{"id":10274,"date":"2016-01-17T18:32:25","date_gmt":"2016-01-17T21:32:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10274"},"modified":"2016-02-11T22:39:27","modified_gmt":"2016-02-12T01:39:27","slug":"2016-espoliacao-brutal-e-saida-do-capital-para-impasse-historico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10274","title":{"rendered":"2016 &#8211; espolia\u00e7\u00e3o brutal \u00e9 sa\u00edda do capital para impasse hist\u00f3rico"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/colectivolibertarioevora.files.wordpress.com\/2012\/10\/zz1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>GABRIEL BRITO E VAL\u00c9RIA NADER, DA REDA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Com cara de velho, come\u00e7a o novo ano, com not\u00edcias pra l\u00e1 de similares a janeiro de 2015: ministro ultraliberal na Fazenda e tarifa\u00e7os pelo pa\u00eds. Pra n\u00e3o falar do processo de impeachment e desdobramentos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, que prometem manter a letargia do pa\u00eds frente \u00e0 crise geral de seu modelo de desenvolvimento. Ainda assim, novas janelas sempre se abrem quando as contradi\u00e7\u00f5es se agudizam, como demonstra a juventude. Para tratar do que nos espera em 2016, o Correio da Cidadania entrevistou Ruy Braga.<!--more--><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" \/>\u201cApesar das a\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a na pol\u00edtica econ\u00f4mica, com a nomea\u00e7\u00e3o de Nelson Barbosa para o Minist\u00e9rio da Fazenda, \u00e9 mais prov\u00e1vel a continuidade da orienta\u00e7\u00e3o geral do segundo governo de Dilma: a de garantir a transi\u00e7\u00e3o de um regime de acumula\u00e7\u00e3o apoiado fundamentalmente na superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado para aquilo que podemos chamar de regime de acumula\u00e7\u00e3o apoiado centralmente em estrat\u00e9gias de espolia\u00e7\u00e3o social. Em suma, significa retrocesso nos direitos trabalhistas e sociais\u201d, apontou o soci\u00f3logo do trabalho como \u201csolu\u00e7\u00e3o da crise\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 instabilidade pol\u00edtico-institucional, prejudicial ao grosso da popula\u00e7\u00e3o independentemente de quem seja o governante de turno, Ruy Braga prev\u00ea uma boa possibilidade de respiro ao governo, diante de toda a falta de credibilidade do protagonista do processo de impeachment.<\/p>\n<p>\u201cMesmo eu que sempre sustentei uma postura de oposi\u00e7\u00e3o de esquerda a Dilma e anulei meu voto no segundo turno das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais devo admitir que n\u00e3o h\u00e1 a menor compara\u00e7\u00e3o entre as duas figuras. Um governo PSDB-PMDB seria um desastre enorme para os trabalhadores, ainda pior do que o governo de Dilma. E, como n\u00e3o seria um governo capaz de trazer de volta o clima de pacifica\u00e7\u00e3o social da era Lula, n\u00e3o serviria tampouco para muitos setores burgueses que dependem dos mercados internos. Ou seja, com Cunha n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o. Por isso, parece-me que o processo de impeachment, basicamente, est\u00e1 fadado ao fracasso. O fato de tal processo fracassar fortalece o polo vencedor, que \u00e9 o do governo federal\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>No entanto, Ruy Braga \u00e9 enf\u00e1tico em afirmar que o modelo que consagrou as gest\u00f5es petistas acabou e n\u00e3o poder\u00e1 ser reproduzido, o que p\u00f5e em xeque o pr\u00f3prio lulismo e sua estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o virtuosa de interesses opostos.<\/p>\n<p>\u201cNesses momentos de contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica, a pol\u00edtica e suas decis\u00f5es tendem a alargar os espa\u00e7os para a espolia\u00e7\u00e3o social: dos direitos sociais, dos sal\u00e1rios, do tempo de trabalho das pessoas, dos recursos naturais, espolia\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que \u00e9 p\u00fablico e que estava at\u00e9 ent\u00e3o \u00e0 margem, ou relativamente fora, do modelo de explora\u00e7\u00e3o anterior. Minha previs\u00e3o \u00e9 que iremos assistir a um aprofundamento da mercantiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, do dinheiro e do meio ambiente em uma escala ainda maior do que nos \u00faltimos 14 anos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que precisamos de uma alternativa radicalmente diferente do que est\u00e1 a\u00ed\u201d, disse o soci\u00f3logo, explicando o novo modelo de desenvolvimento, ou acumula\u00e7\u00e3o, posto em marcha j\u00e1 em 2015.