modified":"2009-09-03T02:26:38","modified_gmt":"2009-09-03T02:26:38","slug":"bolivia-qa-direita-ainda-nao-foi-derrotada-economicamenteq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/100","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: &#8220;A direita ainda n\u00e3o foi derrotada economicamente&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8211; Como explica o enfraquecimento da oposi\u00e7\u00e3o depois de mais de dois anos de prova de for\u00e7a com o governo?\u201d<\/em><\/p>\n<\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> O governo do presidente Evo viu a Assembl\u00e9ia Constituinte como apossibilidade de armar um grande bloco coletivo de todas as for\u00e7as sociais do pa\u00eds. Nos jogamos de cabe\u00e7a nesse projeto de pacto. Internamente no seio do povo, havia que coesionar o bloco popular, com muitas dificuldades, porque havia muita diversidade corporativa e em seguida havia que dar o passo seguinte de abertura para os outros setores sociais opositores, minorit\u00e1rios, mas importantes. E nisso demos mostras de vontade de flexibilizar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de ceder em demandas e de incluir a todos. Mas o bloco social opositor havia definido uma estrat\u00e9gia de bloqueio ou de suspens\u00e3o constituinte, isto \u00e9, de irresolu\u00e7\u00e3o da estrutura de poder, e optou pela rejei\u00e7\u00e3o dos pactos constituintes v\u00e1rias vezes. Seu objetivo consistia em prolongar a crise do estado iniciada em 2000, enfraquecendo ao governo na espera de um momento em que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as lhe fosse favor\u00e1vel para a resolu\u00e7\u00e3o da crise. E n\u00f3s, ainda assim, insistimos. <\/p>\n<p>O debate sobre os chamados \u201cdois ter\u00e7os\u201d, no final de 2006, foi um primeiro ensaio do que estava em jogo e da decis\u00e3o de um setor que n\u00e3o estava disposto a aceitar sua posi\u00e7\u00e3o de minor\u00eda pol\u00edtica democr\u00e1tica. Nos dois ter\u00e7os e no tema da onipot\u00eancia da Constituinte cedemos, recuamos, mas ao mesmo tempo, como contrapartida, avan\u00e7amos na consolida\u00e7\u00e3o de uma maioria social e pol\u00edtica que tamb\u00e9m se convertia em uma maioria decis\u00f3ria constituinte. O segundo grande momento de confronta\u00e7\u00e3o foi o tema da capitalidade de Sucre. Desenterrou-se um tema centen\u00e1rio, causador da guerra civil de 1899, como ponta de lan\u00e7a para voltar a suspender a Constituinte. Ai o bloco opositor, c\u00edvico-prefeitural de direita, nos mostrou que estava disposto a tudo, inclusive a colocar em risco a vida de constituintes contanto que conseguisse inviabilizar a possibilidade de um pacto nacional constituinte. E n\u00f3s, frente a esse cen\u00e1rio voltamos a fazer grandes concess\u00f5es.<\/p>\n<p>Visto \u00e0 dist\u00e2ncia, a dire\u00e7\u00e3o c\u00edvica sucrense, que era empurrada pelas elites cruzenhas, estava obtendo uma grande quantidade de conquistas: quase um ter\u00e7o das sess\u00f5es do Congresso em Sucre, os escrit\u00f3rios do Defensor do Povo, da Procuradoria, talvez da Corte Nacional Eleitoral, um conjunto de institui\u00e7\u00f5es que lhe davam uma relev\u00e2ncia administrativa e econ\u00f4mica em Sucre, al\u00e9m de uma viabiliza\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida de um conjunto de obras de infraestrutura. Mas eles tampouco aceitaram. E comprovando que n\u00e3o havia nenhum interesse de fazer um acordo, mas de antagonizar indefinidamente, nos lan\u00e7amos \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Nova Constitui\u00e7\u00e3o, primeiro em Calancha e em seguida j\u00e1 em Oruro. Isto \u00e9, resolvemos definir pela via das maiorias constituintes a estrutura do poder estatal.<\/p>\n<p><em>&#8211; Nesse momento voc\u00ea falou de um \u201cponto de bifurca\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em> <\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> Sim vou chegar ai. Apesar de tudo isto, fizemos uma nova tentativa, fomos buscar a Rub\u00e9n Costas, a Leopoldo Fenandez na sua fazenda, fomos buscar a Branko Marinkovic e por \u00faltimo propusemos ao pessoal de Jorge Quiroga um processo de destravamento. A\u00ed vimos, de maneira inquestion\u00e1vel, que havia um setor minorit\u00e1rio que ia impedir por todos os meios a solu\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do projeto nacional-popular, da crise estatal iniciada em 2000. Claro que n\u00f3s precis\u00e1vamos da Constituinte para constituir o novo Estado, para ancorar nas institui\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es de mando duradouras do Estado, a nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as conseguida pelo movimento ind\u00edgena-popular no ciclo de mobiliza\u00e7\u00f5es de 2000-2005. No fundo, uma Constitui\u00e7\u00e3o, o que faz \u00e9 solidificar uma s\u00e9rie de pontos de apoio irrevers\u00edveis, de conquistas e mandos conquistados historicamente pela trama das lutas de poder de uma sociedade.<\/p>\n<p>A prova final dessa vontade de confronto da oposi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria de direita veio quando se lan\u00e7aram \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o das consultas departamentais sobre os estatutos auton\u00f4micos a ser realizadas em maio de 2008. Tratava-se de uma busca de disputa de fato pelo poder pol\u00edtico regional, de um tipo de poder dual regionalizado ou de cis\u00e3o vertical antagonizada da estrutura do Estado. Chegando ai, n\u00e3o haveria ponto de retorno: a direita n\u00e3o estava disposta a ser inclu\u00edda no projeto nacional-popular como for\u00e7a minorit\u00e1ria e dirigida, e optava pela conflagra\u00e7\u00e3o territorial. A luta pelo poder se aproximava do momento de sua resolu\u00e7\u00e3o b\u00e9lica ou \u00faltima, na medida em que em \u00faltima inst\u00e2ncia, o poder do Estado \u00e9 coer\u00e7\u00e3o. A isto \u00e9 