{"id":1045,"date":"2010-12-04T16:21:44","date_gmt":"2010-12-04T16:21:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1045"},"modified":"2010-12-04T16:21:44","modified_gmt":"2010-12-04T16:21:44","slug":"lula-consolidou-o-capitalismo-e-instrumentalizou-o-estado-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1045","title":{"rendered":"Lula consolidou o capitalismo e instrumentalizou o Estado no Brasil\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>por Val\u00e9ria Nader e Gabriel Brito, da Reda\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><em>Com a confirma\u00e7\u00e3o no segundo turno da elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, o pa\u00eds se prepara para viver a etapa p\u00f3s-Lula, o pai dos pobres que deixou a presid\u00eancia com consagradora aprova\u00e7\u00e3o, inclusive daqueles que um dia amea\u00e7aram abandonar o pa\u00eds caso o oper\u00e1rio chegasse ao Planalto. <\/em><\/p>\n<p><em>Para analisar a vit\u00f3ria petista e o que se pode esperar do futuro brasileiro, o Correio da Cidadania entrevistou <\/em><em><strong>Ildo Sauer, do Instituto de Eletrot\u00e9cnica e Energia da USP e ex-diretor de Petr\u00f3leo e G\u00e1s da Petrobr\u00e1s na gest\u00e3o de Lula at\u00e9 2007. <\/strong><\/em><em>Para explicar como Lula &#8220;consolidou a hegemonia do capitalismo sobre as rela\u00e7\u00f5es sociais e de exist\u00eancia&#8221;, vai \u00e0s v\u00edsceras da pol\u00edtica nacional, desnudando o seu funcionamento no &#8220;p\u00f3s-mensal\u00e3o&#8221; e a partilha das riquezas nacionais entre os mesmos setores privilegiados de sempre. <\/em><\/p>\n<p><em>Para sustentar tamanha metamorfose em rela\u00e7\u00e3o ao projeto original petista, Ildo aponta como Lula soube instrumentalizar o aparelho estatal, avalizando o apoderamento da m\u00e1quina p\u00fablica, a partir de inusitados formatos, por representantes de grandes grupos econ\u00f4micos. &#8220;Entregar de 2,6 a 5,5 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo e uma hegemonia tecnol\u00f3gica do n\u00facleo da Petrobr\u00e1s ao Eike, sem nenhuma resist\u00eancia, foi algo brutal contra o interesse p\u00fablico. Portanto, s\u00e3o v\u00e1rios formatos de privatiza\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/em><\/p>\n<p><em>Ildo faz um importante alerta: a \u2018nova cartada\u2019 na \u2018partilha\u2019 do patrim\u00f4nio p\u00fablico vincula-se ao Pr\u00e9-Sal, a partir do \u2018poder autocr\u00e1tico e unilateral do presidente\u2019, ao lado da desmobiliza\u00e7\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o de grande parte do movimento social. Situa\u00e7\u00e3o que remeteria a uma mistura entre os processos vistos no M\u00e9xico &#8211; onde o PRI (Partido Revolucion\u00e1rio Institucional), que ficou no poder entre 1917 e 1994, instrumentalizou a riqueza do petr\u00f3leo &#8211; e na Argentina &#8211; com um sindicalismo na gaveta do Estado, cujo papel se restringe a dar legitimidade social ao governo, que, em troca, atira os restos do banquete em forma de assistencialismo. <\/em><\/p>\n<p><em>Apesar de lamentar seu pessimismo ao final da conversa, e como algu\u00e9m que participou diretamente da gest\u00e3o Lula, o engenheiro n\u00e3o fez concess\u00f5es para descrever as engrenagens da pol\u00edtica brasileira, inclusive desvelando a futura esterilidade da Lei da Ficha Limpa. Terminou com uma autocr\u00edtica de quem partilhou dos sonhos dos anos 80. <\/em><\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Como encarou o per\u00edodo eleitoral, os debates que foram levados a cabo, culminado com a vit\u00f3ria de Dilma Roussef nessas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>De certa forma, a campanha eleitoral acabou sendo resolvida em parte pela longa metamorfose pela qual o governo Lula passou. Logo em seu in\u00edcio, quando liderava um governo hegemonicamente do PT, veio a Carta aos Brasileiros, a fim de garantir algo que era razo\u00e1vel \u2013 estabilidade econ\u00f4mica, tranq\u00fcilidade social, pois se esperava um processo de profundas mudan\u00e7as por parte dos mercados. Uma carta que, portanto, tornava o governo aparentemente aceit\u00e1vel para alguns segmentos como estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Evidentemente, todo mundo concordava com a necessidade de estabilidade da moeda, redu\u00e7\u00e3o do processo inflacion\u00e1rio, j\u00e1 que o sistema capitalista de produ\u00e7\u00e3o ainda seria hegem\u00f4nico de qualquer maneira e por longo tempo, e isso tinha de ser mantido. Mas progressivamente, ap\u00f3s 2003, 2004 e 2005 passarem tranq\u00fcilos, apareceu a ironia de o sucesso do Lula ser o anti-Lula, o avessso de si mesmo, o que foi percebido pelo mercado, pelo sistema financeiro internacional e pela burguesia nacional. Ent\u00e3o, o anti-Lula, que de fato residia dentro do Lula, garantiu a estabilidade, sendo seu pr\u00f3prio fiador, \u00e0 medida que revelou como l\u00edder aquilo que alguns j\u00e1 tinham percebido em seu entorno, mas que n\u00e3o estava claro: o partido passou a ser secund\u00e1rio, e a figura carism\u00e1tica de Lula ficou como fiadora das expectativas da burguesia, ao mesmo tempo em que era profundamente donat\u00e1rio e deposit\u00e1rio das esperan\u00e7as do processo constru\u00eddo ao longo de d\u00e9cadas em torno do PT, da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O processo que ele conduziu foi o de garantir as expectativas de grande retorno ao capital financeiro, via juros, aparelhamento das empresas p\u00fablicas, BNDES, para manter a taxa de investimento, numa transforma\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva brasileira que se manifestou em v\u00e1rios campos hegem\u00f4nicos. Criou-se uma petroleira brasileira que faz sombra \u00e0 Petrobr\u00e1s \u2013 a OGX de Eike Baptista; a petroqu\u00edmica ficou em torno do grupo Odebrecht; nas telecomunica\u00e7\u00f5es, ap\u00f3s uma disputa quase de faroeste, com espionagem, dois ministros envolvidos, fundos de pens\u00e3o, terminou por hegemonizar o grupo Telemar, encastelado no grupo Jereissati e Andrade Gutierrez, com a coincid\u00eancia, ou n\u00e3o, de seu principal executivo ser amigo de inf\u00e2ncia da nova presidente; nas obras de infra-estrutura, o BNDES consolidou outros grupos econ\u00f4micos com hegemonia no Brasil e exterior, nas \u00e1reas de agroneg\u00f3cio, carnes, frigor\u00edficos. H\u00e1 a Vale, que vinha do governo FHC, mas no fundo o Lula criou um monte de Vales; instrumentalizou os fundos de pens\u00e3o, as estatais, o BNDES e outros bancos para financiar tais a\u00e7\u00f5es. E mais ainda: hegemonizou um protagonismo na \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina, de grupos econ\u00f4micos como vendedores de equipamentos, obras de infra-estrutura, hidrel\u00e9tricas, rodovias e outros projetos financiados pelo BNDES. Uma esp\u00e9cie de sub-imperialismo.<\/p>\n<p>Com isso, a agenda do PSDB &#8211; a chamada social-democracia que na pr\u00e1tica implementou todos os c\u00e2nones do neoliberalismo hegem\u00f4nico dos anos 90 &#8211; foi seq\u00fcestrada pelo Lula. Lula seq\u00fcestrou a agenda da burguesia, mantendo e ampliando os espa\u00e7os abertos pelo governo tucano, e ao mesmo tempo se manteve deposit\u00e1rio da esperan\u00e7a de um processo longamente constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Assim, nestas elei\u00e7\u00f5es, havia pouco espa\u00e7o para uma candidatura legitimamente de esquerda ser ouvida pelas bases, pois ainda h\u00e1 toda essa heran\u00e7a constru\u00edda de esperan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o, ainda formalmente depositada pela popula\u00e7\u00e3o no PT. Isso \u00e9 demonstrado pelo voto. De onde veio a grande vit\u00f3ria do governo? De regi\u00f5es que antigamente eram chamadas pelo depreciativo nome de grot\u00f5es. Mas hoje n\u00e3o existe esse tipo de coisa na democracia, os votos t\u00eam o mesmo valor.<\/p>\n<p>\u00c9 bom observar tais ondas da percep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Na ditadura, o MDB, que liderou a resist\u00eancia eleitoral a ela, se tornou hegem\u00f4nico nos grandes centros urbanos, progressivamente encurralando a ARENA a regi\u00f5es perif\u00e9ricas. Veio o PT e o solavanco da social-democracia, varrendo o PMDB pra periferia e tomando seu espa\u00e7o nos centros urbanos. Agora, \u00e9 interessante ver o misto: a hegemonia do PT voltou a essas regi\u00f5es perif\u00e9ricas, com menor grau de desenvolvimento e acesso ao processo de consumo e renda.<\/p>\n<p>Enquanto isso, criou-se nos grandes centros a onda verde, do discurso ambiental, de sustentabilidade, mas sem conte\u00fado fortemente social, problema b\u00e1sico do pa\u00eds. E ao mesmo tempo, veio o ressurgimento do discurso conservador &#8211; numa social-democracia, do ponto de vista te\u00f3rico, expresso pelo PSDB. No limite do pouco que PT e PSDB expressam programaticamente, o PT em tese \u00e9 social-democrata, mas muito mais operador da m\u00e1quina \u2013 levou-nos a um discurso um pouco mais populista contra outro um pouco mais elitista, com pequenas nuances na forma de abordar o Estado. N\u00e3o vejo muita diferen\u00e7a entre privatizar uma empresa ou instrumentaliz\u00e1-la em favor dos interesses privados. Portanto, nesse sentido, os projetos s\u00e3o parecidos, tanto que n\u00e3o geraram entusiasmo.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Os votos nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es nesta elei\u00e7\u00e3o s\u00e3o significativos deste quadro que o senhor ressalta, de mais semelhan\u00e7as do que diferen\u00e7as entre os blocos de poder representados por PT e PSDB?