{"id":10410,"date":"2016-02-08T22:07:42","date_gmt":"2016-02-09T01:07:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10410"},"modified":"2016-03-03T13:27:32","modified_gmt":"2016-03-03T16:27:32","slug":"america-latina-e-seus-dilemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10410","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina e seus dilemas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/america-la.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>Elaine Tavares, no site da <a href=\"http:\/\/site.adital.com.br\/site\/noticia.php?lang=PT&amp;cod=87897\" target=\"_blank\">Adital<\/a>:<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1 vai longe o tempo em que as not\u00edcias chegadas dos pa\u00edses irm\u00e3os da Am\u00e9rica Latina enchiam a vida de esperan\u00e7as. Coopera\u00e7\u00e3o, soberania, equidade, mudan\u00e7as, os ventos cambiantes soprando desde a Venezuela e se espalhando pelo continente. Nada muito revolucion\u00e1rio, mas pequenas e significativas transforma\u00e7\u00f5es que come\u00e7avam a cimentar um<!--more--> caminho diferente para uma popula\u00e7\u00e3o sempre subjugada dentro de um capitalismo dependente, no qual s\u00f3 sobrevivem os que mais roubam<\/p>\n<div dir=\"ltr\">\n<p><a name=\"-96097510_-1728245135_more\"><\/a>Com Ch\u00e1vez \u00e0 frente foram criados novos espa\u00e7os de integra\u00e7\u00e3o latino-americana como a Unasul, aCelac, o Caricom, bem como um Banco do Sul e uma emissora de televis\u00e3o que buscava igualmente integrar o continente pela cultura: a Telesul. Durante mais de uma d\u00e9cada, esse lugar geogr\u00e1fico denominado Am\u00e9rica Latina finalmente conseguiu olhar-se e descobrir-se parte de uma mesma proposta, a mesma com a qual um dia sonharam Peti\u00f3n, Bol\u00edvar e Artigas, uma Am\u00e9rica unida, grande e soberana.Mas, apesar desses avan\u00e7os, os Estados Unidos, que acreditam ter como destino manifesto a posse sobre a riqueza e a vida de todos os que vivem abaixo do rio Bravo nunca desistiram de barrar esse sonho. Por isso, em 2002, o governo de Washington jogou pesado no apoio ao golpe contra Ch\u00e1vez. S\u00f3 que a bravata do empresariado local aliada aos EUA acabou debelada pelo povo nas ruas e pelo ex\u00e9rcito bolivariano. Foi uma derrota fragorosa que obrigou o governo estadunidense a pensar formas alternativas de destrui\u00e7\u00e3o do chavismo e da ideia de integra\u00e7\u00e3o. E, de qualquer forma, mostrava claramente que o tempo dos \u201cgolpes\u201d n\u00e3o se acabara. Eles sempre poderiam voltar, se fosse do desejo do governo imperial.<\/p>\n<p>Assim, dois anos depois, em 2004, os Estados Unidos desestabilizavam a regi\u00e3o do Caribe com a deposi\u00e7\u00e3o do presidente eleito do Haiti, Jean-Bertrand Aristide. A partir desse golpe, o pa\u00eds foi invadido pelas tropas da ONU, incluindo a\u00ed soldados de pa\u00edses como o Brasil e a Bol\u00edvia, que, em tese, deveriam estar alinhados com a P\u00e1tria Grande e n\u00e3o com o Imp\u00e9rio. J\u00e1 foi mais uma jogada de mestre dos Estados Unidos, pois al\u00e9m de tirar o Haiti da rota da esquerda, criaram desconforto e desconfian\u00e7a entre os governos latino-americanos.<\/p>\n<p>Depois, tamb\u00e9m no combate contra o avan\u00e7o das ideias bolivarianas no Caribe, os Estados Unidos fomentaram o golpe em Honduras, no qual os militares locais sequestraram o presidente Manuel Zelaya, deportando-o para Costa Rica. Foi o retorno expl\u00edcito de uma pr\u00e1tica que a Am\u00e9rica Latina pensava j\u00e1 ter sido vencida.<\/p>\n<p>E, apesar de toda a gritaria da comunidade internacional Zelaya n\u00e3o voltou ao cargo e a constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds foi rasgada. Os militares golpistas realizaram elei\u00e7\u00f5es que foram consideradas ilegais, mas o presidente eleito no pleito imoral acabou sendo reconhecido e a vida seguiu.<\/p>\n<p>\u00c9 que apesar dos percal\u00e7os e das perdas a corrente bolivariana seguia arrastando dirigentes governamentais, movimentos e sindicatos. Transforma\u00e7\u00f5es na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, nas matrizes energ\u00e9ticas, tudo tomava novo ritmo. Pa\u00edses como a Venezuela, Brasil, Bol\u00edvia, Equador, Paraguai, Uruguai, Argentina, Nicar\u00e1gua, com governos considerados progressistas, iam \u2013 cada um no seu ritmo e com suas especificidades \u2013 mudando leis, nacionalizando riquezas, distribuindo renda.