que denominamos de \u201cponto de bifurca\u00e7\u00e3o\u201d ou momento em que a crise do Estado, iniciada oito anos antes, se resolve seja mediante uma restaura\u00e7\u00e3o do velho poder estatal ou mediante a consolida\u00e7\u00e3o do novo bloco de poder popular. \u00c9 o momento de inicio da nova ordem estatal de maneira autoproducente. E tudo isso mediante o desatamento, a mensura\u00e7\u00e3o ou a confronta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a aberta dos dois blocos polarizados. O ponto de bifurca\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento excepcional, curto em sua dura\u00e7\u00e3o, prim\u00e1rio, mas decis\u00f3rio, em que o \u201cpr\u00edncipe\u201d abandona a linguagem da sedu\u00e7\u00e3o e se imp\u00f5e por suas t\u00e1ticas b\u00e9licas de coer\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<\/p>\n<p>Ent\u00e3o j\u00e1 era quest\u00e3o de tempo a chegada desse dia de for\u00e7a e n\u00f3s, entre maio e setembro de 2008, nos preparamos para esse momento. Foi um momento b\u00e9lico ou potencialmente b\u00e9lico. A direita golpista realizou suas consultas e iniciou gradualmente a conforma\u00e7\u00e3o de pequenos poderes regionais que desconheciam ao governo. N\u00f3s entendemos esse sinal e nos jogamos em uma estrat\u00e9gia envolvente, como a chamam os militares. Tanto pelo lado dos mecanismos coercitivos do Estado, como pela via da mobiliza\u00e7\u00e3o social. Em maio se faz uma an\u00e1lise com as organiza\u00e7\u00f5es sociais e com as pr\u00f3prias For\u00e7as Armadas, avaliando os principais riscos que havia no pa\u00eds e se instrui a prepara\u00e7\u00e3o de planos de conting\u00eancia diante da eventualidade de uma radicaliza\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia golpista da direita. <\/p>\n<p>Nesse momento se faz um primeiro plano de conting\u00eancia de uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o na defesa da democracia que n\u00e3o se executa, mas que j\u00e1 estava elaborado, tanto no plano social, como no militar. Em agosto, apostaram numa derrota eleitoral do governo, a fim de tirar-nos legitimidade democr\u00e1tica, mas ganhamos o referendo revocat\u00f3rio. Longe de retroceder no apoio democr\u00e1tico, o governo incrementou sua aceita\u00e7\u00e3o de 54% do eleitorado a 67%, consolidando uma maioria social em todo o territ\u00f3rio nacional, incluindo em regi\u00f5es anteriormente dominadas pela oposi\u00e7\u00e3o. Isso enlouqueceu \u00e0 direita. Depois de dois anos de estrat\u00e9gia de bloqueio constituinte, agora pretendiam uma r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o do poder, come\u00e7ando do \u00e2mbito departamental. Mas o referendo revocat\u00f3rio ampliava a legitimidade nacional do governo do presidente Evo e irradiava a for\u00e7a pol\u00edtica do bloco ind\u00edgena-popular para a totalidade dos nove departamentos. Em vez de entender o momento, a direita decidiu atacar.<\/p>\n<p>As regras da guerra e da pol\u00edtica, que \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da guerra por outros meios, ensinam que quando um opositor \u00e9 forte n\u00e3o deve ser atacado diretamente e quando um ex\u00e9rcito \u00e9 d\u00e9bil nunca deve promover nem aceitar encarar uma batalha diante de um advers\u00e1rio mais forte. A direita fez exatamente o contr\u00e1rio deste ABC da luta pelo poder. Enlouquecida, se lan\u00e7ou ao confronto, no momento de maior fortaleza pol\u00edtico-eleitoral do governo e de maior incerteza da exist\u00eancia da base de apoio da direita e ai come\u00e7ou sua derrota.<\/p>\n<p>Depois dos resultados do referendo aprovat\u00f3rio em agosto, o bloco c\u00edvico-prefeitural come\u00e7ou uma escalada golpista: invadem as institui\u00e7\u00f5es, esperamos; atacam a pol\u00edcia, esperamos; destroem e saqueiam as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em 4 departamentos, esperamos; desarmam a soldados, esperamos; tomam aeroportos, esperamos; destroem gasodutos, esperamos. Eles mesmos se lan\u00e7am, desarvorados, a um beco sem sa\u00edda. Usam a viol\u00eancia contra o Estado, dando a justificativa moral de uma resposta contundente do Estado contra eles, que come\u00e7ou a ser desatada em uma escala gigantesca; al\u00e9m disso, \u00e0 medida que incendeiam e saqueiam institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se deslegitimam diante da sua pr\u00f3pria base social, ficando em poucas horas como um punhado de violentos destruidores da institucionalidade.<\/p>\n<p><em>&#8211; A\u00ed acontece o de Pando<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> O prefeito desata o massacre de Pando, em uma tentativa de dar um sinal de puni\u00e7\u00e3o dura aos l\u00edderes populares&#8230; e este ato acabou com a toler\u00e2ncia da totalidade da sociedade boliviana. O massacre de camponeses igualar\u00e1 aos prefeitos com seus mentores, S\u00e1nchez de Losada ou Garc\u00eda Mesa e colocar\u00e1 nas m\u00e3os do Estado a obrigatoriedade de uma interven\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, contundente, na defesa da democracia e da sociedade. E sem duvidar um segundo, atacar o elo mais fraco da cadeia golpista, Pando. Se tratar\u00e1 do primeiro estado de s\u00edtio na hist\u00f3ria boliviana ditado na defesa e na prote\u00e7\u00e3o da sociedade, encontrando o pleno apoio da popula\u00e7\u00e3o horrorizada pela a\u00e7\u00e3o dos golpistas, deter\u00e1 em seco a iniciativa c\u00edvico-prefeitural, dando lugar \u00e0 sua retirada desordenada. \u00c9 o momento de uma contraofensiva popular, cuja primeira linha de a\u00e7\u00e3o ser\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es sociais e populares do pr\u00f3prio departamento de Santa Cruz. N\u00e3o apenas camponeses e colonizadores se mobilizaram, mas tamb\u00e9m gente dos bairros plebeus de Santa Cruz e especialmente jovens urbanos, que em memor\u00e1veis jornadas de resist\u00eancia \u00e0s bandas fascistas, defender\u00e3o seus distritos e quebrar\u00e3o o dom\u00ednio clientel\u00edstico das logias cruzenhas.