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Sim, \u00e9 importante notar, para simplificar essa an\u00e1lise inicial: os votos brancos, nulos e absten\u00e7\u00f5es atingiram 28%, dentro de um eleitorado de 135 milh\u00f5es. O candidato que ficou em segundo, teve 32%; 32 mais 28, j\u00e1 se v\u00e3o 60%, enquanto os restantes 40% ficaram com a candidata vencedora. De modo que esse \u00e9 o quadro resultante da longa metamorfose do projeto que nasceu socialista e progressivamente virou gestor dos interesses da burguesia nacional, do setor financeiro, industrial, do setor contratista de obras p\u00fablicas, expressos no Brasil e no exterior. A grande diferen\u00e7a para o PSDB \u00e9 que o PT ainda conta com a enorme confian\u00e7a e esperan\u00e7a dos setores mais distantes, das cidades mais perif\u00e9ricas e mais pobres. O futuro mostrar\u00e1, no entanto, as semelhan\u00e7as entre ambos os partido, \u00e0 medida que o debate evoluir e isso for decantado, com a transpar\u00eancia e capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o aparecendo. Os movimentos sociais t\u00eam uma clara identifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, assim como as regi\u00f5es que citei, com o PT. O movimento ambiental se ancorou na Marina, mas se dividiu. Esse \u00e9 o quadro brasileiro.<\/p>\n<p>Para definir, o governo Lula foi aquele que consolidou as rela\u00e7\u00f5es sociais de exist\u00eancia e de trabalho capitalistas com a hegemonia capitalista no pa\u00eds. At\u00e9 Lula chegar ao poder, havia a d\u00favida se aqui poderia nascer um experimento de car\u00e1ter social-democrata, mas profundamente transformador, que apropriasse socialmente os excedentes econ\u00f4micos provenientes das rendas, com controle p\u00fablico sobre o petr\u00f3leo, telecomunica\u00e7\u00f5es, potenciais hidr\u00e1ulicos, sobre tudo que \u00e9 patrim\u00f4nio da na\u00e7\u00e3o, inclusive a terra, cujo resultado econ\u00f4mico seria apropriado para fins p\u00fablicos. Mais do nunca, vemos uma privatiza\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o da terra; ao inv\u00e9s de fazermos a reforma agr\u00e1ria, n\u00f3s estamos internacionalizando cada vez mais o agroneg\u00f3cio e o acesso \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Portanto, o governo Lula foi o que consolidou o capitalismo no Brasil, gerando a tal falta de diferen\u00e7a na campanha.<\/p>\n<p>Era n\u00edtido que todos procuravam mostrar quem tinha feito mais disso ou daquilo no passado. Mas n\u00e3o se discutiu a reforma da educa\u00e7\u00e3o, necess\u00e1ria, com conceito e amplitude, horizontaliza\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se discutiu a reforma agr\u00e1ria, que ficou escondida; n\u00e3o se discutiu a reforma urbana, a quest\u00e3o da moradia, do planejamento, abarcando onde as pessoas vivem, trabalham, circulam, enfim, a mobilidade de um transporte p\u00fablico de qualidade; n\u00e3o se discutiu a quest\u00e3o da reforma da sa\u00fade, e n\u00e3o h\u00e1 um brasileiro que queira estar submetido ao nosso sistema de sa\u00fade p\u00fablico, muito bem concebido e mal implementado. Ningu\u00e9m deseja circular nos transportes p\u00fablicos nas grandes metr\u00f3poles; ningu\u00e9m acredita que a prote\u00e7\u00e3o ambiental hoje, da qualidade do solo, ar e \u00e1gua nas cidades e em termos globais, seja aceit\u00e1vel; ningu\u00e9m est\u00e1 satisfeito com o volume de investimento em ci\u00eancia, tecnologia e pesquisa.<\/p>\n<p>E, no entanto, o pa\u00eds parece feliz, o que \u00e9 um paradoxo. De onde vem isso? Creio que da pequena sensa\u00e7\u00e3o de bem estar, promovida por uma conjuntura econ\u00f4mica, externa e interna, favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com a situa\u00e7\u00e3o p\u00f3s 2\u00aa. Guerra, a vis\u00e3o cepalina da economia, de Celso Furtado e tal, denunciava o subdesenvolvimento em parte como produto da deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de troca, em que a produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u2013 essencialmente min\u00e9rios, agricultura \u2013, por ser de baixo grau de manufatura, exportada pelos pa\u00edses latinos, se defrontava com o enorme valor atribu\u00eddo \u00e0s importa\u00e7\u00f5es de produtos de maior conte\u00fado tecnol\u00f3gico e industrializados.<\/p>\n<p>Houve uma revers\u00e3o desse processo comandada a partir do dinamismo da economia chinesa, que passou a ter a necessidade do afluxo de alimentos, mat\u00e9rias-primas etc., para poder incorporar 40, 50 milh\u00f5es de chineses todos os anos ao processo modernizado de produ\u00e7\u00e3o, saindo da atividade camponesa, bra\u00e7al, de baixo n\u00edvel de apropria\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, para o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o industrial urbanizada. Portanto, acho que essa situa\u00e7\u00e3o da China e da \u00c1sia comandou tal transi\u00e7\u00e3o, fazendo sua revolu\u00e7\u00e3o industrial e urbana, iniciada nos anos 70, com uma grande quantidade de empresas estatais planejando estrategicamente e implementando. Na China, a renda da terra n\u00e3o existe. Os solos urbano e rural pertencem ao Estado. Assim, o pre\u00e7o da terra e da moradia, como custo de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, s\u00e3o bem menores, propiciando o ac\u00famulo de enormes excedentes.<\/p>\n<p>O dinamismo chin\u00eas, e em parte indiano tamb\u00e9m, permitiu, mesmo com a crise de 2008 que afetou Europa e EUA, que n\u00e3o se afetasse a valoriza\u00e7\u00e3o progressiva dos produtos prim\u00e1rios brasileiros. Por\u00e9m, ao mesmo tempo, assistimos \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da nossa balan\u00e7a de pagamentos, porque a taxa de c\u00e2mbio \u00e9 muito valorizada em fun\u00e7\u00e3o da alta taxa de juros, devido \u00e0 necessidade de atrair d\u00f3lares para nossas reservas \u2013 as quais, por si s\u00f3, j\u00e1 custam muito, pois implicam em amplia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica interna para a compra e manuten\u00e7\u00e3o dessas reservas, com um custo de 12% ao ano sobre os 270 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de reservas. A d\u00edvida p\u00fablica n\u00e3o p\u00e1ra de crescer desde o governo FHC, j\u00e1 tendo alcan\u00e7ado R$ 2,2 trilh\u00f5es, parcela significativa do PIB, de maneira que tal quadro deixa a preocupa\u00e7\u00e3o com a desindustrializa\u00e7\u00e3o futura.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, tal per\u00edodo de prosperidade comandado por essa conjuntura internacional foi determinante para a pequena sensa\u00e7\u00e3o de bem estar, que permitiu dar um pouquinho mais para os que nada tinham, e muito mais para aqueles que j\u00e1 tinham muito, configurando a partilha do governo Lula, consolidando definitivamente as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas e abafando a expectativa de um movimento social que propunha outro quadro. \u00c9 isso que foi revelado. O discurso tradicional da esquerda foi seq\u00fcestrado, e de certa forma tamb\u00e9m foi seq\u00fcestrada a pr\u00e1tica da direita. E o Lula, com uma m\u00e3o de cada lado, emplacou sua candidata, ainda que de forma muito mais apertada do que podia supor a dita popularidade de seu governo.<\/p>\n<p>Assim, o que vejo no pr\u00f3ximo governo \u00e9 o aprofundamento do capitalismo nessa trajet\u00f3ria e, a partir da\u00ed, talvez, um espa\u00e7o para o novo debate. \u00c9 a minha percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Portanto, Dilma levar\u00e1 adiante o legado de Lula, refor\u00e7ando as tend\u00eancias neoliberais, como a continuidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica, ao lado das tend\u00eancias sociais\/assistenciais do governo Lula, com eventual amplia\u00e7\u00e3o do Programa Bolsa Fam\u00edlia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>\u00c9 muito claro. Mais assistencialismo, mais Bolsa Fam\u00edlia, quando o caminho necess\u00e1rio para mudar a sociedade \u00e9 criar autonomia, promover independ\u00eancia, que s\u00f3 se faz com as reformas da educa\u00e7\u00e3o, urbana, da mobilidade, agr\u00e1ria, da infra-estrutura&#8230; Falo reforma, n\u00e3o revolu\u00e7\u00e3o; reestruturar o que existe, dando novos sentidos, dire\u00e7\u00e3o e conte\u00fado.<\/p>\n<p>Como o produto social \u00e9 \u00fanico no PIB, \u00e9 preciso escolher em que dire\u00e7\u00e3o v\u00e3o os recursos, que caminho teremos. E o que est\u00e1 a\u00ed \u00e9 mais do mesmo. Grande parte da poupan\u00e7a \u00e9 canalizada pelos bancos p\u00fablicos, e muito pouco se reverte em investimento p\u00fablico, como se viu, por exemplo, no programa Minha Casa Minha Vida. Todos reconhecemos a enorme car\u00eancia da habita\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Al\u00e9m de casa, as pessoas precisam de transporte, escola, morar menos distantes do trabalho&#8230; A reforma urbana tem de ser mais ampla.<\/p>\n<p>E o que esse programa engendrou? Um enorme movimento de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, em que a renda do solo urbano acabou enriquecendo pequenos grupos especuladores. E mais ainda: hoje temos uma longa ironia sobre a promessa de \u2018minha vida\u2019 e \u2018minha casa\u2019. O que se criou? Dinheiro dos fundos p\u00fablicos, dos fundos de garantia, do FAT, que s\u00e3o poupan\u00e7as mandat\u00f3rias da for\u00e7a de trabalho e que recebem uma remunera\u00e7\u00e3o abaixo do valor capitalista, de 3% ao ano de juros sobre o fundo de garantia, sendo apropriado pela Caixa, que empresta esse dinheiro muitas vezes a empresas estrangeiras, muitas das quais fracassaram no mercado imobili\u00e1rio dos EUA e agora est\u00e3o aqui. Elas tomam esse dinheiro, compram a for\u00e7a de trabalho dos trabalhadores, construindo a casa com a for\u00e7a de trabalho e a poupan\u00e7a deles, com media\u00e7\u00e3o dos bancos e lucro enorme, terminando por criar uma depend\u00eancia de 20, 30 anos do trabalhador com as presta\u00e7\u00f5es sobre aquilo que foi uma valoriza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria do capital originalmente do pr\u00f3prio trabalhador, que o poupou compulsoriamente via fundo de garantia.<\/p>\n<p>Nesse caminho, o que houve? A especula\u00e7\u00e3o do solo urbano, que explodiu de pre\u00e7o, um sobrepre\u00e7o enorme no custo do trabalho incorporado aos insumos e m\u00e3o-de-obra. A\u00ed se expressa o verdadeiro car\u00e1ter capitalista desses projetos ditos sociais. H\u00e1 outros modelos, desde os mutir\u00f5es, cooperativas e uma estrutura planejada, com o planejamento urbano retomado da localiza\u00e7\u00e3o urbana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, trabalho, planejando tamb\u00e9m a mobilidade.