{"id":1044,"date":"2010-12-04T16:10:09","date_gmt":"2010-12-04T16:10:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1044"},"modified":"2010-12-04T16:10:09","modified_gmt":"2010-12-04T16:10:09","slug":"crise-economica-global-guerra-economica-e-gasto-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1044","title":{"rendered":"Crise econ\u00f4mica global, guerra econ\u00f4mica e gasto militar"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>A estrutura do or\u00e7amento dos Estados Unidos e a l\u00f3gica de sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, com Bush e Obama, \u00e9 a de uma economia de guerra na qual o gasto militar exacerba o d\u00e9ficit fiscal, mas permite o funcionamento de um \u201cequil\u00edbrio do terror financeiro\u201d, repassa imensos lucros ao complexo militar industrial e mant\u00e9m uma chantagem global baseada na for\u00e7a militar.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma simples olhada no or\u00e7amento de 2010 dos Estados Unidos permite examinar a magnitude do gasto militar e o papel que este joga em conjunto com o gasto para os pacotes de resgate dos bancos e entidades financeiras quebradas.<\/p>\n<p>O montante do or\u00e7amento \u00e9 de 3,94 trilh\u00f5es de d\u00f3lares e o d\u00e9ficit previsto \u00e9 de 1,75 trilh\u00e3o, equivalente a quase 12% do PIB. (1)<\/p>\n<p>O gasto militar oficial \u00e9 de 739,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, embora se forem inclu\u00eddos outros gastos indiretos ou encobertos, o gasto superaria 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O gasto no resgate das entidades financeiras falidas na crise, efetuado pelas administra\u00e7\u00f5es de Bush e Obama alcan\u00e7a 1,45 trilh\u00e3o, enquanto que os juros devidos pela d\u00edvida p\u00fablica s\u00e3o de 164 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Isto significa que quase toda a receita do or\u00e7amento (2,38 trilh\u00f5es) se consome somente pelo gasto militar mais os resgates da oligarquia financeira e uma pequena propor\u00e7\u00e3o por juros da d\u00edvida p\u00fablica. N\u00e3o fica praticamente nada para outros tipos de gastos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se considerarmos que o gasto militar ronda o trilh\u00e3o de d\u00f3lares e que a parte da receita or\u00e7ament\u00e1ria correspondente aos impostos familiares \u00e9 de 1,06 trilh\u00e3o, temos que quase todos os impostos pagos pelas fam\u00edlias nos Estados Unidos mal d\u00e3o para cobrir o enorme gasto militar.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos s\u00e3o o pa\u00eds mais endividado do mundo, embora o significado pr\u00e1tico disto seja diferente para este pa\u00eds que para qualquer outro, porque se encontra endividado na moeda nacional que ele mesmo cria e faz circular.<\/p>\n<p>O financiamento da enorme d\u00edvida p\u00fablica federal ascendente a 14 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, sem incluir d\u00edvidas dos estados e munic\u00edpios \u00e9 de caracter\u00edsticas surrealistas.<\/p>\n<p>Para o crescimento dessa d\u00edvida p\u00fablica contribu\u00edram os pacotes de resgate aos bancos, mas essa d\u00edvida \u00e9 financiada por uma retorcida opera\u00e7\u00e3o mediante a qual o governo financia seu pr\u00f3prio endividamento, pois o dinheiro dado como resgate aos bancos \u00e9 financiado em parte tomando empr\u00e9stimos aos mesmos bancos.