{"id":1032,"date":"2010-12-01T04:15:32","date_gmt":"2010-12-01T04:15:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1032"},"modified":"2010-12-01T04:15:32","modified_gmt":"2010-12-01T04:15:32","slug":"uma-guerra-pela-regeografizacao-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1032","title":{"rendered":"Uma guerra pela regeografiza\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cO que est\u00e1 por tr\u00e1s desses <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=21452\" target=\"_blank\">conflitos urbanos<\/a> \u00e9 uma reconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do crime na cidade\u201d. Assim descreve o soci\u00f3logo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38683\" target=\"_blank\"><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves<\/strong> <\/a>a motiva\u00e7\u00e3o principal dos conflitos que est\u00e3o se dando entre traficantes e a pol\u00edcia do Rio de Janeiro. Na entrevista a seguir, concedida \u00e0<strong> IHU On-Line<\/strong> por telefone, o professor analisa a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=20858\" target=\"_blank\">composi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica<\/a> do conflito e reflete as estrat\u00e9gias de reorganiza\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias durante esses embates. \u201cA m\u00eddia nos faz crer \u2013 sobretudo a <strong>Rede Globo<\/strong> est\u00e1 empenhada nisso \u2013 que h\u00e1 uma luta entre o bem e o mal. O bem \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica e a pol\u00edcia do Rio de Janeiro e o mal s\u00e3o os traficantes que est\u00e3o sendo combatidos. Na verdade, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. N\u00e3o existe essa realidade. O que existe \u00e9 essa reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura do crime\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves <\/strong>\u00e9 graduado em Estudos Sociais pela Funda\u00e7\u00e3o Educacional de Brusque. \u00c9 mestre em sociologia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma \u00e1rea, pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Atualmente, \u00e9 professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria..<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses conflitos atuais no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses conflitos urbanos \u00e9 uma reconfigura\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=27014\" target=\"_blank\">geopol\u00edtica do crime na cidade<\/a>. Isso j\u00e1 vem se dando h\u00e1 algum tempo e culminou na situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo atualmente. H\u00e1 elementos presentes nesse conflito que v\u00eam de per\u00edodos maiores da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro, um deles \u00e9 o surgimento das mil\u00edcias que nada mais s\u00e3o do que estruturas de viol\u00eancia constru\u00eddas a partir do aparato policial de forma mais expl\u00edcita. Elas, portanto, controlar\u00e3o v\u00e1rias <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=30613\" target=\"_blank\">favelas<\/a> do RJ e ser\u00e3o inseridas no processo de expuls\u00e3o do <strong>Comando Vermelho<\/strong> e pelo fortalecimento de uma outra fac\u00e7\u00e3o chamada <strong>Terceiro Comando<\/strong>. H\u00e1 uma terceira fac\u00e7\u00e3o chamada Ada, que \u00e9 um desdobramento do <strong>Comando Vermelho<\/strong> e que opera nos confrontos que v\u00e3o ocorrer junto a essa primeira fac\u00e7\u00e3o em determinadas \u00e1reas. Na verdade, o <strong>Comando Vermelho<\/strong> foi se transformando num segmento que est\u00e1 perdendo sua hegemonia sobre a organiza\u00e7\u00e3o do crime no Rio de Janeiro. Quem est\u00e1 avan\u00e7ando, ao longo do tempo, s\u00e3o as mil\u00edcias em articula\u00e7\u00e3o com o <strong>Terceiro Comando<\/strong>.