{"id":10435,"date":"2016-02-14T13:51:21","date_gmt":"2016-02-14T16:51:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10435"},"modified":"2016-03-03T13:32:37","modified_gmt":"2016-03-03T16:32:37","slug":"por-que-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10435","title":{"rendered":"Por que Socialismo?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/monthlyreview.org\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/einstein-chalk.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p>Albert Einstein<\/p>\n<p>Maio 1949<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Primeira Edi\u00e7\u00e3o:<\/strong> artigo escrito especialmente para o primeiro n\u00famero da revista marxista estadunidense Monthly Review, lan\u00e7ada em maio de 1949, e est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/monthlyreview.org\/2009\/05\/01\/why-socialism\/\" target=\"_blank\">http:\/\/monthlyreview.org\/2009\/<wbr \/>05\/01\/why-socialism\/<\/a><br \/>\n<strong>Fonte da Transcri\u00e7\u00e3o:<\/strong> <a href=\"https:\/\/tr.im\/EinsteinSocialismoBlog\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0066cc;\">Blog do Ralf e do Pluralismo Radical<\/span><\/a>. Tamb\u00e9m dispon\u00edvel em apresenta\u00e7\u00e3o bil\u00edngue em <a href=\"https:\/\/tr.im\/EinsteinSocialismoPDF\" target=\"_blank\">https:\/\/tr.im\/EinsteinSocialis<wbr \/>moPDF<\/a><br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/admin\/correio.htm\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0066cc;\">Ralf Rickli<\/span><\/a>.<strong>HTML de: <\/strong><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/admin\/correio.htm\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0066cc;\">Fernando A. S. Ara\u00fajo<\/span><\/a> .<strong>Direitos de Reprodu\u00e7\u00e3o: <\/strong> licenciado sob uma Licen\u00e7a <a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/3.0\/deed.pt_BR\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0066cc;\">Creative Commons<\/span><\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Ser\u00e1 aconselh\u00e1vel que um n\u00e3o especialista em assuntos econ\u00f4micos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema \u201csocialismo\u201d? Por v\u00e1rias raz\u00f5es, eu acredito que sim.<\/p>\n<p>Comecemos considerando a quest\u00e3o pelo ponto de vista epistemol\u00f3gico [isto \u00e9, que analisa o pr\u00f3prio conhecimento cient\u00edfico]. Poderia parecer que n\u00e3o houvesse diferen\u00e7as metodol\u00f3gicas essenciais entre a Astronomia e a Ci\u00eancia da Economia: nos dois campos, os cientistas tentam descobrir leis que sejam aceit\u00e1veis de modo generalizado para um determinado grupo de fen\u00f4menos, com a finalidade de tornar compreens\u00edvel a interconex\u00e3o desses fen\u00f4menos do modo mais claro poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na realidade, diferen\u00e7as metodol\u00f3gicas existem. No campo da Economia, a descoberta de leis gerais \u00e9 dificultada pela circunst\u00e2ncia de que os fen\u00f4menos econ\u00f4micos observ\u00e1veis s\u00e3o com frequ\u00eancia afetados por muitos fatores que \u00e9 muito dif\u00edcil avaliar separadamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como \u00e9 bem sabido, a experi\u00eancia acumulada desde o in\u00edcio do assim chamado per\u00edodo civilizado da hist\u00f3ria humana tem sido grandemente influenciada e limitada por fatores cuja natureza de nenhum modo \u00e9 exclusivamente econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Por exemplo, a maioria dos grandes Estados da hist\u00f3ria deveu sua exist\u00eancia \u00e0 conquista. Os povos conquistadores estabeleceram a si mesmos, legal e economicamente, como a classe privilegiada do territ\u00f3rio conquistado; apossaram-se do monop\u00f3lio da propriedade da terra e designaram uma classe sacerdotal a partir de suas pr\u00f3prias fileiras. Os sacerdotes, no controle da educa\u00e7\u00e3o, fizeram da divis\u00e3o da sociedade em classes uma institui\u00e7\u00e3o permanente, criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social das pessoas passou a ser guiado desde ent\u00e3o, em grande medida em n\u00edvel inconsciente.