<\/p>\n<p>Por sua vez, os bancos imp\u00f5em condicionalidades ao governo no manejo da d\u00edvida e como o dinheiro deve ser empregado. Depois de terem sido \u201cresgatados\u201d os bancos exigem cortes maci\u00e7os no gasto p\u00fablico em servi\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o, a privatiza\u00e7\u00e3o de infraestruturas e servi\u00e7os como \u00e1gua, rodovias, lazer, mas n\u00e3o se toca no gasto militar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se toca porque \u201c<em>War is Good for Business<\/em>\u201d (A guerra \u00e9 boa para os neg\u00f3cios) e a mesma oligarquia que maneja o mercado financeiro obt\u00e9m elevados lucros procedentes do gasto militar. E esse gasto militar &#8211; como parte do d\u00e9ficit p\u00fablico &#8211; \u00e9 financiado por opera\u00e7\u00f5es de guerra econ\u00f4mica que se aquecem cada vez mais e amea\u00e7am mesclar a guerra econ\u00f4mica com a guerra provavelmente nuclear que os Estados Unidos incubam na complexa meada de seus interesses e contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e geoestrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p><strong>O equil\u00edbrio do terror financeiro<\/strong><\/p>\n<p>A peculiar estrutura mediante a qual os Estados Unidos atuam como uma economia parasit\u00e1ria que financia seus d\u00e9ficits e seu gasto militar recebendo inje\u00e7\u00f5es financeiras do resto do mundo \u00e9 parte da \u201cnormalidade\u201d da ordem econ\u00f4mica global. Ter reservas monet\u00e1rias em d\u00f3lares que se reciclam para comprar b\u00f4nus ou outros instrumentos do Tesouro que financiam a d\u00edvida estadunidense, e com ela a escalada militar, \u00e9 considerado pelos neoliberais como uma manifesta\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio de mercados livres.<\/p>\n<p>O poder midi\u00e1tico apresenta esta reciclagem como resultado da confian\u00e7a na fortaleza econ\u00f4mica dos Estados Unidos porque outros pa\u00edses enviam para l\u00e1 seus d\u00f3lares para ser investidos. (2)<\/p>\n<p>O real \u00e9 que os estrangeiros p\u00f5em seu dinheiro nos Estados Unidos n\u00e3o porque sejam importadores de mercadorias desse pa\u00eds, nem tampouco s\u00e3o investidores privados comprando a\u00e7\u00f5es ou b\u00f4nus. Os maiores aplicadores de dinheiro nos Estados Unidos s\u00e3o os bancos centrais que n\u00e3o fazem outra coisa sen\u00e3o reciclar os d\u00f3lares que seus exportadores obtiveram e por sua vez cambiaram por moedas nacionais.<\/p>\n<p>Com d\u00e9ficits comercial e fiscal crescentes nos Estados Unidos, se produz uma inunda\u00e7\u00e3o de d\u00f3lares para o exterior, que agora s\u00e3o impulsionados pela baixa taxa de juros norte-americana e pela emiss\u00e3o alegre de pap\u00e9is verdes.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses receptores de d\u00f3lares (a China em especial) se v\u00eaem colocados diante de um dilema. N\u00e3o participam nem t\u00eam influ\u00eancia alguma sobre decis\u00f5es econ\u00f4micas do governo dos Estados Unidos, que se aproveita do privil\u00e9gio do d\u00f3lar. Se aceitam a inunda\u00e7\u00e3o de d\u00f3lares, seja por excedentes comerciais ou pela baixa taxa de juros norte-americana ou por ambos os fatores, sofrem a press\u00e3o para a eleva\u00e7\u00e3o da sua taxa de c\u00e2mbio, a perda de competitividade comercial e o perigo de deixar aninhar perigosos capitais especulativos de curto prazo.