<\/p>\n<p>A contund\u00eancia e a firmeza da resposta pol\u00edtico-militar do governo contra o golpe, somada \u00e0 estrat\u00e9gia de mobiliza\u00e7\u00e3o social em Santa Cruz e para Santa Cruz, criou uma articula\u00e7\u00e3o virtuosa social-estatal poucas vezes vista na hist\u00f3ria pol\u00edtica da Bol\u00edvia. Essa era a dimens\u00e3o e a extens\u00e3o geral do \u201cex\u00e9rcito\u201d e das \u201cdivis\u00f5es mobilizadas\u201d contra o golpe. Essa era a for\u00e7a de choque que o projeto ind\u00edgena-popuar desatava para o momento decis\u00f3rio de for\u00e7a. A direita avaliou suas for\u00e7as de choque isoladas e em debandada, comprovou a vontade pol\u00edtica do mando ind\u00edgena-popular que estava disposto a tudo e preferiu abdicar de seus prop\u00f3sitos e se render. Desta forma, se fecha o ciclo da crise estatal, da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e se impor\u00e1, em uma medi\u00e7\u00e3o b\u00e9lica de for\u00e7as, a estrutura duradoura do novo Estado.<\/p>\n<p>Algo parecido aconteceu em 1985, quando mineiros, que eram o n\u00facleo do Estado nacionalista, se renderam diante das divis\u00f5es do ex\u00e9rcito que resguardava o projeto neoliberal. Hoje correspondeu ao bloco empresarial-latifundista assumir a derrota e dar passo a uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas da sociedade. A seu modo, setembro-outubro de 2008 ter\u00e1 o mesmo efeito estatal que a derrota da \u201cmarcha pela vida\u201d dos mineiros em 1986. S\u00f3 que agora ser\u00e1 o bloco plebeu quem festejou a vit\u00f3ria e as elites endinheiradas ter\u00e3o que assumir sua derrota hist\u00f3rica. O que vir\u00e1 depois ser\u00e1 a valida\u00e7\u00e3o pol\u00edtico parelamentar desse triunfo popular. Apoiados nas vitorias eleitorais e militares, o governo ind\u00edgena-popular levar\u00e1 \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o institucional da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as conseguida no momento do \u201cponto de bifurca\u00e7\u00e3o\u201d. E isto ser\u00e1 feito mediante a aprova\u00e7\u00e3o congressual da Nova Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Estado.<\/p>\n<p>O Congresso se transformar\u00e1 por uns dias em uma esp\u00e9cie de Congresso Constituinte que articular\u00e1 o trabalho da Assembl\u00e9ia Constituinte fechada nove meses antes, os acordos governamentais governamentais com o bloco minorit\u00e1rio de prefeitos conservadores nas semanas pr\u00e9vias e a delibera\u00e7\u00e3o popular da marcha empreendida pelas organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, ind\u00edgenas, camponesas e populares que sob a dire\u00e7\u00e3o do presidente Evo, chegou \u00e0 cidade de La Paz desde Caracollo.<\/p>\n<p>Sob as novas circunst\u00e2ncias, estava claro que o eixo articulador ind\u00edgena-popular do Estado se impunha por seu pr\u00f3prio peso na ordem estatal constitucional. Mas, ao mesmo tempo, o resto dos setores sociais eram articulados a partir de seu pr\u00f3prio debate na Assembleia Constituinte (classes m\u00e9dias, setores empresariais medios e pequenos, etc.) Inclusive o bloco conservador rentista da terra, expresso politicamente pelos prefetos c\u00edvicos, foi levado em conta, mas claro que como sujeito social dirigido pelo novo n\u00facleo estatal ind\u00edgena-popular, e em menor intensidade pelo que poderia ter conseguido se assumisse a convoca\u00e7\u00e3o pactista de 2006-2007. N\u00e3o se pode esquecer que este trabalho pol\u00edtico tamb\u00e9m servir\u00e1 para arrebatar \u00e0 direita a bandeira auton\u00f4mica, atr\u00e1s da qual havia dissimulado a defesa do latif\u00fandio e do rentismo empresarial.<\/p>\n<p>Desta forma, o bloco nacional-popular n\u00e3o apenas se consolidava materialmente na estrutura estatal, como assumia o mando dos tr\u00eas eixos discursivos da nova ordem estatal que guiaram todos os debates pol\u00edticos nas d\u00e9cadas seguintes: plurinacionalidade, autonomia, condu\u00e7\u00e3o estatal da economia. Visto \u00e0 dist\u00e2ncia, apesar de toda a conflitividade dos tr\u00eas anos, em termos dos resultados duradouros, as coisas n\u00e3o poderiam ter sucedido de melhor forma para o bloco nacional-popular no poder. No final, as condi\u00e7\u00f5es de concess\u00e3o aos advers\u00e1rios s\u00e3o muito maiores em um pacto constituinte que os reconhecimentos e inclus\u00f5es cedidas a um advers\u00e1rio abdicante e derrotado, pelo que a hist\u00f3ria nem sempre transcorre pelo lado ruim, como acreditava Hegel.<\/p>\n<p>Em agosto se consolida a vit\u00f3ria eleitoral, em setembro a vit\u00f3ria militar e em outubro (com a aprova\u00e7\u00e3o congresual do referendo constitucional) a vit\u00f3ria pol\u00edtica. E, com isso, certamente, se fecha o ciclo constituinte e, a partir desse momento, se inicia a estrutura da orden unipolar da nova ordem estatal.<\/p>\n<\/p>\n<p><em>&#8211; At\u00e9 onde o enfraquecimento t\u00e3o not\u00f3rio da oposi\u00e7\u00e3o poderia transferir as tens\u00f5es para o interior do bloco oficialista, levando em conta que uma oposi\u00e7\u00e3o movilizada \u00e9 sempre muito efetiva para coesionar \u00e0s pr\u00f3prias bases?