<\/p>\n<p>Mas a tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica come\u00e7ou ontem, por assim dizer. Em nenhum lugar n\u00f3s superamos de fato o que Thorstein Veblen chamou de \u201cfase predat\u00f3ria\u201d do desenvolvimento humano. Os fatos econ\u00f4micos observ\u00e1veis pertencem a essa fase, e as leis que podemos derivar deles n\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis a outras fases. Como o verdadeiro prop\u00f3sito do socialismo \u00e9 precisamente superar a fase predat\u00f3ria do desenvolvimento humano e avan\u00e7ar para al\u00e9m dela, a Ci\u00eancia Econ\u00f4mica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socio\u00e9tica. A ci\u00eancia, no entanto, n\u00e3o tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instil\u00e1-las nos seres humanos; a ci\u00eancia pode, no m\u00e1ximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades. As finalidades s\u00e3o concebidas por personalidades com ideais \u00e9ticos elevados \u2013 ideais esses que, quando n\u00e3o s\u00e3o natimortos e sim cheios de vida e vigor \u2013 s\u00e3o adotados e levados adiante por aquela multitude de seres humanos que, de modo parcialmente inconsciente, terminam por determinar a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, dever\u00edamos nos precaver no sentido de n\u00e3o superestimar a ci\u00eancia e os m\u00e9todos cient\u00edficos quando o que est\u00e1 em quest\u00e3o s\u00e3o problemas humanos &#8211; e n\u00e3o dever\u00edamos presumir que somente especialistas t\u00eam direito a se manifestar sobre as quest\u00f5es que afetam a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>Incont\u00e1veis vozes v\u00eam afirmando, j\u00e1 desde h\u00e1 algum tempo, que a sociedade humana est\u00e1 passando por uma crise; que sua estabilidade foi gravemente abalada. \u00c9 caracter\u00edstico dessa situa\u00e7\u00e3o que os indiv\u00edduos se sintam indiferentes ou at\u00e9 mesmo hostis ao grupo a que pertencem, seja o pequeno grupo ou ao grupo de maior escala. Permitam-me recordar aqui uma experi\u00eancia pessoal para ilustrar o que quero dizer: n\u00e3o faz muito, eu debatia com um homem inteligente e de boa disposi\u00e7\u00e3o sobre a amea\u00e7a de mais uma guerra \u2013 o que, na minha opini\u00e3o, poria em s\u00e9rio perigo a exist\u00eancia da humanidade \u2013 e observei que somente uma organiza\u00e7\u00e3o supranacional ofereceria prote\u00e7\u00e3o contra esse perigo. Nesse ponto o meu visitante me disse, com toda calma e indiferen\u00e7a: \u201cMas por que voc\u00ea se op\u00f5e t\u00e3o profundamente ao desaparecimento da ra\u00e7a humana?\u201d<\/p>\n<p>Tenho certeza que apenas um s\u00e9culo atr\u00e1s ningu\u00e9m teria declarado algo desse tipo com toda essa despreocupa\u00e7\u00e3o. Temos a\u00ed uma declara\u00e7\u00e3o de um homem que lutou em v\u00e3o para alcan\u00e7ar um equil\u00edbrio interior e mais ou menos perdeu a esperan\u00e7a de alcan\u00e7\u00e1-lo. \u00c9 express\u00e3o de uma dolorosa solid\u00e3o e isolamento, de que tanta gente sofre hoje em dia. Qual \u00e9 a causa? Existe sa\u00edda?<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil levantar essas perguntas, mas \u00e9 dif\u00edcil respond\u00ea-las com qualquer grau de seguran\u00e7a. No entanto eu preciso tentar, o melhor que puder, embora esteja bem consciente de que nossos sentimentos e aspira\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas vezes contradit\u00f3rios e obscuros, e n\u00e3o podem ser expressos em nenhuma f\u00f3rmula simples e f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 ao mesmo tempo um ser solit\u00e1rio e um ser social. Como ser solit\u00e1rio, ele tenta proteger sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e a dos que lhe s\u00e3o mais pr\u00f3ximos, satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e afei\u00e7\u00e3o dos seus companheiros de humanidade, compartilhar de seus prazeres, confort\u00e1-los em seus sofrimentos, melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Somente a exist\u00eancia dessas diferentes aspira\u00e7\u00f5es, muitas vezes conflitantes, j\u00e1 responde pelo car\u00e1ter especial de uma pessoa, e sua combina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica determina a medida em que o indiv\u00edduo consegue, por um lado, alcan\u00e7ar um equil\u00edbrio interior e, por outro lado, consegue contribuir para o bem-estar da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 bem poss\u00edvel que a intensidade relativa desses dois impulsos seja, em seu principal, determinada pela hereditariedade \u2013 mas a personalidade que termina emergindo \u00e9 formada em ampla medida pelo ambiente em que acontece de a pessoa se encontrar durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que ela cresce, pela tradi\u00e7\u00e3o daquela sociedade, e pelo valor que a sociedade atribui a este ou \u00e0quele tipo de comportamento.