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que tudo isso n\u00e3o se deu sem contradi\u00e7\u00f5es. A Venezuela n\u00e3o conseguia sair da matriz petrol\u00edfera, o Brasil se rendia ao agroneg\u00f3cio, o Equador exclu\u00eda os ind\u00edgenas e se aproximava das multinacionais do petr\u00f3leo e da minera\u00e7\u00e3o, o Uruguai cedia aos transg\u00eanicos, a Argentina n\u00e3o atendia os trabalhadores. A batalha se dava tamb\u00e9m internamente em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em 2012, a f\u00e1brica de golpes apresenta um novo formato. E ele aparece no Paraguai, onde o presidente Fernando Lugo tentava \u2013 ainda que timidamente \u2013 dar combate ao latif\u00fandio. Por conta de um conflito entre policiais e camponeses na regi\u00e3o de Curuguaty, o qual terminou com 22 mortes, o legislativo nacional apresenta um pedido de impedimento de Lugo, acusando-o de omisso, e num processo rel\u00e2mpago, eivado de ilegalidades, no dia 22 de junho, o presidente constitucional \u00e9 deposto pelo Senado paraguaio, numa vota\u00e7\u00e3o que contou 39 votos a favor e 04 contra.<\/p>\n<p>De novo, a gritaria geral dos pa\u00edses latino-americanos e de outras partes do mundo n\u00e3o mudou a realidade. O golpe foi respaldado. Caia mais um governo articulado na ala dos progressistas.<\/p>\n<p>No ano seguinte, em mar\u00e7o de 2013, a onda bolivariana que embalara mais de uma d\u00e9cada de transforma\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina, sofre mais um golpe. Morre o presidente da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez, que era o principal condutor desse processo. Com ele, desaparece muito da for\u00e7a carism\u00e1tica que carregava multid\u00f5es e encantava governos. E, a partir da\u00ed, abre-se um flanco para que \u2013 tal e qual nas guerras de independ\u00eancia \u2013 os governos at\u00e9 ent\u00e3o alinhados aos sonhos de integra\u00e7\u00e3o passem a atuar de forma mais individualizada.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez, o que puxava as orelhas, o que chamava para a boa dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o estava, e cada um tratou de cuidar de si. Mais um ponto para a \u00e1guia, os EUA, que seguia n\u00e3o apenas \u00e0 espreita, pronta para o bote, como ajudando no processo \u2013 inclusive financeiramente \u2013 de revitaliza\u00e7\u00e3o das entidades e organiza\u00e7\u00f5es conservadoras nos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p>Em 2014, os ataques se concentraram na Venezuela, onde tentaram de todas as formas derrubar o governo de Nicol\u00e1s Maduro. Ajudada pelos erros do novo presidente, a elite local \u2013 aliada dos EUA \u2013 produziu uma poderosa guerra econ\u00f4mica na qual os venezuelanos se viram sem produtos para consumir, com uma infla\u00e7\u00e3o galopante e com o dinheiro desvalorizado. O contexto de caos e carestias levou ao crescimento das for\u00e7as conservadoras que acabaram vencendo as elei\u00e7\u00f5es legislativas em 2015, tirando a maioria do governo.<\/p>\n<p>Em 2015 tamb\u00e9m o Brasil foi sacudido por forte crise pol\u00edtica que j\u00e1 se manifestava desde 2013, e que foi crescendo ao ponto de se tornar uma esp\u00e9cie de cruzada contra o PT. Apesar de o governo de Dilma Rousseff jamais ter sido um obst\u00e1culo para os conservadores e para a elite local, essas for\u00e7as atuaram fortemente no sentido de derrub\u00e1-la do poder. E, como numa \u00f3pera bufa, as tentativas de golpe legislativo \u2013 a exemplo do Paraguai \u2013 contaram com a participa\u00e7\u00e3o desastrada do pr\u00f3prio vice de Dilma, Michel Temer.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora ainda caminha no Congresso Nacional o processo de impedimento da presidenta. E tudo isso num quadro que nunca se aproximou de qualquer mudan\u00e7a estrutural significativa. Um pouco de distribui\u00e7\u00e3o de renda, com o Bolsa Fam\u00edlia, mais acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior pelos pobres e um forte apelo ao consumo, com facilita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito. Ou seja, nenhum risco para o capital.