<\/p>\n<p>Um elemento determinante nessa reconfigura\u00e7\u00e3o foi o surgimento das <strong>UPPs<\/strong> a partir de uma pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o de determinadas favelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses est\u00e3o voltados para a quest\u00e3o do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou seja, o capital que estar\u00e1 envolvido nas <strong>Olimp\u00edadas<\/strong>. Ent\u00e3o, a expuls\u00e3o das <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=9732\" target=\"_blank\">favelas cariocas<\/a> feita pelas <strong>UPPs<\/strong> ocorre em cima do segmento do <strong>Comando Vermelho<\/strong>. Por isso, o que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 um rearranjo dessa estrutura. O <strong>Comando<\/strong> <strong>Vermelho<\/strong> est\u00e1 indo agora para um confronto que aterroriza a popula\u00e7\u00e3o para que um novo acordo se estabele\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a \u00e1reas e espa\u00e7os para que esse segmento se estabele\u00e7a e sobreviva.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Mas, ent\u00e3o, o que est\u00e1 em jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>N\u00e3o est\u00e1 em jogo a destrui\u00e7\u00e3o da estrutura do crime, ela est\u00e1 se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressair s\u00e3o, sobretudo, as <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38702\" target=\"_blank\">mil\u00edcias<\/a>, o <strong>Terceiro Comando<\/strong> \u2013 que vem crescendo junto e operando com as mil\u00edcias \u2013 e a pol\u00edtica de seguran\u00e7a do Estado calcada nas <strong>UPPs<\/strong> \u2013 que n\u00e3o alteraram a rela\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=4617\" target=\"_blank\">m\u00eddia<\/a> nos faz crer \u2013 sobretudo a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=21221\" target=\"_blank\">Rede Globo<\/a> est\u00e1 empenhada nisso \u2013 que h\u00e1 uma luta entre o bem e o mal. O bem \u00e9 a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38708\" target=\"_blank\">seguran\u00e7a p\u00fablica e a pol\u00edcia <\/a>do Rio de Janeiro e o mal s\u00e3o os traficantes que est\u00e3o sendo combatidos. Na verdade, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. N\u00e3o existe essa realidade. O que existe \u00e9 essa reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura do crime.<\/p>\n<p>A realidade do RJ exige hoje uma an\u00e1lise muito profunda e complexa e n\u00e3o essa espetaculariza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, que tem um objetivo: escorra\u00e7ar um segmento do crime organizado e favorecer a constela\u00e7\u00e3o de outra composi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=19017\" target=\"_blank\">crime no RJ<\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>Porque a partir dessa reconfigura\u00e7\u00e3o que foi sendo feita das mil\u00edcias e das <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=15209\" target=\"_blank\">UPPs (Unidades de Policiamento Pacificadoras)<\/a>, o <strong>Comando Vermelho<\/strong> come\u00e7ou a estabelecer uma base operacional muito forte no <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>. Este lugar envolve um conjunto de favelas com um conjunto de entradas e sa\u00eddas. O centro desse complexo \u00e9 constitu\u00eddo de \u00e1reas abertas que s\u00e3o remanescentes de matas. Essa estrutura\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e paisag\u00edstica daquela regi\u00e3o favoreceu muito a presen\u00e7a do <strong>Comando Vermelho<\/strong> l\u00e1. Mas se observarmos todas as opera\u00e7\u00f5es, veremos que elas est\u00e3o seguindo o eixo da <strong>Central do Brasil<\/strong> e <strong>Leopoldina<\/strong>, que s\u00e3o dois eixos ferrovi\u00e1rios que conectam o centro do RJ ao sub\u00farbio e \u00e0 <strong>Baixada Fluminense<\/strong>. Todos os confrontos est\u00e3o ocorrendo nesse eixo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Por que nesse eixo, em espec\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>Porque, ao longo desse eixo, h\u00e1 v\u00e1rias comunidades que ainda pertencem ao <strong>Comando Vermelho<\/strong>. N\u00e3o t\u00e3o fortemente estruturadas, n\u00e3o de forma organizada como no<strong> Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, mas s\u00e3o comunidades que permanecem