<\/p>\n<p>Para o indiv\u00edduo humano, o conceito abstrato \u201csociedade\u201d significa a soma de suas rela\u00e7\u00f5es diretas e indiretas com os seus contempor\u00e2neos e com todas as pessoas das gera\u00e7\u00f5es anteriores. O indiv\u00edduo \u00e9 capaz de pensar, sentir, aspirar e trabalhar por si mesmo; mas [ao mesmo tempo] ele depende tanto da sociedade \u2013 em sua exist\u00eancia f\u00edsica, intelectual e emocional \u2013 que \u00e9 imposs\u00edvel pens\u00e1-lo ou entend\u00ea-lo fora da moldura que \u00e9 o contexto social. \u00c9 \u201ca sociedade\u201d o que lhe proporciona comida, roupas, um lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conte\u00fado do pensamento; a sua vida se faz poss\u00edvel mediante o trabalho e realiza\u00e7\u00f5es dos muitos milh\u00f5es, passados e presentes, que est\u00e3o escondidos por tr\u00e1s da pequena palavra \u201csociedade\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, portanto, que a depend\u00eancia do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade \u00e9 um fato da natureza que n\u00e3o pode ser abolido \u2013 tanto quanto o \u00e9 no caso das formigas e abelhas. No entanto, enquanto o inteiro processo de vida das formigas e abelhas \u00e9 determinado nos m\u00ednimos detalhes por instintos heredit\u00e1rios r\u00edgidos, o padr\u00e3o social e os inter-relacionamentos dos seres humanos s\u00e3o altamente vari\u00e1veis e suscet\u00edveis de mudan\u00e7as. A mem\u00f3ria, a capacidade de realizar novas combina\u00e7\u00f5es e o dom da comunica\u00e7\u00e3o verbal possibilitaram desenvolvimentos, entre os seres humanos, que n\u00e3o s\u00e3o ditados por necessidades biol\u00f3gicas. Tais desenvolvimentos se manifestam em tradi\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es; em literatura; em realiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e t\u00e9cnicas; em obras de arte. Isso explica como acontece de o ser humano ser capaz de, em certo sentido, influir em sua vida mediante a sua pr\u00f3pria conduta, e de que nesse processo o pensamento e a vontade conscientes consigam desempenhar um papel.<\/p>\n<p>O ser humano adquire ao nascer, atrav\u00e9s da hereditariedade, uma constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica que precisamos considerar determinada e inalter\u00e1vel, inclusive os impulsos naturais que s\u00e3o caracter\u00edsticos da esp\u00e9cie humana. Em acr\u00e9scimo, ao longo de sua vida ele adquire uma constitui\u00e7\u00e3o cultural que ele adota da sociedade por meio da comunica\u00e7\u00e3o e de muitos outros tipos de influ\u00eancias. \u00c9 a sua constitui\u00e7\u00e3o cultural que est\u00e1 sujeita a mudan\u00e7as com a passagem do tempo, e que determina em vasta medida a rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o comparativa das culturas chamadas de primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir grandemente, dependendo dos padr\u00f5es culturais e dos tipos de organiza\u00e7\u00e3o que predominam na sociedade. Os que se empenham em melhorar a condi\u00e7\u00e3o humana podem fundamentar suas esperan\u00e7as <em>nisso:<\/em> seres humanos <em>n\u00e3o<\/em> est\u00e3o condenados por sua constitui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica a aniquilarem uns aos outros, nem a estar \u00e0 merc\u00ea de um destino cruel autoinfligido.<\/p>\n<p>Se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a atitude cultural do ser humano deveriam ser mudados para tornar a vida humana t\u00e3o satisfat\u00f3ria quanto poss\u00edvel, dever\u00edamos estar sempre conscientes de que h\u00e1 certas condi\u00e7\u00f5es que somos incapazes de modificar. Como j\u00e1 foi mencionado, para todos os efeitos pr\u00e1ticos a natureza biol\u00f3gica do ser humano n\u00e3o \u00e9 modific\u00e1vel. Al\u00e9m disso, os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos e demogr\u00e1ficos dos \u00faltimos s\u00e9culos criaram condi\u00e7\u00f5es que est\u00e3o aqui para ficar. Em popula\u00e7\u00f5es assentadas com consider\u00e1vel densidade, levando em conta os bens que s\u00e3o indispens\u00e1veis para a continuidade de sua exist\u00eancia, tornam-se absolutamente indispens\u00e1veis uma extrema divis\u00e3o de trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado. Foi-se para sempre o tempo \u2013 que, olhando-se para tr\u00e1s, parece t\u00e3o id\u00edlico \u2013 em que indiv\u00edduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. H\u00e1 pouco exagero em dizer que a humanidade j\u00e1 constitui uma comunidade planet\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o e consumo.