{"id":10175,"date":"2015-12-31T16:05:03","date_gmt":"2015-12-31T19:05:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10175"},"modified":"2016-02-02T18:04:11","modified_gmt":"2016-02-02T21:04:11","slug":"venezuela-entrevista-com-amilcar-figueroa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10175","title":{"rendered":"Venezuela &#8211; entrevista com Am\u00edlcar Figueroa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/venezuela_am%C3%ADlcar_figueroa_reprodu%C3%A7%C3%A3o_0.gif?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Entrevista publicada no seman\u00e1rio Sermos Galiza, n\u00famero 176.<\/p>\n<p>Carlos Morais entrevista Am\u00edlcar Figueroa, historiador, destacado militante da esquerda revolucion\u00e1ria venezuelana, ex-Presidente Alterno do Parlamento Latino-americano (2006-2008 e 2008-2010), membro da Presid\u00eancia Coletiva do MCB.<!--more--><\/p>\n<p>Os resultados das elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 6D (6 de dezembro) foram adversos para o chavismo. Podemos interpret\u00e1-los como in\u00edcio do fim do processo bolivariano?<\/p>\n<p>Os n\u00fameros apresentados pelo 6D expressam uma correla\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-eleitoral que de maneira nenhuma \u00e9 im\u00f3vel. \u00c9 necess\u00e1rio observar como continuam se comportando as vari\u00e1veis que incidiram nesse resultado que, ainda quando d\u00e1 \u00e0s direitas uma vantagem para al\u00e9m de qualquer progn\u00f3stico quanto \u00e0 quantidade de deputados obtidos (112 de 167), sendo mais o produto de uma absten\u00e7\u00e3o de certa por\u00e7\u00e3o do eleitorado chavista (1.978.629) que de um aumento demasiado avultado da oposi\u00e7\u00e3o (343.434 votos). Al\u00e9m disso, votaram a favor do processo 5.608.950 eleitores, contingente nada desprez\u00edvel considerando as condi\u00e7\u00f5es do momento pol\u00edtico onde se levaram a cabo ditas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma revis\u00e3o realista e de leitura profunda das raz\u00f5es do descontentamento no interior da milit\u00e2ncia bolivariana se imp\u00f5e como uma necessidade urgente e \u00e9, tamb\u00e9m, um condicionante para a recupera\u00e7\u00e3o das for\u00e7as revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as causas reais desta insatisfa\u00e7\u00e3o de amplos setores populares com a Revolu\u00e7\u00e3o? A guerra econ\u00f4mica promovida pelos Estados Unidos expressa em desabastecimento de produtos b\u00e1sicos, dolariza\u00e7\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o, sabotagem el\u00e9trica&#8230; \u00e9 a principal explica\u00e7\u00e3o, ou temos que buscar causas no interior do chavismo, como a burocracia parasit\u00e1ria, a corrup\u00e7\u00e3o, lutas internas entre as fra\u00e7\u00f5es mais conservadoras do movimento bolivariano, a infiltra\u00e7\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o em um aparato de estado burgu\u00eas que, ap\u00f3s 17 anos, se mant\u00e9m intacto?<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rios tipos de problemas. A queda do pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo afeta as margens de manobra do Estado venezuelano. Lembremos que nossa sociedade possui um d\u00e9ficit hist\u00f3rico de produtividade. Sua economia, por um s\u00e9culo, dependeu fundamentalmente da receita petroleira. \u00c9 claro que a severa baixa no pre\u00e7o do barril ia ter incid\u00eancia. Chegou-se a um ponto no qual apenas por vontade pol\u00edtica as pol\u00edticas sociais foram mantidas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel administrar a crise capitalista para avan\u00e7ar na reforma social progressiva, que vinha se desenvolvendo no caminho da constru\u00e7\u00e3o do Estado Comunal. Era preciso se chocar com a burguesia e no processo bolivariano, certamente, tinham se dado transforma\u00e7\u00f5es sem se produzir um choque frontal com a mesma. Nunca, por exemplo, se peitou o capital financeiro, mecanismo de onde poderiam sair os recursos que compensariam a baixa na receita petroleira. O que quero dizer \u00e9 que tinha chegado o momento em que n\u00e3o poderiam coexistir