<\/p>\n<p>Para evitar essa inunda\u00e7\u00e3o, a conduta imposta \u00e9 comprar pap\u00e9is de d\u00edvida emitidos pelo governo norte-americano e acumul\u00e1-los nas reservas monet\u00e1rias, sofrendo o perigo de que qualquer desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar seja uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de suas reservas. \u00c0 China ou a outros pa\u00edses que acumulam grandes volumes de d\u00f3lares ou de pap\u00e9is da d\u00edvida norte-americana denominados em d\u00f3lares, n\u00e3o se lhes permite comprar ativos n\u00e3o financeiros nos Estados Unidos. Quando a China tentou (a compra de instala\u00e7\u00f5es para a distribui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis) o governo dos Estados Unidos o proibiu. Nesse caso n\u00e3o valem o livre fluxo de capitais, o livre com\u00e9rcio e a ret\u00f3rica habitual. S\u00f3 podem comprar ativos financeiros para financiar os d\u00e9ficits estadunidenses.<\/p>\n<p>Ao comprar os b\u00f4nus do Tesouro os pa\u00edses entram no \u201cequil\u00edbrio do terror financeiro\u201d e passam a contribuir para financiar um destino n\u00e3o previsto nem desejado: o gasto militar do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Ocorre assim para os pa\u00edses receptores de d\u00f3lares surgidos dos d\u00e9ficits norte-americanos, uma dupla compreens\u00e3o. S\u00e3o lesionados ao ver-se estruturalmente empurrados a financiar passivamente a m\u00e1quina militar norte-americana por meio de um \u201cequil\u00edbrio do terror financeiro\u201d baseado n\u00e3o em sua superioridade econ\u00f4mica, mas no poderio militar. E ao faz\u00ea-lo, pa\u00edses como a China e a R\u00fassia est\u00e3o alimentando o mesmo gasto e poderio militar que aponta armas nucleares para eles.<\/p>\n<p>O maci\u00e7o gasto militar tem um objetivo geoestrat\u00e9gico hegem\u00f4nico e sua l\u00f3gica \u00faltima \u00e9 a guerra.<\/p>\n<p>N\u00e3o poucas pessoas nos Estados Unidos cr\u00eaem nas virtudes de est\u00edmulo econ\u00f4mico que uma guerra pode trazer. Recordam com nostalgia que a guerra hispano-cubano-americana, a primeira guerra da etapa imperialista, serviu em 1898 para que os Estados Unidos escapassem da crise econ\u00f4mica daquela d\u00e9cada. O que foi a Segunda Guerra Mundial? Esta finalmente provocou a suficiente destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas para deixar para tr\u00e1s a Grande Depress\u00e3o e abrir caminho aos dourados anos 1950. A recess\u00e3o de finais dos anos 1940 foi superada com a ajuda da guerra da Cor\u00e9ia.<\/p>\n<p>Esta nostalgia, que incrementa o perigo de uma catastr\u00f3fica guerra nuclear, ignora que aquelas guerras convencionais correspondentes \u00e0 \u00e9poca pr\u00e9-nuclear poderiam atuar como est\u00edmulos anticrises, mas a guerra atual da era nuclear perdeu essa capacidade.<\/p>\n<p>As guerras com armas convencionais tinham duas virtudes como reanimadoras da economia: mediante a produ\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de armamento convencional para atender pedidos do Estado em guerra, se gerava emprego nas cadeias produtivas de ent\u00e3o, e tamb\u00e9m a guerra convencional acelerava a destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas que a crise econ\u00f4mica tinha iniciado, e levava ao n\u00edvel suficiente para impulsionar a recupera\u00e7\u00e3o sobre a base da reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra. A destrui\u00e7\u00e3o era a suficiente para completar e acelerar o peculiar papel da crise econ\u00f4mica como destruidora de riqueza para iniciar depois outra fase expansiva e n\u00e3o era tanta ao ponto de amea\u00e7ar a vida da esp\u00e9cie humana e do planeta. Era poss\u00edvel para o capitalismo n\u00e3o s\u00f3 sobreviver, mas utilizar a guerra como t\u00f4nico estimulante para a economia.