<\/p>\n<p>De repente, isso permitiria n\u00e3o soltar da garrafa com tanta for\u00e7a o esp\u00edrito da especula\u00e7\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o quase primitiva sobre o solo urbano e a constru\u00e7\u00e3o. Digo isto pra mostrar como projetos que ancoraram grande parte da aprova\u00e7\u00e3o ao governo s\u00e3o na verdade mais do mesmo, significando cada vez mais acumula\u00e7\u00e3o capitalista para quem controla os meios. E, claro, enquanto a economia continuar crescendo, haver\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de bem estar.<\/p>\n<p>Podemos dizer que temos um enorme peleguismo pol\u00edtico, para n\u00e3o chamar de populismo, paternalismo, agora maternalismo. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a busca de um grande debate de projeto nacional, sobre quais as propostas concretas para as reformas citadas anteriormente, os planos de prote\u00e7\u00e3o ambiental e, acima de tudo, para o setor do mais extraordin\u00e1rio excedente econ\u00f4mico: as rendas do petr\u00f3leo e o setor de energia, temas varridos pra baixo do tapete, que s\u00f3 voltaram \u00e0 campanha ap\u00f3s provoca\u00e7\u00f5es de gente externa, que mostrou claramente que o rei estava nu, pois ambos se acusavam de privatistas e ambos estavam corretos.<\/p>\n<p>O governo FHC iniciou a entrega do petr\u00f3leo como um todo, dando raz\u00e3o a ambos em suas acusa\u00e7\u00f5es \u2013 e n\u00e3o se pode diferenciar o petr\u00f3leo do Pr\u00e9-Sal daquele das demais camadas, pois s\u00e3o qualitativamente pouco distintos, com diferen\u00e7a raramente acima de 10% em seu valor; portanto, tanto faz 60 ou 70 d\u00f3lares no pre\u00e7o do barril, pois de toda forma s\u00e3o valores astron\u00f4micos. O governo Lula exerceu por muito mais tempo, e talvez com mais gosto, o modelo de concess\u00f5es criado por FHC, e no final prop\u00f4s uma mudan\u00e7a j\u00e1 obsoleta, a da partilha, ao inv\u00e9s de um novo modelo.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 no horizonte (ali\u00e1s, a grande amea\u00e7a pol\u00edtica que vejo ao pa\u00eds)? Se olharmos as experi\u00eancias de M\u00e9xico e Argentina, vemos dois paradigmas que inspiram cautela com o futuro. Se houver um crescimento econ\u00f4mico, a tend\u00eancia \u00e9 que a &#8220;pax lulensis&#8221;, da m\u00e3o direita grande e esquerda pequena (mas que afaga o cora\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia dos mais humildes com redistribui\u00e7\u00e3o), se mantenha e o capitalismo flores\u00e7a no Brasil. Se houver crise, o governo talvez lance m\u00e3o de um recurso que remete \u00e0 hist\u00f3ria mexicana&#8230; O M\u00e9xico fez uma revolu\u00e7\u00e3o muito sangrenta no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, que se institucionalizou no chamado processo da Constitui\u00e7\u00e3o de 1917; em 1938, a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e a cria\u00e7\u00e3o da Pemex passaram a gerar um fluxo de excedente econ\u00f4mico comandado pelo Estado e pelo PRI, que o permitiu ficar no poder de 1917 a 1994, quando, por corrup\u00e7\u00e3o, exaust\u00e3o e crise econ\u00f4mica, acabou varrido por um governo mais conservador ainda. A partilha do excedente econ\u00f4mico do petr\u00f3leo mexicano \u00e9 algo que est\u00e1 no horizonte e merece aten\u00e7\u00e3o, porque o Projeto de Lei que tramita no Congresso delega ao presidente ouvir do conselho nomeado tamb\u00e9m por ele a defini\u00e7\u00e3o sobre quase tudo que ser\u00e1 feito; o ritmo em que o Pr\u00e9-Sal ser\u00e1 colocado em partilha, quem vai participar do processo e quem vai dirigir tudo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a experi\u00eancia mexicana \u00e9 o exemplo de como a apropria\u00e7\u00e3o do lucro do petr\u00f3leo, comandada pelas inst\u00e2ncias do governo, permitiu uma partilha entre as elites, fortalecendo-as e mantendo-as no poder. Ao mesmo tempo, temos um movimento sindical no Brasil que perdeu seu rumo classista hist\u00f3rico; teve um per\u00edodo de discurso socialista de enfrentamento ao capitalismo, mas busca hoje a concilia\u00e7\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a da Argentina, onde a principal tarefa das grandes centrais e sindicatos &#8211; que se enfrentam mutuamente, mas se abrigam no governo, que lhes d\u00e1 recursos, espa\u00e7o pol\u00edtico, mantendo a corrente sindical ativa &#8211; \u00e9 conferir uma aura de legitimidade social aos governos.<\/p>\n<p>Portanto, se olharmos as duas experi\u00eancias, podemos vislumbrar a enorme dificuldade, mesmo em situa\u00e7\u00f5es de crise daqui pra frente, que a esquerda brasileira ter\u00e1 em se reorganizar, pois est\u00e1 claro que o atual governo n\u00e3o \u00e9 mais de esquerda; seq\u00fcestrou boa parte do discurso de esquerda, mas sua pr\u00e1tica \u00e9 nitidamente conservadora.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 o desafio que sobra: compreender o que est\u00e1 em jogo, buscar, talvez, uma frente de esquerda e amplificar os debates p\u00fablicos. Uma frente que, a exemplo de outras ondas, consiga se multiplicar, para, na medida em que as contradi\u00e7\u00f5es ficarem mais claras, se agrupar em uma iniciativa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Acho que a esquerda, com seus m\u00e9ritos espec\u00edficos, est\u00e1 muito fragmentada, em muitos partidos. Creio ser hora de pensar, como sa\u00edda para o debate, e o atual quadro de enfrentamento, numa frente de esquerda que abrigue tais partidos, abrindo discuss\u00f5es sobre todas as quest\u00f5es em jogo, elaborando propostas concretas em torno dessas reformas e de como apropriar socialmente os recursos, disputando-os com o governo de turno. Certamente, se n\u00e3o houver tal press\u00e3o, a partilha ser\u00e1 pior ainda, e creio que esse \u00e9 o nosso papel.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Acredita, de todo modo, que a futura presidente possa, de alguma forma, caminhar do foco mais assistencialista das pol\u00edticas sociais sob o governo Lula \u2013 a exemplo do Bolsa Fam\u00edlia &#8211; para um programa mais abrangente de distribui\u00e7\u00e3o de renda &#8211; incrementando, por exemplo, as pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e se contrapondo aos aspectos do projeto de reforma tribut\u00e1ria, j\u00e1 em fase de discuss\u00e3o no Congresso, e que s\u00e3o prejudiciais \u00e0 seguridade social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> A campanha eleitoral deixou como ironia paradoxal um xeque-mate no governo que entra. A partir do momento em que a oposi\u00e7\u00e3o conservadora prop\u00f5e aumento do Bolsa-Fam\u00edlia e do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o governo entrante n\u00e3o ter\u00e1 outra sa\u00edda a n\u00e3o ser acompanhar a id\u00e9ia. Paradoxal que tenha vindo do movimento conservador essa proposta de redistribui\u00e7\u00e3o. O alcance vai depender das contas p\u00fablicas, da d\u00edvida p\u00fablica e da taxa de juros extremamente elevada, promovendo uma dilapida\u00e7\u00e3o do valor do trabalho, na medida em que os impostos s\u00e3o arrecadados e encaminhados para bancar a usura do sistema financeiro, j\u00e1 que temos uma das taxas mais altas de remunera\u00e7\u00e3o financeira do mundo.<\/p>\n<p>Nos EUA, tem at\u00e9 um movimento em curso de aumento da liquidez com inje\u00e7\u00e3o de d\u00f3lares a custo muito baixo. \u00c9 uma tend\u00eancia natural que parte significativa desses d\u00f3lares saia, chegue ao Brasil, aprofunde a queda da taxa de c\u00e2mbio daqui, aumente as reservas, ou venha fazer investimentos como comprar terras, desnacionalizar mais empresas na \u00e1rea econ\u00f4mica, eventualmente at\u00e9 para for\u00e7ar o governo a abrir mais espa\u00e7o a empresas estrangeiras na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, quando o projeto devia ser o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Devia se proceder a um maior conhecimento e delimita\u00e7\u00e3o das reservas e s\u00f3 produzir petr\u00f3leo no ano para custear os investimentos das reformas da sa\u00fade, urbana, educacional, da infra-estrutura, mobilidade (inclusive de longa dist\u00e2ncia), agr\u00e1ria, vi\u00e1ria, dos portos, da prote\u00e7\u00e3o ambiental, de ci\u00eancia e tecnologia. E ficar com uma reserva de petr\u00f3leo de valor debaixo da terra, n\u00e3o sendo administrada por uma oligarquia pol\u00edtica que vai disput\u00e1-la a ferro e fogo dentro dos conceitos que descrevi antes. N\u00e3o acredito que n\u00e3o haja nenhum investimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma press\u00e3o no modelo que o governo discute agora de promover uma r\u00e1pida licita\u00e7\u00e3o dos contratos de partilha, para abrir espa\u00e7o econ\u00f4mico de investimentos em plataformas e infra-estrutura, capturar finan\u00e7as e converter tudo em dinheiro. Tirar o petr\u00f3leo debaixo da terra e convert\u00ea-lo em dinheiro.<\/p>\n<p>Nesse processo, todo mundo vai ganhar. O governo vai acumular algum capital financeiro l\u00e1 fora no fundo social, n\u00e3o se sabe em que moeda, porque todas est\u00e3o em xeque hoje. V\u00e3o investir em t\u00edtulos da d\u00edvida americana? Em euro, que n\u00e3o tem muita estabilidade, em fun\u00e7\u00e3o de sua credibilidade n\u00e3o estar ancorada em nenhum tesouro nacional (\u00e9 uma confraria que tem uma moeda)? E os EUA est\u00e3o em franca decad\u00eancia. Em que moeda vamos verter o petr\u00f3leo, em que pa\u00eds, na Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, EUA, Europa? \u00c9 muito mais simples deixar o petr\u00f3leo debaixo da terra e s\u00f3 produzir o volume necess\u00e1rio!<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: E controlar de verdade a explora\u00e7\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> E, antes disso, saber quanto tem de reserva, pra saber em que ritmo produzir ao longo do tempo. Por duas raz\u00f5es: em primeiro lugar, para tirar de l\u00e1 apenas o excedente econ\u00f4mico necess\u00e1rio ao financiamento do projeto nacional de desenvolvimento econ\u00f4mico e social nos paradigmas que acabei de citar; e, em segundo lugar, para poder participar. O governo brasileiro n\u00e3o pode criar motos-cont\u00ednuos, que, uma vez assinados os contratos, v\u00e3o cumprir as etapas automaticamente.