os dois modelos. A burguesia, com s\u00e9culos de aprendizagem no exerc\u00edcio da domina\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o tenha parado nunca sua luta contrarrevolucion\u00e1ria, aguardava um melhor momento para uma diminui\u00e7\u00e3o da luta de classes e esse momento adveio com a morte f\u00edsica do Comandante Ch\u00e1vez, de cuja lideran\u00e7a e capacidade de unir todas as for\u00e7as revolucion\u00e1rias ningu\u00e9m tem d\u00favidas. Da\u00ed em diante, poderia colocar em pr\u00e1tica m\u00faltiplas linhas de sabotagem e conspira\u00e7\u00e3o, muitas delas ensaiadas na derrubada de outros regimes populares no continente e, desta forma, foram impondo seu ritmo.<\/p>\n<p>Na minha concep\u00e7\u00e3o, ocorreu um ponto de inflex\u00e3o do processo no momento em que um n\u00edtido representante do sistema do capital \u2013 Lorenzo Mendoza \u2013 se dirigiu ao pa\u00eds desde Miraflores (a Casa de Governo). Foi o sinal de que o m\u00e9todo criminoso \u2013 a \u201cguarimba\u201d \u2013 impulsionado pela burguesia, tinha for\u00e7ado uma negocia\u00e7\u00e3o: o caminho para o socialismo ficava seriamente comprometido.<\/p>\n<p>De tal forma, buscar as origens do resultado eleitoral, da mudan\u00e7a da correla\u00e7\u00e3o eleitoral nos remete a momentos anteriores. O capital impulsionou a dolariza\u00e7\u00e3o por meio de a\u00e7\u00f5es, monopolizou produtos, desatou sua l\u00f3gica de extra\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo lucro no com\u00e9rcio de mercadorias, uma vez que cooptou funcion\u00e1rios e perverteu e\/ou deturpou todos os programas assistencialistas do Estado e por esta via reduziu o impacto pol\u00edtico dos mesmos. Cuidou-se, tamb\u00e9m, de mostrar seu programa neoliberal. N\u00e3o fez maior propaganda p\u00fablica, por\u00e9m, nas filas geradas pela acumula\u00e7\u00e3o dos produtos, seus agentes faziam uma intensa agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao lado dessas a\u00e7\u00f5es promovidas por nossos advers\u00e1rios, se colocam uma serie de erros, de condutas n\u00e3o revolucion\u00e1rias no interior do processo, que vinham sendo advertidas por muitos homens e mulheres que, das fileiras do chavismo, levantavam a arma da cr\u00edtica, quest\u00e3o mal recebida desde a mais alta dire\u00e7\u00e3o do Estado e do Partido, e frente a qual chegou a hora de mudar de atitude para retomar o caminho da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste novo cen\u00e1rio, que margens o processo possui para reconduzir a situa\u00e7\u00e3o, defender as conquistas sociais e trabalhistas, a independ\u00eancia e a soberania da Venezuela?<\/p>\n<p>Quem pensa que a \u201cdualidade de poderes\u201d ou o \u201cimpasse catastr\u00f3fico\u201d entre o mundo do capital e o mundo do trabalho pelos quais atravessa o processo venezuelano j\u00e1 foram resolvidos, que n\u00e3o se obteve \u201co ponto de n\u00e3o retorno\u201d e que nossa sociedade retroceder\u00e1 ao passado sem passar por um intenso per\u00edodo de mobiliza\u00e7\u00e3o e instabilidade pol\u00edtica, faz uma leitura equivocada do problema ou \u00e9 simplesmente um derrotista. Agora, uma sacudida revolucion\u00e1ria percorre as bases do chavismo, efervesc\u00eancia que se expressa em diferentes espa\u00e7os do pa\u00eds, que supera os marcos da democracia liberal e que tocou \u00e0s portas de Miraflores. O Presidente Maduro, que come\u00e7ou por reconhecer alguns erros, manifesta sua vontade de ouvir o movimento popular. A retifica\u00e7\u00e3o se coloca na ordem do dia: superar os v\u00edcios de nepotismo, amiguismo, ina\u00e7\u00e3o e\/ou cumplicidade frente \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o constituem parte das reivindica\u00e7\u00f5es do movimento de base. Mas, al\u00e9m disso, se imp\u00f5e uma revis\u00e3o da pol\u00edtica. Em definitivo, s\u00e3o gerados novos cen\u00e1rios onde no protagonismo que assumem Conselhos, Comunas e demais componentes do sujeito revolucion\u00e1rio estar\u00e1 a sorte da Revolu\u00e7\u00e3o, decidir\u00e1 a favor de que romper a dualidade. Tudo isso em um ambiente onde a direita come\u00e7a a desvelar seu verdadeiro programa, quest\u00e3o que logicamente modificar\u00e1 a vis\u00e3o de muitos de seus eleitores.