<\/p>\n<p>A guerra nuclear na atual etapa n\u00e3o seria estimulante frente ao principal problema org\u00e2nico da crise que \u00e9 o desemprego, pois agora a tecnologia sofisticada para fabricar armas utiliza muito pouca for\u00e7a de trabalho, mas sua capacidade destrutiva \u00e9 t\u00e3o formid\u00e1vel que o destru\u00eddo n\u00e3o seriam f\u00e1bricas, capitais financeiros ou algumas cidades, mas o planeta e a esp\u00e9cie humana depois do cataclismo do inverno nuclear.<\/p>\n<p>A guerra atual, se \u00e9 guerra convencional de desgaste como a do Iraque e do Afeganist\u00e3o, n\u00e3o pode ser ganha pelos Estados Unidos nem \u00e9 estimulante para sair da crise econ\u00f4mica, se \u00e9 guerra nuclear que se estabelece como amea\u00e7adora possibilidade, tampouco serviria para sair da crise porque n\u00e3o eliminaria o grande problema do desemprego, mas serve para fazer grandes neg\u00f3cios a partir do tipo de gasto p\u00fablico que se maneja com total opacidade e falta de crit\u00e9rio, o gasto no qual os Bernanke, Geithner, Summers, Strauss Kahn, nada decidem: o gasto militar, o qual \u00e9 capaz de reunir em si mesmo a ambi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica e o super lucro do grande neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Para os Estados Unidos, debilitado economicamente e com uma cultura produtiva declinante, o recurso de \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 a amea\u00e7a constante de guerra sustentada no gasto militar crescente. Mas, a amea\u00e7a constante de guerra e o gasto militar possuem uma din\u00e2mica diab\u00f3lica que tende a realizar-se na guerra real, quando convergem a mentalidade belicista, os conflitos pela hegemonia em petr\u00f3leo, g\u00e1s, \u00e1gua etc., disfar\u00e7ados de raz\u00f5es humanit\u00e1rias ou religiosas e a cren\u00e7a de que na guerra nuclear pode haver vencedores.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio da economia da maior pot\u00eancia militar apresenta fortes tens\u00f5es entre um poderio militar muito superior a qualquer outro e, pela mesma raz\u00e3o, ambicioso de hegemonia, e uma economia em retrocesso, que exportou boa parte de sua capacidade industrial, mergulhou no parasitismo financeiro, se acomodou no consumismo do produzido por outros e perdeu a cultura produtiva que alguma vez foi relevante. Alguns assinalam que seguindo essas tend\u00eancias, o pa\u00eds que ao terminar a Segunda Guerra Mundial dominava a economia mundial com sua capacidade produtiva, se encaminha a consumir os produtos do exterior e a exportar somente filmes, espet\u00e1culos musicais, imagens glamorosas de um consumismo insustent\u00e1vel e armas.<\/p>\n<p>O atraso econ\u00f4mico frente aos ritmos de crescimento da China e n\u00e3o s\u00f3 dela, mas do chamado BRIC+3 (Indon\u00e9sia, Cor\u00e9ia do Sul, Mal\u00e1sia) \u00e9 tamb\u00e9m uma fonte de tens\u00f5es. Ao ritmo que crescem estes pa\u00edses chamados emergentes, seu PIB chegar\u00e1 em 2020 ao que agora tem o G-7.<\/p>\n<p>As tend\u00eancias apontam para o retrocesso econ\u00f4mico dos Estados Unidos e a previs\u00edvel utiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a militar para manter a posi\u00e7\u00e3o dominante da segunda metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Essas tens\u00f5es se manifestam nas guerras no Iraque, Afeganist\u00e3o, Paquist\u00e3o, na amea\u00e7a de guerra nuclear contra o Ir\u00e3 e a Cor\u00e9ia do Norte e tamb\u00e9m nos golpes e intentos de golpes de estado na Am\u00e9rica Latina (Honduras, Venezuela, Equador, Bol\u00edvia); adicionalmente, na crescente militariza\u00e7\u00e3o na forma de instala\u00e7\u00e3o de bases militares norte-americanas em escala global e na conforma\u00e7\u00e3o de uma doutrina de guerra que inclui, entre outras coisas, a perigosa redefini\u00e7\u00e3o das bombas nucleares \u201cpequenas\u201d &#8211; podem oscilar entre a metade e at\u00e9 6 vezes a capacidade da bomba de Hiroshima &#8211; como armas que fazem parte de um menu de op\u00e7\u00f5es cuja utiliza\u00e7\u00e3o pode em teoria, ser decidida pelo comando no teatro de opera\u00e7\u00f5es. Significa que um general no teatro de opera\u00e7\u00f5es disp\u00f5e de uma \u201ccaixa de ferramentas\u201d para escolher, na qual tem dispon\u00edveis mini bombas nucleares que poderia utilizar como o faria com os blindados, a artilharia etc.