<\/p>\n<p>Encontrou petr\u00f3leo? V\u00e3o fazer o plano de avalia\u00e7\u00e3o, saber se \u00e9 comercial, e, se for, v\u00e3o come\u00e7ar a produzir e, o mais rapidamente poss\u00edvel, converter em dinheiro, no interesse daquele contrato. Isso se choca com a necessidade de ver qual o volume de reservas dispon\u00edveis para financiar as prioridades nacionais e, em segundo lugar, com o controle da participa\u00e7\u00e3o brasileira no mercado internacional. Porque, sem o Pr\u00e9-Sal do novo modelo, a produ\u00e7\u00e3o anunciada hoje, s\u00f3 pela Petrobr\u00e1s, prev\u00ea quase 6 milh\u00f5es de barris por dia em 2020. S\u00f3 por parte de outro empres\u00e1rio, que recebeu desse governo em 2007 o volume que agora j\u00e1 est\u00e1 entre 2,5 a 5,5 bilh\u00f5es de barris, valendo de 27 a 55 bilh\u00f5es de d\u00f3lares como patrim\u00f4nio, j\u00e1 se anuncia que em 2019 estar\u00e1 sendo produzido 1,4 milh\u00e3o de barris por dia, sendo que a Petrobr\u00e1s n\u00e3o produz 2 milh\u00f5es atualmente.<\/p>\n<p>E v\u00e3o exportar tudo que se refere ao que est\u00e1 fora do novo modelo do Pr\u00e9-Sal, mas como parte do que FHC e Lula entregaram. O Brasil vai ser o 3\u00ba. maior exportador do mundo. Em primeiro lugar, vem a Ar\u00e1bia, com 10 milh\u00f5es de barris\/dia; depois a R\u00fassia, com 8 milh\u00f5es; o Brasil estar\u00e1 em mais de 5 milh\u00f5es de barris possivelmente em 2020, enquanto os demais n\u00e3o passam de 4 milh\u00f5es. Isso apenas com o que se tem hoje entregue somente a dois grupos, Petrobr\u00e1s e OGX, leia-se Eike Baptista &#8211; fora os outros que est\u00e3o entrando. E note bem que este grande empres\u00e1rio j\u00e1 resolveu ser parcimonioso. Deu 1 milh\u00e3o de reais pra cada campanha, de Serra e de Dilma, dizendo ser necess\u00e1rio n\u00e3o ser mal tratado por nenhum dos dois.<\/p>\n<p>Desse modo, veja como \u00e9 grave o risco da mexicaniza\u00e7\u00e3o. Uma enorme economia petrol\u00edfera, comandada por um governo na forma como vem se configurando: um condom\u00ednio de partidos e l\u00edderes com parca, digamos assim, capilaridade entre as for\u00e7as sociais, e, ao mesmo tempo, sob press\u00e3o, do outro lado, dos grandes grupos econ\u00f4micos, com enorme capacidade de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Para quem produz tantos bilh\u00f5es de barris, e sabendo como \u00e9 compr\u00e1vel o financiamento das campanhas eleitorais e a lealdade dos eleitos a esses interesses &#8211; dentro do conceito <em>second life<\/em>, do discurso p\u00fablico diferente da pr\u00e1tica nas entranhas do poder -, este \u00e9 o caminho.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Isso \u00e9 o mais impressionante. Hoje em dia o sujeito afirma abertamente o que pode ser entendido, sem distor\u00e7\u00e3o alguma, como a \u2018aquisi\u00e7\u00e3o particular\u2019 do mandato \u2013 ironicamente, privatiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio parlamentar. Paga-se a propina na campanha e alguns interesses privados s\u00e3o escancaradamente atendidos por sobre outros. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Essa \u00e9 uma parte das quest\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que se colocam, porque no fundo eu vejo as limita\u00e7\u00f5es, no atual est\u00e1gio da sociedade brasileira, de um partido que no discurso mantenha a realidade, mas com propostas pr\u00e1ticas. Veja que at\u00e9 agora s\u00f3 falei de reforma, n\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o vejo espa\u00e7o para tanto. Talvez n\u00e3o fosse um sonho, mas n\u00e3o vejo como poss\u00edvel. Nem essas reformas est\u00e3o na agenda! Essa \u00e9 a trag\u00e9dia resultante da consolida\u00e7\u00e3o da hegemonia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por isso que PT e PSDB, que teoricamente teriam essa converg\u00eancia social-democrata, mutuamente se excluem. Eles n\u00e3o querem um projeto, querem um espa\u00e7o de poder, para manejar os recursos econ\u00f4micos e serem gestores e l\u00edderes dessa partilha. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ambos fazerem a mesma coisa, que n\u00e3o \u00e9 a reforma social-democrata. \u00c9 gerir o capitalismo tal como ele est\u00e1, com sua crueza, virul\u00eancia, mascaramentos, contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o processo pol\u00edtico brasileiro lamentavelmente est\u00e1 subordinado \u00e0 hegemonia dos grandes grupos econ\u00f4micos, que est\u00e3o se convertendo em meros s\u00edndicos do grande condom\u00ednio econ\u00f4mico. Como disse, o governo Lula avan\u00e7ou ao consolidar grandes grupos brasileiros dos v\u00e1rios campos da economia.<\/p>\n<p>Consolidou alguns bancos, com fus\u00f5es, principalmente ap\u00f3s a fal\u00eancia de v\u00e1rios deles em 2008. Na \u00e1rea de eletricidade, o grupo Rede e a Camargo Correa ficaram hegem\u00f4nicos na distribui\u00e7\u00e3o, grupos europeus e nacionais na transmiss\u00e3o e as estatais do sistema Eletrobr\u00e1s foram convertidas em muletas voltadas a dar confian\u00e7a \u00e0s empreiteiras e ao capital privado. Tanto que a tarifa el\u00e9trica hoje \u00e9 uma das mais caras do mundo ao consumidor cativo, e uma das mais baratas do mundo para os 600 consumidores privados do mercado dito livre, mas que na verdade \u00e9 apenas usurpador. Na \u00e1rea da petroqu\u00edmica, a Braskem se tornou hegem\u00f4nica, com a Petrobr\u00e1s servindo de \u00e2ncora, por imposi\u00e7\u00e3o do governo. Na \u00e1rea do petr\u00f3leo, o caso mais not\u00f3rio \u00e9 o da OGX, mas h\u00e1 outros grupos nacionais e internacionais crescendo muito aqui, na \u00fanica das tr\u00eas grandes fronteiras mundiais do petr\u00f3leo que lhes permite.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o grande patrim\u00f4nio brasileiro hoje na \u00e1rea de petr\u00f3leo \u00e9 duplo. De um lado, os recursos naturais est\u00e3o debaixo do sal e da terra, valendo quase o mesmo. A organiza\u00e7\u00e3o social capaz de convert\u00ea-los em riqueza quando necess\u00e1rio e a Petrobr\u00e1s est\u00e3o, ambas, sendo alvo dessa media\u00e7\u00e3o da entrega. Como exemplo, a OGX, como j\u00e1 ressaltado, criada em meados de 2007 &#8211; informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 confirmada pelo governo -, com ajuda de ex-integrantes dos governos Lula e FHC, arrancou lucros estrat\u00e9gicos sem nenhuma resist\u00eancia e a\u00e7\u00e3o do governo. E logo depois de comprar os blocos em novembro de 2007, vendeu 38% das a\u00e7\u00f5es por 6,7 bilh\u00f5es de reais, 11 meses depois de criada.<\/p>\n<p>Portanto, ela j\u00e1 valia 17 bilh\u00f5es e, ao fazer os primeiros furos, conforme previsto e denunciado previamente em 2009, j\u00e1 anuncia reservas de 2,6 a 5,5 bilh\u00f5es de barris. E cinco bilh\u00f5es de barris equivalem a tudo que o governo incorporou da Petrobr\u00e1s pra aumentar seu capital, no valor de 42 bilh\u00f5es de d\u00f3lares hoje. O valor de mercado hoje seria dessa ordem, o que colocou um senhor como o mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo, tornando-o generoso em filantropia. Vai \u00e0s favelas, duplica a generosidade do presidente da Rep\u00fablica, ao arrematar o seu terno de posse em um leil\u00e3o por 500 mil. E ainda o devolve ao presidente, dobrando a aposta. Vai ao Teatro Municipal e vira mecenas da arte e cultura, com migalhas do que herdou num lance articulado nos bastidores do governo, que n\u00e3o reagiu.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o indicador claro do risco que falo da articula\u00e7\u00e3o em torno do petr\u00f3leo como mecanismo aglutinador de for\u00e7as e recursos para manter a hegemonia pol\u00edtico-eleitoral. \u00c9 um exemplo concreto e aconteceu agora. Os mesmos atores est\u00e3o vivos, reavivados e aben\u00e7oados nas urnas.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio, o soci\u00f3logo Chico de Oliveira afirmou que, na medida em que o governo Lula tem consolidado no Brasil o \u2018capitalismo monopolista de Estado\u2019, chega a ser mais privatizante do que o de FHC. Ao mesmo tempo, o senhor ressaltou h\u00e1 pouco que n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a entre privatizar uma empresa ou instrumentaliz\u00e1-la em favor de interesses privados, e que est\u00e1 se consolidando no Brasil uma partilha do espa\u00e7o produtivo entre grandes grupos econ\u00f4micos, entre eles Camargo Corr\u00eaa, Odebrecht, Eike Baptista, sob patroc\u00ednio do governo e com a ajuda do BNDES e dos fundos de pens\u00e3o. Essas duas assertivas n\u00e3o est\u00e3o bem associadas entre si? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>Sim, e caso n\u00e3o haja uma resist\u00eancia popular organizada, com capacidade de entendimento da dimens\u00e3o pol\u00edtica, compreendendo que uma onda de mudan\u00e7a hegemonizada pelo PT n\u00e3o mais est\u00e1 em curso &#8211; em fun\u00e7\u00e3o da metamorfose do partido \u2013, corre-se um s\u00e9rio risco de se consolidar esse curso econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Mas os movimentos sociais ainda est\u00e3o presos a isso, e \u00e9 dif\u00edcil recriar e mudar tal compreens\u00e3o. \u00c9 o desafio pol\u00edtico: ter uma proposta e a capacidade de faz\u00ea-la compreendida em seus conceitos pelas bases, os verdadeiros interessados, ou seja, os trabalhadores, os grupos sociais, estudantes, todos aqueles exclu\u00eddos da grande festa; aqueles que habitam a senzala da esperan\u00e7a, enquanto a Casa Grande faz a festa. E o padrinho, e tamb\u00e9m a madrinha, tem uma m\u00e3o muito gentil na Casa Grande, enquanto a outra, pequenina, apenas acaricia o povo que mora na senzala.