{"id":104,"date":"2009-09-04T23:48:17","date_gmt":"2009-09-04T23:48:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=104"},"modified":"2009-09-04T23:48:17","modified_gmt":"2009-09-04T23:48:17","slug":"porque-a-economia-brasileira-nao-foi-tao-atingida-ate-agora-pela-crise-internacional-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/104","title":{"rendered":"Porque a economia brasileira nao foi t\u00e3o atingida ate agora pela crise internacional do capitalismo?"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Mesmo considerando incerto o desdobramento da crise mundial, com possibilidade de novas quebras ou uma piora generalizada da economia internacional vir a alterar significativamente a din\u00e2mica at\u00e9 ent\u00e3o vista no Brasil, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia nos colocar a quest\u00e3o do por que a crise apresentou efeitos negativos menores que o esperado.<\/p>\n<p>Quais caracter\u00edsticas marcam a atual crise internacional no Brasil? Primeiro, a desacelera\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro foi posterior (quarto trimestre de 2008) ao observado nos pa\u00edses da OCDE (segundo trimestre de 2008); segundo, a intensidade da queda do PIB e de seus componentes foi menor que a observada na OCDE, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do Investimento no primeiro trimestre de 2009, sugerindo que a burguesia brasileira foi afetada pela crise; terceiro, ao analisarmos mais detalhadamente os impactos na burguesia local, os efeitos negativos se concentraram em tr\u00eas segmentos: o setor exportador, a ind\u00fastria de bens de capital e a de consumo dur\u00e1veis. Pelo lado do mercado de trabalho, encontramos caracter\u00edsticas semelhantes: aumento do desemprego posterior ao do conjunto da OCDE; trajet\u00f3ria de diminui\u00e7\u00e3o a partir do m\u00eas de abril de 2009; concentra\u00e7\u00e3o do desemprego, sobretudo nos trabalhadores formais, na Ind\u00fastria e em menor intensidade na Agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>A defasagem temporal, menor intensidade e concentra\u00e7\u00e3o setorial da crise no capitalismo brasileiro ligam-se a quatro dimens\u00f5es, constru\u00eddas no per\u00edodo de crescimento de 2004-2008 e n\u00e3o revertidas na crise, que atuaram como amortecedor dos efeitos negativos no Brasil, minorando os impactos na burguesia e arrefecendo a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A primeira dimens\u00e3o \u00e9 o papel do Brasil no circuito internacional de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital. A maior integra\u00e7\u00e3o ao mercado externo, principalmente pelo crescente aumento no n\u00edvel das exporta\u00e7\u00f5es desde 2003, deveria trazer um forte impacto negativo em uma revers\u00e3o da economia internacional. Entretanto, a manuten\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o da hist\u00f3rica fun\u00e7\u00e3o de fornecedor de commodities nos \u00faltimos anos, conjugada ao aumento das exporta\u00e7\u00f5es para a regi\u00e3o que apresenta as maiores taxas de crescimento durante a crise, a asi\u00e1tica, com destaque especial a China[1], atuaram como processo amortecedor da crise para uma parte da burguesia. Junto \u00e0 quest\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es, destaca-se a inusitada capacidade do Brasil em refor\u00e7ar, a partir da manipula\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de vari\u00e1veis macroecon\u00f4micas importantes (c\u00e2mbio e juros), a entrada de capitais internacionais e o envio de rendas ao exterior durante a crise, minorando os cl\u00e1ssicos problemas de Balan\u00e7o de Pagamentos que afetavam toda a burguesia local.<\/p>\n<p>A segunda dimens\u00e3o que atuou como amortecedor da crise internacional no Brasil foram altera\u00e7\u00f5es na configura\u00e7\u00e3o da burguesia local na d\u00e9cada de 2000. Al\u00e9m da intensifica\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os econ\u00f4micos com a regi\u00e3o de mais alto dinamismo de crescimento no mundo por parte das fra\u00e7\u00f5es exportadoras, o setor financeiro, em especial o segmento banc\u00e1rio, diminuiu sistematicamente a aplica\u00e7\u00e3o em t\u00edtulos e derivativos que estiveram no epicentro dos problemas financeiros mundiais. Por fim, a expans\u00e3o das multinacionais brasileiras, se por um lado trouxe problemas devido \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o direta ao mercado internacional em crise, por outro i) permitiu o uso desse argumento para justificar a diminui\u00e7\u00e3o do custo da for\u00e7a de trabalho, via retirada de direitos e piora da condi\u00e7\u00e3o de trabalho, no Brasil, mas tamb\u00e9m ii) incorporou a for\u00e7a de trabalho das filiais espalhadas pelo mundo neste ajuste. Ou seja, diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia local estavam melhor estruturadas para enfrentar a crise.