{"id":1028,"date":"2010-11-29T20:01:37","date_gmt":"2010-11-29T20:01:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1028"},"modified":"2010-11-29T20:01:37","modified_gmt":"2010-11-29T20:01:37","slug":"o-conflito-colombiano-forma-violenta-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1028","title":{"rendered":"O conflito colombiano: Forma violenta do capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria pol\u00edtica da Col\u00f4mbia \u00e9 a hist\u00f3ria dos grandes conflitos sociais e econ\u00f4micos. Faz apenas quarenta anos, mais ou menos, que se publicou o texto \u201cOs grandes conflitos sociais e econ\u00f4micos da nossa hist\u00f3ria\u201d, primeira tentativa de escrever a \u201cnova hist\u00f3ria da Col\u00f4mbia\u201d, diferente da tradicional e confessional que se transmite de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos nossos dias. O autor foi Indal\u00e9cio Li\u00e9vano Aguirre. No inicio, o texto afirma o seguinte: \u201cA conquista e a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica ser\u00e3o objecto de infindas controv\u00e9rsias enquanto se insistir em as descrever como um processo homog\u00eaneo e rectil\u00edneo e n\u00e3o como um conflito din\u00e2mico, dentro o qual as chamadas Lenda Negra e Lenda Rosa representam, apenas, as duas tend\u00eancias que ao longo dos s\u00e9culos coloniais inspiraram a grande controv\u00e9rsia entre o Estado espanhol e os poderes senhoriais da riqueza. No relato que vamos fazer dos epis\u00f3dios principais da nossa hist\u00f3ria desde a conquista, se poder\u00e3o perceber as origens dessa grande controv\u00e9rsia e a maneira decisiva como ela ancorou no centro de gravidade da nossa sociedade o grande debate entre a justi\u00e7a que defende os humildes e todas as formas de opress\u00e3o que favorecem os poderosos\u201d.(1)<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de confronta\u00e7\u00e3o \u00e9 constante, porque as classes dominantes desde \u201cA Conquista\u201d, acostumaram-se a exercer o poder mediante o exerc\u00edcio da viol\u00eancia. Nem sequer a \u00e9poca republicana se livrou desta perversa tend\u00eancia olig\u00e1rquica, depois de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, a hist\u00f3ria colombiana desde finais do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 aos nossos dias, manteve essa constante. O pequeno, mas poderoso c\u00edrculo governante, imp\u00f4s a \u201clei e a ordem\u201d sob m\u00e9todos repressivos e terroristas de Estado. Mediante o exterm\u00ednio do contraditor e os estatutos de seguran\u00e7a, como a lei her\u00f3ica, a lei dos cavalos, o estatuto de seguran\u00e7a, a seguran\u00e7a democr\u00e1tica, entre outros. Todos orientados para impor a ordem e neutralizar a subvers\u00e3o em defesa dos interesses imperialistas e da oligarquia dominante. Esta \u00e9 a causa de tantos conflitos e de guerras civis ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cPara entender o conflito pol\u00edtico, social e armado que afecta o pa\u00eds no momento actual, basta seguir a traject\u00f3ria da hist\u00f3ria da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia nos \u00faltimos cinquenta anos, que \u00e9 apenas uma das tantas viol\u00eancias que a classe dominante imp\u00f4s ao povo, porque ao fim e ao cabo n\u00e3o conheceu outra forma de governar para fixar o regime antidemocr\u00e1tico e desp\u00f3tico que garante gordos benef\u00edcios \u00e1 oligarquia, que lucra com o poder em cada etapa do processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Primeiro foram os latifundi\u00e1rios, depois a burguesia detentora dos meios de produ\u00e7\u00e3o e na atualidade o capital financeiro, proporcionado pelo modelo neoliberal do capitalismo selvagem e os poderosos grupos econ\u00f4micos que concentram cada vez mais a riqueza, naturalmente amarrados como usufrutu\u00e1rios do poder dominante, ligado aos interesses imperialistas\u201d.