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: O grande patrim\u00f4nio brasileiro na \u00e1rea do petr\u00f3leo est\u00e1, como dito pelo senhor, submetido a uma media\u00e7\u00e3o perversa para entrega a grandes grupos econ\u00f4micos. Haveria alguma chance, m\u00ednima que fosse, de a presidente eleita negociar a volta do monop\u00f3lio do petr\u00f3leo, revertendo a Lei 9478\/97 de FHC \u2013 j\u00e1 que se trata de uma reivindica\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios movimentos sociais, bem como de estudiosos, que consideram que a substitui\u00e7\u00e3o do modelo de concess\u00e3o pelo de partilha da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3rio, j\u00e1 que o setor privado continuar\u00e1 com presen\u00e7a maci\u00e7a e determinante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Essa discuss\u00e3o tem dois pap\u00e9is. Um de tentar de fato retom\u00e1-la, porque tecnicamente \u00e9 poss\u00edvel se apropriar do excedente econ\u00f4mico do petr\u00f3leo por v\u00e1rios meios: tribut\u00e1rios, sobre a partilha, imposto de renda, h\u00e1 v\u00e1rios mecanismos. Mas o problema \u00e9 que, embora poss\u00edveis tecnicamente essas v\u00e1rias apropria\u00e7\u00f5es, quem controla a reserva outorgada, quem controla a produ\u00e7\u00e3o na partilha ou concess\u00e3o, tem um poder econ\u00f4mico enorme na m\u00e3o pra convencer o governo e o Congresso, como ficou claro nessa elei\u00e7\u00e3o e com o que j\u00e1 foi entregue. Isso est\u00e1 patente e claro!<\/p>\n<p>Por isso a defesa do monop\u00f3lio, da necessidade de delimitar, certificar e conhecer as reservas, definir publicamente o debate do ritmo de produ\u00e7\u00e3o, do que fazer e onde aplicar o excedente econ\u00f4mico, em que reformas sociais. E tal id\u00e9ia pode se tornar hegem\u00f4nica, pois tamb\u00e9m tenho percebido nos v\u00e1rios campos estudantis, de oper\u00e1rios, profissionais liberais e at\u00e9 de empres\u00e1rios, que, quando compreendem o que est\u00e1 em jogo, refloresce a id\u00e9ia da necessidade do controle pol\u00edtico da sociedade sobre esse recurso. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o que se delegue a qualquer governo eleito, pois o transcende. Portanto, esse \u00e9 um discurso que acho que chama a aten\u00e7\u00e3o e permite mobilizar parte da sociedade.<\/p>\n<p>O outro ponto \u00e9 a destina\u00e7\u00e3o, sem d\u00favidas. Todo mundo reconhece a necessidade da reforma da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, urbana, da mobilidade, da recupera\u00e7\u00e3o ambiental, do aprofundamento da ci\u00eancia e tecnologia, de toda a infra-estrutura de circula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o nacional. \u00c9 uma agenda que, conciliando os dois debates, pode mobilizar as for\u00e7as. Mas n\u00e3o seria tarefa f\u00e1cil. At\u00e9 porque temos de reconhecer que qualquer governo tem um ano de gra\u00e7a, a n\u00e3o ser que aconte\u00e7a um esc\u00e2ndalo muito grande ou uma desgra\u00e7a, o que \u00e9 improv\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Um governo Serra n\u00e3o seria, nesse sentido, ainda mais privatizante do que o governo Dilma poder\u00e1 ser no que diz respeito ao nosso petr\u00f3leo &#8211; afinal, ex-ministros do governo FHC criticam explicitamente a substitui\u00e7\u00e3o do modelo de concess\u00e3o pelo de partilha, sob o argumento de que o Estado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de levar adiante os investimentos astron\u00f4micos necess\u00e1rios ao Pr\u00e9-Sal? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Eu n\u00e3o afirmaria isso porque acho que ambos foram privatizantes. O que mudou foi o instrumento, a modalidade e a configura\u00e7\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o. Entregar de 2,6 a 5,5 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo e uma hegemonia tecnol\u00f3gica do n\u00facleo da Petrobr\u00e1s a um grupo privado, sem nenhuma resist\u00eancia, foi algo brutal contra o interesse p\u00fablico. Portanto, s\u00e3o v\u00e1rios formatos de privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que deve ser discutido \u00e9 como o excedente econ\u00f4mico e a riqueza nacional s\u00e3o colocados a servi\u00e7o das elites, e como poderiam ser colocados a servi\u00e7o das reformas fundamentais na sociedade, pra criar a autonomia de todos os brasileiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou ser repetitivo, mas \u00e9 que se desgastou muito o debate da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, nas elei\u00e7\u00f5es. &#8220;Sou o gerentinho que vai fazer tantas APAS, AMAS, Escolas T\u00e9cnicas, n\u00e3o sei o que&#8230;&#8221;. Cad\u00ea o conte\u00fado do debate? O SUS como conceito \u00e9 excelente, mas est\u00e1 \u00e0s tra\u00e7as. Basta dizer que poucos brasileiros que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de evit\u00e1-lo se submetem aos seus servi\u00e7os. Lament\u00e1vel, mas \u00e9 a trag\u00e9dia do Brasil. A primeira delas, a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, s\u00e3o dois formatos semelhantes da mesma pr\u00e1tica. Com nuances diferentes, mas conte\u00fado semelhante, e conseq\u00fc\u00eancias tamb\u00e9m semelhantes. Interessante que tanto os grupos financeiros como empresariais s\u00e3o os mesmos, o que denota claramente que esse \u00e9 um governo a servi\u00e7o dos interesses dos grandes, como seria o outro, um com um estilo mais populista, outro mais elitista, o que \u00e9 a grande diferen\u00e7a entre eles.<\/p>\n<p>Evidentemente, para o grande empresariado e a burguesia, o governo sucessor do Lula \u00e9 melhor, pois tem mais aceita\u00e7\u00e3o popular, al\u00e9m da confian\u00e7a de tais setores, o que se cristalizou nas elei\u00e7\u00f5es. Eles devem estar muito felizes, pois fizeram a aposta certa. Tudo que vier de fora de tal expectativa ser\u00e1 da mobiliza\u00e7\u00e3o popular, o que \u00e9 uma tarefa gigante que se coloca diante daqueles que ainda t\u00eam uma concep\u00e7\u00e3o de sociedade diferente da que hoje \u00e9 hegem\u00f4nica &#8211; n\u00e3o no discurso, mas na pr\u00e1tica real.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Pensando no setor el\u00e9trico, citado pelo senhor, o governo Lula tinha entre seus objetivos iniciais uma reorienta\u00e7\u00e3o do modelo do setor relativamente ao modelo privatista de FHC. V\u00e1rios estudiosos entrevistados por este Correio confirmam sua avalia\u00e7\u00e3o de que esse objetivo foi alcan\u00e7ado de modo muit\u00edssimo limitado, na medida em que continuam a prevalecer grandes consumidores e sua l\u00f3gica de lucro, a descapitaliza\u00e7\u00e3o das estatais e a influ\u00eancia de interesses de poderosos setores eletro-intensivos sobre o governo. Como ficar\u00e1, a seu ver, o setor el\u00e9trico sob um governo Dilma? Diante de suas conjecturas pol\u00edticas, tudo indica que n\u00e3o ser\u00e1 nada menos privatizante do que o seria um eventual governo Serra.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>Ela \u00e9 a madrinha do que foi feito, eu dizia que ela criou o Bolsa-energia para o \u2018mercado livre\u2019, que valeu cerca de 20 bilh\u00f5es de reais de 2003 pra c\u00e1&#8230; Por que haveria de alter\u00e1-lo? Eles t\u00eam tido alguns dissabores porque periodicamente aparece, como neste ano, a amea\u00e7a de garantia do suprimento. Exatamente porque o mercado livre n\u00e3o contrata transparentemente sua demanda a futuro, vivendo de especular, do que o governo entendia como sobras e que n\u00e3o eram, e sim energia firme, que custava capital e recursos \u00e0s estatais, vendida como se fosse energia de sobra, secund\u00e1ria, sem garantia e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Por isso, de vez em quando aparece, como agora, a id\u00e9ia que chegaram a cogitar de operar todas as usinas de g\u00e1s, e fora da ordem de m\u00e9rito. Portanto, o consumidor cativo que paga, em beneficio dos livres, especuladores. Assim, nesse \u00faltimo ano at\u00e9 se chegou a cogitar operar as usinas a diesel, pois os reservat\u00f3rios chegaram pr\u00f3ximo ao limite m\u00ednimo de confian\u00e7a. Em caso de crescimento econ\u00f4mico no ano que vem similar ao deste ano, podemos chegar ao fim de 2011 com muito risco, se a hidrologia dos dois anos acabar sendo desfavor\u00e1vel. O que mostra a instabilidade, pois a \u00fanica reforma feita foi a da necessidade de contrata\u00e7\u00e3o de longo prazo, uma proposta nossa, mas como veio junto da id\u00e9ia de que parte do mercado n\u00e3o precisa registrar contratos de longo prazo, j\u00e1 veio fraudada no seu objetivo por conta dessa n\u00e3o contrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O restante do modelo ficou igual, com algumas pioras, como a n\u00e3o recupera\u00e7\u00e3o das estatais como empresas aut\u00f4nomas, sendo colocadas de muletas de parceria com empreiteiras e investidores privados na transmiss\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o; continuamos privatizando os potenciais hidr\u00e1ulicos; ali\u00e1s, n\u00e3o fomos capazes de escolher os melhores nos \u00faltimos anos, tampouco de fazer os estudos sociais, ambientais, obter as licen\u00e7as, negociar de maneira civilizada com as popula\u00e7\u00f5es atingidas. Nada disso foi feito, repetimos o que era feito desde os governos militares. Como ela (Dilma) comandou tudo, talvez um pouco mais distante a coisa ande melhor, mas n\u00e3o h\u00e1 uma expectativa muito positiva de que isso aconte\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E, de novo, como grande parte dos movimentos sociais atingidos por essas a\u00e7\u00f5es todas nos \u00faltimos momentos se posicionaram a favor dela, na falta de outra alternativa, chegamos a uma desmobiliza\u00e7\u00e3o diante do que vem por a\u00ed.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Dessa forma, a gest\u00e3o do setor, um dos mais rent\u00e1veis de toda a economia nacional, \u00e9 uma s\u00edntese do aparelhamento do Estado por interesses privados, al\u00e9m de uma pista de que tal modus operandi ser\u00e1 mantido. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>O setor el\u00e9trico foi, sim, colocado a servi\u00e7o dos interesses do grande capital. O BNDES financia tudo, os empres\u00e1rios privados comparecem de um lado com a muleta da estatal e do outro lado no mercado cativo para garantir a compra, al\u00e9m da pequena por\u00e7\u00e3o que vai para a especula\u00e7\u00e3o do \u2018mercado livre\u2019.