{"id":10038,"date":"2015-12-10T09:18:06","date_gmt":"2015-12-10T12:18:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10038"},"modified":"2016-01-05T12:26:37","modified_gmt":"2016-01-05T15:26:37","slug":"o-livro-da-filha-de-prestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10038","title":{"rendered":"O livro da filha de Prestes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/anita-leocadia-prestes1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>A historiadora Anita Leocadia Prestes acaba de publicar uma extensa biografia do pai, o l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes. Fala muito pouco sobre a vida pessoal, mas esmi\u00fa\u00e7a a trajet\u00f3ria pol\u00edtica, sem desviar de temas espinhosos, como o justi\u00e7amento de uma simpatizante suspeita de trai\u00e7\u00e3o<!--more--><\/p>\n<p>Luiza Villam\u00e9a<\/p>\n<p>Na sala da historiadora Anita Leocadia Prestes, repleta de fotografias de Luiz Carlos Prestes, uma tela de Candido Portinari chama a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 um bel\u00edssimo retrato de Olga Ben\u00e1rio, pintado em 1945, a partir de uma fotografia publicada nos jornais. Encarregada pela Internacional Comunista de garantir a seguran\u00e7a de Prestes, Olga havia vivido de forma clandestina no Rio de Janeiro, mas ganhara notoriedade no Pa\u00eds ao ser presa junto com ele, depois de um levante frustrado contra o governo Get\u00falio Vargas. Tr\u00eas anos antes de ser retratada por Portinari, a comunista alem\u00e3 de origem judaica tinha sido morta em um campo de concentra\u00e7\u00e3o da Alemanha nazista, para onde fora deportada pelo governo Vargas, no s\u00e9timo m\u00eas de gravidez.<\/p>\n<p>\u201cPrestes viu esse retrato antes mesmo de ele ficar pronto, no est\u00fadio de Portinari, pouco depois de ser libertado\u201d, conta Anita, a filha do casal, na sala de seu apartamento, referindo-se aos nove anos que o pai amargou nos c\u00e1rceres, por conta do Levante Comunista de 1935. Anita nasceu em novembro do ano seguinte, na pris\u00e3o de Barnimstrasse, em Berlim, para onde Olga foi levada ao desembarcar na Alemanha. \u00c0s v\u00e9speras de completar 79 anos, Anita acaba de lan\u00e7ar a biografia<i>Luiz Carlos Prestes \u2013 Um Comunista Brasileiro<\/i>, pela Boitempo Editorial. Embora tenha uma s\u00f3lida produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, a historiadora sabe dos percal\u00e7os de biografar o pr\u00f3prio pai, que assessorou por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas e com quem tinha absoluta afinidade ideol\u00f3gica: \u201cTenho de correr o risco. N\u00e3o afirmo nada nesse livro que n\u00e3o esteja calcado em documentos\u201d.<\/p>\n<p>Parte desses documentos Anita encontrou em arquivos da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde morou em diferentes per\u00edodos, assim como Prestes. Quando chegou pela primeira vez a Moscou, no come\u00e7o dos anos 1930, ele tinha liderado no Brasil um movimento militar contra a Rep\u00fablica Velha e as elites agr\u00e1rias, que ficou conhecido como Coluna Prestes.Durante dois anos e meio, a Coluna percorreu 25 mil quil\u00f4metros pelo interior do Brasil. O movimento \u00e9 tema de outra obra de Anita, que assina mais dez livros e \u00e9 professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><i><b>Brasileiros \u2013 Quais as suas primeiras lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia?<\/b><\/i><\/p>\n<p><b>Anita Leocadia Prestes<\/b> \u2013 S\u00e3o do M\u00e9xico. Do per\u00edodo anterior, n\u00e3o tenho a menor lembran\u00e7a. Nasci na pris\u00e3o de Barnimstrasse, em Berlim, onde minha m\u00e3e estava presa, depois de extraditada pelo governo Get\u00falio Vargas. Ela chegou em um navio cargueiro alem\u00e3o. Estava no oitavo m\u00eas de gravidez. Chegou em outubro, eu nasci em novembro. Foi um m\u00eas de viagem. O navio tinha sa\u00eddo do Rio no dia 23 de setembro de 1936.<\/p>\n<p><i><b>N\u00e3o houve como interceptar o navio?