<\/p>\n<p>A terceira dimens\u00e3o amortecedora da crise internacional no Brasil \u00e9 a mudan\u00e7a de qualidade no Estado brasileiro, que mostrou o \u00eaxito de mais de uma d\u00e9cada e meia de reformas neoliberais de ajuste para atender aos interesses do grande capital no Brasil. Da\u00ed o Estado brasileiro n\u00e3o atuar, at\u00e9 o momento, como centro irradiador de problemas macroecon\u00f4micos para o conjunto da economia, como nas crises anteriores, chegando ao ponto de diminuir e n\u00e3o aumentar a taxa de juros, valorizar e n\u00e3o desvalorizar o c\u00e2mbio e manter e n\u00e3o perder reservas internacionais. Alem disso, o Estado brasileiro vem conseguindo atender um amplo conjunto de demandas de ajuda da burguesia local e internacional, de forma relativamente abrangente e eficaz, mobilizando um inusitado volume de recursos atrav\u00e9s de aumento de gastos, renuncia fiscal, concess\u00e3o de cr\u00e9dito, garantia de empr\u00e9stimos, etc., um padr\u00e3o oposto aos presenciado nas \u00faltimas crises internacionais. Ou seja, a interven\u00e7\u00e3o estatal foi fundamental para aplacar os efeitos da crise na burguesia que atua no Brasil.<\/p>\n<p>O quaro processo amortecedor foi a din\u00e2mica do mercado de trabalho, marcada pelo aumento do emprego e da renda do trabalho no per\u00edodo de crise, com destaque para a trajet\u00f3ria de crescimento da massa salarial e o aumento real do rendimento dos trabalhadores, decorrente tanto do da trajet\u00f3ria do rendimento nominal ligada ao relativo sucesso de muitas negocia\u00e7\u00f5es coletivas nos \u00faltimos anos, como \u00e0 trajet\u00f3ria de baixa da infla\u00e7\u00e3o em 2009. Esta \u00faltima contribui tamb\u00e9m para manter o poder de compra dos programas sociais e da Previd\u00eancia, conseguindo a manuten\u00e7\u00e3o do patamar da taxa de pobreza, fato inusitado quando observamos outros per\u00edodos de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ou seja, apesar da crise, n\u00e3o houve uma piora generalizada nas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida de grande parte os trabalhadores.<\/p>\n<p>Portanto, o funcionamento desses mecanismos amortecedores contribuiu para um desenrolar da crise diferente do que esper\u00e1vamos. Mas o que podemos esperar da crise internacional nos pr\u00f3ximos meses e do comportamento da economia brasileira, em espec\u00edfico?<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos desdobramentos da crise no plano internacional, a burguesia esbo\u00e7a um consenso em torno de uma vis\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o da pior fase da crise, apoiada na efetividade da coordena\u00e7\u00e3o mundial de pol\u00edticas econ\u00f4micas antic\u00edclicas em conter a tend\u00eancia depressiva da crise, e na aposta de que a recess\u00e3o nos pa\u00edses centrais durar\u00e1 at\u00e9 o segundo semestre de 2010. Entretanto, este mesmo consenso reconhece tr\u00eas grandes problemas para a resolu\u00e7\u00e3o da crise atual, que jogam contra esta vis\u00e3o otimista.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 um horizonte ainda distante da retomada da expans\u00e3o do cr\u00e9dito mundial, um dos pilares do ultimo ciclo de expans\u00e3o mundial, que tem como condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via a necessidade de mais dinheiro p\u00fablico para re-estruturar os bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras com problemas patrimoniais. Ou seja, o capital portador de juros ainda est\u00e1 diante de problemas razo\u00e1veis, n\u00e3o s\u00f3 com os grandes montantes de capital fict\u00edcio (na forma de t\u00edtulos e a\u00e7\u00f5es) pass\u00edveis de maior desvaloriza\u00e7\u00e3o, mas com poucas perspectivas de novos empr\u00e9stimos e neg\u00f3cios diante da retra\u00e7\u00e3o generalizada da economia mundial.