<\/p>\n<p>Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que, para mim, constitui a ess\u00eancia da crise do nosso tempo: refere-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com a sociedade. O indiv\u00edduo se tornou mais consciente do que nunca de sua depend\u00eancia da sociedade &#8211; mas sua experi\u00eancia dessa depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a de um bem positivo, um la\u00e7o org\u00e2nico, uma for\u00e7a protetora, e sim a de uma amea\u00e7a aos seus direitos naturais, ou at\u00e9 mesmo \u00e0 sua exist\u00eancia econ\u00f4mica. Al\u00e9m disso, o indiv\u00edduo est\u00e1 posicionado na sociedade de modo tal, que os impulsos ego\u00edstas da sua constitui\u00e7\u00e3o recebem refor\u00e7o constante, enquanto que os seus impulsos sociais, que por natureza j\u00e1 s\u00e3o mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade, v\u00eam sofrendo esse processo de deteriora\u00e7\u00e3o. Prisioneiros de seu pr\u00f3prio ego\u00edsmo sem saber disso, sentem-se inseguros, sozinhos e privados de todo desfrute da vida que seja inocente, simples, n\u00e3o sofisticado. O ser humano somente pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como \u00e9, mediante sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>A anarquia econ\u00f4mica da sociedade capitalista como existe hoje \u00e9, na minha opini\u00e3o, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de n\u00f3s uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo \u2013 n\u00e3o por for\u00e7a, mas em inteiro e fiel cumprimento de regras estabelecidas legalmente. A respeito disso, \u00e9 importante dar-se conta [do papel do fato] de que os meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 quer dizer, tudo o que d\u00e1 capacidade de produzir bens para os consumidores, bem como bens de capital adicionais \u2013 possam ser propriedade privada de indiv\u00edduos (e de fato o sejam, em sua maior parte).<\/p>\n<p>Pelo bem da simplicidade, na discuss\u00e3o a seguir chamarei de \u201ctrabalhadores\u201d todos os que n\u00e3o t\u00eam parte na propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 embora isso n\u00e3o corresponda com exatid\u00e3o ao uso costumeiro do termo. O propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de comprar a for\u00e7a de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produ\u00e7\u00e3o, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contrata\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 \u201clivre\u201d, o que o trabalhador recebe n\u00e3o \u00e9 determinado pelo valor real dos bens que ele produz, e sim por quais s\u00e3o suas necessidade m\u00ednimas, bem como pela rela\u00e7\u00e3o entre a demanda por for\u00e7a de trabalho por parte dos capitalistas e o n\u00famero de trabalhadores que competem por empregos. \u00c9 importante entender que <em>nem mesmo na teoria<\/em> o pagamento do trabalhador \u00e9 determinado pelo valor do seu produto.<\/p>\n<p>Capital privado tende a se concentrar em poucas m\u00e3os, em parte devido \u00e0 competi\u00e7\u00e3o entre os capitalistas, em parte porque o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e o crescimento da divis\u00e3o do trabalho estimulam a forma\u00e7\u00e3o de unidades de produ\u00e7\u00e3o maiores, em preju\u00edzo das menores. O resultado desses desenvolvimentos \u00e9 uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder n\u00e3o pode ser efetivamente controlado sequer por uma sociedade pol\u00edtica democraticamente organizada.