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a e na Espanha, portu\u00e1rios amigos se prepararam para tentar resgat\u00e1-la, mas o capit\u00e3o tinha recebido ordem de n\u00e3o parar em nenhum porto. Levava Olga e Sabo (<i>como era conhecida Elise Saborowski Ewert<\/i>), as duas alem\u00e3s, judias, extraditadas para a Alemanha nazista. Um advogado franc\u00eas foi mandado a Hamburgo, onde elas desembarcaram, mas n\u00e3o conseguiu nem chegar perto. Voltou para Paris dizendo que o esquema de seguran\u00e7a era assustador.<\/p>\n<p><i><b>Por que Paris?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Paris era o centro de uma campanha mundial, dirigida por minha av\u00f3 paterna, Leocadia Prestes, pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos no Brasil. Prestes era o nome principal. Como minha m\u00e3e foi extraditada para a Alemanha nazista, a campanha era tamb\u00e9m pela liberta\u00e7\u00e3o dela e minha. Mandavam cartas do mundo inteiro, inclusive dos Estados Unidos. Eu era uma criancinha, emocionava a opini\u00e3o p\u00fablica. Com Olga, ficava mais dif\u00edcil. Ela era uma comunista conhecida, com a cabe\u00e7a a pr\u00eamio na Alemanha.<\/p>\n<p><i><b>Ela tinha comandado uma a\u00e7\u00e3o armada.<br \/>\n<\/b><\/i>Na pris\u00e3o de Moabit, em Berlim, para libertar o fil\u00f3sofo Otto Braun, anos antes. J\u00e1 o meu caso era de uma crian\u00e7a que corria o risco de ser mandada para um orfanato nazista. L\u00e1, a crian\u00e7a perdia o nome e virava um n\u00famero. Como a fam\u00edlia iria localizar, se sobrevivesse?<\/p>\n<p><i><b>Verdade que Olga s\u00f3 poderia ficar com voc\u00ea enquanto estivesse amamentando?<br \/>\n<\/b><\/i>E at\u00e9 nisso a campanha foi importante. Com os recursos arrecadados, todo m\u00eas a minha av\u00f3 e a minha tia mandavam um enorme pacote com alimentos para ela. Alimentos que n\u00e3o precisavam de ir ao fogo, como sol\u00faveis, chocolates, biscoitos. A Gestapo roubava uma parte, mas entregava outra. Com isso, a alimenta\u00e7\u00e3o dela melhorou muito e ela teve leite. Depois, com a press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, a Gestapo chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o melhor era se livrar de mim.<\/p>\n<p><i><b>Como foi isso?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Fui entregue a minha av\u00f3 e a minha tia quando tinha 14 meses, no dia 21 de janeiro de 1938. Fomos de trem para Paris, onde ficamos at\u00e9 outubro. Com o perigo da guerra, viajamos de navio para o M\u00e9xico, que estava dando asilo pol\u00edtico a todo mundo que precisava. Eu n\u00e3o tinha completado dois anos.<\/p>\n<p><i><b>O que voc\u00ea lembra do M\u00e9xico?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Lembro bem que na parede da sala tinha duas fotos grandes, do meu pai e da minha m\u00e3e. Todos me ensinavam quem era o pai, quem era a m\u00e3e, porque eles estavam presos, porque estavam ausentes. As cartas que chegavam eram lidas na minha presen\u00e7a. Havia muita solidariedade. Eu ganhava muitos brinquedos. Claro, tinha tamb\u00e9m o sofrimento da minha av\u00f3, com o filho preso no Brasil. Lembro da ang\u00fastia dela, esperando carta. Frequentemente n\u00e3o tinha not\u00edcia nenhuma. Ou vinham not\u00edcias alarmantes, de que ele tinha sido assassinado.<\/p>\n<p><i><b>Por quanto tempo ele ficou isolado?<\/b><\/i><\/p>\n<p>O tempo todo. Durante alguns per\u00edodos, n\u00e3o havia nem correspond\u00eancia. A primeira carta que ele recebeu foi em mar\u00e7o de 1937, um ano depois de ter sido preso. Foi quando soube do meu nascimento. Ele supunha que eu tivesse nascido, mas n\u00e3o sabia em que condi\u00e7\u00f5es nem o que tinha acontecido com a minha m\u00e3e. Come\u00e7ou a\u00ed uma correspond\u00eancia, mas muito irregular. Volta e meia a pol\u00edcia proibia as cartas. Ele ficou nove anos preso.<\/p>\n<p><i><b>Prestes acreditava que o tratamento que recebia podia ser vingan\u00e7a de Filinto M\u00fcller, o chefe da pol\u00edcia, que anos antes tinha sido expulso da Coluna?