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> Eu n\u00e3o creio, no entanto, que a oposi\u00e7\u00e3o tenha sido desarticulada definitivamente. A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem um projeto de poder, carece de discurso mobilizador e tem um poder de veto gigante em muitas coisas. Continua sendo um advers\u00e1rio perigoso. Certamente que no \u00e2mbito econ\u00f4mico o Estado conseguiu dar golpes contundentes no desmonte de uma parte do poder econ\u00f4mico opositor: a burguesia rentista e intermedi\u00e1ria j\u00e1 n\u00e3o tem as empresas petrol\u00edferas como financistas generosas de suas rendas. A rede clientelista agr\u00e1ria que os rentistas da terra criaram no \u00e2mbito agroindustrial se enfraqueceu enormemente com a presen\u00e7a da empresa estatal de alimentos EMAPA e a presen\u00e7a p\u00fablica na cadeia sojera, trigueira, arrozeira, chega a entre 20 e 30% do total da produ\u00e7\u00e3o. Mas o bloco opositor irredut\u00edvel ainda conserva outros espa\u00e7os importantes de poder agr\u00e1rio, comercial e financiero, e isto lhe d\u00e1 finalmente poder de agrega\u00e7\u00e3o, de press\u00e3o e de confronta\u00e7\u00e3o. Mas hoje, e isto pode durar alguns anos, o que n\u00e3o tem \u00e9 um projeto de Estado; quanto tempo ainda n\u00e3o o ter\u00e1, n\u00e3o se sabe, mas tem um projeto de tratar de impedir que siga avan\u00e7ando o projeto popular. \u00c0 diferen\u00e7a das classes populares, que em 1985 forma derrotadas e materialmente foram desestruturadas para dar lugar a um ciclo lento de reorganiza\u00e7\u00e3o, a direita, n\u00e3o. <\/p>\n<p>A direita sofreu um golpe pol\u00edtico, perdeu o mando do Estado, perdeu a capacidade de seduzir estatalmente \u00e0 sociedade, mas tem muito poder econ\u00f4mico ainda. \u00c9 diferente a forma de consolida\u00e7\u00e3o do ponto de bifurca\u00e7\u00e3o quando \u00e9 o setor popular o derrotado, pol\u00edtica e materialmente, que quando se trata do setor empresarial, porque pode perder no plano pol\u00edtico, mas conserva poder econ\u00f4mico que lhe permite ter poder de veto permanente. Ent\u00e3o segue a\u00ed esse adversario, fragmentado, desorientado, mas como advers\u00e1rio e com capacidade de bloqueio. Mas nesse cen\u00e1rio em que a contradi\u00e7\u00e3o fundamental se apaziguou, se debilitou, surgem maiores possibilidades de tenta\u00e7\u00f5es no interior do n\u00facleo central, \u00e9 verdade. Mas por que n\u00e3o conseguiram prosperar o que na hist\u00f3ria de muitos partidos s\u00e3o tend\u00eancias fraccionistas no interior do n\u00facleo dirigente? Por v\u00e1rios motivos. Em primeiro lugar, sem d\u00favida, pela lideran\u00e7a avassaladora do presidente Evo na estrutura pol\u00edtica e social do Estado e da pr\u00f3pria sociedade. Hoje, a figura, o carisma e a ades\u00e3o que conseguiu o presidente Evo \u00e9 de tal magnitude que limita objetivamente a exist\u00eancia de outra lideran\u00e7a que pudesse disputar a base social do governo e da sociedade.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro elemento relevante que explica os limites materiais de um fraccionalismo no interior do governo: a aus\u00eancia de fac\u00e7\u00f5es com poder econ\u00f4mico. O controle de minist\u00e9rios habilita a ter influ\u00eancia, redes, que permitem constituir fac\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que somos um Estado que passou a investir de 600 a 2.300 ou 2.400 milh\u00f5es de d\u00f3lares e \u00e9 normal que em qualquer parte surjam fac\u00e7\u00f5es do poder econ\u00f4mico, n\u00facleos que controlam decis\u00f5es, f\u00e1bricas, rendas, for\u00e7a de trabalho. Acontece no Brasil, na Argentina, na Venezuela. Mas aqui se criou, at\u00e9 agora e de uma maneira sistem\u00e1tica e vigiada, uma estrutura laboral governamental que impediu a consolida\u00e7\u00e3o de n\u00facleos consolidados de influ\u00eancia e de poder econ\u00f4mico, n\u00e3o digamos de propriedade, com capacidade de desempenho e de presen\u00e7a pol\u00edtica aut\u00f4noma no interior do governo.<\/p>\n<p>Nisso v\u00e1rios fatores intervieram: elevada rota\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios, um controle presidencial do funcionamento di\u00e1rio dos minist\u00e9rios, mas tamb\u00e9m uma moral interna, uma esp\u00e9cie de espartanismo governamental reivindicador de uma \u00e9tica do servi\u00e7o p\u00fablico que limitou, at\u00e9 hoje, a cristaliza\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es de poder econ\u00f4mico que s\u00e3o as que alentam potencialmente o faccionalismo pol\u00edtico. Isso permitiu que exista um n\u00facleo muito duro e coeso em torno do Presidente que ajuda a que internamente n\u00e3o emerjam tendencias centr\u00edfugas.<\/p>\n<p><em>&#8211; Esta \u00e9 a tentativa de construir uma moral do servi\u00e7o p\u00fablico no n\u00facleo de decis\u00f5es do governo? Mas o que passa na base? V\u00edctor Paz Estenssoro explicou o fim da Revolu\u00e7\u00e3o Nacional quando os empregos a repartir eram menos que os militantes do MNR. N\u00e3o pode aconteder a mesma coisa com o governo do MAS?<\/em><\/p>\n<\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> Paz Estenssoro assumia essa press\u00e3o do militante arrivista como um h\u00e1bito pol\u00edtico, em continuidade com uma l\u00f3gica de prebendas que nunca buscou superar. Na Bol\u00edvia, desde o s\u00e9culo XIX, a atividade pol\u00edtica foi vista como um meio de ascens\u00e3o social mais que um meio para o servi\u00e7o das res publica. De fato, a estrutura material das classes sociais na Bol\u00edvia opera de tal forma que os procesos de enclassamento e de desclassamento n\u00e3o dependam tanto do capital cultural para ascender socialmente, mas do capital pol\u00edtico, isto \u00e9, das redes e influ\u00eancias pol\u00edticas que garantem o acesso a bens privados. Isto, que era um monop\u00f3lio exclusivo de casta e de familia at\u00e9 1952, desde aquele momento se ampliou para classes medias e niveis de dire\u00e7\u00e3o do sindicalismo oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na atualidade h\u00e1 setores que pressionam e reivindicam uma maior \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d desta forma de prebendas da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e reivindicam o direito a um cargo p\u00fablico pelo fato de pertencer a alguma dire\u00e7\u00e3o regional do MAS. Diante dessa press\u00e3o e da degenera\u00e7\u00e3o da militancia pol\u00edtica, o governo foi muito contundente na sua rejei\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o. Por que expulsamos a Adriana Gil em 