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que, em sua vis\u00e3o, n\u00e3o se pode esperar mais nada das \u201cencasteladas\u201d dire\u00e7\u00f5es dos movimentos, sindicatos e lideran\u00e7as de sustenta\u00e7\u00e3o do consenso recente, resta apostar naquilo que surge descolado de velhos grupos e aparatos. \u201cEu deposito todas as minhas fichas e esperan\u00e7a nos setores jovens, nos filhos da classe trabalhadora que hoje est\u00e3o nas escolas, no ensino m\u00e9dio, naqueles estudantes que inundaram o mercado de trabalho no \u00faltimo per\u00edodo, nos jovens que est\u00e3o \u00e0 procura do primeiro emprego e nos setores mais atingidos pelo subemprego. E tais segmentos coincidem com os setores jovens, negros e femininos da classe trabalhadora brasileira. Uma sa\u00edda politicamente progressista para a crise brasileira passa necessariamente pela mobiliza\u00e7\u00e3o desse jovem precariado urbano\u201d, apontou.<\/p>\n<p>A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Ap\u00f3s um ano que parece n\u00e3o ter existido na vida \u00fatil do pa\u00eds, 2016 come\u00e7a sob o mesmo clima de pessimismo de 2015, inclusive no que se refere \u00e0 depress\u00e3o econ\u00f4mica. O que voc\u00ea espera deste ano que rec\u00e9m-come\u00e7a?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> Apesar das a\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a na pol\u00edtica econ\u00f4mica, com a nomea\u00e7\u00e3o de Nelson Barbosa para o Minist\u00e9rio da Fazenda, \u00e9 mais prov\u00e1vel a continuidade da orienta\u00e7\u00e3o geral do segundo governo de Dilma: a de garantir a transi\u00e7\u00e3o de um regime de acumula\u00e7\u00e3o apoiado fundamentalmente na superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado para aquilo que podemos chamar de regime de acumula\u00e7\u00e3o apoiado centralmente em estrat\u00e9gias de espolia\u00e7\u00e3o social. Em suma, significa retrocesso nos direitos trabalhistas e sociais. Fala-se em nova rodada de reforma da Previd\u00eancia, mudan\u00e7a na idade de aposentadoria, diminui\u00e7\u00e3o de determinados direitos constitucionais, em especial aqueles vinculados \u00e0 obrigatoriedade de investimentos p\u00fablicos em \u00e1reas sociais, aprofundamento da orienta\u00e7\u00e3o rentista, estruturada sobretudo no mundo das finan\u00e7as e suas chantagens etc.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da estrutura social, n\u00e3o vejo at\u00e9 o momento delinear-se uma alternativa progressista no interior do governo que privilegie os interesses dos trabalhadores. O mais prov\u00e1vel \u00e9 o aprofundamento dessa estrat\u00e9gia de espolia\u00e7\u00e3o social a fim de garantir os lucros dos capitalistas.<\/p>\n<p>Por outro lado, a crise pol\u00edtica entra num momento de <i>stand by<\/i>, mas com evidente distens\u00e3o, levando-se em conta que a grande chantagem que marcou o ano 2015, isto \u00e9, a amea\u00e7a do impeachment, deixou de existir com o in\u00edcio do processo na C\u00e2mara. Aos meus olhos, isso coloca o governo numa posi\u00e7\u00e3o um pouco melhor, pois ele ir\u00e1 se reorganizar em torno de uma causa politicamente leg\u00edtima, isto \u00e9, a rea\u00e7\u00e3o a uma tentativa de golpe parlamentar \u201cparaguaio\u201d implementada por um presidente da C\u00e2mara que \u00e9, notoriamente, um pol\u00edtico corrupto.<\/p>\n<p>Significa que haver\u00e1, na minha opini\u00e3o, uma reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as governistas em torno do poder da presid\u00eancia da Rep\u00fablica em defesa de seu mandato. Isso tende a atrair setores que estavam se desgarrando do governo ou em flagrante crise com o governo. Muitos militantes socialistas ser\u00e3o novamente atra\u00eddos para o polo da legalidade. Assim, a posi\u00e7\u00e3o governista sair\u00e1 fortalecida do processo de impeachment.<\/p>\n<p>Portanto, diria que 2016 ser\u00e1 um ano diferente de 2015. O governo federal dever\u00e1 retomar alguma capacidade de iniciativa na cena pol\u00edtica. Ou seja, ser\u00e1 um governo mais ativo do que foi ano passado. No entanto, do ponto de vista econ\u00f4mico, a tend\u00eancia \u00e9 que se consolide um regime de acumula\u00e7\u00e3o via espolia\u00e7\u00e3o, totalmente delet\u00e9rio do ponto de vista dos trabalhadores.