{"id":10427,"date":"2016-02-12T23:00:54","date_gmt":"2016-02-13T02:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10427"},"modified":"2017-02-20T14:27:40","modified_gmt":"2017-02-20T17:27:40","slug":"o-bloco-comuna-que-pariu-como-fenomeno-cultural-e-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10427","title":{"rendered":"O bloco \u201cComuna que Pariu!\u201d como fen\u00f4meno cultural e pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/02\/comuna-que-pariu-2016-blog.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>O \u201cComuna Que Pariu!\u201d \u00e9 um bloco de carnaval que se organizou em 2009 por iniciativa da UJC (Uni\u00e3o da Juventude Comunista) e tomou forma mais definitiva em 2013, aquecido pelas lutas na cidade do Rio de Janeiro. Tornou-se uma iniciativa da base de cultura do PCB, hoje denominada de c\u00e9lula de cultura, que re\u00fane militantes do partido, ainda que o bloco tenha aglutinado militantes de diversos campos da esquerda de forma bem ampla.<span id=\"more-14103\"><\/span><!--more--><\/p>\n<p>Sua proposta inicial era apenas de ser um espa\u00e7o de confraterniza\u00e7\u00e3o e encontro de companheiros e camaradas, mas foi assumindo uma identidade pr\u00f3pria, uma qualidade art\u00edstica e uma irrever\u00eancia que lhe d\u00e3o a fei\u00e7\u00e3o que hoje assumiu. O tra\u00e7o principal desta identidade \u00e9 a uni\u00e3o entre a irrever\u00eancia\u00a0e a pol\u00edtica. Este n\u00e3o \u00e9 um casamento f\u00e1cil e pode descambar para duas armadilhas bem conhecidas: o rebaixamento da quest\u00e3o pol\u00edtica ao ponto da s\u00e1tira transformar-se em banalidade fr\u00edvola, ou a seriedade da pauta pol\u00edtica matar a irrever\u00eancia e a forma art\u00edstica em sua especificidade, levando a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da arte. N\u00e3o queremos um \u201ccarnaval politicamente correto\u201d ou uma \u201cpol\u00edtica carnavalizada\u201d.<\/p>\n<p>O que se quer \u00e9 um carnaval vivo. Mas para os comunistas, tudo que \u00e9 vivo reage e luta, mesmo quando dan\u00e7a, canta e ri.<\/p>\n<p>Fico feliz em constatar que a experi\u00eancia do \u201cComuna\u201d tem conseguido escapar destas armadilhas navegando neste mar perigoso da s\u00e1tira. N\u00e3o nos propomos aqui enveredar pelo tortuoso caminho da an\u00e1lise da s\u00e1tira como faz de forma precisa Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, mas apenas indicar como o autor que a quest\u00e3o da s\u00e1tira encontra-se no interior do problema da rela\u00e7\u00e3o entre o fen\u00f4meno e a ess\u00eancia. Diz Luk\u00e1cs:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u201cIsso se d\u00e1 [a explicita\u00e7\u00e3o dos limites da est\u00e9tica burguesa] porque, na quest\u00e3o da forma da s\u00e1tira, a rela\u00e7\u00e3o com o conte\u00fado de classe se expressa mais imediatamente do que na maioria dos problemas formais na literatura. A s\u00e1tira \u00e9 um modo de express\u00e3o liter\u00e1ria abertamente combativo. O que \u00e9 figurado na s\u00e1tira n\u00e3o \u00e9 o <em>porqu\u00ea <\/em>e o <em>contra o qu\u00ea <\/em>se combate, nem o pr\u00f3prio combate: \u00e9 a forma da figura\u00e7\u00e3o que, em seu princ\u00edpio e de modo imediato, assume a caracter\u00edstica de um combate aberto\u201d (Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, \u201cA quest\u00e3o da S\u00e1tira\u201d, Em: Arte e Sociedade: escritos est\u00e9ticos 1932-1967. Rio de Janeiro: Ed da UFRJ, 2009, p.168).