2006? Por isso, porque naquele momento tinha se formado um nucleo de militantes massistas que tomaram uma institui\u00e7\u00e3o para pedir que eles ocupassem cargos. Em abril do mesmo ano foram expulsos os que queriam continuar com o velho h\u00e1bito da milit\u00e2ncia como acesso a um cargo p\u00fablico. A partir daquele momento, o proprio Presidente n\u00e3o somente colocou em pr\u00e1tica uma \u00e9tica pol\u00edtica da gest\u00e3o p\u00fablica como servi\u00e7o, como foi clar\u00edssimo que os companheiros que se reinscrevem como militantes do MAS n\u00e3o devem esperar fazer parte das estruturas organizativas do Estado e que, ao contr\u00e1rio, devem se esfor\u00e7ar por para fortalecer a estrutura organizativa e ideol\u00f3gica do partido. Se comparamos as mudan\u00e7as no pessoal do Estado, entre nossa gest\u00e3o de governo e as precedentes, se constatar\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o fizemos nem 20% das mudan\u00e7as feitas pelas administra\u00e7\u00f5es anteriores. Nos tempos do MIR, da ADN, do MNR, nem os porteiros nem as cortinas dos despachos se salvavam da \u201cvarrida\u201d partid\u00e1ria. Para n\u00f3s, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que existam muitos militantes e poucos cargos; ao contr\u00e1rio: se voc\u00ea \u00e9 um militante, ent\u00e3o n\u00e3o tem cargo. E isto n\u00f3s enfatizamos sob a concep\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica como uma esp\u00e9cie de longo \u201cservi\u00e7o militar\u201d para servir \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p><em>&#8211; Mas isto n\u00e3o impede a forma\u00e7\u00e3o de quadros no interior do proprio MAS?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera: <\/strong>Este \u00e9 um grande problema, nem tanto pelo tema. Uma das grandes debilidades da nossa estrutura pol\u00edtica, deste proceso, \u00e9 a aus\u00eancia de quadros pol\u00edticos e t\u00e9cnicos. Nas revolu\u00e7\u00f5es mundiais, os partidos que ascenderam ao governo tiveram previamengte d\u00e9cadas de prepara\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o de quadros que lhes permitiu assumir com maior musculatura organizativa as transforma\u00e7\u00f5es da sociedade. O pr\u00f3prio MNR, que se formou nos anos 30, teve mais de quinze anos de forma\u00e7\u00e3o antes de aceder ao governo. Mas o MAS, que surgiu em 1995 como estrutura pol\u00edtica local, rec\u00e9m em 2000-2001, se colocou a tem\u00e1tica de uma estrutura nacional com vontade de poder e em 2005 j\u00e1 era governo. S\u00e3o apenas quatro anos de prepara\u00e7\u00e3o. E isto gerou dificuldades, j\u00e1 que no n\u00facleo pol\u00edtico b\u00e1sico, o MAS n\u00e3o \u00e9 uma estrutura de quadros, mas uma coaliz\u00e3o flexivel de movimentos sociais. <\/p>\n<p>Fez-se um esfor\u00e7o para potencializar a parte organizativa dos quadros, mas o r\u00e1pido crescimento no plano urbano obrigou a reafirmar a disciplina militante sindical diante das pr\u00e1ticas mais liberais e de prebendas nos \u00e2mbitos urbanos.<\/p>\n<p>Quando se forma o partido, a estrutura, digamos assim, de quadros funcionais urbana, era paralela \u00e0 estrutura sindical agr\u00e1ria e compatilhavam os niveis de decis\u00e3o pol\u00edtica. Mas j\u00e1 no governo, uma parte da estrutura urbana se dedicar\u00e1 a buscar cargos, o que, para limitar esse tipo de desv\u00edos e pr\u00e1ticas se decide, desde 2007, que nos n\u00edveis nacional, departamental e regional das estruturas partid\u00e1rias assumam o mando as organizac\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><em>&#8211; Ent\u00e3o de onde v\u00eam os cargos?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> Desde que somos governo, se refor\u00e7aram os mecanismos de sele\u00e7\u00e3o meritocr\u00e1tica nos n\u00edveis t\u00e9cnicos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, enquanto que os cargos de confian\u00e7a pol\u00edtica passam pelo filtro das organiza\u00e7\u00f5es sociais nacionais. Desde 2007, a postula\u00e7\u00e3o a cargos de confian\u00e7a pol\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o passa pelas listas das dire\u00e7\u00f5es departamentais.<\/p>\n<p><em>&#8211; Em rela\u00e7\u00e3o ao caso Santos Ram\u00edrez, como afetou o projeto econ\u00f4mico do governo, considerando que YPFB \u00e9 uma empresa emblem\u00e1tica deste proceso?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera: <\/strong>YPFB n\u00e3o \u00e9 apenas uma empresa emblem\u00e1tica, \u00e9 a empresa que sustenta econ\u00f4micamente o pa\u00eds e a base material da soberania reconquistada. Tem um fluxo de caixa de cerca de 3,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e, para a Bolivia isto \u00e9 muit\u00edssimo dinheiro. Em termos de propriedade, YPFB controla, em nome do Estado, entre 2,2 e 2,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Hoje 50% das nossas exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o petr\u00f3leo e g\u00e1s e essas exporta\u00e7\u00f5es passam por YPFB. \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o da economia boliviana e deve ser uma das vinte empresas mais importanes da Am\u00e9rica Latina. Por isso, as primeiras informa\u00e7\u00f5es sobre a corrup\u00e7\u00e3o em YPFB foram um golpe muito duro porque golpearam a empresa emblem\u00e1tica do pa\u00eds, mas afetaram ao mesmo tempo a um companheiro que era evidentemente no futuro um dos mais poss\u00edveis sucessores de Evo na lideran\u00e7a pol\u00edtica do MAS. E diante dessa dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o, se respondeu de maneira imediata e com a mesma firmeza: afastar Ramirez, imediatamente, da dire\u00e7\u00e3o da empresa e apoiar p\u00fablicamente as investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Rompendo, assim, com a velha tradi\u00e7\u00e3o dos partidos tradicionais de ocultar, adiar e finalmente encobrir os atos de corrup\u00e7\u00e3o de seus militantes com peso pol\u00edtico, n\u00f3s decidimos emitir um novo sinal: no governo e diante dos intereses do povo, n\u00e3o h\u00e1 amigos, n\u00e3o h\u00e1 familiares, n\u00e3o h\u00e1 militantes, n\u00e3o h\u00e1 compadres, nem comparsas. H\u00e1 servidores ou corruptos e estes \u00faltimos devem ir para a pris\u00e3o sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos permtir nenhuma sombra ou uma suspeita de erro no nucleo dirigente.