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Quanto ao processo de impeachment de Dilma, vimos que continua o vai e vem, isto \u00e9, altas tens\u00f5es em revezamento com aparentes apaziguamentos. Al\u00e9m disso, a poss\u00edvel queda de Eduardo Cunha foi empurrada para fevereiro, o que talvez sugira uma din\u00e2mica parecida de alian\u00e7as e rupturas entre os grupos pol\u00edticos dominantes. O que espera de todo esse tabuleiro de pe\u00e7as em movimento? Acredita num grande acordo nacional em prol da estabilidade, nos moldes propostos pelo cientista pol\u00edtico Andr\u00e9 Singer, conforme artigo publicado recentemente?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> Diria o mesmo que Florestan Fernandes: o pacto conservador brasileiro \u00e9 implac\u00e1vel. Numa conjuntura pol\u00edtica marcada especialmente pela polaridade Dilma-Cunha, temos uma compara\u00e7\u00e3o grotesca. Eduardo Cunha n\u00e3o se configura como alternativa de absolutamente nada. A tend\u00eancia \u00e9 vermos a presid\u00eancia sair fortalecida.<\/p>\n<p>Mesmo eu que sempre sustentei uma postura de oposi\u00e7\u00e3o de esquerda a Dilma e anulei meu voto no segundo turno das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais devo admitir que n\u00e3o h\u00e1 a menor compara\u00e7\u00e3o entre as duas figuras. Um governo PSDB-PMDB seria um desastre enorme para os trabalhadores, ainda pior do que o governo de Dilma. E, como n\u00e3o seria um governo capaz de trazer de volta o clima de pacifica\u00e7\u00e3o social da era Lula, n\u00e3o serviria tampouco para muitos setores burgueses que dependem dos mercados internos. Ou seja, com Cunha n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o. Por isso, parece-me que o processo de impeachment, basicamente, est\u00e1 fadado ao fracasso. O fato de tal processo fracassar, fortalece o polo vencedor, que \u00e9 o do governo federal.<\/p>\n<p>Nesse sentido, 2016, provavelmente, ser\u00e1 um ano marcado pela retomada de uma certa capacidade de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo. Esse \u00e9 meu principal progn\u00f3stico. Ser\u00e1 um ano marcado pela tentativa do governo de retomar alguma margem de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E provavelmente Cunha cair\u00e1 nos pr\u00f3ximos meses, pela situa\u00e7\u00e3o absolutamente grotesca de se ter um comprovado corrupto \u00e0 frente da C\u00e2mara federal.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: O ministro Joaquim Levy, ap\u00f3s o desgastante ajuste fiscal, acaba de deixar o governo, sendo substitu\u00eddo por Nelson Barbosa. Por\u00e9m, pelo que voc\u00ea disse no in\u00edcio, n\u00e3o se pode esperar uma orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica relevantemente distinta para 2016.<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> N\u00e3o, porque basicamente n\u00e3o foi constru\u00eddo projeto alternativo. O que temos hoje \u00e9 o esgotamento cabal do modelo de desenvolvimento apoiado em um certo ritmo de acumula\u00e7\u00e3o dos motores tradicionais da economia brasileira, como a produ\u00e7\u00e3o de commodities, os investimentos da constru\u00e7\u00e3o pesada, a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio, os investimentos na \u00e1rea de energia e petr\u00f3leo, e principalmente, o consumo popular, com acesso de uma massa crescente da popula\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito, o que provocou um aumento exponencial no endividamento das fam\u00edlias, agora em \u00edndices recordes no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula n\u00e3o vai se repetir nos pr\u00f3ximos 10 anos. N\u00e3o h\u00e1, adiante, no cen\u00e1rio internacional, uma perspectiva de retomada na China, na \u00cdndia, mesmo em pa\u00edses da Europa. Ao contr\u00e1rio, a desacelera\u00e7\u00e3o chinesa \u00e9 ainda pior do que se imaginava ano passado. A retomada norte-americana \u00e9 importante, mas ainda muito modesta. Al\u00e9m disso, o desempenho econ\u00f4mico dos Estados Unidos est\u00e1 muito ligado ao crescimento chin\u00eas&#8230; Isso tudo faz com que, muito provavelmente, o mercado mundial no pr\u00f3ximo per\u00edodo cres\u00e7a a taxas muito moderadas, diferentemente dos \u00faltimos 14 anos.