<br \/>\n<\/b><\/i>Sem d\u00favida. Filinto M\u00fcller era um su\u00ad\u00adjeito vingativo, mas a principal responsabilidade era de Vargas. Ali\u00e1s, o meu pai sempre falava isso. Que a extradi\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e foi uma maneira de tortur\u00e1-lo. A responsabilidade foi tamb\u00e9m do Supremo Tribunal Federal, que negou o habeas corpus pedido pelo advogado. Mas, voltando a sua pergunta inicial, minhas primeiras lembran\u00e7as s\u00e3o do M\u00e9xico, com meus pais muito presentes, mesmo presos em outros pa\u00edses. N\u00e3o tive grandes traumas. Embora houvesse um clima de tens\u00e3o, eu compreendia e aceitava. Inclusive o tempo todo me lembravam que existiam outras crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o muito pior, passando fome, no meio de uma guerra.<\/p>\n<p><i><b>Isso por iniciativa de dona Leocadia?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Dela e da minha tia Lygia. Elas me criaram muito nesse estado de esp\u00edrito. Depois, minha av\u00f3 morreu. Eu tinha s\u00f3 6 anos. Quem passou a ser a minha m\u00e3e na pr\u00e1tica foi a Lygia. Com ela passei inclusive quatro meses em Cuba, participando da Campanha Prestes, que continuava em 1943. L\u00e1 o regime era bastante democr\u00e1tico, embora o presidente fosse Fulgencio Batista, que depois virou ditador. Junto com Lygia, participei de muitos com\u00edcios. Era superfestejada.<\/p>\n<p><i><b>Quando voc\u00ea se encontrou com Prestes pela primeira vez?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Dois anos depois. Cheguei com minha tia no Aeroporto Santos Dumont, em 28 de outubro de 1945. Isso eu lembro bem. J\u00e1 estava com quase 9 anos. Tinha uma grande manifesta\u00e7\u00e3o. O partido estava legal. Chamava-se ent\u00e3o Partido Comunista do Brasil. Os companheiros tomaram conta do aeroporto. Foi permitido que o meu pai chegasse at\u00e9 a escada do avi\u00e3o. Os cord\u00f5es de isolamento tinham sido rompidos. A massa invadiu a pista. Sei que fiquei muito assustada. Fiquei com meu pai, atravessando aquela massa. Todo mundo queria me agarrar, me beijar. Uma loucura.<\/p>\n<p><i><b>Naquela \u00e9poca, voc\u00ea fazia ideia do que tinha sido a Coluna Prestes?<br \/>\n<\/b><\/i>Fazia, at\u00e9 porque o meu pai escrevia. Ele sempre falava sobre a Coluna, das andan\u00e7as pelo interior do Brasil, e em particular do rio Araguaia, que achava um dos lugares mais bonitos do mundo. Dizia que algum dia n\u00f3s ir\u00edamos de Jipe at\u00e9 o Araguaia, para ele me mostrar o rio, mas isso nunca aconteceu. Ficou s\u00f3 no plano.<\/p>\n<p><i><b>E a biografia dele, quando voc\u00ea decidiu escrever?<br \/>\n<\/b><\/i>Esse trabalho come\u00e7ou h\u00e1 mais de 30 anos, quando resolvi estudar Hist\u00f3ria. Antes disso, tinha me formado em Qu\u00edmica em 1964 e feito est\u00e1gio na f\u00e1brica de borracha da Petrobras, em Duque de Caxias. Com o golpe, todo mundo que era de esquerda foi posto para fora e n\u00e3o arrumava outro emprego. Fiquei no trabalho pol\u00edtico, no Rio. Depois, fui para o trabalho clandestino do partido em S\u00e3o Paulo. No in\u00edcio dos anos 1970, como a repress\u00e3o estava muito violenta, fui para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. L\u00e1, fiz uma tese de Economia Pol\u00edtica. Integrei o Comit\u00ea Central do PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Quando voltei do ex\u00edlio, uma das preocupa\u00e7\u00f5es era que meu pai estava com mais de 80 anos e n\u00e3o queria escrever suas mem\u00f3rias. Mas tinha uma mem\u00f3ria espetacular.<\/p>\n<p><i><b>Ele falava do passado?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Ele era um cara que gostava muito de conversar, de contar as hist\u00f3rias da Coluna, n\u00e3o s\u00f3 para mim, mas para quem quisesse ouvir. Fizemos muitas grava\u00e7\u00f5es. Na qualidade de historiadora, n\u00e3o me limitei s\u00f3 a ele. Tr\u00eas anos atr\u00e1s, fui a Moscou, para pesquisar nos arquivos da Internacional Comunista. Trabalhei por per\u00edodos, at\u00e9 chegar em 1990, quando ele morreu. Ele viveu 92 anos, sendo 70 de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica intensa, no Brasil e no Exterior. Descobri tamb\u00e9m uma fonte interessant\u00edssima, que \u00e9 o arquivo do ex-presidente Artur Bernardes.