{"id":1023,"date":"2010-11-27T23:26:14","date_gmt":"2010-11-27T23:26:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1023"},"modified":"2010-11-27T23:26:14","modified_gmt":"2010-11-27T23:26:14","slug":"memoria-comunista-20-anos-da-morte-de-caio-prado-jr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1023","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria comunista: 20 anos da morte de Caio Prado Jr."},"content":{"rendered":"\n<p>No \u00faltimo dia 23 de novembro fez 20 anos da morte daquele que \u00e9 considerado o nosso maior historiador, Caio Prado Jr. Esse pensador e homem de a\u00e7\u00e3o marcou o debate intelectual e pol\u00edtico brasileiro, ao tempo em que agia sobre a realidade social, como militante do Partido Comunista Brasileiro, onde ingressou em 1931, permanecendo em seus quadros, at\u00e9 sua morte em 1990. Foram 59 anos de uma milit\u00e2ncia constante.<\/p>\n<p>Caio Prado Jr. nasceu no dia 11 de fevereiro de 1907, na cidade de S\u00e3o Paulo e sua vida pode ser sintetizada por uma frase que ele citara no seu discurso como deputado estadual do PCB, na primeira sess\u00e3o da primeira legislatura de 1947, da Assembl\u00e9ia Legislativa de S\u00e3o Paulo: \u201c\u00c9 por a\u00e7\u00e3o que os homens se definem\u201d. Portanto, para conhecimento da hist\u00f3ria do Brasil, da luta pelo socialismo e da mem\u00f3ria do PCB, \u00e9 importante registrar a vida do camarada Caio Prado Jr., sem d\u00favida, o nosso maior intelectual.<\/p>\n<p>Em 1924, Caio Prado Jr. ingressou na Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 em 1926 participou do primeiro congresso dos estudantes de direito, em Minas Gerais, e, em 1927, publicou o seu primeiro artigo no peri\u00f3dico <em>A Chave<\/em>, intitulado \u201cA Crise da Democracia Brasileira\u201d. Em 1928, tornou-se bacharel em Direito. Nessa mesma ocasi\u00e3o foi preso em S\u00e3o Paulo por fazer uma sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura de Get\u00falio Vargas, ao se dirigir ao ent\u00e3o candidato J\u00falio Prestes. Em 1930, participou da Revolu\u00e7\u00e3o como membro de um comit\u00ea de apura\u00e7\u00e3o dos crimes do governo anterior.<\/p>\n<p>Em 1932, come\u00e7ou a publicar artigos, j\u00e1 com conte\u00fado marxista, examinando, naquele per\u00edodo, a economia brasileira. Nesse mesmo ano, fundou o Clube dos Artistas Modernos (CAM) e, em 1933, viajou para a URSS e, no retorno, publicou o livro <em>Evolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Brasil \u2013 Ensaio de Interpreta\u00e7\u00e3o Materialista do Brasil<\/em>. Logo depois, em 1934, publicou <em>URSS: um Mundo Novo<\/em> e, nesse mesmo ano concluiu a tradu\u00e7\u00e3o do livro de Bukh\u00e1rin, Tratado de Materialismo Hist\u00f3rico, fato de grande relev\u00e2ncia hist\u00f3rica para a luta ideol\u00f3gica no Brasil, pois pass\u00e1vamos a ter literatura marxista entre n\u00f3s. Ainda em 1934, enquanto participava de v\u00e1rios cursos na USP, que havia sido recentemente fundada, juntamente com v\u00e1rios intelectuais europeus e brasileiros, fundou a Associa\u00e7\u00e3o dos Ge\u00f3grafos Brasileiros (AGB).<\/p>\n<p>O ano de 1935 se reveste de grande ebuli\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as lutas contra o governo autorit\u00e1rio de Get\u00falio Vargas e a constru\u00e7\u00e3o de um instrumento de frente \u00fanica chamado de ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional). Caio Prado Jr. foi eleito o vice-presidente da ALN em S\u00e3o Paulo e, nesse mesmo ano, passou a ser o diretor do jornal <em>A Platea<\/em>, onde escreveu e publicou o programa da ALN. O ano prossegue com grandes agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, em novembro, ocorreram o levante comunista e o governo popular e provis\u00f3rio de tr\u00eas dias na cidade vermelha de Natal, logo sufocado pelas tropas de Vargas a servi\u00e7o da burguesia. A partir da\u00ed, desenvolveu-se uma gigantesca repress\u00e3o aos comunistas e aliancistas por todo o pa\u00eds. Nessa onda repressiva ocorreu a pris\u00e3o de Caio Prado Jr. no Rio Grande do Sul que depois foi trazido para S\u00e3o Paulo, onde ficou preso at\u00e9 1937. Quando foi solto, ainda no ano de 1937, viajou para o ex\u00edlio na Fran\u00e7a, onde