<\/p>\n<p>Naturalmente, a economia brasileira, que se especializou em exportar commodities, fica numa situa\u00e7\u00e3o delicada. Por outro lado, a estrutura social brasileira est\u00e1 marcada por uma enorme sobre-capacidade produtiva. Os principais setores da economia t\u00eam muito estoque e muita capacidade ociosa. Os empres\u00e1rios olham para suas empresas e perguntam: \u201cpor que vou investir se dentro da minha pr\u00f3pria f\u00e1brica tenho uma enorme capacidade ociosa que n\u00e3o \u00e9 efetivamente absorvida pela demanda?\u201d Trata-se de uma quest\u00e3o cl\u00e1ssica para o marxismo: o problema da contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias est\u00e3o endividadas, precisam se preocupar em primeiro lugar com a realidade mais incerta do mercado de trabalho e o aumento do desemprego e do subemprego, que significa fundamentalmente a compress\u00e3o de sua renda. As fam\u00edlias quando est\u00e3o muito endividadas adotam outras estrat\u00e9gias. N\u00e3o est\u00e3o consumindo, est\u00e3o pagando suas d\u00edvidas como podem. Ou seja, elas est\u00e3o vivendo da m\u00e3o pra boca. Os \u00fanicos setores que de fato n\u00e3o foram, at\u00e9 o momento, ao menos atingidos pela queda de consumo s\u00e3o os bens de subsist\u00eancia mais elementares. Isso tudo faz com que o modelo lulista \u2013 o regime de acumula\u00e7\u00e3o do \u00faltimo per\u00edodo \u2013 tenha se esgotado. E n\u00e3o h\u00e1 nada no lugar, nada esbo\u00e7ado, n\u00e3o h\u00e1 uma alternativa cr\u00edvel ao colapso do atual modelo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante entender que o capitalismo funciona assim: quando se tem momentos da economia marcados por expans\u00e3o, tem-se alguma margem de manobra em termos de concess\u00f5es, em especial, concess\u00f5es trabalhistas, direitos sociais&#8230; Normalmente, tais per\u00edodos de expans\u00e3o s\u00e3o apoiados \u2013 n\u00e3o exclusivamente, mas principalmente \u2013 sobre os setores assalariados da classe trabalhadora, isto \u00e9, sobre a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado. No caso de uma estrutura social semiperif\u00e9rica e tardia como a brasileira, sobre a explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado barato, eu acrescentaria.<\/p>\n<p>Momentos de contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica, como o que vivemos hoje, imp\u00f5em uma s\u00e9rie de desafios que tendem a fazer com que as empresas dependam cada dia mais daquilo que eu, nas trilhas de Rosa Luxemburgo, chamaria de \u201cacumula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de capital\u201d. Ou seja, dependem da viol\u00eancia pol\u00edtica dos governos. Inclusive dependem de que ele desloque suas estrat\u00e9gias de acumula\u00e7\u00e3o para aquilo que \u00e9, exatamente, a espolia\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es feitas no momento anterior, isto \u00e9, durante a expans\u00e3o do ciclo econ\u00f4mico. Se no per\u00edodo anterior houve aumento da massa salarial, agora teremos um ataque \u00e0 massa salarial. Se no per\u00edodo anterior observou-se algum avan\u00e7o, mesmo moderado, em termos de direitos, na sequ\u00eancia eles ser\u00e3o atacados etc.<\/p>\n<p>Nesses momentos de contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica, a pol\u00edtica e suas decis\u00f5es tendem a alargar os espa\u00e7os para a espolia\u00e7\u00e3o social: dos direitos sociais, dos sal\u00e1rios, do tempo de trabalho das pessoas, dos recursos naturais, espolia\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que \u00e9 p\u00fablico e que estava at\u00e9 ent\u00e3o \u00e0 margem, ou relativamente fora, do modelo de explora\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Minha previs\u00e3o \u00e9 que iremos assistir a um aprofundamento da mercantiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, do dinheiro e do meio ambiente em uma escala ainda maior do que nos \u00faltimos 14 anos. Em suma, teremos pela frente, ainda que sob diferentes roupagens, uma intensifica\u00e7\u00e3o dos ataques aos interesses dos trabalhadores. Do ponto de vista dos direitos, do assalariamento ou do emprego. A tend\u00eancia \u00e9 que se aprofunde a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, com a diminui\u00e7\u00e3o do emprego, aumento do subemprego, diminui\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que o \u00faltimo per\u00edodo foi marcado, apesar de todas as dificuldades, por um aumento real da massa salarial. Ela cresceu, o que significa que h\u00e1 mais renda nas fam\u00edlias trabalhadoras. Isso j\u00e1 est\u00e1 sendo atacado. O aumento do desemprego \u00e9 o jeito