<\/p>\n<p><i><b>Contra o qual a Coluna se levantou.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Nesse arquivo tem documentos superinteressantes, como os telegramas dos comandantes militares governistas para o ministro da Guerra, que eram repassados para Artur Bernardes. O ministro tamb\u00e9m escrevia relat\u00f3rios: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel combater uma tropa que foge o tempo todo\u201d. Isso porque a Coluna evitava o confronto direto. Fazia guerra de movimento. J\u00e1 os governistas tinham aprendido com os franceses as normas da guerra de posi\u00e7\u00e3o. Abriam trincheiras, se instalavam e ficavam esperando o ataque. J\u00e1 a Coluna estava interessada em driblar, n\u00e3o em atacar.<\/p>\n<p><i><b>De onde Prestes tirou a ideia de guerra de movimento?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Da pr\u00e1tica, da experi\u00eancia no Sul. Ele sempre falava nas guerras a cavalo entre oligarcas ga\u00fachos. Da\u00ed encontrou a sa\u00edda, por exemplo, para o chamado Cerco de S\u00e3o Lu\u00eds, no come\u00e7o da Coluna. A despropor\u00e7\u00e3o era muito grande. O governo estava com 14 mil homens bem armados. Reunida sob o comando de Prestes, a Coluna tinha 1,5 mil homens, mal armados. Um fuzil para cada dois. Um confronto direto seria morte certa. Mas a Coluna tinha as potreadas, pequenos grupos de soldados que se destacavam do grosso da tropa em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre o inimigo e sobre o terreno. Com essas informa\u00e7\u00f5es, o comando tra\u00e7ava o plano de opera\u00e7\u00f5es. Enfim, naquela ocasi\u00e3o eram sete colunas governistas, cada uma com dois mil homens, que marchavam para cercar a cidade de S\u00e3o Lu\u00eds e liquidar os rebeldes. S\u00f3 que eles conseguiram passar entre duas colunas sem serem vistos e seguir para o Norte. Quando as tropas governistas entraram em S\u00e3o Lu\u00eds, n\u00e3o tinha nenhum rebelde.<\/p>\n<p><i><b>Prestes proibiu a presen\u00e7a de mulheres entre os combatentes, mas elas n\u00e3o obedeceram. Qual o papel das mulheres na Coluna?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Foi logo no in\u00edcio, quando atravessaram o rio Uruguai, na fronteira com Santa Catarina. Ele deu ordens para as mulheres n\u00e3o atravessarem. Tinha medo que elas perturbassem a Coluna. Quando ele chegou do outro lado do rio, pois foi o \u00faltimo a atravessar, elas estavam todas l\u00e1. Eram 30 mulheres do Rio Grande, que depois se juntaram com as de S\u00e3o Paulo. Dava ao todo umas 50 mulheres. Mais tarde, Prestes reconheceu que foram muito \u00fateis na Coluna, n\u00e3o s\u00f3 para cozinhar. Elas combatiam com um hero\u00edsmo enorme. Uma delas, a ga\u00facha Santa Rosa, teve um filho pelo caminho, com o inimigo vindo atr\u00e1s. N\u00e3o dava para parar. Ent\u00e3o, ela teve o filho, montou o cavalo e continuou a marcha.<\/p>\n<p><i><b>Qual li\u00e7\u00e3o Prestes tirou dessa marcha?<\/b><\/i><\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o principal foi ter conhecido a situa\u00e7\u00e3o do povo brasileiro. Ele era engenheiro militar, chegou a capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Sempre dizia que eles, oficiais formados em escolas militares no Rio de Janeiro, ficaram profundamente impressionados com a mis\u00e9ria que existia no interior do Brasil. E ele chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o programa liberal dos tenentes n\u00e3o iria resolver nada. Que o problema era social, muito mais grave.<\/p>\n<p><i><b>Como ele analisava a situa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Na \u00e9poca, ele n\u00e3o tinha a menor no\u00e7\u00e3o de marxismo, comunismo, nada disso. Politicamente, esses militares eram muito atrasados. Cheios de boas inten\u00e7\u00f5es, mas conhecimento, que \u00e9 bom, muito pouco. Ele sempre sublinhava isso. Quando eles se internaram na Bol\u00edvia, em fevereiro de 1927, estava havendo uma certa abertura democr\u00e1tica no Brasil. O estado de s\u00edtio e a censura \u00e0 imprensa tinham sido levantados.