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 assim porque os membros dos corpos legislativos s\u00e3o selecionados por partidos pol\u00edticos, que s\u00e3o amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados que, para todos os prop\u00f3sitos pr\u00e1ticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequ\u00eancia \u00e9 que os representantes do povo n\u00e3o protegem de fato e de modo suficiente os interesses dos setores menos privilegiados da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, nas condi\u00e7\u00f5es atuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informa\u00e7\u00e3o (imprensa, r\u00e1dio, educa\u00e7\u00e3o). Torna-se assim extremamente dif\u00edcil para o cidad\u00e3o individual, e de fato imposs\u00edvel na maioria dos casos, chegar a conclus\u00f5es objetivas e fazer uso inteligente dos seus direitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital caracteriza-se ent\u00e3o por dois princ\u00edpios centrais: primeiro, os meios de produ\u00e7\u00e3o (capital) s\u00e3o possu\u00eddos privadamente, e os propriet\u00e1rios disp\u00f5em deles como acham melhor; segundo, a contrata\u00e7\u00e3o de trabalho \u00e9 livre [isto \u00e9, n\u00e3o regulada]. \u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 sociedade capitalista <em>pura<\/em> nesse sentido. Em especial, \u00e9 preciso registar que os trabalhadores, atrav\u00e9s de longas e amargas lutas pol\u00edticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de \u201clivre contrato de trabalho\u201d para algumas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia atual n\u00e3o difere muito de um capitalismo \u201cpuro\u201d.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada com a finalidade do lucro, n\u00e3o com a do uso. N\u00e3o existem disposi\u00e7\u00f5es para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam achar emprego; quase sempre existe um \u201cex\u00e9rcito de desempregados\u201d. O trabalhador est\u00e1 perpetuamente com medo de perder seu emprego. Devido ao fato de que desempregados e trabalhadores mal pagos n\u00e3o formam um mercado rendoso, a produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo \u00e9 restrita, o que resulta em grandes priva\u00e7\u00f5es. O progresso tecnol\u00f3gico resulta com frequ\u00eancia em mais desemprego, em lugar de aliviar a carga de trabalho para todos. O lucro como motiva\u00e7\u00e3o, em conjunto com a concorr\u00eancia entre os capitalistas, \u00e9 respons\u00e1vel por uma instabilidade na acumula\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. A competi\u00e7\u00e3o irrestrita leva a um gigantesco desperd\u00edcio de for\u00e7a de trabalho, e tamb\u00e9m \u00e0quela deforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social dos indiv\u00edduos, que eu mencionei anteriormente.<\/p>\n<p>Essa deforma\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada \u00e9 inculcada no estudante, que, como prepara\u00e7\u00e3o para sua futura carreira, \u00e9 treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.<\/p>\n<p>Estou convencido de que existe apenas <em>um<\/em> caminho para eliminar esses graves males, e esse \u00e9 o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o propriedade da pr\u00f3pria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produ\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e crian\u00e7a. A educa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, al\u00e9m de desenvolver suas pr\u00f3prias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorifica\u00e7\u00e3o do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.<\/p>\n<p>Contudo \u00e9 preciso lembrar que uma economia planejada ainda n\u00e3o \u00e9 socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escraviza\u00e7\u00e3o completa do indiv\u00edduo. A realiza\u00e7\u00e3o do socialismo requer a solu\u00e7\u00e3o de alguns problemas sociopol\u00edticos extremamente dif\u00edceis: como \u00e9 poss\u00edvel, em face da centraliza\u00e7\u00e3o abrangente do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indiv\u00edduo e garantir com isso um contrapeso democr\u00e1tico ao poder da burocracia?<\/p>\n<p>A clareza quanto \u00e0s metas e aos problemas do socialismo \u00e9 da mais alta significa\u00e7\u00e3o em nossa era de transi\u00e7\u00e3o. Como, na conjuntura atual, a discuss\u00e3o livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, eu considero a funda\u00e7\u00e3o desta revista um relevante ato de interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/einstein\/1949\/05\/socialismo.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Albert Einstein Maio 1949\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10435\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-10435","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Ij","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10435\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}