mais t\u00edpico de disciplinar a classe trabalhadora e aprofundar as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 plano B. N\u00e3o existe uma guinada generalizada na dire\u00e7\u00e3o de outra alternativa econ\u00f4mica, com investimento massificado em setores capital-intensivos etc. No m\u00e1ximo, vamos exportar mais carros por conta do novo patamar do d\u00f3lar. Mas, como algo alternativo, n\u00e3o h\u00e1 nada inovador no horizonte. A \u00fanica coisa que est\u00e1 no horizonte \u00e9 atacar os pequenos e moderados ganhos da classe trabalhadora no per\u00edodo anterior para se tentar um processo mais acentuado de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A esquerda socialista precisa entender que no capitalismo desenvolvimento significa acumula\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o. De novo: desenvolvimento = acumula\u00e7\u00e3o. E acumula\u00e7\u00e3o implica bases sociais, implica pr\u00e1ticas econ\u00f4micas e implica formas de interven\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica. Pra garantir a acumula\u00e7\u00e3o crescente, ser\u00e1 preciso atacar os trabalhadores. N\u00e3o h\u00e1 alternativa, n\u00e3o h\u00e1 media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel na atual situa\u00e7\u00e3o. Se os setores governistas esperam por uma reedi\u00e7\u00e3o da arbitragem lulista entre as classes, v\u00e3o ter que esperar sentados.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio concedida em mar\u00e7o de 2015, voc\u00ea dizia que o esfacelamento do modelo econ\u00f4mico poderia paralelamente levar o chamado \u201clulismo\u201d junto. Como enxerga esse processo hist\u00f3rico recente diante do novo ano?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> Na minha opini\u00e3o, acabou o lulismo porque acabou o consenso. O lulismo foi basicamente uma estrat\u00e9gia de pol\u00edtica de pacifica\u00e7\u00e3o social, apoiada em dois tipos de consentimento, distintos, por\u00e9m, complementares: um mais passivo, das massas, que aderem ao governo seduzidas pela relativa desconcentra\u00e7\u00e3o de renda entre os segmentos do mundo do trabalho, aumento da formaliza\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, o cr\u00e9dito popular e pol\u00edticas p\u00fablicas importantes que tiraram milh\u00f5es de trabalhadores da mis\u00e9ria. Houve uma pequena margem de concess\u00e3o aos trabalhadores, e agora ela est\u00e1 sendo atacada. Por outro lado, houve um consentimento ativo das dire\u00e7\u00f5es dos movimentos sociais do pa\u00eds formados desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, \u00e9poca que marcou o surgimento de dois grandes movimentos, o sindical, hegemonizado pela CUT, e o MST. As lideran\u00e7as dos anos 1980 e 1990 foram seduzidas pelos milhares de cargos no aparelho de Estado e pela possibilidade de enriquecimento proporcionadas pelas posi\u00e7\u00f5es nos conselhos gestores dos fundos de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Em suma, ambos, e de resto a maior parte dos movimentos, foram seduzidos pelo governo federal, o que significa uma pacifica\u00e7\u00e3o do polo de resist\u00eancia a certas pol\u00edticas, inclusive algumas antipopulares, ao longo dos \u00faltimos 12 anos. O atual momento significa que o lulismo como estrat\u00e9gia de pacifica\u00e7\u00e3o social acabou, porque n\u00e3o h\u00e1 consenso capaz de garantir a reprodu\u00e7\u00e3o das bases sociais dessa estrat\u00e9gia de pacifica\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista das massas populares, h\u00e1 um progressivo afastamento da orienta\u00e7\u00e3o geral do governo. Do ponto de vista das lideran\u00e7as dos movimentos, existe um aprofundamento dessa crise, pois as dire\u00e7\u00f5es sentem-se desconfort\u00e1veis com os ataques do governo aos trabalhadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma crise de representa\u00e7\u00e3o apoiada no aumento das tens\u00f5es entre as dire\u00e7\u00f5es dos movimentos e o governo. Isso foi vis\u00edvel no \u00faltimo per\u00edodo, com cr\u00edticas da CUT ao Minist\u00e9rio da Fazenda e \u00e0s pol\u00edticas adotadas pelo Levy. Isso \u00e9 normal e confirma as caracter\u00edsticas do poder sindical, que em algum n\u00edvel precisa oferecer contrapartidas \u00e0s suas bases, j\u00e1 que trabalha sem a estabilidade da forma de domina\u00e7\u00e3o apoiada na propriedade, algo tipicamente capitalista. Assim, o poder sindical \u00e9 mais perme\u00e1vel \u00e0 press\u00e3o dos de baixo.