<\/p>\n<p><i><b>O que aconteceu?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Jornalistas dos principais jornais do Brasil foram a Gaiba, na Bol\u00edvia, onde estava a Coluna. Eles fizeram reportagens imensas. Um dos jornalistas levou os primeiros livros marxistas para Prestes. As condi\u00e7\u00f5es eram muito adversas para o estudo. Eles trabalhavam de sol a sol, abrindo estrada de rodagem. Meu pai morava em uma esp\u00e9cie de cabana, constru\u00edda por ele mesmo. \u00c0 noite, come\u00e7ou a ler alguma coisa. Depois, esteve na Bol\u00edvia Astrogildo Pereira, o secret\u00e1rio-geral do PCB.<\/p>\n<p><i><b>\u00c9 quando Prestes vira comunista?<\/b><\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o. Foi s\u00f3 uma conversa amistosa, sem maiores compromissos. Prestes tinha muito interesse sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que era um neg\u00f3cio muito misterioso. Astrogildo Pereira tinha estado l\u00e1, contou muita coisa. E levou uma maleta de livros marxistas para ele. Prestes ficou ainda mais um ano na Bol\u00edvia, para ganhar dinheiro e assegurar a volta dos soldados para casa. S\u00f3 depois \u00e9 que ele foi para o ex\u00edlio em Buenos Aires.<\/p>\n<p><i><b>J\u00e1 era chamado de Cavaleiro da Esperan\u00e7a?<br \/>\n<\/b><\/i>Ele estava na mis\u00e9ria, mas com muito prest\u00edgio. E come\u00e7ou a ser chamado de Cavaleiro da Esperan\u00e7a. Uma quantidade enorme de pol\u00edticos brasileiros foi a Buenos Aires para tentar conquist\u00e1-lo para a Alian\u00e7a Liberal. Ele ficou cercado por essa gente, mas tinha que trabalhar para sobreviver. Ao mesmo tempo, estudava marxismo. Em Buenos Aires ficava o bureau sul-americano da Internacional Comunista.<\/p>\n<p><i><b>Ele mantinha v\u00ednculos com os comunistas brasileiros?<br \/>\n<\/b><\/i>Pelo contr\u00e1rio. Os comunistas dessa \u00e9poca eram muito sect\u00e1rios. Achavam que ele era um l\u00edder pequeno burgu\u00eas. Estavam no per\u00edodo do chamado obreirismo. At\u00e9 Astrogildo Pereira, fundador do partido, tinha sido afastado, porque era intelectual. Isso s\u00f3 vai mudar em 1934. Ainda assim, em Buenos Aires, desde 1929 Prestes fazia todo um esfor\u00e7o para conquistar seus companheiros tenentes para as posi\u00e7\u00f5es comunistas. Sem sucesso. Eles aderiram \u00e0 Alian\u00e7a Liberal e deixaram passar a ideia de que Prestes tamb\u00e9m apoiava o movimento. Como naquela \u00e9poca n\u00e3o existiam os meios de comunica\u00e7\u00e3o de hoje, Prestes ficou falando sozinho em Buenos Aires.<\/p>\n<p><i><b>Ficou por isso mesmo?<br \/>\n<\/b><\/i>Em maio de 1930, ele convocou as principais lideran\u00e7as tenentistas para Buenos Aires, para informar que lan\u00e7aria um manifesto assumindo posi\u00e7\u00f5es comunistas. Ningu\u00e9m aceitou. Os tenentes tentaram convenc\u00ea-lo a aderir ao movimento mais tarde conhecido como Revolu\u00e7\u00e3o de 1930. Naquele momento, o poder foi oferecido a Prestes de bandeja. Na \u00e9poca, ele era a maior lideran\u00e7a do Pa\u00eds. Poderia ocupar o lugar de Get\u00falio, que n\u00e3o tinha tanto prest\u00edgio naquele tempo. S\u00f3 vai adquirir depois. Mas Prestes entendeu que n\u00e3o havia um movimento popular organizado para lhe dar sustenta\u00e7\u00e3o e que ele teria de fazer a pol\u00edtica das oligarquias. At\u00e9 hoje grande parte dos historiadores n\u00e3o entende isso. Prestes cometeu erros na vida, que ele mesmo reconheceu, mas isso foi acertado.<\/p>\n<p><i><b>Quais erros ele reconhecia?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Erros cometidos \u00e0 frente do partido, como em 1935. Ele reconhecia que na \u00e9poca consideraram erradamente que havia uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria no Brasil. Houve erros, mas houve acertos tamb\u00e9m. Foi importante criar a Alian\u00e7a Nacional Libertadora, que chegou a ter 100 mil pessoas inscritas, e lutar contra o fascismo, o integralismo, o imperialismo e o latif\u00fandio. As bandeiras eram essas. N\u00e3o eram bandeiras comunistas. Eram de liberdades democr\u00e1ticas, progressistas.