<\/p>\n<p>De forma que criamos um quadro onde a id\u00e9ia anterior do PT de que o excedente econ\u00f4mico poss\u00edvel no setor el\u00e9trico (a diferen\u00e7a entre custo de produ\u00e7\u00e3o e o valor na esfera do mercado da circula\u00e7\u00e3o na eletricidade), e mesmo em outros, como nas telecomunica\u00e7\u00f5es, poderia ser usado como alavanca para resolver as assimetrias na \u00e1rea das car\u00eancias sociais, inclusive na infra-estrutura energ\u00e9tica para todos, foi para as calendas. Fizemos o Luz Para Todos, com muita propaganda, mas nem todos t\u00eam luz, e muitos a t\u00eam precariamente. Al\u00e9m de muitos esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>As estatais foram canibalizadas pelo mercado livre e colocadas a servi\u00e7o dos novos investimentos desejados pelas empreiteiras; deixou-se de fazer a manuten\u00e7\u00e3o, o que levou a dois apag\u00f5es not\u00f3rios: o da linha de Itaipu e outro no Nordeste, mostrando a precariedade em que se encontra a manuten\u00e7\u00e3o. Depois de 20 anos operando com plena confian\u00e7a, Itaipu caiu em descr\u00e9dito, operando abaixo do n\u00edvel de projeto, usando usinas a g\u00e1s para segurar, por falta de manuten\u00e7\u00e3o e, claro, gest\u00e3o do setor. Eis o quadro advindo da submiss\u00e3o da gest\u00e3o das empresas aos contratos que as empreiteiras demandam. As estatais t\u00eam poucos recursos porque venderam grande parte de sua energia muito abaixo do custo.<\/p>\n<p>Ademais, grande parte de suas gest\u00f5es foi loteada entre interesses de base partid\u00e1ria, de despachantes de interesses empresariais e pol\u00edticos, cuja demanda e aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram voltadas \u00e0 plena manuten\u00e7\u00e3o, confiabilidade e opera\u00e7\u00e3o no n\u00edvel m\u00e1ximo. Os gestores estavam l\u00e1, mas voltados a novos projetos, investimentos e a tais demandas pol\u00edticas. Tanto que o sistema Eletrobr\u00e1s tem uma rentabilidade abaixo do custo de capital m\u00e9dio, enquanto os grupos privados t\u00eam uma rentabilidade enorme no mesmo sistema produtivo. Os consumidores cativos pagam as tarifas mais caras do mundo, ao passo que alguns grupos privados e comercializadores t\u00eam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a energia mais barata do mundo.<\/p>\n<p>Eis a contradi\u00e7\u00e3o criada nesses oito anos de governo. Se n\u00e3o acontecer nenhuma trag\u00e9dia &#8211; que \u00e9 muito improv\u00e1vel, mas n\u00e3o inteiramente descart\u00e1vel -, a festa vai continuar.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: E Belo Monte, uma das j\u00f3ias da coroa do PAC, mas t\u00e3o criticada e combatida por ambientalistas e movimentos sociais pelos impactos ambientas e sociais, vai entrar nessa festa tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>J\u00e1 est\u00e1 fazendo parte. Belo Monte \u00e9 uma empresa concebida no governo militar e a ess\u00eancia do que se previu fazer naquele tempo foi executada agora. Assim como no rio Madeira, com as usinas Santo Antonio e Jirau, gestadas no governo FHC com a Furnas e a Odebrecht. Apenas partilharam uma das duas com outro grupo, pra n\u00e3o ficar tudo com a Odebrecht.<\/p>\n<p>De forma que, concretamente, h\u00e1 o processo de submiss\u00e3o desse espa\u00e7o econ\u00f4mico, dos recursos naturais e da estrutura empresarial estatal, ao interesse da acumula\u00e7\u00e3o capitalista dos grupos privados. \u00c9 a ess\u00eancia do que vem sendo feito.<\/p>\n<p>Tal l\u00f3gica vale para o petr\u00f3leo e por isso a afirma\u00e7\u00e3o de que o governo Lula \u00e9 o que mais instrumentalizou, de maneira mais eficaz, com mais aceita\u00e7\u00e3o social, a submiss\u00e3o do espa\u00e7o econ\u00f4mico dos recursos do Estado em favor da acumula\u00e7\u00e3o capitalista privada.<\/p>\n<p>\u00c9 o que est\u00e1 em jogo. \u00c9 nesse sentido que vai minha afirma\u00e7\u00e3o, e de muitos outros, de que o Lula consolidou o capitalismo e instrumentalizou o Estado no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Correm especula\u00e7\u00f5es de que ser\u00e3o tomadas medidas fiscais duras j\u00e1 nesse fim de mandato de Lula, para evitar desgaste de Dilma em in\u00edcio de gest\u00e3o. O que pensa a respeito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>Primeiro, \u00e9 preciso ver que reformas s\u00e3o essas. Note que h\u00e1 reformas e reformas, e quem clama por elas quer reduzir direitos trabalhistas, sociais, previdenci\u00e1rios. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo. S\u00e3o contra-reformas na verdade, o aprofundamento do modelo concentrador de privil\u00e9gios e riquezas. \u00c9 dif\u00edcil avaliar, pois acho que o Congresso estar\u00e1 mais d\u00f3cil, a n\u00e3o ser que a disputa pela partilha de cargos seja muito violenta.<\/p>\n<p>Mas o governo o tem ao seu lado hoje, embora nenhum partido tenha significado. Ou seja, est\u00e1 tudo pulverizado e todos buscam uma fatia. De maneira que, se a partilha for promovida no estilo anterior, vai ter uma maioria pra fazer qualquer coisa no come\u00e7o do governo. Vai ser mais f\u00e1cil a aprova\u00e7\u00e3o de projetos no novo governo, tanto que j\u00e1 se cogita concluir o modelo do Pr\u00e9-Sal depois. Isso porque do Congresso atual sobra pouco; os derrotados t\u00eam expectativa relativamente baixa e os reeleitos est\u00e3o olhando o futuro. Assim, no in\u00edcio do governo, v\u00e3o tentar colocar as principais quest\u00f5es na mesa e resolv\u00ea-las na medida em que se consolidam as promessas de entrega da barganha.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se me fa\u00e7o entender, mas \u00e9 algo como &#8220;vamos fazer essa e essa reforma no come\u00e7o e vot\u00e1-las. \u00c0 medida que voc\u00eas forem confirmando os votos, vamos confirmando o espa\u00e7o no governo pra voc\u00eas&#8221;. \u00c9 um pouco jogo de gato e rato, porque ningu\u00e9m mais confia em ningu\u00e9m, uma desconfian\u00e7a m\u00fatua generalizada.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: V\u00e3o fazer troca de ref\u00e9ns. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> \u00c9 uma boa figura de imagem, \u00e9 o que est\u00e1 em jogo neste processo pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Quanto a estas facilidades referidas do novo governo no Congresso, Chico de Oliveira, na entrevista ao Correio acima citada, afirmou tamb\u00e9m que as bancadas majorit\u00e1rias, e agora aumentadas, da base governista nas duas casas far\u00e3o o pr\u00f3ximo governo mais conservador do que o de Lula. O que pensa a respeito de tal id\u00e9ia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>Creio que sim, porque ser\u00e1 mais f\u00e1cil trabalhar. E \u00e9 preciso compreender o papel secund\u00e1rio que lamentavelmente o Congresso tem tido ultimamente, de mero carimbador. Grande parte da representa\u00e7\u00e3o eleita se converte muito mais em despachante do interesse de grupos, muitas vezes com forte conte\u00fado econ\u00f4mico e at\u00e9 empresarial. Foram eleitos de forma gen\u00e9rica, com apoio de recursos e a profissionaliza\u00e7\u00e3o da campanha&#8230;<\/p>\n<p>Nesse sentido, entendo que o Executivo det\u00e9m o poder real. O Congresso \u00e9 um espa\u00e7o de legitima\u00e7\u00e3o formal da democracia, mas os grandes debates nacionais est\u00e3o em outros campos h\u00e1 muito tempo (no campo econ\u00f4mico), os quais o Congresso apenas legitima. Seus l\u00edderes buscam um tent\u00e1culo, algum espa\u00e7o em \u00f3rg\u00e3o de governo, acima de tudo alguma estatal, onde poder\u00e3o nomear o despachante de interesses e mediar e proteger o jogo econ\u00f4mico dos grupos que os ap\u00f3iam.<\/p>\n<p>De maneira que novamente se manifestam as duas m\u00e3os. Acho que h\u00e1 uma figura de imagem muita apropriada do processo pol\u00edtico do Brasil: o <em>Second Life,<\/em> ao qual j\u00e1 me referi, criado h\u00e1 algum tempo, em que o sujeito, al\u00e9m de cuidar de sua vida real, programa e vai comandando uma vida no computador. Eu temo que o t\u00edpico agente pol\u00edtico brasileiro tenha sua <em>second life<\/em>; uma p\u00fablica, e a outra que fica nesse compromisso permanente, que n\u00e3o aparece, mas \u00e9 com quem vive mais intensamente, o verdadeiro \u00e2mago do que ele faz: as articula\u00e7\u00f5es com o poder econ\u00f4mico. Ao mesmo tempo, tem a necessidade de aparecer diante de setores amplos da popula\u00e7\u00e3o como representante de algum interesse popular. Mas, na verdade, se expressa de um jeito ao p\u00fablico, enquanto, na articula\u00e7\u00e3o interna, inclusive em alian\u00e7as interpartid\u00e1rias na base do governo, busca avidamente nomear dirigentes de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, que por sua vez s\u00e3o colocados l\u00e1 como mais que despachantes de interesse. Servem a essa correia de transmiss\u00e3o montada pra promover, de fato, a partilha daquele excedente econ\u00f4mico que cabe ao Estado e \u00e0s empresas p\u00fablicas gerirem. E as empresas de grande porte s\u00e3o muito visadas, porque direcionar contratos, organizar e legitimar esse processo \u00e9 uma das tarefas. Tanto que grande parte da compet\u00eancia atribu\u00edda a dirigentes \u00e9 a de ser o preposto pol\u00edtico capaz de escapar dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e das \u00e1reas corporativas da empresa.<\/p>\n<p>Inclusive, e de certa forma, isso \u00e9 uma trag\u00e9dia que diminui um pouco o alcance da Lei Ficha Limpa. Porque se, de um lado, ela surgiu de um sentimento p\u00fablico contra a pr\u00e1tica de il\u00edcitos contra a economia popular e o patrim\u00f4nio p\u00fablico, por outro lado, grande parte dos dirigentes pol\u00edticos terceiriza e nomeia despachantes para praticar tais atos. Eles n\u00e3o os cometem mais diretamente, pois t\u00eam seus prepostos para tal.