<\/p>\n<p>Portanto, como n\u00e3o h\u00e1 consenso, n\u00e3o h\u00e1 lulismo, por assim dizer. O lulismo, como modo de regula\u00e7\u00e3o do conflito Capital x Trabalho, esfacelou-se. E no seu lugar n\u00e3o apareceu uma alternativa politicamente est\u00e1vel. H\u00e1 uma grande confus\u00e3o, n\u00e3o se sabe efetivamente qual ser\u00e1 o novo modo de regula\u00e7\u00e3o e se de fato existir\u00e1 um modo de regula\u00e7\u00e3o capaz de estabilizar o conflito Capital x Trabalho no pa\u00eds. Penso que n\u00e3o. Creio que esse modo de regula\u00e7\u00e3o vai se nutrir do esfacelamento do modo anterior.<\/p>\n<p>Quer dizer, a meu ver, por um lado, as classes populares continuar\u00e3o bastante afastadas do governo e, por outro, as bases governistas, principalmente o movimento sindical, continuar\u00e3o gravitando em torno do governo e estabelecendo algum tipo de press\u00e3o. Uma parte dessas bases, sem d\u00favida, ser\u00e1 atra\u00edda por qualquer migalha que o governo oferecer, qualquer pequena concess\u00e3o. E uma parte, principalmente os setores do movimento social e sindical mais pr\u00f3ximos de suas bases, se sentir\u00e1 progressivamente mais pressionada pelo ativismo espor\u00e1dico dos subalternos.<\/p>\n<p>Parece-me que hoje em dia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais falar em regula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, porque n\u00e3o se tem as bases sociais capazes de garantir a estabilidade do modelo de desenvolvimento e que, no fundamental, passa por concess\u00f5es \u00e0s massas. Temos uma enorme confus\u00e3o e um horizonte que, muito provavelmente, continuar\u00e1 marcado por ataques aos direitos dos trabalhadores, que por sua vez tentar\u00e3o defender seus direitos.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o e o retorno da luta de classes ao pa\u00eds produzem a instabilidade. A priori, n\u00e3o se sabe para onde vai dar o barco. E parece ser essa a grande marca do momento presente: a incerteza, o aumento dos conflitos, a reprodu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e problem\u00e1tica da legitimidade das dire\u00e7\u00f5es dos movimentos sociais diante de suas bases.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: O que achou das movimenta\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico neste 2015 e o que se poderia, ou deveria, esperar de grupos, movimentos e partidos que ainda pretendem pautar outro projeto de pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> O ano de 2015, do ponto de vista de tais mobiliza\u00e7\u00f5es, foi marcado por dois polos. Por um lado, aumento da escala e intensidade da mobiliza\u00e7\u00e3o dos setores m\u00e9dios tradicionais, o que fez os setores populares viverem relativa defensiva ao longo de todo o ano. E tal defensiva esteve marcada por uma desorienta\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es tradicionais dos movimentos populares do Brasil, por conta da inflex\u00e3o reacion\u00e1ria e conservadora do governo Dilma, tendo \u00e0 frente o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy. E agora, no \u00faltimo quarto de 2015, n\u00f3s vivemos uma relativa reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de esquerda em torno da defesa da legalidade, por conta do processo de impeachment estabelecido pelo presidente da C\u00e2mara, o que garantiu certo f\u00f4lego ao governo.<\/p>\n<p>Assim, ao mesmo tempo, tem-se nas ruas a defesa do governo, dada a aus\u00eancia de alternativas cr\u00edveis capazes de solucionar a crise, e por outro lado os setores populares, movimentos sociais e sindicais na defensiva, se posicionando criticamente contra as medidas de austeridade do governo federal e contra o impeachment. No final do ano, vimos uma reaglutina\u00e7\u00e3o dos setores governistas em defesa da legalidade, que evidentemente atraiu parte importante do movimento cr\u00edtico, inclusive da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda, frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o grotesca de se ter um processo de impeachment estabelecido nesses moldes.<\/p>\n<p>Pensando nos movimentos sociais, foi algo mais pendular. At\u00e9 setembro, relativa defensiva com intensifica\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica ao governo, e no final do ano aumento da mobiliza\u00e7\u00e3o que desaguou na manifesta\u00e7\u00e3o do dia 16 de dezembro, com relativo sucesso, estruturada em torno da legalidade.