{"id":10196,"date":"2016-01-03T11:58:17","date_gmt":"2016-01-03T14:58:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10196"},"modified":"2016-02-02T18:05:08","modified_gmt":"2016-02-02T21:05:08","slug":"o-fetiche-das-ideias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10196","title":{"rendered":"O FETICHE DAS IDEIAS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/filosofia.laguia2000.com\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/los-qualia.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Juliano Medeiros<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s o professor e fil\u00f3sofo Vladimir Safatle publicou artigo no jornal Folha de S\u00e3o Paulo onde questiona a exist\u00eancia de uma onda conservadora no Brasil. O artigo traz uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es sobre o momento pol\u00edtico que vivemos, estimulando um importante debate sobre como encarar as transforma\u00e7\u00f5es que o pa\u00eds tem vivido. Al\u00e9m disso, o artigo tem dois m\u00e9ritos inquestion\u00e1veis: cobrar uma posi\u00e7\u00e3o mais clara daqueles que acreditam que h\u00e1 um fortalecimento do <!--more-->conservadorismo no Brasil e, ao mesmo tempo, apontar as responsabilidades da esquerda neste processo. No entanto, apesar de festejado por muitos, o artigo tem fragilidades que merecem ser debatidas. Num momento t\u00e3o complexo como o que vivemos, n\u00e3o temos o direito de estimular an\u00e1lises superficiais da realidade.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Safatle sustenta-se em duas constata\u00e7\u00f5es e uma hip\u00f3tese. A primeira constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que o fortalecimento das posi\u00e7\u00f5es conservadoras na sociedade brasileira deve-se \u00e0 \u201cdecomposi\u00e7\u00e3o\u201d das esquerdas, notadamente aquelas que se enredaram em compromissos com a ordem do capital a ponto de comprometerem sua pr\u00f3pria identidade. A segunda constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o Brasil sempre teve grande parcela de sua popula\u00e7\u00e3o identificada com ideias claramente conservadoras e isso n\u00e3o \u00e9 propriamente uma novidade. Ambas as constata\u00e7\u00f5es nos parecem corretas.<\/p>\n<p>Em seguida Safatle formula uma hip\u00f3tese que contraria suas pr\u00f3prias constata\u00e7\u00f5es: a \u201conda conservadora\u201d seria apenas uma narrativa c\u00f4moda, um discurso \u00fatil que, como tal, n\u00e3o encontra base concreta na realidade. Da\u00ed o t\u00edtulo bomb\u00e1stico de seu artigo: a \u201cfalsa\u201d onda conservadora. Ou seja, uma onda conservadora que, na verdade, n\u00e3o existe. Acontece que, contraditoriamente, Safatle admite que posi\u00e7\u00f5es conservadoras ganharam for\u00e7a no conjunto da sociedade, chegando inclusive a atribuir esse fen\u00f4meno \u00e0 incapacidade das esquerdas de apresentarem uma alternativa global \u00e0 vis\u00e3o de mundo representada por essas ideias. Mas esse n\u00e3o \u00e9, exatamente, o ponto fraco do artigo de Safatle. O problema de fundo est\u00e1 em tomar a ofensiva do conservadorismo como um fen\u00f4meno restrito ao mundo das ideias. O marxismo ocidental j\u00e1 foi muito criticado por sua falta de v\u00ednculos com a pr\u00e1tica, por ser um \u201cmarxismo de fil\u00f3sofos\u201d que dava as costas para a realidade. N\u00e3o podemos cometer este erro num momento t\u00e3o decisivo para o Brasil.<\/p>\n<p>Lauro Campos dizia que, como resultado do trabalho intelectual da burguesia, o indiv\u00edduo alienado erige um ponto de vista particular, limitado, que acaba eliminando e obscurecendo outros pontos de vista. Isto \u00e9, como falsa consci\u00eancia, a ideologia impede que sejam observadas as determina\u00e7\u00f5es que constituem a totalidade dos fen\u00f4menos sociais. Romper com o particularismo, ou com o fetiche das ideias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais, \u00e9 a melhor forma de superar aquele ponto de vista exclusivo, parcial.<\/p>\n<p>Por isso, o avan\u00e7o do conservadorismo n\u00e3o pode ser medido apenas pelo fortalecimento das \u201cideias conservadoras\u201d. Esta \u00e9 uma vis\u00e3o unilateral do fen\u00f4meno. Em outras palavras, seria um erro interpretar a presente ofensiva do conservadorismo apenas como fen\u00f4meno de natureza pol\u00edtico-ideol\u00f3gico quando, na verdade, \u00e9 sua express\u00e3o material que representa a verdadeira possibilidade de retrocessos.<\/p>\n<p>A onda conservadora n\u00e3o encontra sua forma final nas posi\u00e7\u00f5es de Silas Malafaia, Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano. Esses indiv\u00edduos e suas vis\u00f5es de mundo, como adverte corretamente Safatle, sempre tiveram alguma penetra\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira. O que estamos vendo, possivelmente, \u00e9 uma amplifica\u00e7\u00e3o dos discursos de \u00f3dio devido \u00e0 inexist\u00eancia de for\u00e7as de conten\u00e7\u00e3o como as que existiram nos anos 80 e 90. Considerar que a onda conservadora se expressa fundamentalmente na forma de \u201cdiscurso do \u00f3dio\u201d refor\u00e7a a vis\u00e3o unilateral que Safatle reproduz em seu artigo. Ao contr\u00e1rio, a ofensiva do conservadorismo n\u00e3o se restringe \u00e0 sua dimens\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. \u00c9 no campo das determina\u00e7\u00f5es materiais que ela se expressa mais concretamente. Trata-se, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de uma ofensiva do capital para retomar seus n\u00edveis de acumula\u00e7\u00e3o e colocar em marcha um novo ciclo de expans\u00e3o do sistema capitalista. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio eliminar as conquistas democr\u00e1ticas que representam entraves a esta estrat\u00e9gia, tais como a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, os direitos ind\u00edgenas, o sistema de prote\u00e7\u00e3o trabalhista e previdenci\u00e1rio, o controle do Estado sobre setores estrat\u00e9gicos da economia ou dos servi\u00e7os p\u00fablicos, dentre outras. Ao contr\u00e1rio do que pensa Safatle, a ofensiva conservadora n\u00e3o se resume a uma torrente de ideias atrasadas, retr\u00f3gradas, anti-iluministas: sua express\u00e3o material pode ser percebida em dezenas de iniciativas que tem como objetivo retroceder em rela\u00e7\u00e3o aos direitos hoje existentes para \u201cdestravar\u201d um novo ciclo expansivo do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Com isso, podemos afirmar, por exemplo, que a Agenda Brasil, oferecida por Renan Calheiros \u00e0 presidente Dilma, \u00e9 uma express\u00e3o muito mais concreta da ofensiva do conservadorismo que os discursos de Bolsonaro ou Malafaia. Assim como o s\u00e3o a PEC 215, que pretende extinguir a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, permitindo assim a expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola; o PL 4330, que permite a utiliza\u00e7\u00e3o desenfreada do trabalho terceirizado; a proposta de retroceder ao regime de concess\u00e3o na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo; e mesmo as medidas do ajuste fiscal de Dilma e Levy, que retiraram direitos trabalhistas e previdenci\u00e1rios, ampliaram as privatiza\u00e7\u00f5es e o arrocho sobre as contas p\u00fablicas, diminuindo a capacidade de investimento do Estado enquanto reajustam as taxas de remunera\u00e7\u00e3o dos especuladores atrav\u00e9s dos juros da d\u00edvida p\u00fablica. Ou seja, a ofensiva conservadora se expressa concretamente na retirada de direitos, especialmente aqueles que podem representar barreiras \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do capital em tempos de crise.<\/p>\n<p>O exemplo da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal \u00e9 eloquente. Votada pela C\u00e2mara dos Deputados depois de vinte anos de tramita\u00e7\u00e3o, a aprova\u00e7\u00e3o veio acompanhada, poucos dias depois, de duas Propostas de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) que preveem a redu\u00e7\u00e3o da maioridade laboral, de 16 para 14 anos. Como se v\u00ea, mesmo quando o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 um tema aparentemente de natureza jur\u00eddico-penal, os interesses do capital n\u00e3o tardam a surgir.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que o aumento dos casos de homofobia, racismo, xenofobia, viol\u00eancia contra a mulher, intoler\u00e2ncia religiosa e defesa de regimes ditatoriais, n\u00e3o componham uma agenda conservadora que prev\u00ea retrocessos tamb\u00e9m no campo das liberdades individuais. O que estamos afirmando, ao contr\u00e1rio, \u00e9 que esta agenda n\u00e3o existe por si pr\u00f3pria: ela se alimenta de condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais geradas pela ofensiva do capital sobre o trabalho. As determina\u00e7\u00f5es falsas, defeituosas, alienadas, que constituem a ideologia, correspondem \u00e0 din\u00e2mica defeituosa, conflitiva e contradit\u00f3ria em que se objetivam as rela\u00e7\u00f5es sociais em torno da produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do conflito entre capital e trabalho, ess\u00eancia determinadora de fen\u00f4menos sociais mutuamente dependentes. Abrir m\u00e3o deste legado interpretativo \u00e9 aderir completamente ao subjetivismo.<\/p>\n<p>O artigo de Safatle tem dois m\u00e9ritos ineg\u00e1veis, a saber, destacar a responsabilidade das esquerdas no avan\u00e7o das posi\u00e7\u00f5es conservadoras \u2013 em especial aquela que, depois de 14 anos no poder, pouco fez para conter essas posi\u00e7\u00f5es \u2013 e chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o conservadorismo n\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno recente no Brasil. Mas ele n\u00e3o soube extrair as conclus\u00f5es corretas de suas constata\u00e7\u00f5es, circunscrevendo a ofensiva conservadora a um produto puramente ideol\u00f3gico, e portanto, falso. Infelizmente, Safatle e sua vis\u00e3o idealista da realidade tem muitos adeptos. Que a esquerda seja capaz de superar o fetiche das ideias e colocar, mais uma vez, a luta de classes no centro de suas an\u00e1lises.<\/p>\n<p>Juliano Medeiros \u00e9 historiador e membro da Executiva Nacional do PSOL.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Juliano Medeiros Dias atr\u00e1s o professor e fil\u00f3sofo Vladimir Safatle publicou artigo no jornal Folha de S\u00e3o Paulo onde questiona a exist\u00eancia de \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10196\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-10196","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Es","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10196\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}