como n\u00facleos que s\u00e3o facilmente articulados. Por exemplo: a favela de <strong>Vig\u00e1rio Geral<\/strong> foi tomada pelo <strong>Terceiro Comando<\/strong> porque hoje as mil\u00edcias controlam essa favela e a de <strong>Parada de Lucas<\/strong> a alugam para o <strong>Terceiro Comando<\/strong>. Mas ao lado, cerca de dois quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia dessa favela, existe uma menor que \u00e9 a favela de <strong>Furquim Mendes<\/strong>, controlada pelo <strong>Comando Vermelho<\/strong>. Logo, as <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38701\" target=\"_blank\">opera\u00e7\u00f5es<\/a> que est\u00e3o ocorrendo agora em <strong>Vig\u00e1rio Geral<\/strong>, <strong>Jardim Am\u00e9rica<\/strong> e em <strong>Duque de Caxias<\/strong> est\u00e3o tendo um n\u00facleo de opera\u00e7\u00e3o a partir de <strong>Furquim Mendes<\/strong>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o combate no <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong> \u00e9 meramente simb\u00f3lico nessa disputa. Por isso, invadir o <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong> n\u00e3o vai acabar com o tr\u00e1fico no Rio de Janeiro. H\u00e1 v\u00e1rios pontos onde as mil\u00edcias e as diferentes fac\u00e7\u00f5es est\u00e3o instaladas. O mais dr\u00e1stico \u00e9 que quem vai morrer nesse confronto \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o civil e inocente, que n\u00e3o tem acesso \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, luz&#8230; H\u00e1 todo um drama social que essa popula\u00e7\u00e3o vai ser submetida de forma injusta, arbitr\u00e1ria, ignorante, est\u00fapida, meramente voltada aos interesses midi\u00e1ticos, de venda de imagens e para os interesses de um projeto de pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica que ressalta a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. No <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38700\" target=\"_blank\">Rio de Janeiro<\/a> a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria foi elevada \u00e0 categoria de pol\u00edtica p\u00fablica pelo atual governo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que contexto geogr\u00e1fico est\u00e1 localizado a Vila Cruzeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013<\/strong> A <strong>Vila Cruzeiro<\/strong> est\u00e1 localizada no que n\u00f3s chamamos de <strong>zona da Leopoldina<\/strong>. Ela est\u00e1 ao p\u00e9 do <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, s\u00f3 que na face que esse complexo tem voltada para a <strong>Penha<\/strong>. A <strong>Penha<\/strong> \u00e9 um bairro da <strong>Leopoldina<\/strong>. Essa regi\u00e3o da <strong>Leopoldina<\/strong> se constituiu no eixo da <strong>estrada de ferro Leopoldina<\/strong>, que come\u00e7a na <strong>Central do Brasil<\/strong>, passa por <strong>S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o<\/strong> e dali vai seguir por <strong>Bonsucesso<\/strong>, <strong>Penha<\/strong>, <strong>Olaria<\/strong>, <strong>Vig\u00e1rio Geral<\/strong> \u2013 que \u00e9 onde eu moro e que \u00e9 a \u00faltima parada da <strong>Leopoldina<\/strong> e a\u00ed se entra na <strong>Baixada Fluminense<\/strong> com a esta\u00e7\u00e3o de <strong>Duque de Caxias<\/strong>.<\/p>\n<p>Esse \u201ccorredor\u201d foi um dos maiores eixos de faveliza\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro. A faveliza\u00e7\u00e3o que, inicialmente, ocorre na zona sul n\u00e3o encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas. Tirando a da <strong>Rocinha<\/strong>, que \u00e9 a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos \u2013 como o da <strong>Mar\u00e9<\/strong> e do <strong>Alem\u00e3o<\/strong> \u2013 est\u00e3o localizados no eixo da zona da <strong>Leopoldina<\/strong> at\u00e9 <strong>Avenida<\/strong> <strong>Brasil<\/strong>. A <strong>Leopoldina<\/strong> \u00e9 de 1887-1888, j\u00e1 a <strong>Avenida Brasil<\/strong> \u00e9 de 1946. \u00c9 nesse prazo de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a <strong>Vila Cruzeiro<\/strong> \u00e9 apenas uma das faces do <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong> e \u00e9 a de maior facilidade para a entrada da pol\u00edcia, onde se pode fazer opera\u00e7\u00f5es de grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso n\u00e3o expressa o <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong> em si.