<\/p>\n<p><strong>Rumo \u00e0 guerra econ\u00f4mica?<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas a economia mundial est\u00e1 fervilhando com as noticias sobre a guerra das divisas. Esta guerra foi preocupa\u00e7\u00e3o central da reuni\u00e3o de ministros das Finan\u00e7as do FMI em 23 de outubro e de novo, assim como em todas as C\u00fapulas do G-20 realizadas depois do in\u00edcio desta crise global, foram reiteradas as solenes declara\u00e7\u00f5es de compromisso com o \u201clivre com\u00e9rcio\u201d e a n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o de barreiras ao funcionamento dos mercados.<\/p>\n<p>Nestas primeiras escaramu\u00e7as de uma poss\u00edvel guerra se v\u00eaem com clareza os contendores. Por um lado, os Estados Unidos tratando de reanimar sua economia a todo custo, aproveitando-se do fato de contar com a moeda de reserva internacional que \u00e9 tamb\u00e9m sua moeda nacional. Ademais, lan\u00e7a uma torrente de d\u00f3lares para o exterior a fim de desvalorizar o d\u00f3lar, melhorar sua posi\u00e7\u00e3o competitiva e ao faz\u00ea-lo, elevar as taxas de c\u00e2mbio dos demais, prejudic\u00e1-los no com\u00e9rcio, faz\u00ea-los reciclar os d\u00f3lares comprando instrumentos da d\u00edvida norte-americana. Por outro, o restante das economias do mundo, em especial os exportadores de mat\u00e9rias primas do Sul, os que al\u00e9m do que foi dito acima, sofrem a aflu\u00eancia de capitais especulativos vol\u00e1teis impulsionados pela baixa taxa de juros que os Estados Unidos mant\u00eam como instrumento sem \u00eaxito para reanimar o investimento.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o destas escaramu\u00e7as em uma verdadeira guerra ao estilo da ocorrida nos anos da Grande Depress\u00e3o depender\u00e1 da profundidade e dura\u00e7\u00e3o que alcance a crise global. Se ela se agravar, poder\u00e1 ocorrer que a guerra das divisas venha a ser o prel\u00fadio de uma guerra comercial com a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas nacionais de \u201cempobrecer o vizinho\u201d e o desaparecimento da ret\u00f3rica livre-cambista e os juramentos de f\u00e9 no multilateralismo.<\/p>\n<p>Para todos se tornou evidente que o governo dos Estados Unidos n\u00e3o faz outra coisa que aplicar o nacionalismo para resolver seus problemas internos, valendo-se do privilegio do d\u00f3lar e encurralando os demais. N\u00e3o seria estranho que esta conduta encontrasse a reciprocidade de outros e, no contexto de longa crise agravada, poderia explodir o sistema de regras e institui\u00e7\u00f5es que nasceu no p\u00f3s-guerra prometendo n\u00e3o repetir jamais uma guerra comercial.