<\/p>\n<p>A instru\u00e7\u00e3o foi clara: que se encarregue a Justi\u00e7a e que ningu\u00e9m pressione. Se esteve muito atento a que nenhum nivel do Estado interfira, pressione, insinue nada a favor de Santos. Mas o dano est\u00e1 feito. Houve que passar meses para ir curando essa ferida. Mas, uma vez mais, se nota a aus\u00eancia de quadros. Da\u00ed que tivemos que aprovar uma lei que permita pagar sal\u00e1rios mais altos que o do Presidente para quadros t\u00e9cnicos de empresas estrat\u00e9gicas. \u00c9 a nossa forma local da NEP (Nova Politica Econ\u00f4mica, na R\u00fassia p\u00f3s-revolucion\u00e1ria) de Lenin. O objetivo da NEP, al\u00e9m de alian\u00e7a com os camponeses, era fundamentalmente recrutar t\u00e9cnicos para administrar os n\u00edveis subalternos do Estado, levando em conta que se bem o Estado \u00e9 uma estrutura pol\u00edtica, tem n\u00edveis burocr\u00e1tico-administrativos e t\u00e9cnico-cientificos que requerem conhecimentos e saberes que n\u00e3o podem ser adquiridos nem transformados r\u00e1pidamente. Lenin, para terminar com a cat\u00e1strofe econ\u00f4mica que ocorreu imediatamente depois da revolu\u00e7\u00e3o, teve que recontratar t\u00e9cnicos do antigo Estado, at\u00e9 criar gradualmente uma admnistra\u00e7\u00e3o mais simples. E instruiu: abaixo de cada t\u00e9cnico coloquem um jovem para que aprenda e n\u00f3s estamos fazendo a mesma coisa. J\u00e1 iniciamos isso em 2006: se muda a organiza\u00e7\u00e3o e as pessoas dos n\u00edveis de decis\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (ministros, vice-ministros e alguns diretores), mas n\u00e3o se toca na estrutura secund\u00e1ria da administra\u00e7\u00e3o estatal do Estado, at\u00e9 formar quadros estatais, jovens, que substituam aos antigos quadros.<\/p>\n<p>Agora temos novos desaf\u00edos: empresas estatais que se agigantam em um, dois ou tres anos. Necessitamos gente competente, que \u00e9 preciso recrutar no mercado de trablho. Dai a via que adotamos: mando pol\u00edtico comprometido nos n\u00edveis de decis\u00e3o e funcion\u00e1rios t\u00e9cnicos de primeira com sal\u00e1rios muitas vezes superiores aos dos pr\u00f3prios gerentes das empresas em que trabalham. Passa isto com Carlos Villegas, ele gana 13.000 bolivianos enquanto um gerente de Andina pode ganhar 60.000 bolivianos<\/p>\n<p>ou 15.000 d\u00f3lares; por enquanto n\u00e3o nos resta outra op\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que se consiga formar uma nova gera\u00e7\u00e3o de servidores p\u00fablicos com grande efici\u00eancia t\u00e9cnica, mas, al\u00e9m disso, com compromisso pol\u00edtico que permita novamente igualar a escala salarial.<\/p>\n<\/p>\n<p><em>&#8211; No governo h\u00e1 uma narrativa muito atraente em torno da descoloniza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um decreto, um vice-minist\u00e9rio de descoloniza\u00e7\u00e3o\u2026 como se mediatiza este objetivo em termos de pol\u00edticas culturais e educativas?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> A descoloniza\u00e7\u00e3o tem v\u00e1rias dimens\u00f5es e \u00e9 um elemento forte do projeto de poder dos movimentos sociais. Recebemos uma sociedade colonizada at\u00e9 o fio do cabelo, no plano econ\u00f4mico havia que pedir esmola a pa\u00edses estrangeiros para pagar sal\u00e1rios, no plano pol\u00edtico havia que pedir autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0s embaixadas para escolher ministros, no plano espiritual, as pessoas acreditavam que o poder era um argumento de pele e de sobrenome, no plano mental, as pessoas achavam que tudo o que chegava de universidades estrangeiras era saber e o resto era folclore. Para derrubar essa muralha que esmagava a energia vital dos bolivianos, o primeiro passo que adotamos foi a descoloniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: tomar decis\u00f5es como pa\u00eds sem consultar a governos estrangeiros. Aqui o ministro de governo tinha que passar pelo visto da embaixada dos Estados Unidos, o ministro da Fazenda pelo visto do Fundo Monet\u00e1rio Internacional ou do Banco Mundial. Um segundo momento \u00e9 a descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, o que em termos reais significa romper com o fluxo de externaliza\u00e7\u00e3o do excedente: a sociedade gera um excedente e por distintas v\u00edas \u2013 po\u00e9ticamente, as veias abertas da Am\u00e9rica Latina \u2013 esse excedente se transfere em quantidades incont\u00e1veis para o exterior.<\/p>\n<p>A descoloniza\u00e7\u00e3o significa, ent\u00e3o, a ruptura desses fluxos de sangramento, para que o excedente gerado seja reinjetado outra vez no pa\u00eds, que \u00e9 o que fizemos com o decreto de nacionaliza\u00e7\u00e3o e com a gradual recupera\u00e7\u00e3o das empresas p\u00fablicas e com as pol\u00edticas de tipo de c\u00e2mbio, com as pol\u00edticas impositivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s remessas dos lucros\u2026 o melhor exemplo \u00e9 o <em>government take<\/em> petrolero. O <em>government take<\/em> varia entre 65 e 77%, quando antes era de 27%, isto \u00e9, do lucro dos hidrocarburos s\u00f3 27% ficava na Bol\u00edvia. Hoje de cada 100 d\u00f3lares de lucros entre 65 nos campos menores ou 77 nos grandes campos, fica no pa\u00eds. Esta \u00e9 a base material da soberan\u00eda econ\u00f4mica. <\/p>\n<p>Em seguida vem o outro \u00e2mbito, mais duradouro e mais complicado, que \u00e9 a descoloniza\u00e7\u00e3o cultural e espiritual da sociedade. A quebra do paradigma colonizador foi dado pela