{"id":10416,"date":"2016-02-10T21:40:14","date_gmt":"2016-02-11T00:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10416"},"modified":"2016-03-03T13:28:07","modified_gmt":"2016-03-03T16:28:07","slug":"reencontro-com-florestan-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10416","title":{"rendered":"REENCONTRO COM FLORESTAN FERNANDES"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.ytimg.com\/vi\/HBX68ENAGjA\/maxresdefault.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Florestan Fernandes foi no Brasil o meu melhor e mais \u00edntimo amigo.<\/p>\n<p>Sobre ele escrevi em livros e artigos muitas p\u00e1ginas. Afirmei e repito que vi nele, como no franc\u00eas Henri Alleg, a personifica\u00e7\u00e3o da pureza e da autenticidade revolucionarias. Ao longo de muitos anos atingi com ambos um n\u00edvel de identifica\u00e7\u00e3o irrepet\u00edvel.<!--more--><\/p>\n<p>Florestan emerge simultaneamente como o mais criador e talentoso soci\u00f3logo da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Foi com surpresa e admira\u00e7\u00e3o que li, tardiamente, muito vagarosamente, o seu livro <i>A Fun\u00e7\u00e3o Social da Guerra na Sociedade Tupinamb\u00e1.*<\/i><\/p>\n<p>Esta edi\u00e7\u00e3o (da Revista do Museu Paulista) da sua tese de doutoramento, que fora publicada em 1951, foi-me oferecida em 1968 com uma dedicat\u00f3ria carinhosa. Limitei-me ent\u00e3o a folhear o livro. O tema n\u00e3o me atraiu na \u00e9poca. Est\u00e1vamos em v\u00e9speras do devastador Ato Institucional n\u00ba5, que destruiu a Universidade de S\u00e3o Paulo e o afastou da sua c\u00e1tedra. As pol\u00edcias pol\u00edticas brasileiras intensificavam a repress\u00e3o aos exilados portugueses, um livro meu fora proibido e apreendido pelo governo de Costa e Silva, e a embaixada de Portugal negava-me passaporte (exceto para Portugal).<\/p>\n<p>Encontrei h\u00e1 semanas o livro, esquecido num canto da minha biblioteca de Serpa.<\/p>\n<p>Li-o com um sentimento de culpa.<\/p>\n<p>De culpa, porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Pelo <i>atraso. <\/i>Florestan morreu h\u00e1 mais 20 anos. E eu s\u00f3 agora tomo conhecimento da import\u00e2ncia de uma obra que, se lida na \u00e9poca, me teria ajudado a avaliar a dimens\u00e3o do saber acumulado em plena juventude pelo cientista social e facetas da sua personalidade que tardei a identificar no amigo e companheiro de lutas.<\/p>\n<p>Para muitos leitores <i>A Fun\u00e7\u00e3o Social da Guerra na Sociedade Tupinamb\u00e1 <\/i>\u00e9 um trabalho acad\u00e9mico herm\u00e9tico, pesado. E n\u00e3o \u00e9. Encontrei nesse livro fascinante e o humanista, o s\u00e1bio, o pensador politico, o apaixonado pela hist\u00f3ria profunda com fome de descida \u00e0s ra\u00edzes da condi\u00e7\u00e3o humana, o brasileiro destruidor de mitos forjados pela burguesia, o investigador empenhado na compreens\u00e3o dif\u00edcil do \u00edndio- algu\u00e9m que s\u00f3 muito lentamente fui descobrindo no revolucion\u00e1rio, amigo fraterno.<\/p>\n<p>Ao desembarcar no Brasil eu tinha do \u00edndio a ideia formada por filmes racistas e romances de aventuras que apresentam os abor\u00edgenes ora como selvagens pac\u00edficos ora como canibais sanguin\u00e1rios, sempre como seres primitivos, quase irracionais, tal como os viu Colombo.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o dos povos da Mesoam\u00e9rica e do Inc\u00e1rio, criadores de importantes civiliza\u00e7\u00f5es, os amer\u00edndios do Brasil, tal com o os papuas, os maoris e os demais polin\u00e9sios apareciam-me como ind\u00edgenas ferozes, animalescos.<\/p>\n<p>Sabia que na \u00e9poca da chegada de Cabral os tupinamb\u00e1s eram cerca de 100.000, concentrados no litoral do Brasil. Sabia tamb\u00e9m que tinham sido aliados dos franceses quando Villegagnon fundou a Fran\u00e7a Ant\u00e1rctica na Baia da Guanabara, destru\u00edda cinco anos depois pelos portugueses. Sabia igualmente que o governador Mem de S\u00e1 exterminara praticamente os \u00faltimos tupinamb\u00e1s em massacres implac\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas ignorava o que pensavam, como viviam, como combatiam e se matavam em guerras tribais esses \u00edndios antrop\u00f3fagos.<\/p>\n<p>Florestan \u00e9 tao minucioso, tao exaustivo, t\u00e3o profundo na reconstitui\u00e7\u00e3o da vida quotidiana dos tupinamb\u00e1s que transmite ao leitor a sensa\u00e7\u00e3o absurda de se encontrar numa aldeia desse povo e contemplar como espectador aquela gente e acompanhar o seu quefazer. Descreve com minucia e rigor as t\u00e9cnicas e t\u00e1ticas de guerra dos tupinamb\u00e1s, o sistema de abastecimento em campanha, o papel das mulheres e dos jovens na vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os tupinamb\u00e1s eram antrop\u00f3fagos. Matavam os prisioneiros, assavam-nos, e devoravam os seus corpos em festins tribais em que participava toda a comunidade embriagada pelo cauim.