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 2015 a Argentina deu o passo mais significativo, j\u00e1 que foi com a decis\u00e3o popular: uma guinada para a direita, a partir da escolha de Maur\u00edcio Macri para a presid\u00eancia da na\u00e7\u00e3o. O jovem milion\u00e1rio, representante do atraso, entrou chutando todos os baldes, com uma sede de mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>No primeiro dia depois da elei\u00e7\u00e3o, levantou as for\u00e7as mais bizarras, que, <a href=\"http:\/\/www.adital.com.br\/site\/noticia_imp.asp?lang=ES&amp;img=S&amp;cod=87421\" target=\"_blank\">num editorial de jornal<\/a>, saudavam os velhos militares do tempo da ditadura.E, depois da posse, o pr\u00f3prio Macri tratou de mostrar sua inspira\u00e7\u00e3o, uma vez que nos primeiros dias nomeou ministros da justi\u00e7a por decreto \u2013 o que \u00e9 contra a lei -, demitiu trabalhadores p\u00fablicos, fechou ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, suspendeu programas nas TV p\u00fablicas, fechou a TV Senado e tentou acabar com a Lei de Meios, que regula a comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dias depois, numa reuni\u00e3o do Mercosul, interpelou a representante venezuelana exigindo a liberdade de Leopoldo L\u00f3pez, que ele chama de \u201cpreso pol\u00edtico\u201d e que a Venezuela entende ser um assassino. Na ocasi\u00e3o levou um cala-boca por parte da chanceler Delcy Rodriguez, que repudiou a inger\u00eancia, mostrou fotos da viol\u00eancia provocada por L\u00f3pez e acrescentou: \u201cN\u00e3o nos surpreende que isso venha de uma pessoa cujo primeiro ato como presidente foi liberar torturadores\u201d.<\/p>\n<p>Agora, nos albores do ano de 2016, Macri assoma como o queridinho da direita latino-americana e ter\u00e1 como companhia os deputados venezuelanos da oposi\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m assumiram seus cargos provocando o governo, retirando quadros de Bol\u00edvar e de Ch\u00e1vez, mandando-os para o lixo. Sem contar o gesto absurdo do presidente da Assembleia Nacional, Henry Allup, que, durante o discurso de posse, se referiu ao governo passando a m\u00e3o pelo pesco\u00e7o, no gesto de degola. Cenas expl\u00edcitas de viol\u00eancia e terror que s\u00e3o saudadas por todos os que querem de volta a expl\u00edcita bota estadunidense.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o cen\u00e1rio no qual se desenrola a velha luta de classe, a queda de bra\u00e7o entre um pequeno grupo que det\u00e9m a riqueza e os meios de produ\u00e7\u00e3o, e a maioria despossu\u00edda.<\/p>\n<p>Nesse embate, surpreendentemente, temos muita gente que faz parte do grupo dos despossu\u00eddos apoiando e saudando os representantes da nova direita. Marx diria que \u00e9 porque eles n\u00e3o sabem, est\u00e3o com os olhos velados pela aliena\u00e7\u00e3o, pela falta de conhecimento. Eu, modestamente, arriscaria dizer que hoje dificilmente seria poss\u00edvel n\u00e3o saber. Creio que est\u00e3o mais para a servid\u00e3o volunt\u00e1ria, como descreveu o ent\u00e3o jovem Etienne de La Bo\u00e9tie, por volta do ano 1550, aqueles que, podendo ser livres, escolhem servir a um tirano apenas por algumas migalhas.<\/p>\n<p>Grandes desafios se configuram no horizonte. Grandes desafios. Os advers\u00e1rios e os inimigos continuam os mesmos, mas os novos tempos exigem dos latino-americanos aquilo que exortava o grande mestre Sim\u00f3n Rodr\u00edguez: ou inventamos, ou erramos!<\/p>\n<p>http:\/\/site.adital.com.br\/site\/noticia.php?lang=PT&#038;cod=87897<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Elaine Tavares, no site da Adital: J\u00e1 vai longe o tempo em que as not\u00edcias chegadas dos pa\u00edses irm\u00e3os da Am\u00e9rica Latina enchiam \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10410\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-10410","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2HU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10410","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10410"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10410\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}