<\/p>\n<p><i><b>No livro, a responsabilidade sobre os erros de 1935 recai sobre Miranda (<\/b><\/i><b>codinome de Ant\u00f4nio Maciel Bonfim<\/b><i><b>).<\/b><\/i><\/p>\n<p>Miranda foi altamente respons\u00e1vel. Ele era o secret\u00e1rio-geral do partido e convenceu os sovi\u00e9ticos de que havia condi\u00e7\u00f5es para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o no Brasil. Ele informava errado o pr\u00f3prio Prestes, que estava fora do Brasil havia muitos anos. Depois do ex\u00edlio em Buenos Aires, Prestes ficou no Uruguai, onde havia o bureau latino-americano da Internacional Comunista. Em Montevid\u00e9u, foi convidado para ir para Moscou, como engenheiro, mas com a possibilidade de aprofundar os estudos do marxismo. Enfim, no final de 1934, quando sua volta ao Brasil \u00e9 decidida, ele estava muito mal informado. Tinha sa\u00eddo do Pa\u00eds em 1927, sendo que nos tr\u00eas anos anteriores esteve embrenhado no mato, com a Coluna.<\/p>\n<p><i><b>Ele confiou ent\u00e3o nos informes de Miranda?<br \/>\n<\/b><\/i>Pelos relatos de Miranda, o Brasil estava \u00e0s v\u00e9speras de uma revolu\u00e7\u00e3o. Trabalhei em uma documenta\u00e7\u00e3o interessante, as atas de uma confer\u00eancia dos partidos comunistas latino-americanos realizada em Moscou em outubro de 1934. Nessas reuni\u00f5es, as informa\u00e7\u00f5es que Miranda deu s\u00e3o incr\u00edveis. Disse que bastaria uma palavra de Prestes para que as tropas do Ex\u00e9rcito brasileiro se levantassem e apoiassem a revolu\u00e7\u00e3o. Um neg\u00f3cio totalmente sem sentido. Naquela \u00e9poca, os comunistas acreditavam muito no secret\u00e1rio-geral. Era algo assim mitol\u00f3gico.<\/p>\n<p><i><b>Quem era Miranda?<br \/>\n<\/b><\/i>Ele era sargento do Ex\u00e9rcito e tinha sido professor na Bahia. Falava muito bem franc\u00eas. Parece que tinha facilidade para aprender l\u00ednguas. Em Moscou ele impressionou por causa disso. Dimitri Manuilski, o chefe da Internacional, falava franc\u00eas.<\/p>\n<p><i><b>Prestes tamb\u00e9m.<br \/>\n<\/b><\/i>Naquela \u00e9poca, estudava-se franc\u00eas. Prestes e dona Leocadia eram pessoas cultas, que tinham estudado franc\u00eas desde a inf\u00e2ncia. O Miranda n\u00e3o sei onde ele estudou, mas ele falava bem. Isso impressionou. E tinha cara dura para contar todas aquelas mentiras. Ent\u00e3o a responsabilidade dele foi muito grande. Havia ainda um agravante. Prestes teve que vir clandestino para o Brasil, porque havia uma ordem de pris\u00e3o preventiva contra ele. Ele voltou para o Pa\u00eds, mas ficou muito isolado.<\/p>\n<p><i><b>Ele tinha mais contato com os estrangeiros, que vieram preparar\u2026<\/b><\/i><\/p>\n<p>Vieram ajudar. N\u00e3o vieram preparar. Vieram o qu\u00ea? Uns dez comunistas estrangeiros para dar apoio. Todo mundo pensando que havia aquelas condi\u00e7\u00f5es que o Miranda tinha descrito. Mas n\u00e3o havia tais condi\u00e7\u00f5es. Naquele in\u00edcio dos anos 1930, tinha ocorrido uma reestrutura\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, dirigida pelo general G\u00f3es Monteiro. O Ex\u00e9rcito era outro.<\/p>\n<p><i><b>Como Miranda chegou a secret\u00e1rio-geral?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Como sargento, ele tinha participado de v\u00e1rios movimentos. Esteve preso no in\u00edcio dos anos 1930. Antes de 1935, participou de um curso de marxismo dado no Brasil por uma dirigente russa conhecida como In\u00eas Guralski. Pelo visto, era muito bom de bico, pois se destacou nesse curso e acabou sendo eleito secret\u00e1rio-geral. Naquela \u00e9poca, o partido era muito limitado, muito atrasado. Depois de 1935, ele foi preso, falou muito na pris\u00e3o e se desmoralizou bastante. Tamb\u00e9m foi muito torturado.<\/p>\n<p><i><b>Em algum momento, Prestes reviu a ordem de justi\u00e7amento de Elvira Caloni, a Garota, a namorada de Miranda?<br \/>\n<\/b><\/i>Na \u00e9poca, ele negou peremptoriamente, embora existissem cartas assinadas por ele nesse sentido. Em 1940, quando foi instaurado um processo sobre a morte dela, ele continuou negando. Hoje, passados tantos anos, vendo as cartas, a gente sabe que s\u00e3o verdadeiras. E foi um erro. Foi um erro n\u00e3o s\u00f3 dele. Foi um erro do partido.