<\/p>\n<p>A <strong>Mar\u00e9<\/strong> fica do outro lado da <strong>Avenida Brasil<\/strong>. Ela tem quase 200 mil habitantes. Uma parte dela pertence ao <strong>Comando Vermelho<\/strong>, a outra parte \u00e9 do <strong>Terceiro Comando<\/strong>. Por que n\u00e3o se faz nenhuma opera\u00e7\u00e3o num complexo t\u00e3o grande ou maior do que o do <strong>Alem\u00e3o<\/strong>? Ningu\u00e9m cita isso! Por que n\u00e3o se entra nas favelas onde o <strong>Terceiro Comando<\/strong> est\u00e1 operando? Porque o <strong>Terceiro Comando<\/strong> j\u00e1 tem acordo com as mil\u00edcias e com a pol\u00edtica de seguran\u00e7a. Por isso, as atua\u00e7\u00f5es se d\u00e3o em cima de uma das faces mais fr\u00e1geis do <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, como se isso fosse alguma coisa significativa.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alem\u00e3o se tornou o reduto de fuga dos traficantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>A estrutura dele \u00e9 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38602\" target=\"_blank\">muito mais complexa<\/a> para que se fa\u00e7a qualquer tipo de opera\u00e7\u00e3o l\u00e1. H\u00e1 facilidade de fuga, porque h\u00e1 v\u00e1rias faces de sa\u00edda. N\u00e3o \u00e9 uma favela que a pol\u00edcia consegue cercar. Mesmo juntando a pol\u00edcia do RJ inteiro e o Ex\u00e9rcito Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo. O <strong>Alem\u00e3o<\/strong> \u00e9 muito maior do que se possa imaginar. Ent\u00e3o, \u00e9 uma \u00e1rea que permite a reorganiza\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o do <strong>Comando Vermelho<\/strong>. Mas existem v\u00e1rias outras bases do <strong>Comando Vermelho<\/strong> pulverizadas em toda a \u00e1rea da <strong>Leopoldina<\/strong> e <strong>Central do Brasil<\/strong> que est\u00e3o tamb\u00e9m operando.<\/p>\n<p>Mesmo que se consiga ocupar todo o <strong>Complexo do Alem\u00e3o<\/strong>, o <strong>Comando Vermelho<\/strong> ainda tem possibilidades de reestrutura\u00e7\u00e3o em outras pequenas \u00e1reas. Ningu\u00e9m fala, por exemplo, da <strong>Baixada<\/strong> <strong>Fluminense<\/strong>, mas <strong>Duque de Caxias<\/strong>, <strong>Nova Igua\u00e7u<\/strong>, <strong>Mesquita<\/strong>, <strong>Belford Roxo<\/strong> s\u00e3o \u00e1reas que hoje est\u00e3o sendo reconfiguradas em termos de tr\u00e1fico de drogas a partir da ida do <strong>Comando Vermelho<\/strong> para l\u00e1.<\/p>\n<p>Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado <strong>Olavo Bilac<\/strong> \u00e9 pr\u00f3ximo de uma comunidade chamada <strong>Mangueirinha<\/strong>, que \u00e9 um morro. Essa comunidade j\u00e1 \u00e9 controlada pelo <strong>Comando Vermelho<\/strong> que est\u00e1 adensando a eleva\u00e7\u00e3o da <strong>Mangueirinha<\/strong> e <strong>Olavo Bilac<\/strong> j\u00e1 est\u00e1 sentindo os efeitos diretos dessa reocupa\u00e7\u00e3o. Mas ningu\u00e9m est\u00e1 falando nada sobre isso.<\/p>\n<p>A realidade do Rio de Janeiro \u00e9 muito mais complexa do que se possa imaginar. O <strong>Comando Vermelho<\/strong>, assim como outras fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias, estabelece rela\u00e7\u00e3o direta com o aparato de seguran\u00e7a p\u00fablica do <strong>Rio de Janeiro<\/strong>. Em todas essas \u00e1reas h\u00e1 tr\u00e1fico de armas feito pela pol\u00edcia, em todas essas \u00e1reas o tr\u00e1fico de drogas permanece em fun\u00e7\u00e3o de acordos com o aparato policial.