<\/p>\n<p><strong>Crise econ\u00f4mica e tend\u00eancias pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>A crise global tem estado mais ligada com um giro para a direita do que com um fortalecimento das for\u00e7as anticapitalistas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre crise econ\u00f4mica e tend\u00eancias pol\u00edticas foi variada no s\u00e9culo passado. Considerando somente as maiores crises econ\u00f4micas e sua tradu\u00e7\u00e3o em resultados pol\u00edticos, estas inclu\u00edram um movimento de p\u00eandulo para a esquerda nos anos da Primeira Guerra Mundial e para a direita nos anos da Grande Depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A economia russa de 1917 sofria os estragos dos anos de guerra, mas tamb\u00e9m o impacto da crise econ\u00f4mica europ\u00e9ia. O triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 foi associado \u00e0 crise, ainda que, obviamente, somente ela n\u00e3o podia gerar esse triunfo hist\u00f3rico anticapitalista. Muitos outros fatores interagiram com a crise econ\u00f4mica, mas o resultado final foi que a situa\u00e7\u00e3o extrema a que a guerra, a autocracia czarista e a crise tinham levado a popula\u00e7\u00e3o russa, foi captada, interpretada e dirigida por uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se propunha terminar com o capitalismo e construir o socialismo.<\/p>\n<p>Nos anos 1930 do s\u00e9culo passado a Grande Depress\u00e3o foi a maior crise econ\u00f4mica at\u00e9 ent\u00e3o ocorrida, mas o que predominou associado a ela foi o fortalecimento do fascismo. Na Alemanha a combina\u00e7\u00e3o de indeniza\u00e7\u00f5es pagas aos vencedores na guerra anterior, a infla\u00e7\u00e3o galopante, eliminada por uma condu\u00e7\u00e3o centralizada e fortemente controlada pelo Estado fascista, a elimina\u00e7\u00e3o do desemprego atrav\u00e9s de grandes obras p\u00fablicas e a lideran\u00e7a de um fan\u00e1tico de direita, deu como resultado o fascismo no poder e a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, na Europa e na Am\u00e9rica Latina houve nesses anos movimentos de esquerda e para a esquerda, mas n\u00e3o alcan\u00e7aram vit\u00f3rias estrat\u00e9gicas. N\u00e3o existe uma determina\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica pelo qual o desemprego, a pobreza, a inseguran\u00e7a que uma crise econ\u00f4mica provoca, conduza o p\u00eandulo para a esquerda.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a e inclusive o desespero que uma crise gera pode ser apropriada e conduzida para objetivos pol\u00edticos pela esquerda ou pela direita, na depend\u00eancia da leitura correta ou incorreta que fa\u00e7am as for\u00e7as em disputa, das a\u00e7\u00f5es concretas e da capacidade da lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Na crise atual n\u00e3o tem sido relevante at\u00e9 o momento a resist\u00eancia aos efeitos e pol\u00edticas associadas a elas, apesar do forte impacto no emprego e do custo social que alcan\u00e7ou.<\/p>\n<p>A greve geral na Espanha em 29 de setembro e as manifesta\u00e7\u00f5es francesas contra a pol\u00edtica do FMI de ajuste fiscal, s\u00e3o noticias a acompanhar, mas simultaneamente se fortalece a direita nos Estados Unidos e na Europa, enquanto que na Am\u00e9rica Latina se desenvolve uma contra-ofensiva imperialista contra os governos da Alba.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos o Tea Party avan\u00e7a no controle do Partido Republicano, e Obama sofre um forte voto de castigo, como express\u00e3o eleitoral do giro \u00e0 direita de massas norte-americanas as quais est\u00e3o se deslocando \u00e0 direita pelo desemprego, a extens\u00e3o da pobreza e a perda da habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Tea Party \u00e9 um perigoso conglomerado em que se misturam a ignor\u00e2ncia, e o primitivismo pol\u00edtico com a intoler\u00e2ncia, os preconceitos e a cren\u00e7a cega em ser o povo eleito para conduzir o mundo.