<\/p>\n<p>E ironicamente, em muitas corpora\u00e7\u00f5es, j\u00e1 se criaram elites, que s\u00e3o como jogadores de futebol, cujo passe \u00e9 comprado e vendido. S\u00e3o bem treinadas tecnicamente a servi\u00e7o da nomea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um exemplo not\u00f3rio foi com o ex-presidente Collor, cassado, capaz de ter um preposto, que nem conhecia de antigamente, que alugou o crach\u00e1 de um t\u00e9cnico da Petrobr\u00e1s para ser seu diretor da BR Distribuidora. \u00c9 t\u00edpico exemplo de como o alcance da Lei Ficha Limpa, efusivamente saudada, tem seu papel limitado, na medida em que a deteriora\u00e7\u00e3o do papel pol\u00edtico do Congresso, dos eleitos, faz com que estes n\u00e3o desempenhem papel direto, mas \u2018apenas\u2019 de influenciar diretamente, nomeando prepostos que nunca v\u00e3o ser candidatos. Se forem pegos e condenados, o preposto lava as m\u00e3os. Esse \u00e9 o processo pol\u00edtico p\u00f3s-mensal\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: O que acontecer\u00e1 e como reagir\u00e1 um futuro governo Dilma, e os movimentos sociais, caso uma nova crise econ\u00f4mica bata \u00e0s nossas portas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>S\u00f3 vai ter recurso pra minor\u00e1-la, a n\u00e3o ser que bata profundamente e as contradi\u00e7\u00f5es aflorem; a\u00ed pode ser dif\u00edcil. Mas j\u00e1 passamos pela experi\u00eancia do J\u00e2nio, de estilo voluntarioso, personalista, que renunciou; passamos pelo governo Collor, que tentou promover a partilha entre diferentes grupos econ\u00f4micos, mas foi ejetado do processo, retornando agora nas asas do socialismo moreno e do caudilho do ABC&#8230; \u00c9 dif\u00edcil prever o grau de coes\u00e3o e coer\u00eancia. Enquanto houver o que partilhar no plano institucional e com os movimentos sociais&#8230;<\/p>\n<p>A nova cartada que est\u00e1 na m\u00e3o com o modelo do Pr\u00e9-Sal \u00e9 o poder autocr\u00e1tico e unilateral do presidente, que pode ouvir um conselho nomeado por ele e tomar a decis\u00e3o de quanto vai produzir e como gerar as expectativas em torno disso. \u00c9 um elefante na cartola da presidente eleita. Volto a olhar para o M\u00e9xico, sendo importante lembrar que, no per\u00edodo de hegemonia da Pemex, o petr\u00f3leo valia pouco &#8211; o excedente era pequeno, na diferen\u00e7a entre custo e pre\u00e7o, pois sua apropria\u00e7\u00e3o se dava em outras etapas, n\u00e3o na de produ\u00e7\u00e3o, como agora. Portanto, acho que o grande coelho da cartola ser\u00e1 sempre a partilha do Pr\u00e9-Sal. No caso \u00e9 trocadilho, j\u00e1 que o modelo de partilha permitir\u00e1&#8230; a partilha &#8211; n\u00e3o s\u00f3 entre governo e produtores, como tamb\u00e9m entre os v\u00e1rios produtores. \u00c9 um recurso de que o governo disp\u00f5e pra manter a correia de transmiss\u00e3o andando.<\/p>\n<p>Havendo uma degrada\u00e7\u00e3o muito forte da chamada moralidade e probidade, j\u00e1 notoriamente degradadas, tal percep\u00e7\u00e3o talvez possa chegar \u00e0s bases se a crise for muito violenta, sem que se consiga manter a pequena m\u00e3o esquerda fazendo a redistribui\u00e7\u00e3o e um pouco de car\u00edcia. Talvez, a m\u00e3o do Lula seja percebida por sua hist\u00f3ria; o pouco que ele dava aos pequenos provocava enorme sentimento de reconhecimento e esperan\u00e7a, o que talvez n\u00e3o venha pela outra m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil fazer previs\u00e3o do que vai acontecer numa crise. As conseq\u00fc\u00eancias reais aqui dentro v\u00e3o depender da capacidade da esquerda em se reorganizar em cima de uma nova compreens\u00e3o do que est\u00e1 em jogo, numa clara plataforma de reformas poss\u00edveis no atual est\u00e1gio de compreens\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Organizar, criar um movimento mais amplo, buscar espa\u00e7o nos sindicatos e movimentos e recuperar seu espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed, qualquer crise econ\u00f4mica l\u00e1 fora vai se refletir numa poss\u00edvel mudan\u00e7a da trajet\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. Do contr\u00e1rio, \u00e9 mais do mesmo: mexicaniza\u00e7\u00e3o e justicialismo.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Pensando um pouco na nova equipe de governo, o que imagina da hip\u00f3tese de a atual ocupante do cargo de diretora de Energia e G\u00e1s da Petrobr\u00e1s (cargo no qual substituiu Ildo Sauer no segundo mandato de Lula), Gra\u00e7a Foster, ir para a Casa Civil? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Entendo que a Casa Civil sob um Jos\u00e9 Dirceu era uma Casa Civil com conte\u00fado pol\u00edtico, isto \u00e9, tinha um ator com densidade, que operava nas articula\u00e7\u00f5es, negocia\u00e7\u00f5es, em detrimento da hegemonia do pr\u00f3prio presidente. Quem cumpriu \u00e0 risca os ditames de ser operador em campo, de segurar a m\u00e1quina estatal, domin\u00e1-la, quem negociava com grau de gentileza maior conforme a nobreza do interlocutor nos estamentos da Casa Grande, e tratava com rudeza o povo da senzala, isto \u00e9, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, de estatais, era a Dilma. Criou um estilo que \u00e9 a ant\u00edtese do que dizem os manuais de gest\u00e3o, mas foi operativamente, do ponto de vista pol\u00edtico, muito instrumental ao Lula, que ficou preservado, tendo algu\u00e9m que lhe era fiel e operava todos esses campos da maneira descrita, tanto que ele acabou premiando-a com a candidatura e apoio, carregando-a na elei\u00e7\u00e3o com seu prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Para tal paradigma se repetir, talvez n\u00e3o seja impens\u00e1vel uma clone da ex-chefe da Casa Civil e atual presidente, no m\u00e9todo e estilo, ocupando o espa\u00e7o praticando os mesmos m\u00e9todos. E seria algu\u00e9m (Gra\u00e7a) \u2018liberado\u2019, de muito baixo conte\u00fado pol\u00edtico, baixa densidade pessoal, sem hist\u00f3ria de lideran\u00e7a no partido, pois \u00e9 um enxerto j\u00e1 da era da metamorfose petista plena, que chegou muito mais como operadora. Ter no seu entorno, para negociar as concess\u00f5es aos demais partidos e grupos, algu\u00e9m de mais densidade pol\u00edtica talvez n\u00e3o seja a op\u00e7\u00e3o de quem quer manter a hegemonia, o comando a ferro e fogo. Melhor ter algu\u00e9m que compartilhe sua personalidade, que execute a ferro e fogo o servi\u00e7o necess\u00e1rio, para que a grande media\u00e7\u00e3o seja feita pelo primeiro mandat\u00e1rio, que s\u00f3 interv\u00e9m l\u00e1 na frente, ap\u00f3s mandar fazer as coisas.<\/p>\n<p>Foi assim que operou o Lula no p\u00f3s-Z\u00e9 Dirceu. Ele estava confinado ao n\u00facleo duro do partido, pois at\u00e9 2005 quem mandava no governo era o n\u00facleo duro do PT. Tr\u00eas ministros e um presidente que pensavam quase igual: o da Casa civil, o das Comunica\u00e7\u00f5es, o da Fazenda e o da Secretaria Geral de governo. Os quatro ministros origin\u00e1rios da articula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do partido chefiavam o governo, formando quase uma junta. Mas ela foi degolada e o pr\u00edncipe emergiu sozinho. Passou a usar subalternos para domar a classe pol\u00edtica em seu entorno e promover a partilha, o que tornou Dilma conhecida como gerente eficaz, na medida em que executava \u00e0 risca os acordos, independentemente dos princ\u00edpios em discuss\u00e3o. Impunha-os e salvaguardava a figura do presidente.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o modelo que est\u00e1 posto. Agora, vamos ver o superpr\u00edncipe \u2013 afinal, n\u00e3o h\u00e1 &#8220;rei morto, rei posto&#8221;, h\u00e1 um muito \u2018vivo\u2019 que vai sobreviver &#8211; e depois tamb\u00e9m os comportamentos. Criador e criatura sempre t\u00eam conflitos.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Acredita que, conforme dita o padr\u00e3o hist\u00f3rico, Dilma poder\u00e1 se voltar contra Lula? Ou ela veio com a serventia de possibilitar a volta de Lula em 2014?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer: <\/strong>Depende da conjuntura. A natureza intr\u00ednseca do processo levaria a uma possibilidade de afirma\u00e7\u00e3o definitiva de que Lula tem a \u00faltima inst\u00e2ncia, o poder m\u00e1ximo. S\u00f3 que exerc\u00ea-lo \u00e0s vezes exige uma conjuntura pol\u00edtica, articula\u00e7\u00e3o, e de vez em quando h\u00e1 erros de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia natural seria essa. Mas ningu\u00e9m aceita de bom grado ser um preposto ocupando o posto m\u00e1ximo. \u00c9 estrat\u00e9gia de jogo de poder. \u00c9 melhor ler Maquiavel pra explicar o que vem por a\u00ed, ele \u00e9 capaz de explicar melhor que eu.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Lula, como os jornais noticiam, &#8220;sugeriu&#8221; a Dilma que mantenha Meirelles, Guido Mantega e o restante da sua equipe econ\u00f4mica em seus lugares. Dilma vai acatar as sugest\u00f5es de Lula? No geral, o que o senhor espera da montagem do novo staff? Haver\u00e1 um arco de l\u00edderes e ministros dos mais variados matizes, como fez Lula?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Acho natural que sim. Aquilo que deu certo tem tudo pra ser mantido &#8211; a grande media\u00e7\u00e3o. Assim como as quest\u00f5es do comando do governo, e de toque pessoal, de hegemonia interna, ou do comando da Casa Civil com algu\u00e9m que seja um fiel executor de tarefas, mais do que um articulador de grande porte.<\/p>\n<p>No restante, o governo tem de afirmar que ele vem para ser a continuidade do que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed. E, portanto, todos os compromissos com taxa de c\u00e2mbio, juros altos, toda a l\u00f3gica que prosperou e fez o que fez prosseguir\u00e1, de modo que n\u00e3o h\u00e1 muito a esperar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a. Pode at\u00e9 trocar o nome do ator, mas o papel a ser exercido \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>A partilha est\u00e1 a\u00ed na configura\u00e7\u00e3o de toda a equipe, tendo de ser um pouco ampliada, uma vez que o equil\u00edbrio eleitoral \u00e9 um pouco maior; s\u00e3o quase equivalentes PT, PMDB, PSB e os outros que est\u00e3o l\u00e1, o que aumenta o poder de media\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe, ou da princesa, que em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 quem poder\u00e1 arbitrar o dote que caber\u00e1 a cada um.