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Podemos comparar esses traficantes que est\u00e3o coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>S\u00f3 podemos analisar a hist\u00f3ria do Rio de Janeiro, fazendo um retrospecto da hist\u00f3ria e da geografia. O <strong>PCC<\/strong>, em <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong>, tem uma trajet\u00f3ria muito diferente das fac\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro, tanto que a estrutura do <strong>PCC<\/strong> se d\u00e1 dentro dos pres\u00eddios. Quando a m\u00eddia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos est\u00e3o operando os conflitos, leia-se, por tr\u00e1s disso, que a estrutura penitenci\u00e1ria do Estado se transformou na estrutura organizacional do crime. N\u00e3o estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o pr\u00f3prio estado em si \u00e9 o crime. O mercado e o Estado s\u00e3o os grandes problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o mercado de seguran\u00e7a p\u00fablica, com o mercado de tr\u00e1fico de drogas, de roubo, com o pr\u00f3prio sistema financeiro brasileiro, \u00e9 quem tem interesse em perpetuar tudo isso.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se d\u00e1 em S\u00e3o Paulo de uma forma diferente em rela\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro. Expulsar o <strong>Comando Vermelho<\/strong> dessas \u00e1reas interessa \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do capital. O que h\u00e1 de semelhan\u00e7a s\u00e3o as opera\u00e7\u00f5es de terror, opera\u00e7\u00f5es de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar o crime e reorganiz\u00e1-lo em patamares mais favor\u00e1veis ao segmento que est\u00e1 ganhando ou perdendo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor avalia essa pol\u00edtica de instala\u00e7\u00e3o das UPPs \u2013 Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>\u00c9 uma pol\u00edtica midi\u00e1tica de visibilidade de seguran\u00e7a no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as <strong>UPPs<\/strong> na pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica do pa\u00eds e quer reproduzir as <strong>UPPs<\/strong> em todo o Brasil. A <strong>UPP<\/strong> \u00e9 uma grande farsa. Nas favelas ocupadas pelas <strong>UPSs<\/strong> podem ser encontrados ex-traficantes que continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social permanece, assim como o n\u00e3o acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, propriedade da terra, transporte. A pol\u00edcia est\u00e1 l\u00e1 para garantir o n\u00e3o tiroteio, mas isso n\u00e3o garante a n\u00e3o exist\u00eancia de crimes. A meu ver, at\u00e9 agora, as <strong>UPPs<\/strong> s\u00e3o apenas formas de fachada de uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_entrevistas&amp;Itemid=29&amp;task=entrevista&amp;id=15274\" target=\"_blank\">pol\u00edtica de seguran\u00e7a e econ\u00f4mica de grupos de capitais dominantes<\/a> na cidade para estabelecer um novo projeto e reconfigura\u00e7\u00e3o dessa estrutura.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A tens\u00e3o no Rio de Janeiro, neste momento, \u00e9 diferente de outros momentos de conflito entre pol\u00edcia e traficantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves \u2013 <\/strong>Sim, porque a dimens\u00e3o \u00e9 mais ampla, mais aberta. Dizer que eles est\u00e3o operando de forma desarticulada, desesperada, desorganizada \u00e9 uma mentira. A estrutura que o <strong>Comando Vermelho<\/strong> organiza vem sendo elaborada h\u00e1 mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em pr\u00e1tica de uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 saber o que se opera no fundo imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico que est\u00e1 sendo constru\u00eddo de quem s\u00e3o, de fato, os inimigos da sociedade fluminense e brasileira. Essa quest\u00e3o vai ter efeitos muito mais venosos para a sociedade empobrecida e favelizada. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Latuff\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista especial com Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1032\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-1032","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-gE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1032\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}