<\/p>\n<p>No entanto, destaco que as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas mais profundas, isto \u00e9, desestrutura\u00e7\u00e3o dos pilares do \u00faltimo per\u00edodo e o aumento do desemprego, t\u00eam minado a for\u00e7a que a classe trabalhadora vinha acumulando at\u00e9 2013. O sistema de acompanhamento de greves do DIEESE acabou de divulgar os dados de 2013, que s\u00e3o impressionantes: houve mais de 2 mil greves, com flagrante retomada da atividade grevista em todo o pa\u00eds, principalmente nos setores privados e empresariais, tamb\u00e9m com participa\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos e forte presen\u00e7a de setores-chaves da economia brasileira, como metal\u00fargicos e petroleiros. Isso fez com que se acumulasse for\u00e7as em termos de massa salarial e poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas a partir de 2014, com a deteriora\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e aumento importante do desemprego em 2015, a tend\u00eancia \u00e9 a eros\u00e3o de parte dessa for\u00e7a acumulada e enfraquecimento de tal capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o. Portanto, me parece que essa guinada mais \u00e0 esquerda dos movimentos, em especial sindical, est\u00e1 relativamente dissociada do processo de eros\u00e3o da for\u00e7a social da classe trabalhadora quando se pensa nas condi\u00e7\u00f5es gerais do poder popular.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 bastante contradit\u00f3rio. Penso que teremos um per\u00edodo marcado por certa defensiva das classes trabalhadoras por conta do aumento do desemprego, mas uma retomada da capacidade de organiza\u00e7\u00e3o dos setores governistas em torno da presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Por outro lado, entendo que, tendo em vista a deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, os setores mais explorados e mais dominados dever\u00e3o ter um certo papel protagonista na luta pol\u00edtica futura, superior ao momento anterior. Em suma, acho que os setores da classe trabalhadora sindicalmente organizados recuar\u00e3o, comparativamente falando, e os movimentos sociais como o MTST avan\u00e7ar\u00e3o relativamente.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: \u00c9 poss\u00edvel pautar outro modelo ao lado de setores governistas ou s\u00f3 o rompimento total com o lulismo e o petismo pode criar credibilidade suficiente na popula\u00e7\u00e3o para esta finalidade?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que precisamos de uma alternativa radicalmente diferente do que est\u00e1 a\u00ed. Isso porque o lulismo como modo de regula\u00e7\u00e3o acabou e como regime de acumula\u00e7\u00e3o colapsou, pois n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o no horizonte para se aumentarem as concess\u00f5es aos trabalhadores, e sim o contr\u00e1rio, um ataque cada vez mais profundo aos trabalhadores. As for\u00e7as governistas s\u00e3o incapazes de imaginar uma alternativa porque est\u00e3o encasteladas no Estado e far\u00e3o de tudo para garantir essa posi\u00e7\u00e3o privilegiada, inclusive contra os interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Parece que os setores de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda do governo, a despeito de terem assistido um relativo fortalecimento no \u00faltimo per\u00edodo, ainda s\u00e3o demasiadamente fr\u00e1geis pra apresentar uma proposta cr\u00edvel. No entanto, \u00e9 a \u00fanica alternativa poss\u00edvel m\u00e9dio prazo: apostar nos setores de esquerda intransigentes ao governo federal e na conforma\u00e7\u00e3o de um polo alternativo \u00e0 dualidade entre PT x PSDB que se estabeleceu nos \u00faltimos 25 anos. \u00c9 a minha aposta.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 alternativa poss\u00edvel dentro do governismo. Ter\u00e1 de ser constru\u00edda fora do governismo, naquilo que eu chamaria de terceiro campo, capaz de organizar a luta de classes no pa\u00eds de maneira progressista para os trabalhadores. Acredito que o pr\u00f3ximo per\u00edodo ser\u00e1 marcado por agudas lutas de classes: pol\u00edtica, econ\u00f4mica, cultural e ideologicamente.