<\/p>\n<p>O conflito pol\u00edtico, social e armado da atualidade, o \u00faltimo de tantas viol\u00eancias dos 500 anos de exist\u00eancia e 200 da primeira independ\u00eancia, teve a sua origem em meados do s\u00e9culo passado nas lutas camponesas pela reforma agr\u00e1ria e da contradi\u00e7\u00e3o com os latifundi\u00e1rios, protegidos pelo governo de ent\u00e3o (Mariano Ospina P\u00e9rez, conservador) a ferro e fogo. Foi a \u00e9poca em que se consolidaram as formas terroristas do Estado colombiano, que ainda perduram.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia era na \u00e9poca um pa\u00eds agr\u00e1rio, de economia agr\u00e1ria e com a maior concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e popula\u00e7\u00e3o no campo. Apenas 3 por cento dos propriet\u00e1rios controlava 95 por cento da terra f\u00e9rtil. Sessenta anos depois, apesar da Col\u00f4mbia ser um pa\u00eds urbano, com forte economia agro-industrial e com ritmos altos na produ\u00e7\u00e3o industrial, nunca se fez uma reforma agr\u00e1ria. Antes pelo contr\u00e1rio, nos \u00faltimos vinte anos, o emaranhado de pol\u00edticos regionais tradicionais, as m\u00e1fias do narcotr\u00e1fico e o para-militarismo, avan\u00e7aram com uma contra-reforma agr\u00e1ria para despojar da terra os m\u00e9dios e pequenos camponeses. Despejo imposto com a protec\u00e7\u00e3o dos governantes, mesmo em formas descaradas de assist\u00eancia a latifundi\u00e1rios e outros sectores da oligarquia, como o Programa de Agro Ingresso Seguro no anterior Governo, que entregou milh\u00f5es e milh\u00f5es de pesos em subs\u00eddios e ajudas aos ricos, em aberto desafio \u00e0s comunidades empobrecidas da agricultura colombiana.<\/p>\n<p>S\u00e3o estas as raz\u00f5es do conflito, que se retroalimentou nos \u00faltimos trinta anos com a configura\u00e7\u00e3o excludente de um sistema bipartidarista de formas repressivas e da liquida\u00e7\u00e3o das liberdades p\u00fablicas, que afastam a possibilidade de um Estado social de direito, como consagra a Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica de 1991 na sua letra morta. Precisamente, por a oligarquia dominante, em cada momento, se negar a alterar esta situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 que fracassaram todas as tentativas nos \u00faltimos 30 anos de encontrar a paz mediante o di\u00e1logo com as guerrilhas. N\u00e3o h\u00e1 uma vontade pol\u00edtica de mudan\u00e7a na classe dominante, prefere a paz dos cemit\u00e9rios \u00e1 paz romana. A causa do fracasso dos processos de paz ou de di\u00e1logo foi a resist\u00eancia do governo de turno, pressionado pela classe dominante e pelo imperialismo ianque, a aceitar altera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas que erradiquem as causas do conflito. Cada governo prefere a linha da guerra, com a velha ambi\u00e7\u00e3o de levar a guerrilha derrotada \u00e1 mesa de di\u00e1logo para assinar a desmobiliza\u00e7\u00e3o e a rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a causa de tantos fracassos e de tantas frustra\u00e7\u00f5es do povo colombiano, que anseia pela paz. O conflito prolongou-se de maneira indefinida, conhecendo altos n\u00edveis de degrada\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie. Por esta raz\u00e3o, um di\u00e1logo de paz deve come\u00e7ar por acordos humanit\u00e1rios bilaterais, que comprometam as partes na aplica\u00e7\u00e3o e respeito pelo direito internacional humanit\u00e1rio. Contudo, o fracasso da via militar \u00e9 evidente, e mais ainda depois dos oito anos de guerra sustentada na chamada \u201cseguran\u00e7a democr\u00e1tica\u201d nos dois governos de \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, incluindo a entrega de parte do territ\u00f3rio nacional para a instala\u00e7\u00e3o de bases militares norte-americanas.