{"id":10433,"date":"2016-02-13T19:57:25","date_gmt":"2016-02-13T22:57:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10433"},"modified":"2016-03-03T13:32:08","modified_gmt":"2016-03-03T16:32:08","slug":"haiti-a-rua-contra-os-corruptos-e-os-invasores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10433","title":{"rendered":"Haiti: A rua contra os corruptos e os invasores"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/UN_Haiti.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Por Ra\u00fal Zibechi\/Resumen Latinoamericano \/Naiz, 12 de fevereiro de 2016 \u2013 Depois de onze anos de ocupa\u00e7\u00e3o sob o mandato das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a comunidade internacional pode estar certa de seu fracasso no Haiti. \u00c9 um fracasso, sobretudo, dos governos progressistas da regi\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o popular haitiana conseguiu impedir o \u00abgolpe eleitoral\u00bb que tinha preparado o Governo de Michel Martelly, com apoio da Casa Branca, para perpetuar no poder os herdeiros do regime de Fran\u00e7ois Duvalier. O segundo turno deveria ocorrer em 22 de janeiro \u2013 inicialmente previsto para 27 de dezembro \u2013 para escolher o sucessor de Martelly, que termina seu mandato hoje, domingo, 7 de fevereiro.<\/p>\n<p>Boa parte da popula\u00e7\u00e3o haitiana repudia a realiza\u00e7\u00e3o do segundo turno entre o oficialista Jovenel Moise, que chegou \u00e0 frente no primeiro turno em outubro, e o opositor Jude Celestin, em segundo com apenas oito pontos de diferen\u00e7a, por temor que se repita uma fraude maci\u00e7a como nas ocasi\u00f5es anteriores. Celestin se retirou para evitar que se consagre o continu\u00edsmo. O certo \u00e9 que desde a queda do regime da fam\u00edlia Duvalier (1957-1986) ocorreram golpes de Estado e o pa\u00eds n\u00e3o conseguiu se estabilizar.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o de esquerda denuncia a ocupa\u00e7\u00e3o colonial sofrida pela ilha desde a interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos, Canad\u00e1, Fran\u00e7a e Chile, que derrubou o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide, em 29 de fevereiro de 2004. Meses depois, as Na\u00e7\u00f5es Unidas, que n\u00e3o condenaram a interven\u00e7\u00e3o militar, instalaram a Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Haiti (MINUSTAH) com mais de 7.000 efetivos militares que, em sua maioria, pertencem a pa\u00edses latino-americanos como Brasil, Uruguai e Argentina (que comp\u00f5em a metade do contingente), mas tamb\u00e9m a Bol\u00edvia, Chile, Equador, El Salvador, Col\u00f4mbia, Paraguai, Peru e Guatemala.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o haitiana repudia massivamente uma presen\u00e7a militar que n\u00e3o pediu e que gera situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia permanentes. As tropas de ocupa\u00e7\u00e3o foram acusadas em reiteradas ocasi\u00f5es de viola\u00e7\u00f5es a meninas e meninos haitianos, de reprimir a\u00e7\u00f5es de protesto, de proteger a brutal corrup\u00e7\u00e3o imperante e os interesses dos Estados Unidos. Um dos eventos mais graves foi a epidemia de c\u00f3lera que provocaram os soldados nepaleses da MINUSTAH com um saldo de 900.000 haitianos infectados e 9.000 mortos.<\/p>\n<p>Em 1697, a Espanha cedeu \u00e0 Fran\u00e7a a parte ocidental da ilha La Espa\u00f1ola, na qual Colombo chegou tr\u00eas s\u00e9culos antes, constituindo a col\u00f4nia de Saint Dominique. Os franceses estabeleceram um f\u00e9rreo sistema colonial, onde 500.000 escravos africanos trabalham em planta\u00e7\u00f5es de cana de a\u00e7\u00facar. A ilha tamb\u00e9m foi um centro de tr\u00e1fico de escravos para outras col\u00f4nias americanas. A col\u00f4nia era respons\u00e1vel por um ter\u00e7o da renda da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante todo o per\u00edodo colonial ocorreram revoltas de escravos que escapavam das planta\u00e7\u00f5es para as montanhas, onde estabeleciam comunidades livres \u00abselvagens\u00bb e resistiam aos escravistas. Pouco depois da revolu\u00e7\u00e3o francesa, come\u00e7ou um movimento de liberta\u00e7\u00e3o dos escravos na ilha, encabe\u00e7ado por Toussaint-Louverture (considerado o mais importante dirigente da revolu\u00e7\u00e3o haitiana), que conseguiu importantes vit\u00f3rias militares. A longa luta emancipacionista iniciada em 1791 culminou em 1804, quando Jean-Jacques Dessalines declarou a independ\u00eancia e batizou a ex-col\u00f4nia como Haiti. Foi a primeira revolu\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina que conseguiu erradicar a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as pot\u00eancias da \u00e9poca n\u00e3o estavam dispostas a aceitar uma revolu\u00e7\u00e3o de escravos. Ao novo pa\u00eds impuseram bloqueios econ\u00f4micos e o isolamento pol\u00edtico para que o exemplo n\u00e3o se difundisse na regi\u00e3o. Os Estados Unidos rec\u00e9m-emancipados reconheceram a independ\u00eancia do Haiti em 1862. A Fran\u00e7a o fez em troca de uma grandiosa \u00abindeniza\u00e7\u00e3o\u00bb para seus colonos.