<\/p>\n<p><i><b>Ele chegou a conversar com voc\u00ea sobre isso?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Conversamos algumas vezes. Ele considerava que tinha sido errado. Sem d\u00favida que foi errado, mas naquele momento era a guerra. E ele tinha a experi\u00eancia da Coluna. Ela estava traindo, fazendo o trabalho do inimigo. Se era traidora, estava prejudicando.<\/p>\n<p><i><b>Havia um espi\u00e3o no pr\u00f3prio grupo organizado pela Internacional Comunista.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Teve o famoso Gruber (<i>Franz Paul Gruber, codinome do alem\u00e3o Joahnn de Graaf<\/i>). Um cara super-h\u00e1bil, especialista em explosivo, com curso na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Foi ele que colocou o explosivos no cofre que tinha na casa de meu pai, que explodiria se algu\u00e9m mexesse. Mas o cofre n\u00e3o explodiu. \u00c9 evidente que Gruber sabotou. Mais do que isso, ele passava informa\u00e7\u00e3o, por meio da empresa Light, que chegava a Get\u00falio. Trabalhava para o <i>Intelligence Service<\/i>, o Servi\u00e7o Secreto da Inglaterra. \u00c9 uma hist\u00f3ria rocambolesca, mas hoje em dia est\u00e1 mais do que provado que ele era espi\u00e3o.<\/p>\n<p><i><b>Dez anos depois do levante, Prestes apoiou Get\u00falio. Como ele p\u00f4de apoiar um regime t\u00e3o cruel, que torturou, que mandou Olga para a Alemanha nazista?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 mal contada. N\u00e3o foi quando ele saiu da pris\u00e3o, em 1945. Foram v\u00e1rios anos antes, quando Get\u00falio e alguns assessores perceberam que os acontecimentos n\u00e3o marchavam para a vit\u00f3ria do nazifascismo, como eles pensavam no in\u00edcio. Get\u00falio come\u00e7ou ent\u00e3o a promover uma certa abertura dentro do pr\u00f3prio Estado Novo. A situa\u00e7\u00e3o mundial estava mudando, havia uma press\u00e3o muito grande do governo americano para que o Brasil se afastasse da Alemanha. Havia tamb\u00e9m um movimento popular muito forte a favor da luta contra o nazifascismo. Os comunistas participaram ativamente desse movimento. Na medida em que Get\u00falio Vargas tomou medidas nesse sentido, Prestes achou importante apoi\u00e1-lo. Essa foi a posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><i><b>Houve um acordo?<\/b><\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o. Nenhum documento assinado. Prestes nunca apertou a m\u00e3o de Get\u00falio. Nada disso. A posi\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o era pessoal. Muitas vezes, eu ouvi Prestes dizer que, se fosse do ponto de vista pessoal, ele sairia da pris\u00e3o para dar um tiro em Get\u00falio. Mas ele era um dirigente pol\u00edtico. Em 1943, ainda preso, tinha sido eleito secret\u00e1rio-geral do partido. Precisou tomar uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o se tratava de perdoar Vargas. Existe uma foto de 1947, muito explorada pela direita, em que os dois est\u00e3o no mesmo palanque. Isso porque os partidos que lideravam apoiavam um determinado candidato. Os dois estiveram no mesmo palanque, mas n\u00e3o se falaram.<\/p>\n<p><i><b>O fato de voc\u00ea ser filha dele ajudou ou dificultou ao fazer a biografia?<br \/>\n<\/b><\/i>N\u00e3o sei. Muita gente vai dizer que \u00e9 obra da filha elogiando o pai. Paci\u00eancia. Tenho de correr o risco. N\u00e3o afirmo nada nesse livro que n\u00e3o esteja calcado em documentos. Por outro lado, o fato de ser filha facilitou porque tive uma fonte \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o durante um per\u00edodo muito grande de minha vida. Cheguei a conhecer bem o pensamento dele, a maneira de ele agir.<\/p>\n<p><i><b>Voc\u00ea se considera uma guardi\u00e3 do legado de Prestes?<br \/>\n<\/b><\/i>Dizer guardi\u00e3 \u00e9 meio exagerado, mas tenho uma certa responsabilidade de contribuir para isso. Outros companheiros tamb\u00e9m trabalham nessa dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou sozinha, mas acho que tenho essa responsabilidade.