<\/p>\n<p>Para o marxista h\u00fangaro, a s\u00e1tira n\u00e3o era propriamente um g\u00eanero liter\u00e1rio, mas um m\u00e9todo criativo \u2013 exatamente aquele que diante das contradi\u00e7\u00f5es da realidade, dos problemas que explodem no cotidiano pela franca degrada\u00e7\u00e3o da vida da sociedade de classes, pode express\u00e1-los como uma figura\u00e7\u00e3o particular, polindo o cotidiano para que ele assuma forma art\u00edstica, ou como pensava Hegel, o \u201crid\u00edculo deve ser depurado para se elevar ao c\u00f4mico\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, se \u00e9 verdade que n\u00e3o basta apresentar a contradi\u00e7\u00e3o presente no real como express\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o da atual sociedade, \u00e9 nesta express\u00e3o cotidiana que ela se faz viva e presente para as pessoas, atrav\u00e9s da linguagem e de comportamento cotidianos. Aqui o desafio: apresentar este conte\u00fado na forma especificamente est\u00e9tica, sem que no processo se perca a refer\u00eancia de onde partiu, permitindo o di\u00e1logo entre a arte e a vida. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Bakhtin tratou do tema em seu estudo sobre Rabelais ao afirmar que o cinismo do autor era \u201cessencialmente ligado \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica da cidade, ao campo da feira, \u00e0 pra\u00e7a do carnaval do fim da Idade Media e do Renascimento\u201d (Bakhtin, M. <em>A cultura popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento: o contexto de Fra\u00e7ois Rabelais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1987, p.126). Conclui ent\u00e3o que aquilo que aparece sob a figura do grosseiro e do grotesco (os excrementos, os \u00f3rg\u00e3os genitais, o corpo\u2026) \u201crepresenta para n\u00f3s tudo que \u00e9 diretamente ligado \u00e0 vida da pra\u00e7a p\u00fablica, que traz a marca do car\u00e1ter n\u00e3o oficial e da liberdade da pra\u00e7a p\u00fablica, mas que n\u00e3o pode ao mesmo tempo ser classificado entre as formas da literatura da festa popular, no sentido pr\u00f3prio do termo\u201d (p.132). Na pra\u00e7a, seja na feira ou no carnaval, os elementos da linguagem popular como os juramentos e grosserias se apresentavam e se infiltravam em todos os g\u00eaneros festivos, gozando, nos termos do autor russo, de uma certa \u201cextraterritorialidade\u201d no mundo da \u201cordem e da ideologia oficiais\u201d, espa\u00e7o no qual o \u201cpovo a\u00ed tinha sempre a \u00faltima palavra\u201d.<\/p>\n<p>Assim, com a linguagem vinda do cotidiano, mas vestida de adere\u00e7os, com as palavras do povo cantadas sob o peso dos ritmistas bem ensaiados, com as contradi\u00e7\u00f5es do real fantasiadas de ironia cortante, o \u201cComuna\u201d assumiu uma forma pr\u00f3pria. N\u00e3o \u00e9 a mera transposi\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o do real para a forma art\u00edstica, h\u00e1 aqui um trabalho, que nas palavras de Luk\u00e1cs pode ser assim resumido: \u201cesta tarefa consiste em figurar como necess\u00e1rio, sob a forma de uma evid\u00eancia imediata, o que surgiu apenas \u2018por acaso\u2019 na realidade\u201d (Luk\u00e1cs, op. cit., p.174).<\/p>\n<p>Os temas que foram se apresentando nestes anos s\u00e3o significativos: no carnaval de 2010, a t\u00f4nica foi a luta pelo petr\u00f3leo; no de 2011, uma homenagem ao MST; em 2012, a luta contra as remo\u00e7\u00f5es e os mega-eventos; em 2013, uma homenagem a Oscar Niemayer; em 2014, a lutas de massas contra as remo\u00e7\u00f5es e a Copa do Mundo; em 2015, a luta feminista sob o lema \u201clugar de mulher \u00e9 aonde ela quiser\u201d; e neste ano de 2016, a luta do movimento negro com o lema \u201cna ra\u00e7a contra o racismo\u201d.