<\/p>\n<p>Sua ideologia \u00e9 uma mix\u00f3rdia fascist\u00f3ide que inclui unir a Igreja e o Estado, eliminar os subs\u00eddios para o desemprego, expulsar os imigrantes, eliminar as ajudas para pessoas deficientes, considerar que a masturba\u00e7\u00e3o \u00e9 equivalente ao adult\u00e9rio e, claro, reduzir os impostos, desmantelar o \u201cgrande governo\u201d e destruir pela for\u00e7a a conspira\u00e7\u00e3o isl\u00e2mico-russo-chinesa que obstaculiza o dom\u00ednio mundial.<\/p>\n<p>A Europa mostra tend\u00eancias em similar dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 de registrar que na Alemanha um partido racista e xen\u00f3fobo poderia alcan\u00e7ar 15% dos votos. Na It\u00e1lia a Liga Norte possui for\u00e7a. Na Holanda e na Su\u00e9cia apesar de suas tradi\u00e7\u00f5es de toler\u00e2ncia, partidos racistas t\u00eam chegado ao parlamento. Na Fran\u00e7a foram expulsos milhares de ciganos para a Rom\u00eania e a Bulg\u00e1ria, pa\u00edses membros da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>O movimento por um outro mundo, do Foro Social Mundial, perdeu for\u00e7a e se encontra atravessado por pugnas entre ONG\u2019s de pa\u00edses do Norte financiadas por interesses pol\u00edticos nada interessados em conquistar um mundo melhor, e movimentos sociais com posi\u00e7\u00f5es de luta anticapitalista, em especial na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A luta na Fran\u00e7a e na Espanha contra o ajuste fiscal neoliberal na \u00e9poca do neoliberalismo desprestigiado, pode marcar o in\u00edcio de um movimento de ascens\u00e3o na resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Parece mediar certo per\u00edodo entre a eclos\u00e3o da crise e o aparecimento da mobiliza\u00e7\u00e3o social frente a elas, como se fosse necess\u00e1rio que o desemprego, a inseguran\u00e7a e a desesperan\u00e7a se aprofundassem suficientemente para lan\u00e7ar as pessoas ao protesto e \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social. Assim ocorreu nos anos da Grande Depress\u00e3o, pois somente em 1932-33, tr\u00eas anos depois da eclos\u00e3o da crise, apareceu a press\u00e3o dos \u201cde baixo\u201d.<\/p>\n<p>Para lutar por um mundo melhor e deixar para tr\u00e1s o capitalismo, a esp\u00e9cie humana tem que sobreviver e o planeta deve ser salvo. Para que os humanos sobrevivam \u00e9 preciso deter a amea\u00e7a de guerra nuclear e para salvar o planeta deve cessar a agress\u00e3o do mercado contra a natureza.<\/p>\n<p>Frear a amea\u00e7a de guerra nuclear significa em termos imediatos desativar o plano de agress\u00e3o ao Ir\u00e3 com a participa\u00e7\u00e3o de Israel e no m\u00e9dio prazo, cortar o gasto militar que se combina de modo perverso com o decl\u00ednio da economia norte-americana, para sustentar dois equil\u00edbrios de terror: o financeiro e o militar. E para desperdi\u00e7ar imensos recursos em m\u00e1quinas, tecnologias e bombas para matar.<\/p>\n<p><strong>*Economista cubano<\/strong><\/p>\n<p>1) Michel Chossudovsky e Andrew Gavin Marchall. The Global Economic Crisis. (A Crise Econ\u00f4mica Global), em Global Research. 2010. P\u00e1g. 47-48.<\/p>\n<p>2) Michael Hudson: The \u201cDollar Glut\u201d. Finances America\u2019s Global Military Build Up. (O \u201cExcesso de D\u00f3lar\u201d. As Finan\u00e7as do Crescimento Militar Global da Am\u00e9rica), em The Global Economic Crisis. Cap\u00edtulo 10.<\/p>\n<p><strong>Fonte: CubaDebate, LA hABANA, 16 de novembro de 2010.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Cubadebate\n\n\n\n\n\n\n\n\nOsvaldo Martinez*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1044\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-gQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}