<\/p>\n<p><i><b>Na adolesc\u00eancia, voc\u00ea estudou em Moscou. Por qu\u00ea?<br \/>\n<\/b><\/i>O partido achou que eu corria muito risco aqui. Sa\u00ed daqui no final de 1950. Era \u00e9poca da Guerra Fria, governo Dutra, muitos comunistas sendo presos, assassinados. Havia amea\u00e7as. A mim n\u00e3o me diziam, mas minhas tias recebiam cartas an\u00f4nimas com amea\u00e7as. Ent\u00e3o o partido achou melhor eu ir para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Cheguei l\u00e1 com 14 anos.<\/p>\n<p><i><b>S\u00f3 quando voltou, com quase 21 anos, voc\u00ea ficou sabendo que Prestes tinha se casado, tinha outra fam\u00edlia. Como foi?<br \/>\n<\/b><\/i>Nem eu nem minhas tias sab\u00edamos. Prestes contava tudo, dentro das possibilidades, mas ele estava clandestino. Essa fam\u00edlia era clandestina. Estava em um aparelho do partido. Ent\u00e3o, n\u00e3o era conveniente falar, ainda mais por carta. Quando cheguei, ele apresentou essa fam\u00edlia, mas, lamentavelmente, dona Maria, desde o primeiro dia, foi extremamente hostil em rela\u00e7\u00e3o a mim e \u00e0s minhas tias.<\/p>\n<p><i><b>Por isso voc\u00ea n\u00e3o se relaciona com seus sete irm\u00e3os?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Aconteceram muitas coisas. Meu pai nunca quis voltar para o Ex\u00e9rcito. Nem quando estava doente, no final da vida. A situa\u00e7\u00e3o financeira era dif\u00edcil, mas ele jamais aceitou. Jamais. Depois que ele morreu, dona Maria pediu para ele ser promovido. E o Ex\u00e9rcito fez uma manobra muito interessante, uma maneira de integrar o Prestes no sistema.<\/p>\n<p><i><b>Qual?<\/b><\/i><\/p>\n<p>Ele foi promovido <i>post mortem <\/i>a coronel. O general da Coluna foi promovido a coronel de pijama. Resultado: pens\u00e3o para a mulher e as filhas mulheres. Um belo dia eu recebi uma convoca\u00e7\u00e3o, pois tinha direito a uma parte desses proventos. Fiz uma declara\u00e7\u00e3o dizendo que eu n\u00e3o aceitava de jeito nenhum. Mais adiante, acho que j\u00e1 em 2004, ela recorreu para ele ser promovido a general. Deram a pens\u00e3o de general. Ele seria furiosamente contra. Depois, publicaram na capa de uma revista de Hist\u00f3ria uma foto dele de cal\u00e7\u00e3o de banho. Quando ia \u00e0 praia, ele colocava cal\u00e7\u00e3o de banho. Mas era um homem extremamente contido, n\u00e3o aceitaria de maneira nenhuma aparecer de p\u00fablico de cal\u00e7\u00e3o de banho.<\/p>\n<p><i><b>Voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o aceita? Aquela foto \u00e9 t\u00e3o bonita.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Prestes seria totalmente contra. Eu me lembro como ele ficou indignado com Figueiredo (<i>o ex-presidente Jo\u00e3o Figueiredo<\/i>), que apareceu no jornal de cal\u00e7\u00e3o e sem camisa. Ficou indignado: \u201cEsse homem nu\u201d. Ele n\u00e3o ficava em casa sem camisa de jeito nenhum.<\/p>\n<p><i><b>H\u00e1 quem diga que voc\u00ea \u00e9 que \u00e9 intransigente.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Eu sou intransigente com o que acho errado. Ele era uma pessoa que prezava muito a privacidade. Tem de respeitar. N\u00e3o sou contra colocar mai\u00f4, mas tudo tem hora.<\/p>\n<p><i><b>Voltando \u00e0 pol\u00edtica, em 1964, o partido estava forte. Por que n\u00e3o apresentou nenhuma rea\u00e7\u00e3o ao golpe?<\/b><\/i><\/p>\n<p><i><b><\/b><\/i>Forte n\u00e3o era. Tinha lideran\u00e7as sindicais. N\u00e3o tinha capacidade para organizar as for\u00e7as sociais e pol\u00edticas para dar apoio a Jango e \u00e0s reformas de base. E n\u00e3o tinha sustenta\u00e7\u00e3o para apoi\u00e1-lo na hora do golpe da direita. N\u00e3o havia golpe de esquerda. A \u00fanica coisa razo\u00e1vel a ser feita era recuar. Foi o que se fez. Sen\u00e3o seria uma matan\u00e7a generalizada.<\/p>\n<p>http:\/\/brasileiros.com.br\/2015\/12\/o-livro-da-filha-de-prestes\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A historiadora Anita Leocadia Prestes acaba de publicar uma extensa biografia do pai, o l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes. 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