<\/p>\n<p>Essa realidade \u00e9 suficiente para provocar rea\u00e7\u00f5es de repulsa e de condena\u00e7\u00e3o inapel\u00e1vel nos cidad\u00e3os de qualquer sociedade evolu\u00edda contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Mas Florestan consegue o prod\u00edgio de nos introduzir num mundo tribal cuja mundivid\u00eancia ele ilumina e explica, permitindo compreender a motiva\u00e7\u00e3o do comportamento da sociedade tupinamb\u00e1.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da sua tese de doutoramento abre a porta a essa compreens\u00e3o. Para a escrever, recorreu a uma bibliografia colossal. Utiliza sobretudo textos de cronistas e sacerdotes do s\u00e9culo XVI que conheceram com maior ou menor intimidade a sociedade tupinamb\u00e1: os portugueses Gondavo de Magalh\u00e3es e Ambr\u00f3sio Brand\u00e3o, os franceses Jean de Lery e Andr\u00e9 Thevet, o alem\u00e3o Hans Staden, os padres Manuel da N\u00f3brega e Jos\u00e9 de Anchieta entre muitos outros.<\/p>\n<p>Os tupinamb\u00e1s viviam envolvidos em guerras ininterruptas.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Encaravam a guerra como ato de sobreviv\u00eancia. Para eles, o conflito mortal com outras tribos era um dever moral com fundamentos sagrados. Identificavam uma correla\u00e7\u00e3o funcional da guerra com a religi\u00e3o, a magia, a moral, a educa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica, e cultura. A poligamia inseria-se na sua organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Aos 30 anos, Florestan acumulara j\u00e1 uma erudi\u00e7\u00e3o e um saber de uma diversidade impressionantes.<\/p>\n<p>Na reflex\u00e3o sobre a escravatura, a guerra e o parentesco na sociedade tupinamb\u00e1 &#8211; apenas tr\u00eas exemplos \u2013 dedica p\u00e1ginas ao desenvolvimento dos temas, extrapola-os e cita Arist\u00f3teles, Marx, Montesquieu, Levy Strauss, Durkheim, Levy Bruhl, entre outros autores, movido pela exig\u00eancia de aprofundar essas tem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre no tocante \u00e0 antropofagia, tema fulcral e recorrente.<\/p>\n<p>O canibalismo dos tupinamb\u00e1s era ritual. A carne dos inimigos mortos tinha um significado simb\u00f3lico. O objetivo da guerra era fazer prisioneiros para os sacrificar e lhes devorar os corpos para vingar parentes e antepassados mortos pelo inimigo na intermin\u00e1vel cadeia de conflitos tribais.<\/p>\n<p>A necessidade da vingan\u00e7a nascia para os guerreiros de obriga\u00e7\u00f5es dos vivos para com os mortos que desembocavam na guerra como ponte entre os vivos e o mundo dos mortos.<\/p>\n<p>Para ser t\u00e3o claro quanto poss\u00edvel, descreve com pormenores macabros o cerimonial do sacrif\u00edcio das v\u00edtimas, pr\u00f3logo do banquete coletivo.<\/p>\n<p>A tese de doutoramento, de enorme ambi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tem mais de 400 p\u00e1ginas, incluindo o ap\u00eandice, as notas e a bibliografia.<\/p>\n<p>O leitor apercebe-se gradualmente da enorme complexidade das rela\u00e7\u00f5es humanas numa sociedade primitiva &#8211; quase sem administra\u00e7\u00e3o nem chefes &#8211; na guerra como na organiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que seria de esperar, os prisioneiros, cujo destino era serem abatidos e devorados, raramente eram mortos logo ap\u00f3s o regresso da guerra.<\/p>\n<p>As futuras v\u00edtimas podiam permanecer meses, at\u00e9 anos, como escravos dos senhores que os tinham aprisionado em combate.<\/p>\n<p>Os escravos eram bem alimentados, recebidos quase como membros da fam\u00edlia at\u00e9 ao dia da sua execu\u00e7\u00e3o. O senhor oferecia-lhe com frequ\u00eancia filhas como companheiras. N\u00e3o tentavam fugir. Encaravam a morte com alegria, como uma honraria, felizes por serem sacrificados pelos inimigos.<\/p>\n<p>Os tupinamb\u00e1s acreditavam na imortalidade da alma. Segundo a sua complexa cosmogonia, a alma, separada do corpo ap\u00f3s a morte voava para as montanhas, rumo ao conv\u00edvio com o espirito dos antepassados, tendo acesso ao para\u00edso para uma felicidade eterna. Mas para que isso acontecesse era indispens\u00e1vel matar e devorar o m\u00e1ximo de inimigos.<\/p>\n<p>O poder m\u00e1gico religioso era exercido pelos pag\u00e9s (feiticeiros), intermedi\u00e1rios entre os guerreiros e os esp\u00edritos dos ancestrais e pelos anci\u00e3os, que conheciam as genealogias das fam\u00edlias e gozavam de grande respeito.<\/p>\n<p>Florestan Fernandes, insisto, escreveu um livro important\u00edssimo para a ci\u00eancia, obra que o revelou como um soci\u00f3logo diferente, inovador.<\/p>\n<p>Na Escola do Movimento dos Sem Terra, em S\u00e3o Paulo, que tem o seu nome, \u00e9 recordado por sucessivas gera\u00e7\u00f5es como o \u00faltimo dos grandes humanistas do s\u00e9culo XX e um maravilhoso revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<ul>\n<li>Florestan Fernandes era marxista, um comunista sem partido ap\u00f3s breve passagem pelo trotsquismo . Mas neste trabalho optou pelo m\u00e9todo funcionalista, sobretudo porque essa metodologia facilita a explica\u00e7\u00e3o descritiva da \u00abguerra primitiva\u00bb*.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues Florestan Fernandes foi no Brasil o meu melhor e mais \u00edntimo amigo. 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