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para as media\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pelo lulismo, com seus campos intermedi\u00e1rios e hibridismos pol\u00edticos. N\u00e3o h\u00e1 mais tal espa\u00e7o. O que existe, na verdade, \u00e9 a necessidade de uma atitude mais radical. Nesse sentido, os setores da chamada \u201cextrema esquerda\u201d t\u00eam um amplo campo pra trabalhar. Resta saber se ser\u00e3o capazes de organizar a indigna\u00e7\u00e3o que cresce no interior das classes trabalhadoras e subalternas no pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Lava Jato, crise na Petrobr\u00e1s, trag\u00e9dia da Samarco, desemprego em alta, crises h\u00eddricas e energ\u00e9ticas cada vez mais \u00e0 espreita, ataques \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, um cotidiano barbaramente militarizado&#8230; Para onde parece rumar o Brasil?<\/b><\/p>\n<p><b>Ruy Braga:<\/b> Eu deposito todas as minhas fichas e esperan\u00e7a nos setores jovens, nos filhos da classe trabalhadora que hoje est\u00e3o nas escolas, no ensino m\u00e9dio, naqueles estudantes que inundaram o mercado de trabalho no \u00faltimo per\u00edodo, nos jovens que est\u00e3o \u00e0 procura do primeiro emprego e nos setores mais atingidos pelo subemprego. Aquilo que tem a ver, basicamente, com setores da classe trabalhadora que vivem entre esses dois polos: de um lado, o aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de outro a possibilidade real de exclus\u00e3o social. E tais segmentos coincidem com os setores jovens, negros e femininos da classe trabalhadora brasileira, que t\u00eam mostrado uma enorme capacidade de automobiliza\u00e7\u00e3o. Vimos isso nitidamente em junho de 2013, estamos vendo hoje com o aumento da mobiliza\u00e7\u00e3o dos estudantes do ensino m\u00e9dio p\u00fablico e a onda de ocupa\u00e7\u00e3o de escolas em S\u00e3o Paulo, em Goi\u00e1s etc.<\/p>\n<p>O grande desafio para uma sa\u00edda progressista da crise brasileira passa necessariamente pela constru\u00e7\u00e3o de pontes entre esses setores jovens e automobilizados, que t\u00eam muita vitalidade combativa, e tamb\u00e9m foram melhor formados, pois t\u00eam mais escolaridade que a gera\u00e7\u00e3o anterior. E, ao mesmo tempo, se veem imersos em condi\u00e7\u00f5es muito ruins de contrata\u00e7\u00e3o, renda, trabalho, experimentando na pele as contradi\u00e7\u00f5es do modelo de desenvolvimento brasileiro, cuja capacidade expansiva se esgotou. Uma sa\u00edda politicamente progressista para a crise brasileira passa necessariamente pela mobiliza\u00e7\u00e3o desse jovem precariado urbano.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 esse: articular os setores combativos que encarnam a agenda da defesa dos direitos sociais, da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, do transporte p\u00fablico de qualidade, da renda, do mercado de trabalho formal, dos direitos previdenci\u00e1rios. Essa gera\u00e7\u00e3o \u00e9 quem encarna tais condi\u00e7\u00f5es, ao lado de setores mais desorganizados da classe trabalhadora. O grande desafio \u00e9 como politizar a luta toda, que evidentemente \u00e9 pol\u00edtica, como toda luta social, mas tamb\u00e9m no sentido de se constru\u00edrem projetos alternativos ao que, fundamentalmente, vimos at\u00e9 hoje. Ou seja, um projeto alternativo ao lulismo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a despeito de 2015 ter sido p\u00e9ssimo em termos econ\u00f4micos, de desemprego, de crise h\u00eddrica, com essa enorme trag\u00e9dia da mineradora (que mostra o significado da acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o do meio ambiente), e que terminou simbolicamente com o inc\u00eandio no Museu da L\u00edngua Portuguesa, enfim, um ano completamente terr\u00edvel para as classes populares brasileiras, tamb\u00e9m assistimos a emerg\u00eancia pol\u00edtica de uma gera\u00e7\u00e3o que vai dar o que falar. E aposto minhas fichas exatamente nessa nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Val\u00e9ria Nader \u00e9 economista e editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito \u00e9 jornalista.<\/b><\/p>\n<p><i><b>Fonte: Correio da Cidadania<\/b><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"GABRIEL BRITO E VAL\u00c9RIA NADER, DA REDA\u00c7\u00c3O Com cara de velho, come\u00e7a o novo ano, com not\u00edcias pra l\u00e1 de similares a janeiro \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10274\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-10274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2FI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10274\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}