pr\u00f3pria sociedade, ao eleger, pela primeira vez na hist\u00f3ria do pa\u00eds, a um presidente ind\u00edgena. E a partir desse momento, toda a simbolog\u00eda colonial que aprisiona a vida e a alma, come\u00e7ou a se ser rompida irreversivelmente. Hoje temos um \u00edndio campon\u00eas governando a Bol\u00edvia, diante do que os militares tem que pedir audi\u00eancia, cortes e governantes render honra\u2026<\/p>\n<p>A descoloniza\u00e7\u00e3o cultural tem ent\u00e3o dois eixos que devem ser abordados complementarmente. Um se refere \u00e0 diversidade de culturas, de idiomas, de hist\u00f3ria e de mem\u00f3rias. O outro eixo se refere \u00e0 diversidade de civiliza\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, de modos de produ\u00e7\u00e3o de sentido da vida, do tempo, da pol\u00edtica. A descoloniza\u00e7\u00e3o no primeiro dos eixos, o cultural, \u00e9 mais f\u00e1cil de conseguir e j\u00e1 h\u00e1 experi\u00eancias em outras sociedades multiculturais (B\u00e9lgica, \u00cdndia, Canad\u00e1\u2026): ensino em v\u00e1rios idiomas, administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica pluriling\u00fce, narrativa hist\u00f3rica plural dentro da hist\u00f3ria nacional comum, que vem a ser uma hist\u00f3ria nacional de varias na\u00e7\u00f5es, etc. A escola e a universidade v\u00e3o ensinar obrigatoriamengte em tr\u00eas idiomas: castelhano \u2013 como idioma de integra\u00e7\u00e3o -, uma lingua estrangeira \u2013 como idioma de comunica\u00e7\u00e3o com o mundo \u2013 e um idioma dominante na regi\u00e3o (aymara em La Paz, quechua em Cochabamba e guaran\u00ed em Santa Cruz). No \u00e2mbito do Estado, os funcionarios p\u00fablicos devem aprender um idioma ind\u00edgena tamb\u00e9m de acordo com a zona. O mesmo deve ocorrer com as publica\u00e7\u00f5es, os discuros estatais p\u00fablicos. E seguindo no plano cultural, a descoloniza\u00e7\u00e3o da memoria, a reivindica\u00e7\u00e3o oficial de outros her\u00f3is, das datas dos povos ind\u00edgenas. A hist\u00f3ria diversa, mesti\u00e7a e ind\u00edgena, tem que ser oficializada nos textos de ensino.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais complicado \u00e9 a descoloniza\u00e7\u00e3o do ponto de vista civilizat\u00f3rio; isso tem a ver j\u00e1 com a matriz organizativa e cognitiva das pessoas. No \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o, se trata de reivindicar outros saberes, outras constru\u00e7\u00f5es discursivas, n\u00e3o necesariamente escritas, do conhecimento; como vamos conseguir isso, \u00e9 parte de um debate interno no governo; como vamos preservar como patrim\u00f4nio p\u00fablico o que est\u00e1 escrito nos t\u00eaxteis (tecidos aymaras), como saber do Estado? \u00c9 um debate complicado. Na \u00e1rea da sa\u00fade j\u00e1 se deram passos maiores, por exemplo, colocando junto ao m\u00e9dico ao \u201cnaturista\u201d, ou ao lado da enfermeira e a parteira e as pessoas podem optar no centro m\u00e9dico. \u00c9 um prototipo de saber e de procedimento m\u00e9dico que o Estado est\u00e1 come\u00e7ando a institucionalizar, ainda que n\u00e3o h\u00e1 ainda uma regulamenta\u00e7\u00e3o deste saber local disperso, mas que corresponde a outra civiliza\u00e7\u00e3o, nao somente a outra cultura. <\/p>\n<p>Outra l\u00f3gica de entender o que \u00e9 a morte, a vida, o sangue, a comida. No \u00e2mbito pol\u00edtico tambem avan\u00e7amos ao incorporar a democracia comunit\u00e1ria como uma das democracias leg\u00edtimas leg\u00edtimas no modo de produ\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es do Estado. Ou a incorpora\u00e7\u00e3o do controle social pela via das estruturas sindicais, associativas, comunit\u00e1rias, para a administra\u00e7\u00e3o do Estado. E no plano econ\u00f4mico incorporamos, reconhecemos, fomentamos e financiamos as estruturas comunit\u00e1rias da sociedade como parte da \u00e1rea produtiva que tem que decidir uma parte do investimento do TGN. Trata-se de um proceso complexo e longo. Mas j\u00e1 come\u00e7amos a dar passos decisivos. <\/p>\n<p><em>&#8211; Ao escutar a Evo Morales se adverte sobre uma defasagem entre seus discursos na defesa da Pachamama, da terra e do territorio, mais para fora, e um discurso mais desenvolvimentista para dentro, incluindo den\u00fancias das ONGs que promovem uma Amaz\u00f4nia sem petr\u00f3leo. Como voc\u00ea explica isso?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> Est\u00e1 claro que a l\u00f3gica produtiva camponesa e comunit\u00e1ria se baseia em um tipo de racionalidade produtiva localmente sustent\u00e1vel com a natureza, porque tem como fundamento uma l\u00f3gica de adiantamentos e restitui\u00e7\u00f5es entre gera\u00e7\u00f5es. Trata-se de um fato material que para garantir o alimento dos hoje presentes, tem que fazer preservando as condi\u00e7\u00f5es alimenticias para os que vir\u00e3o depois, o que leva a uma leitura dial\u00f3gica e a um v\u00ednculo sustent\u00e1vel a longo prazo com a natureza. A forma como se racionaliza e se verbaliza isso d\u00e1 lugar \u00e0 ritualidade dialogante com a natureza, enquanto corpo vivo ao que se lhe pede autoriza\u00e7\u00e3o, se lhe pede o necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o e se lhe devolve em seguida e se mant\u00eam esse corpo para garantir a longo prazo este interc\u00e2mbio metab\u00f3lico entre ser humano e natureza. Tomando um conceito de Marx ao estudar a comuna rural na India nos <em>Grundrissen<\/em>, na civiliza\u00e7\u00e3o camponesa, a natureza se apresenta ent\u00e3o como uma externaliza\u00e7\u00e3o org\u00e2nica da subjetividade. Por tanto voc\u00ea n\u00e3o pode destruir teu pr\u00f3prio corpo a n\u00e3o ser que seja um suicida. <\/p>\n<p>O movimento campon\u00eas defendeu e vai defender uma forma de uso que hoje chamamos de racional da natureza, oposto aos procesos de depreda\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da civiliza\u00e7\u00e3o do valor-lucro. Da\u00ed que na Am\u00e9rica Latina no movimento ind\u00edgena-campon\u00eas tenha existido uma constru\u00e7\u00e3o discursiva militante na defesa das potencias da natureza diante da depreda\u00e7\u00e3o expansiva da explora\u00e7\u00e3o capitalista. Com o tempo, esta l\u00f3gica produtiva agr\u00e1ria e camponesa se tornou uma l\u00f3gica pol\u00edtica do enfrentamento com o Estado desenvolvimentista neoliberal.