<\/p>\n<p>A inclus\u00e3o de certos temas tem provocado rea\u00e7\u00f5es em alguns setores, como \u00e9 o caso da opress\u00e3o sobre as mulheres e a quest\u00e3o negra no Brasil, principalmente para aqueles que transformaram em quest\u00e3o de honra a suposi\u00e7\u00e3o de que tais temas est\u00e3o proibidos ao marxismo e a esquerda por uma falha de origem, ou para um tipo de intelectual e militante de grife, docilmente financiado por projetos governamentais e apassivado pelo balc\u00e3o das ONGs, que cr\u00ea que certos temas viraram propriedade privada de certos segmentos, inscrita no cart\u00f3rio geral de temas da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p>Incomoda muita gente que seja um partido com mais de 90 anos, comunista, marxista, a tocar em temas t\u00e3o importantes como o machismo, o racismo, a homofobia entre outros. Tais temas podem ser trabalhados na esquerda n\u00e3o porque ela deixou de ser machista, racista ou homof\u00f3bica, mas exatamente porque tamb\u00e9m aqui o preconceito se expressa e precisa ser combatido. Os comunistas tratar\u00e3o destas quest\u00f5es por coer\u00eancia ao seu quadro geral de referencia na emancipa\u00e7\u00e3o humana, mas tamb\u00e9m e principalmente, os comunistas tratar\u00e3o do tema da mulher, do negro e do homossexual pelo simples fato de que h\u00e1 mulheres comunistas, negros comunistas e, para desespero de toda esp\u00e9cie de conservadores, homossexuais comunistas. N\u00f3s nos orgulhamos muito disso.<\/p>\n<p>Outro aspecto a ser destacado \u00e9 que o \u201cComuna\u201d funciona de forma coletiva, inclusive no processo criativo, com todos os problemas que da\u00ed derivam, mas tem funcionado bem e o resultado parece comprovar o acerto. J\u00e1 em sua resolu\u00e7\u00e3o de funda\u00e7\u00e3o, onde apresenta seus tr\u00eas sucintos princ\u00edpios norteadores, isso fica claro:<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>O <em>Comuna Que Pariu!<\/em> \u00e9 um Bloco Revolucion\u00e1rio do Proletariado, ou seja, folia de carnaval na cidade do Rio de Janeiro organizada pelo Partido Comunista Brasileiro. Sem outros formalismos, este \u00e9 seu estatuto de classe.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>No <em>Comuna Que Pariu!<\/em>, as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas em reuni\u00e3o pelas pessoas que concretizam suas a\u00e7\u00f5es. Ou seja, suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o concretizadas pelas pessoas que decidem em sua reuni\u00e3o. E vice-versa.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Revogam-se demais disposi\u00e7\u00f5es, em especial as contr\u00e1rias \u00e0 camaradagem, ao amor e \u00e0 felicidade, ou seja, ao comunismo, \u00e0 liberdade e ao carnaval.<\/p>\n<p>Bom\u2026 tem sido assim. Tem classe nos temas do setores populares, tem hist\u00f3ria nas contradi\u00e7\u00f5es do presente, tem pol\u00edtica na vida e vida na pol\u00edtica. Tem comunistas no samba. Ficou bonito. Acontece l\u00e1, numa viela no centro do Rio de Janeiro (bem em frente a uma ocupa\u00e7\u00e3o urbana) que vai ficando pequena para as mais de duas mil pessoas que tem aparecido, localizada estrategicamente entre o imponente Teatro Municipal e a C\u00e2mara dos Vereadores, entre a arte e a pol\u00edtica\u2026 na rua!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/btP6YWLzRPo?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ghsy4eU0Tnk?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LNjvfStwUvw?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A Boitempo prepara para 2016 o lan\u00e7amento do fundamental\u00a0<strong><em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Boitempo\/photos\/a.198100650238046.49736.173366462711465\/955959017785535\/?type=3&amp;theater\" target=\"_blank\">Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/a><\/em><\/strong>, de <strong>Angela Davis<\/strong>, pensadora e militante do movimento negro, feminista e comunista, que trabalha a\u00a0interseccionalidade entre a luta feminista, a luta antiracista e a luta anticapitalista.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/02\/11\/o-bloco-comuna-que-pariu-como-fenomeno-cultural-e-politico\/\">O bloco \u201cComuna que Pariu!\u201d como fen\u00f4meno cultural e&nbsp;pol\u00edtico<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mauro Luis Iasi. 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