<\/p>\n<p>Em meio a este dilema, velhos pol\u00edticos levantam tamb\u00e9m, a partir de outra perspectiva, ideias que aponta, para a forma\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio de concilia\u00e7\u00e3o. O jogo est\u00e1 para ser definido.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana foi e \u00e9 uma refer\u00eancia para os povos do mundo. Por\u00e9m, a esta altura, tudo indica que perdeu o horizonte socialista e se apresenta instalada em um modelo de capitalismo de estado de car\u00e1ter nacional, onde o Socialismo \u00e9 mais uma ret\u00f3rica, uma consigna vazia de conte\u00fado que uma realidade. Tal como voc\u00ea afirma em seu \u00faltimo ensaio, \u201cn\u00e3o se produziu nas diferentes inst\u00e2ncias pol\u00edticas do processo um debate profundo a respeito de como entender a transi\u00e7\u00e3o socialista em uma sociedade como a venezuelana e nas condi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n<p>Efetivamente, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana \u00e9 uma refer\u00eancia para al\u00e9m das fronteiras nacionais. Ela irrompeu em tempos de muita \u201cseca revolucion\u00e1ria\u201d em escala planet\u00e1ria e, portanto, transformou-se rapidamente em um farol que irradiava esperan\u00e7as para os explorados e oprimidos do mundo. Por\u00e9m, foi particularmente paradigm\u00e1tica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, tanto que n\u00e3o s\u00f3 resgatou a pertin\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias nesta \u00e9poca de decad\u00eancia da sociedade burguesa, como levantou com for\u00e7a, obtendo importantes concretiza\u00e7\u00f5es, a ideia de unidade continental, da P\u00e1tria Grande, bandeira de luta de nossos pais Libertadores.<\/p>\n<p>Reverter um processo no qual nasceram a Alba, Unasul e demais esfor\u00e7os integracionistas e liquidar os instrumentos unionistas (Telesur, Petrocaribe, etc.) sempre esteve na agenda dos imperialistas, em especial agora quando os Estados Unidos levam adiante uma contraofensiva com o prop\u00f3sito de recolonizar o continente, de reverter todos os avan\u00e7os quanto \u00e0 unidade de nossos povos. Cabe ao povo trabalhador comandar este processo de unidade e transforma\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI. Nesse contexto, defender a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, revigorar a Revolu\u00e7\u00e3o na Venezuela \u00e9 mais que urgente. \u00c9 uma necessidade para os povos de Nossa Am\u00e9rica. Da\u00ed retomar o debate sobre o futuro do socialismo e o fio condutor entre este objetivo com a unidade e independ\u00eancia Continental \u00e9 uma prioridade para as e os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Qual poder ser o \u201cnovo\u201d papel adotado pelas For\u00e7as Armadas Bolivarianas, at\u00e9 agora leais ao processo, mediante sua participa\u00e7\u00e3o na alian\u00e7a c\u00edvico-militar como um \u201cnovo sujeito pol\u00edtico\u201d?<\/p>\n<p>As For\u00e7as Armadas da Venezuela t\u00eam suas particularidades que, para entend\u00ea-las, \u00e9 preciso indagar suas origens, seu desenvolvimento hist\u00f3rico, sua composi\u00e7\u00e3o de classe e a evolu\u00e7\u00e3o de sua doutrina militar. Se n\u00e3o tivessem tal especificidade, teria sido imposs\u00edvel que em seu seio surgisse um l\u00edder, um pensador como Hugo Ch\u00e1vez. \u00c9 claro que supomos a exist\u00eancia de diferentes pensamentos em seu interior, que a correla\u00e7\u00e3o interna entre os mesmos n\u00e3o deve ser muito distante da que existe na sociedade civil e, \u00e9 l\u00f3gico, pensar que sua postura ser\u00e1 a chave no desenlace da contradi\u00e7\u00e3o entre os dois blocos hist\u00f3ricos que hoje disputam o poder na sociedade venezuelana.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.sermosgaliza.gal<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entrevista publicada no seman\u00e1rio Sermos Galiza, n\u00famero 176. 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