{"id":1029,"date":"2010-11-29T20:08:47","date_gmt":"2010-11-29T20:08:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1029"},"modified":"2010-11-29T20:08:47","modified_gmt":"2010-11-29T20:08:47","slug":"nao-havera-vencedores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1029","title":{"rendered":"N\u00e3o haver\u00e1 vencedores"},"content":{"rendered":"\n<p>Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. N\u00e3o se trata de uma marcha revolucion\u00e1ria, como a cena poderia sugerir em outro tempo e lugar.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o com armas nas m\u00e3os e as cabe\u00e7as vazias. N\u00e3o defendem ideologia. N\u00e3o disputam o Estado. N\u00e3o h\u00e1 sequer expectativa de vida. S\u00f3 conhecem a barb\u00e1rie. A maioria n\u00e3o concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa. As imagens a\u00e9reas na TV, em tempo real, s\u00e3o terr\u00edveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cad\u00e1veres a qualquer hora. A cena ocorre ap\u00f3s a chegada das for\u00e7as policiais do Estado \u00e0<strong> Vila Cruzeiro<\/strong> e ao <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, zona norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O ideal seria uma rendi\u00e7\u00e3o, mas isso \u00e9 dif\u00edcil de acontecer. O risco de um banho de sangue, sim, \u00e9 real, porque prevalece na seguran\u00e7a p\u00fablica a l\u00f3gica da guerra. O Estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, n\u00e3o costuma haver vencedores.<\/p>\n<p>Esse modelo de enfrentamento n\u00e3o parece eficaz. Prova disso \u00e9 que, n\u00e3o faz tanto tempo assim, nesta mesma gest\u00e3o do governo estadual, em 2007, no pr\u00f3prio <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, a pol\u00edcia entrou e matou 19. E eis que, agora, a pol\u00edcia v\u00ea a necessidade de entrar na mesma favela de novo.<\/p>\n<p>Tem sido assim no Brasil h\u00e1 tempos. Essa l\u00f3gica da guerra prevalece no Brasil desde <strong>Canudos<\/strong>. E nunca proporcionou seguran\u00e7a de fato. Novas crises vir\u00e3o. E novas mortes. At\u00e9 quando? N\u00e3o vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia \u00e0 data hist\u00f3rica da 2\u00aa Guerra Mundial n\u00e3o passa de fraude midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Essa crise se explica, em parte, por uma concep\u00e7\u00e3o do papel da pol\u00edcia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o tr\u00e1fico. Este existe em todo lugar, no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas \u00e0s favelas?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso patrulhar a ba\u00eda de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo neg\u00f3cio das armas e drogas \u00e9 m\u00e1fia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a pol\u00edcia que mais mata e que mais morre no mundo n\u00e3o resolve.<\/p>\n<p>Falta vontade pol\u00edtica para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza &#8211; onde h\u00e1 poder e dinheiro. E, na origem da crise, h\u00e1 ainda a desigualdade. \u00c9 a mis\u00e9ria que se apresenta como pano de fundo no zoom das c\u00e2meras de TV. Mas s\u00e3o os homens armados em fuga e o aparato b\u00e9lico do Estado os protagonistas do impressionante espet\u00e1culo, em narrativa estruturada pelo vi\u00e9s manique\u00edsta da eterna &#8220;guerra&#8221; entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>Como o &#8220;inimigo&#8221; mora na favela, s\u00e3o seus moradores que sofrem os efeitos colaterais da &#8220;guerra&#8221;, enquanto a crise parece n\u00e3o afetar tanto assim a vida na zona sul, onde a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia se traduziu no aumento do policiamento preventivo. A viol\u00eancia \u00e9 desigual.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso construir mais do que s\u00f3 a solu\u00e7\u00e3o t\u00f3pica de uma crise epis\u00f3dica. Nem nas <strong>UPPs<\/strong> se providenciou ainda algo al\u00e9m da a\u00e7\u00e3o policial. Falta sa\u00fade, creche, escola, assist\u00eancia social, lazer.<\/p>\n<p>O poder p\u00fablico n\u00e3o recolhe o lixo nas \u00e1reas em que a pol\u00edcia \u00e9 instrumento de apartheid. Pode parecer repetitivo, mas \u00e9 isso: uma solu\u00e7\u00e3o para a seguran\u00e7a p\u00fablica ter\u00e1 de passar pela garantia dos direitos b\u00e1sicos dos cidad\u00e3os da favela.<\/p>\n<p>Da popula\u00e7\u00e3o das favelas, 99% s\u00e3o pessoas honestas que saem todo dia para trabalhar na f\u00e1brica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. E essa gente &#8211; com as suas comunidades tornadas em pra\u00e7as de &#8220;guerra&#8221; &#8211; n\u00e3o consegue exercer sequer o direito de dormir em paz.<\/p>\n<p>Quem dera houvesse, como nas favelas, s\u00f3 1% de criminosos nos parlamentos e no Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>(*) Marcelo Freixo \u00e9 deputado estadual (PSOL-RJ)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: R7\n\n\n\n\n\n\n\n\nMarcelo Freixo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1029\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-1029","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-gB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}