<br \/>\nAssim, os criollos que lutavam para se tornarem independentes da col\u00f4nia espanhola tiveram o apoio dos revolucion\u00e1rios haitianos. Em 1816, Sim\u00f3n Bol\u00edvar pode organizar, com respaldo do Governo haitiano, a expedi\u00e7\u00e3o com a qual chegou \u00e0 ilha Margarita para reiniciar sua campanha libertadora.<\/p>\n<p>A longa hist\u00f3ria colonial foi atualizada com a ocupa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, desde 1915 at\u00e9 1934, para evitar que o dirigente revolucion\u00e1rio Rosalvo Bobo tomasse o poder. A presen\u00e7a dos fuzileiros no Haiti facilitou o saqueio do tesouro haitiano (o Banco da Na\u00e7\u00e3o se converteu em sucursal do Citybank) e a repress\u00e3o contra os camponeses, enquanto as empresas estadunidenses se aproveitaram dos baixos sal\u00e1rios dos cultivadores de cana.<\/p>\n<p>Com apoio da Casa Branca, Duvalier chegou \u00e0 presidencia em 1957 at\u00e9 que foi sucedido por seu filho, Jean Claude (Baby Doc), em 1971. Foi um regime ditatorial sustentado por grupos paramilitares (\u00abtonton macoutes\u00bb) e uma burguesia nacional abrigada pelo regime. A repress\u00e3o assassinou uns 150.000 haitianos. Por\u00e9m, em 1986, uma insurrei\u00e7\u00e3o o obrigou a se exilar, iniciando um per\u00edodo de instabilidade com fortes lutas populares. O sacerdote salesiano Aristide ganhou as elei\u00e7\u00f5es de 1991, \u00e0 frente do movimento Lavalas, por\u00e9m foi derrubado seis meses depois por um golpe encabe\u00e7ado pelo general Raoul Cedr\u00e1s.<\/p>\n<p>Aristide regressou ao Governo em 1994 \u00abprotegido\u00bb por tropas multinacionais encabe\u00e7adas pelos Estados Unidos (que financiaram o golpe contra Aristide) e entregou o poder a seu amigo Ren\u00e9 Preval, que ganhou as elei\u00e7\u00f5es de 1995. Em 2000, Aristide ganhou uma nova presid\u00eancia com mais de 90% dos votos. Por\u00e9m, seu Governo se aproximou de Cuba e da Venezuela de Hugo Ch\u00e1vez, recebendo o rep\u00fadio de Washington. Grupos armados integrados por militares duvalieristas se levantaram desde 2003 e, em fevereiro de 2004, ocorreu a invas\u00e3o militar que o expulsou do pa\u00eds e abriu as portas \u00e0 MINUSTAH.<\/p>\n<p>O terremoto de 20 de janeiro de 2010, no qual morreram mais de 300.000 pessoas, deixou descoberta a brutal corrup\u00e7\u00e3o da ajuda internacional e o papel militarista dos Estados Unidos, que mobilizou centenas de barcos de guerra e milhares de soldados para afirmar seu controle na ilha.<\/p>\n<p>Depois de onze anos de ocupa\u00e7\u00e3o sob o comando das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a comunidade internacional pode estar certa de seu fracasso no Haiti. \u00c9 um fracasso, sobretudo, dos governantes progressistas da regi\u00e3o, muito em particular do brasileiro que se empenhou em afirmar sua presen\u00e7a militar na ilha para projetar-se como \u00abjogador global\u00bb e conseguir um assento permanente no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Por\u00e9m, \u00e9 um fracasso tamb\u00e9m do Uruguai, da Bol\u00edvia, Equador e Argentina, que deveriam ter retirado suas tropas h\u00e1 muito tempo.<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o saiu \u00e0s ruas por duas raz\u00f5es. Repudia o regime duvalierista\/imperialista. Martelly \u00e9 herdeiro do regime dos Duvalier e s\u00f3 se sustenta pelo apoio de Washington. At\u00e9 uma parte da burguesia haitiana repudia a perman\u00eancia de seu partido e reclama um m\u00ednimo de soberania nacional.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a crise econ\u00f4mica que est\u00e1 provocando fome em quatro dos dez departamentos, agravada pela expuls\u00e3o de migrantes haitianos da vizinha Rep\u00fablica Dominicana, para onde rumam em busca de trabalho.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as grandes rebeli\u00f5es n\u00e3o nascem sozinhas. Nos \u00faltimos anos assistimos a um crescimento exponencial das organiza\u00e7\u00f5es populares de base, que reclamam o fim da ocupa\u00e7\u00e3o. Elas est\u00e3o freando o \u00abgolpe eleitoral\u00bb e, neste fim de semana, medir\u00e3o for\u00e7as nas ruas para recuperar o protagonismo do povo haitiano e a definitiva derrota dos corruptos e dos invasores.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2016\/02\/12\/haiti-a-la-calle-contra-los-corruptos-y-los-invasores\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Ra\u00fal Zibechi\/Resumen Latinoamericano \/Naiz, 12 de fevereiro de 2016 \u2013 Depois de onze anos de ocupa\u00e7\u00e3o sob o mandato das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10433\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-10433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c66-haiti"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Ih","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10433"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10433\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}