<\/p>\n<p>O segundo problema \u00e9 a clareza de dificuldades vindas da Demanda para a retomada do crescimento, dado que os pa\u00edses com s\u00e9rios problemas financeiros, em especial aos EUA, n\u00e3o parecem poder desempenhar novamente o papel de locomotiva compradora mundial. Isto tamb\u00e9m implica em um cen\u00e1rio de baixo crescimento e menores taxas de investimento.<\/p>\n<p>O terceiro desafio vem do aumento da rela\u00e7\u00e3o divida\/PIB na maioria dos pa\u00edses, principalmente nos agrupados no \u00e2mbito da OCDE. Isto coloca a necessidade de preparar a retirada das pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o em um curto espa\u00e7o de tempo, uma contradi\u00e7\u00e3o com a busca de novos recursos para sanar as institui\u00e7\u00f5es financeiras, al\u00e9m de apontar para uma nova rodada de reformas pr\u00f3-mercado, com a volta de super\u00e1vits fiscais para estabilizar e at\u00e9 diminuir a trajet\u00f3ria da d\u00edvida p\u00fablica, apoiada no aumento de impostos ou no corte de gastos sociais.<\/p>\n<p>Pela \u00f3tica marxista, podemos predizer que a atual din\u00e2mica de equacionamento da crise realmente implicar\u00e1 em um per\u00edodo de relativa estagna\u00e7\u00e3o, parecido com o cen\u00e1rio em \u201cL\u201d (queda brusca de n\u00edvel seguido de um per\u00edodo de um lento crescimento). Os socorros bilion\u00e1rios v\u00eam impedindo uma din\u00e2mica de desvaloriza\u00e7\u00e3o do capital mais acentuada (principalmente a do capital fict\u00edcio), fazendo com que o aumento da taxa de mais valia em curso, pela retirada de direitos trabalhistas e aumento das jornadas de trabalho, n\u00e3o consiga elevar ou manter satisfatoriamente a taxa de lucro, implicando n\u00e3o s\u00f3 em um per\u00edodo de baixo crescimento, mas na necessidade de uma nova crise para eliminar o montante de capitais que permita a retomada das taxas de lucro.<\/p>\n<p>E as perspectivas para a crise no Brasil? Mesmo diante de uma din\u00e2mica at\u00e9 o momento n\u00e3o esperada, devemos ter clareza dos desafios que a conjuntura nos traz e nos preparar para poss\u00edveis pioras s\u00fabitas do cen\u00e1rio econ\u00f4mico e pol\u00edtico. Isso se refor\u00e7a diante de um per\u00edodo de baixo crescimento mundial que se avizinha, seja ele generalizado (abarca uma desacelera\u00e7\u00e3o chinesa), ou concentrado nos pa\u00edses do centro capitalista, o que colocar\u00e1 em xeque n\u00e3o s\u00f3 a continuidade da interven\u00e7\u00e3o estatal amortecedora no Brasil, mas a trajet\u00f3ria do crescimento da renda real dos trabalhadores.<\/p>\n<\/p>\n<p>Fabio Bueno, economista, da consulta popular-DF<\/p>\n<p>24 de agosto de 2009<\/p>\n<p>[1] A \u00c1sia passa de 18% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras entre janeiro e maio de 2008 (US$ 12,9 bi) para 25,6% no mesmo per\u00edodo em 2009 (US$ 14,2 bi). Em especial, a China eleva sua participa\u00e7\u00e3o relativa nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de 8% (US$ 5,7 bi) para 13% (US$ 7,6 bi) no mesmo per\u00edodo. se conjugada a outra dimens\u00e3o da inser\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nFabio Bueno\nEm finais de 2008 avali\u00e1vamos corretamente que a crise econ\u00f4mica internacional, iniciada nos pa\u00edses do centro capitalista em 2007, seria a mais severa desde a II Guerra Mundial. Esta percep\u00e7\u00e3o balizou nossa t\u00e1tica de apostar em um horizonte de graves problemas econ\u00f4micos e intensa agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, os quais poderiam alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as contra a burguesia local e internacional.\nPassados quase dois anos do in\u00edcio da crise internacional no centro capitalista, o cen\u00e1rio esperado no Brasil ainda n\u00e3o se consolidou, pois a intensidade da crise em nossa economia, at\u00e9 o momento, mostra-se menor que o esperado e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o mudou significativamente. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/104\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[31],"tags":[],"class_list":["post-104","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c31-unidade-classista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1G","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}