desenvolveu intensa atividade intelectual e pol\u00edtica. Fez cursos na Sorbonne, viajou pelo Norte e Noroeste da Europa e exerceu forte a\u00e7\u00e3o de solidariedade aos refugiados da Guerra Civil Espanhola. De 1937 a 1939, enquanto esteve na Fran\u00e7a, militou no Partido Comunista Franc\u00eas e, nele exerceu muitas atividades pol\u00edticas. Durante esse per\u00edodo escreveu muitos textos, em especial, pesquisa historiogr\u00e1fica, relatos de viagens, debates sobre cultura e uma discuss\u00e3o sobre a g\u00eanese e a evolu\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>No seu retorno ao Brasil, empreendeu v\u00e1rias viagens pelo interior do pa\u00eds, ficando mais tempo no estado de Minas Gerais e escrevendo textos sobre essas viagens, bem como um estudo sobre a quest\u00e3o urbana da cidade de S\u00e3o Paulo, publicado em 1941.<\/p>\n<p>Em 1942, foi lan\u00e7ada sua grande obra <em>Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo<\/em>, que tem como eixo central o estudo da forma\u00e7\u00e3o social brasileira e a sua transforma\u00e7\u00e3o. Assim como Marx, no Capital, para Caio Prado jr., o estudo da realidade brasileira e sua forma\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica cont\u00e9m os elementos de suas caracter\u00edstica atuais e os elementos para sua transforma\u00e7\u00e3o. Apesar de ser uma obra respeitada e elogiada por historiadores de todos os tempos, mais do que uma grande pesquisa historiogr\u00e1fica, o objetivo subjacente \u00e9 o conhecimento da realidade para sua transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Durante o ano de 1943, Caio Prado Jr. fundou a editora Brasiliense e escreveu diversos artigos sobre historiografia, em especial o <em>Roteiro para Historiografia do Segundo Reinado (1840-1889)<\/em>. No ano seguinte, o intelectual comunista resolveu fazer articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para derrubar o governo Vargas, viajando para a Argentina e o Uruguai, onde manteve contato com intelectuais, todavia, mesmo com essa intensa movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, continuou escrevendo textos historiogr\u00e1ficos sobre algumas regi\u00f5es do Brasil, sobre \u00edndios, povoamento e limites geogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>No ano de 1945, com o processo de democratiza\u00e7\u00e3o do Brasil e a legalidade do PCB, Caio Prado Jr. disputou a elei\u00e7\u00e3o para deputado federal na lista do Partido em S\u00e3o Paulo, mas ficou na terceira supl\u00eancia. Ainda naquele ano, foi publicado o livro <em>Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica do Brasil<\/em>, e, logo em seguida, ele foi eleito para a Comiss\u00e3o Pol\u00edtica do I Congresso Brasileiro de Escritores. Pouco depois, lan\u00e7ou a cole\u00e7\u00e3o <em>Problemas Brasileiros<\/em> pela editora Brasiliense.<\/p>\n<p>Em 1946, Caio Prado Jr. aprofundou seus escritos nos di\u00e1rios pol\u00edticos que fazia e participou, no PCB, dos debates sobre as candidaturas a deputado estadual que ocorreria no ano seguinte. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1947, elegeu-se deputado estadual pelo PCB e participou intensamente dos debates no parlamento, onde apresentou emendas e projetos para a constitui\u00e7\u00e3o paulista de 1947. Durante sua legislatura, dentre v\u00e1rios projetos, vale ressaltar que apresentou o projeto de cria\u00e7\u00e3o da Fapesp (Funda\u00e7\u00e3o de amparo \u00e0 pesquisa do estado de S\u00e3o Paulo), que se transformou em um dos mais importantes instrumentos de apoio \u00e0 pesquisa no Brasil. Nesse mesmo ano, Caio Prado jr. publicou no jornal do PCB, <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>, o artigo \u201cFundamentos econ\u00f4micos da revolu\u00e7\u00e3o brasileira\u201d onde criticou algumas avalia\u00e7\u00f5es e teses do partido.<\/p>\n<p>A luta pol\u00edtica e ideol\u00f3gica se acirrou no Brasil, o registro do PCB foi cassado em 1948 e Caio Prado Jr. teve seu mandato cassado juntamente com outros deputados comunistas pelo pa\u00eds. Ficou preso durante tr\u00eas meses e, quando foi solto, viajou para a Pol\u00f4nia, Tchecoslov\u00e1quia e Fran\u00e7a. Durante esse per\u00edodo, trabalhou em textos filos\u00f3ficos e prosseguiu em viagens pelos pa\u00edses da Europa, quando participou do Congresso da Paz em 1949, realizado em Paris pelo Partido Comunista Franc\u00eas.