<\/p>\n<p>O tema se torna mais complexo quando s\u00e3o os camponeses-ind\u00edgenas, anteriormente exclu\u00eddos da cidadania e do poder econ\u00f4mico, que se tornam bloco dirigente e condutor do Estado e as comunidades se tornam parte do Estado, que \u00e9 o que nos est\u00e1 pasando na Bolivia. Ent\u00e3o, por um lado, se leva para o \u00e2mbito estatal esta l\u00f3gica da rela\u00e7\u00e3o dialogante com a natureza; mas ao mesmo tempo enquanto voc\u00ea \u00e9 Estado, necesita recursos e excedentes crescentes para atender necesidades b\u00e1sicas de todos os bolivianos e dos mais necessitados, como as comunidades ind\u00edgenas e populares andar com seus proprios p\u00e9s. Expandir como pol\u00edtica de Estado a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, o uso sustent\u00e1vel da natureza, mas ao mesmo tempo necesita produzir em grande escala, implementar processos de industrializa\u00e7\u00e3o expansiva que te habilitem excedente social para sua redistribui\u00e7\u00e3o e para o apoio a outros procesos de moderniza\u00e7\u00e3o camponesa e comunit\u00e1ria artesanal.<\/p>\n<p>No caso da explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e de petr\u00f3leo no norte pacenho, o que buscamos \u00e9 produzir hidrocarburos para equilibrar geogr\u00e1ficamente as fontes de riqueza coletiva da socidade, gerar excedente e simultaneamente preservar o entorno espacial em coordena\u00e7\u00e3o com as comunidades ind\u00edgenas. Hoje n\u00e3o estamos abrindo passo no norte amaz\u00f4nico para que entrem a Repsol ou a Petrobr\u00e1s. Estamos abrindo passo na Amaz\u00f4nia para que entre o Estado.<\/p>\n<p><em>&#8211; E quem assegura que o Estado n\u00e3o seja t\u00e3o depredador como as empresas transnacionais?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> \u00c9 preciso cuidar que ele nao seja assim. E certamente haver\u00e1 uma tens\u00e3o l\u00f3gica social-estatal de um uso sustent\u00e1vel da natureza e da necessidade social-estatal de gerar excedentes (lucros) econ\u00f3micos a cargo do Estado. Trata-se de uma tens\u00e3o como o \u00e9 o \u201cEstado de movimentos sociais\u201d, entre democratiza\u00e7\u00e3o do poder e monop\u00f3lio de deics\u00f5es (movimiento social\/Estado). \u00c9 preciso viver com essa contradi\u00e7\u00e3o vital da hist\u00f3ria. N\u00e3o h\u00e1 receita, \u00e9 obrigat\u00f3rio tirar g\u00e1s e petr\u00f3leo do norte amaz\u00f4nico de La Paz. Por que? Porque necesitamos equilibrar as estruturas econ\u00f4micas da sociedade boliviana, porque o r\u00e1pido desenvolvimento de Tarija com 90% do g\u00e1s vai gerar desequilibrios a longo prazo. Igualmente, se requer excedentes econ\u00f3micos para refor\u00e7ar estruturas comunit\u00e1rias, para expandi-las, para buscar modos de moderniza\u00e7\u00e3o alternativos distintos da destrui\u00e7\u00e3o das estruturas comunais, como vem acontecendo at\u00e9 hoje. E, ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio impulsionar, em acordo com as comunidades, uma produ\u00e7\u00e3o hidrocarbonifera n\u00e3o depredarora do entorno.<\/p>\n<p><em>&#8211; Se as comunidades dizem que n\u00e3o, o Estado entrar\u00e1 de qualquer maneira?<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Garc\u00eda Linera:<\/strong> A\u00ed vem o debate, o que aconteceu? Quando consultamos \u00e0 CPILAP (Central de Povos Ind\u00edgenas de La Paz), nos pediram que fossemos consultar com Bruxelas com seu escritorio de advogados e que respeit\u00e1ssemos os enunciados ambientais publicados pela USAID. Como \u00e9 isso ent\u00e3o? Quem est\u00e1 impedindo que o Estado explore petr\u00f3leo no norte de La Paz: as comunidades ind\u00edgenas Tacanas, uma ONG, ou pa\u00edses estrangeiros? Por isso, fomos negociar comunidade por comunidade e encontramos ali o apoio das comunidades ind\u00edgenas para levar adiante a explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera. O governo ind\u00edgena-popular consolidou a longa marcha dos povos pela terra e pelo territorio. No caso dos povos ind\u00edgenas minorit\u00e1rios das terras baixas, o Estado consolidou milh\u00f5es de hectares como territorialidade hist\u00f3rica de muitos povos de pequena densidade demogr\u00e1fica; mas junto ao direito \u00e0 terra de um povo est\u00e1 o direito do Estado, do Estado conduzido pelo movimiento ind\u00edgena-popular e campon\u00eas, de sobrepor o interesse coletivo maior de todos os povos. E assim vamos proceder daqui para frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8211; agosto 2009\nEm entrevista ao Le Monde Diplomatique da Bol\u00edvia, dirigido por Pablo Stefanoni, o vice-presidente \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera analisa o atual momento pol\u00edtico do governo Evo Morales. Linera destaca as vit\u00f3rias pol\u00edticas e eleitorais do governo, mas adverte: &#8220;a direita sofreu um golpe pol\u00edtico, perdeu o mando do Estado, perdeu a capacidade de seduzir estatalmente \u00e0 sociedade, mas tem muito poder econ\u00f4mico ainda. \u00c9 diferente a forma de consolida\u00e7\u00e3o do ponto de bifurca\u00e7\u00e3o quando \u00e9 o setor popular o derrotado, pol\u00edtica e materialmente, que quando se trata do setor empresarial&#8221;.\nLe Monde Diplomatique Bol\u00edvia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/100\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-100","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c29-organizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1C","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}