<\/p>\n<p>Trata-se disso, partilha dos dotes. Este \u00e9 o socialismo! N\u00e3o o que criamos desde os anos 80, na funda\u00e7\u00e3o do PT. Trinta anos depois, vemos o socialismo: a socializa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os do governo entre os grupos pol\u00edticos, que por sua vez est\u00e3o l\u00e1 subservientes a interesses em geral empresariais, do capital, n\u00e3o ao que diz o discurso, voltado aos movimentos sociais. A eles, as migalhas.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Diante do quadro geral aqui tra\u00e7ado, qual a sua opini\u00e3o quanto ao apoio que a candidata petista acabou por angariar junto \u00e0 esquerda e aos movimentos sociais &#8211; estes mesmos que partilham as migalhas! -, especialmente no segundo turno? Acredita que far\u00e1 algum jus a este apoio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Vendo que ambos, PT e PSDB, s\u00e3o muito parecidos, e com a imagem hist\u00f3rica do PSDB claramente vinculada ao neoliberalismo, apesar da trajet\u00f3ria de Serra &#8211; digamos que ele era a esquerda da direita, enquanto a Dilma a direita da esquerda -, havia pouca clareza para a esquerda e os movimentos sociais.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o Serra assumiu uma agenda conservadora de direita, n\u00e3o deixou espa\u00e7o aos movimentos sociais que se v\u00eaem como esquerda, a n\u00e3o ser se vincular \u00e0 m\u00e3o esquerda do Lula, deixando de olhar a m\u00e3o direita, que tamb\u00e9m estava l\u00e1. Agarraram-se \u00e0 m\u00e3o a esquerda do Lula, sem se perguntarem o que a m\u00e3o direita, a hegem\u00f4nica, far\u00e1 depois.<\/p>\n<p>Portanto, creio que no tabuleiro pol\u00edtico faltou um pouco de percep\u00e7\u00e3o do xadrez, dado que propostas e pr\u00e1ticas s\u00e3o muito parecidas. Aqueles que foram para a candidatura do PSOL ou ambiental no primeiro turno, ou anularam ou se dividiram no segundo; um pouco mais para o Serra, mas n\u00e3o o suficiente para consolidar a vit\u00f3ria eleitoral, mesmo com pouco mais de 40% dos votos do eleitorado. Grande parte dos movimentos optou por tapar as narinas e votar na candidata herdeira de uma hist\u00f3ria de esperan\u00e7a, especialmente porque o discurso exageradamente conservador do candidato tucano assustou. De certa forma, ele encurralou essas correntes entre a Dilma e o voto nulo.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, evidencia-se um imenso vazio pol\u00edtico. Falo assim apesar da agenda verde e nova no 1\u00ba. Turno, mas com baixo conte\u00fado social para responder aos anseios nacionais, e do discurso socialista, que n\u00e3o conseguiu se sustentar, em parte porque as regi\u00f5es que mais se beneficiariam de tal discurso ainda est\u00e3o prisioneiras do discurso da esperan\u00e7a e da mudan\u00e7a que vem da constru\u00e7\u00e3o do PT. Uma constru\u00e7\u00e3o que s\u00f3 agora, ap\u00f3s uma longa onda de 20 anos, chega l\u00e1, onde talvez s\u00f3 chegue o discurso, porque nas pr\u00e1ticas s\u00f3 temos t\u00eanues mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>O Bolsa Fam\u00edlia, por mais necess\u00e1rio que fosse para extirpar a fome, que grassava, n\u00e3o \u00e9 suficiente como processo pol\u00edtico de cria\u00e7\u00e3o de autonomia, participa\u00e7\u00e3o efetiva, tornando os brasileiros mais iguais; ao contr\u00e1rio, aprofunda e cristaliza uma situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica inaceit\u00e1vel. Como instrumento de arrancada, \u00e9 necess\u00e1rio. No entanto, cristaliz\u00e1-lo cria uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de depend\u00eancia permanente do paternalismo, outra coisa invocada nessas elei\u00e7\u00f5es, de um lado pelo conservadorismo e de outro pelo populismo paternal e agora maternal.<\/p>\n<p>E veja como \u00e9 contradit\u00f3rio: afirma-se uma mulher presidente como inova\u00e7\u00e3o, ao passo em que ela \u00e9 apresentada como uma m\u00e3e, herdeira de um pai maior, criando n\u00e3o afirma\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, autonomia e igualdade entre mulheres, homens, regi\u00f5es etc., mas aprofundando uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, herdeira de uma sociedade injusta, contra a qual foi criado um partido e muitos movimentos sociais. Eis o quadro.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Finalmente, ainda acredita em um projeto democr\u00e1tico-popular para o Brasil, nos moldes antes pregados, e abandonados, pelo PT, ou imagina que este seja um caminho que se tenha esgotado, devendo ser substitu\u00eddo por um outro projeto de na\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer:<\/strong> Eu acho que o PT tal como criado n\u00e3o existe mais. \u00c9 um partido convencional que busca tirar o m\u00e1ximo poss\u00edvel da heran\u00e7a memorial de esperan\u00e7a, ainda retendo em suas pris\u00f5es, seq\u00fcestrado, o imagin\u00e1rio de mudan\u00e7as dos movimentos sociais, com um discurso longa e arduamente constru\u00eddo, ainda que grande parte dos precursores hoje esteja longe. Aqueles que se apoderaram deste patrim\u00f4nio de mobiliza\u00e7\u00e3o social ainda v\u00e3o querer tirar o m\u00e1ximo de proveito. Como seus escr\u00fapulos j\u00e1 n\u00e3o eram muitos antes, certamente n\u00e3o ter\u00e3o os m\u00ednimos agora, depois da metamorfose, buscando arrancar o m\u00e1ximo dessa etapa, que os pr\u00f3prios v\u00eaem como os estertores de um projeto que come\u00e7ou cheio de sonhos, solidariedade, esperan\u00e7a, transforma\u00e7\u00e3o, e virou uma disputa quase igual \u00e0 da Noite dos Cristais, dentro e fora do partido.<\/p>\n<p>Temos de fazer uma autocr\u00edtica. Muitos de n\u00f3s partilhamos tal projeto, em detrimento de um outro mais ortodoxo, de exame das reais contradi\u00e7\u00f5es que habitavam a sociedade brasileira, conseguindo estruturar movimentos sociais capazes de compreender estas contradi\u00e7\u00f5es e articular um poder real. Um poder em que os l\u00edderes que ajudaram nas formula\u00e7\u00f5es e se afirmaram no debate dentro das bases fossem os l\u00edderes do projeto, criando estruturas org\u00e2nicas fortes e indissol\u00faveis, capazes de chegar ao poder e exerc\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Fizemos o contr\u00e1rio: delegamos a agentes simb\u00f3licos, com baixo grau de comprometimento, uma agenda real de esquerda. E que puderam, nessa estrutura t\u00eanue de correias de transmiss\u00e3o, de la\u00e7os de cobran\u00e7a, numa estrutura de partido com forte inser\u00e7\u00e3o social, fazer tudo que vimos. E a figura principal foi a cabe\u00e7a do projeto, que tinha um grande legado hist\u00f3rico, simb\u00f3lico. Como disse algu\u00e9m um dia, &#8220;a qualquer chefe de esquerda lhe falta o dedo, perdido por um oper\u00e1rio na f\u00e1brica&#8221;. Isso \u00e9 altamente simb\u00f3lico. Para qualquer l\u00edder de esquerda ocupar um lugar hegem\u00f4nico, vai lhe faltar o dedo perdido na labuta oper\u00e1ria. Esse forte simbolismo n\u00e3o se traduziu em compromissos concretos, com a compreens\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito simb\u00f3lica a afirma\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica de que ele &#8220;chegou l\u00e1&#8221;. Parece que \u00e9 um Pel\u00e9, um jogador ou modelo que chega longe na carreira. Como se fosse poss\u00edvel ter 190 milh\u00f5es de Pel\u00e9s, 190 milh\u00f5es de Lulas, 190 milh\u00f5es de Giseles B\u00fcndchen no Brasil, como se a estrutura social permitisse.<\/p>\n<p>Esse grau verbalizado no discurso mostra claramente a aus\u00eancia de compromisso com a realidade das contradi\u00e7\u00f5es dentro do \u00e2mago da sociedade brasileira, que \u00e9 a estrutura social de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o do produto social entre os grupos da popula\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 que precisa ser rearticulado: aumentar as for\u00e7as produtivas, produzir mais e garantir que a distribui\u00e7\u00e3o seja melhor. Mas n\u00e3o se leva a cabo tal tarefa com populismo, assistencialismo, paternalismo, maternalismo, pra onde tudo descambou.<\/p>\n<p>\u00c9 a autocr\u00edtica que fa\u00e7o. Muitos intelectuais participaram do processo e, embora tendo uma compreens\u00e3o maior, acabaram delegando poder. O s\u00edmbolo maior foi o sindicalismo. Toda a base, que tinha um baixo entendimento do significado pol\u00edtico do que estava em jogo, preferiu depois se servir do espa\u00e7o de poder e dessa nova partilha com o sistema econ\u00f4mico dominante. E se subordinou a esse capitalismo, aqui no Brasil dependente, mas com um pouco mais de autonomia hoje em dia pela nova inser\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds, criando at\u00e9 asas para um sub-imperialismo na \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Foi o que fizemos, creio que deva ser essa a autocr\u00edtica. A estrutura partid\u00e1ria t\u00eanue que o PT representava, com fac\u00e7\u00f5es e diversos grupos, permitiu que quem mais lan\u00e7asse asas \u00e0s alian\u00e7as com a burguesia se tornasse a articula\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica, terminando por desempenhar todo esse papel. \u00c9 um aprendizado duro, mas vamos ver o que emerge daqui em diante.<\/p>\n<p>Meu \u00faltimo lampejo de esperan\u00e7a \u00e9 que tudo que disse nesta entrevista n\u00e3o seja verdadeiro. L\u00e1 no fundo ainda sobra um pouquinho, um milion\u00e9simo, de esperan\u00e7a de que n\u00e3o seja.<\/p>\n<p><strong>Val\u00e9ria Nader, economista, \u00e9 editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: diarioliberdade.org\n\n\n\n\n\n\n\n\nENTREVISTA COM ILDO SAUER\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1045\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-1045","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-gR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1045"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}