<\/p>\n<p>Nos anos de 1950 e 1951, Caio Prado Jr. se dedicou ao estudo da filosofia e publicou, em 1952, o livro, em dois tomos, <em>Dial\u00e9tica do Conhecimento<\/em>.<\/p>\n<p>Um dado importante para a mem\u00f3ria da luta ideol\u00f3gica no Brasil \u00e9 que, em 1954, foi fundada, por Caio Prado Jr. a gr\u00e1fica Urup\u00eas, que foi respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o de farto debate sobre a realidade brasileira. Ainda nesse mesmo ano, Caio Prado Jr. concorreu \u00e0 c\u00e1tedra de Economia Pol\u00edtica na USP, todavia, mesmo tendo sido aprovado no concurso de Livre-doc\u00eancia, n\u00e3o recebeu a c\u00e1tedra na faculdade de direito.<\/p>\n<p>Em 1955, foi lan\u00e7ado o primeiro n\u00famero da hist\u00f3rica revista <em>Brasiliense<\/em> e, j\u00e1 no n\u00famero 2, Caio Prado Jr. escreveu o artigo \u201cNacionalismo Brasileiro e Capitais Estrangeiro\u201d. Nos anos seguintes continuou seu trabalho intelectual e, em 1957, publicou o livro <em>Esbo\u00e7o dos Fundamentos da Teoria Econ\u00f4mica<\/em>.<\/p>\n<p>Entre 1960 e 1962, Caio Prado Jr. viajou pelos pa\u00edses socialistas, URSS, China e, em Cuba, participou das comemora\u00e7\u00f5es do III anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o, integrando a delega\u00e7\u00e3o brasileira. Em 1962, no seu retorno, publicou o livro <em>O Mundo do Socialismo<\/em>.<\/p>\n<p>Com o golpe civil-militar de 1964, saiu o \u00faltimo n\u00famero da revista <em>Brasiliense<\/em> (51). Caio Prado Jr. foi preso novamente e, passou uma semana encarcerado no DOPS. Essa nova conjuntura brasileira e suas preocupa\u00e7\u00f5es com a transforma\u00e7\u00e3o da realidade encontraram em Caio Prado Jr. um esfor\u00e7o intelectual intenso, pois em 1966 ele lan\u00e7ou o cl\u00e1ssico <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em>. Esse livro produziu um grande impacto na esquerda em nosso pa\u00eds e a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ditadura avan\u00e7ou. Caio Prado jr. fugiu do Brasil em 1970 para o Chile, mas foi preso ao retornar nesse mesmo ano e assim permaneceu por quase dois anos. Foi indiciado em inqu\u00e9rito policial-militar (IPM) e condenado. Ficou preso, primeiro na casa de deten\u00e7\u00e3o Tiradentes e depois no quartel de Quita\u00fana, quando foi solto em agosto de 1971.<\/p>\n<p>Embora esse ano de 1971 tenha sido um ano em que ficou preso, mesmo assim, publicou o livro <em>O Estruturalismo de L\u00e9vi-Strauss \u2013 o marxismo de Louis Althusser<\/em>.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, come\u00e7ou o processo de recolhimento de Caio Prado Jr., por\u00e9m continuou em articula\u00e7\u00e3o com as a\u00e7\u00f5es do partido e produzindo intelectualmente, publicando ainda, textos e livros, todavia, em 1979 ele ficou doente e passou por um per\u00edodo muito dif\u00edcil at\u00e9 1982, com o mal de Alzheimer. Continuou trabalhando muito, desenvolvendo suas reflex\u00f5es intelectuais e, em 23 de novembro de 1990, morreu aos 83 anos, em S\u00e3o Paulo. Seu corpo foi velado na biblioteca Municipal M\u00e1rio de Andrade e foi sepultado no Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Calava-se a voz, paralisava-se a caneta do maior intelectual da hist\u00f3ria do PCB e do maior historiador do Brasil. Mas suas a\u00e7\u00f5es e suas formula\u00e7\u00f5es pautaram a luta e o pensamento sobre a revolu\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds. Serve como marca indel\u00e9vel para o futuro socialista pelo qual todos n\u00f3s lutamos.<\/p>\n<p>* Professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade do Estado da Bahia \u2013 Uneb, editor da revista Novos Temas e membro do CC do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Scielo\n\n\n\n\n\n\n\n\nMilton Pinheiro*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1023\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1023","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-gv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1023"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1023\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}