<\/p>\n<p>\u00c9 a linha em que persiste o governo actual de Juan Manuel Santos, que chegou ao desaforo de qualificar Uribe V\u00e9lez como o segundo libertador da Col\u00f4mbia. Enquanto insiste nas opera\u00e7\u00f5es militares e bombardeamentos a\u00e9reos indiscriminados e calculados, sempre com o apoio do governo dos Estados Unidos, que lhe permitiu assestar duros golpes na guerrilha das FARC, embora sem acabar com ela como \u00e9 a pretens\u00e3o e a propaganda. N\u00e3o chegou o \u201csonho dourado\u201d da madre de todas as batalhas que permita ao governo da Col\u00f4mbia arrasar a totalidade da for\u00e7a guerrilheira.<\/p>\n<p>Depois do sete de Agosto passado, quando Juan Manuel Santos assumiu a presid\u00eancia, as FARC fizeram pelo menos tr\u00eas tentativas de abrir um cen\u00e1rio de di\u00e1logo, com uma agenda concreta que inclu\u00eda cinco pontos como o direito internacional humanit\u00e1rio, a reforma agr\u00e1ria, o modelo econ\u00f4mico, as mudan\u00e7as pol\u00edticas e as bases militares e a soberania nacional. Santos, por seu lado, assegura que tem na sua m\u00e3o a chave do di\u00e1logo, condicionado a gestos de vontade de paz da guerrilha, ainda que a \u00eanfase seja colocada nos meios operativos militares e de guerra. Tudo num clima de confronta\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o aos opositores como \u00e9 o caso da senadora Piedad C\u00f3rdoba e de tantos colombianos e colombianas que trabalham para construir um novo pa\u00eds em condi\u00e7\u00f5es de paz com democracia e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A via militar \u00e9 invi\u00e1vel. A solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica negociada do conflito, a via pac\u00edfica e democr\u00e1tica, apoiada nas massas populares, \u00e9 a \u00fanica que pode tirar o pa\u00eds da crise. Neste sentido \u00e9 importante fortalecer os processos de unidade em redor do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo e de outros sectores pol\u00edticos e sociais, que se pronunciam pela paz e o fortalecimento da democracia. \u00c9 a contradi\u00e7\u00e3o entre a barb\u00e1rie e a civiliza\u00e7\u00e3o, Entre as for\u00e7as progressistas e o fascismo; entre os que queremos uma Col\u00f4mbia democr\u00e1tica virada para os processos latino-americanos e os que insistem em estar atados \u00e1 tirania imperialista que imp\u00f5e o atraso e a guerra.<\/p>\n<p>LIEVANO, Aguirre Indalecio Os grandes conflitos sociais e econ\u00f3micos da nossa hist\u00f3ria. Intermedio Editores 2002. P\u00e1g. 19<\/p>\n<p>ANO, Guill\u00e9n Carlos A. Guerra ou Paz na Col\u00f4mbia? Cinquenta anos de um conflito sem solu\u00e7\u00e3o. Edi\u00e7\u00f5es Izquierda Viva y Ocean Sur. 2006. P\u00e1g. 37<\/p>\n<p>(*) Advogado e jornalista colombiano. Director do jornal VOZ. Dirigente do Partido Comunista Colombiano e do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo. Autor de sete livros e de numerosos ensaios em jornais e revistas.<\/p>\n<p>ANO, Guill\u00e9n Carlos A. Guerra ou Paz na Col\u00f4mbia? Cinquenta anos de um conflito sem solu\u00e7\u00e3o. Edi\u00e7\u00f5es Izquierda Viva y Ocean Sur. 2006. P\u00e1g. 37<\/p>\n<p>(*) Advogado e jornalista colombiano. Director do jornal VOZ. Dirigente do Partido Comunista Colombiano e do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo. Autor de sete livros e de numerosos ensaios em jornais e revistas.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas: Guilherme Coelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Pacocol\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarlos A. 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