{"id":10456,"date":"2016-02-22T02:48:40","date_gmt":"2016-02-22T05:48:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10456"},"modified":"2017-12-15T12:14:18","modified_gmt":"2017-12-15T15:14:18","slug":"na-contramao-da-ordem-burguesa-samba-malandragem-e-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10456","title":{"rendered":"Na contram\u00e3o da ordem burguesa: samba, malandragem e resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/-UUb0vu6Kzq0\/VrEcdXTiRoI\/AAAAAAAALkg\/3NN74cgcq8A\/s512-Ic42\/opp8.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Na virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, a cidade do Rio de Janeiro, capital da Rep\u00fablica rec\u00e9m proclamada, viveu a conjuntura de transi\u00e7\u00e3o para a ordem capitalista, cujas rela\u00e7\u00f5es se dinamizaram com o fim da escravid\u00e3o. As classes dominantes e seus representantes pol\u00edticos no Estado e no parlamento buscavam elaborar uma nova \u00e9tica do trabalho na conjuntura p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. Na \u00f3tica destes senhores, a propriedade privada e a seguran\u00e7a dos cidad\u00e3os estariam amea\u00e7adas pelas hordas de libertos que supostamente vagavam pelas estradas a roubar e vagabundear. Era preciso transformar o liberto em trabalhador \u201ccivilizado\u201d, para o que muito serviu o conceito de vadiagem, produzido com base no mito da pregui\u00e7a inata do \u201ctrabalhador nacional\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>O per\u00edodo foi marcado por forte repress\u00e3o aos capoeiras e pela destrui\u00e7\u00e3o dos corti\u00e7os na capital da Rep\u00fablica. Pouco tempo depois, as obras do Prefeito Pereira Passos e de seu auxiliar Paulo de Frontin, durante o governo de Rodrigues Alves (1902-1906), no ritmo da campanha \u201cO Rio civiliza-se\u201d, pretendiam transformar o Rio de Janeiro numa cidade europeia, com grandes pra\u00e7as e avenidas, mas varrendo para longe a pobreza e a negritude.<\/p>\n<p>Expulsa do centro da cidade, a popula\u00e7\u00e3o pobre e negra foi procurar moradia na periferia e nos morros. Na contrapartida do projeto civilizador burgu\u00eas, as classes populares, formadas nas comunidades negras de ex-escravos e homens e mulheres pobres, produziram uma cultura pr\u00f3pria, resultante das experi\u00eancias vividas no mundo do trabalho e nos lares, assim como nos botequins e nas ruas. Como express\u00e3o m\u00e1xima dessa cultura popular, surgiu o samba, inicialmente de um jeito comportado, pr\u00f3prio de compositores respeit\u00e1veis, dando lugar, mais adiante, a uma gera\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 boemia, ao improviso e \u00e0 malandragem.<\/p>\n<p>Na esteira do \u201cBota-abaixo\u201d de Pereira Passos, nasceram bairros como o Est\u00e1cio de S\u00e1, que se tornou o ber\u00e7o do samba urbano carioca. Centro da grande \u201cmalandragem\u201d do princ\u00edpio do s\u00e9culo, vizinho da Pra\u00e7a Onze e do Mangue (zona do meretr\u00edcio), foi passagem de todos os grandes sambistas que surgiam no Rio \u2013 da Mangueira \u00e0 Portela, passando pelos compositores e cantores do r\u00e1dio que, na \u201cd\u00e9cada de ouro do samba\u201d, l\u00e1 iam garimpar a base de seu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os sambistas surgidos nos anos 1920 eram ligados aos redutos da boemia e, em suas letras, destacavam as situa\u00e7\u00f5es de \u201corgia\u201d, \u201cmalandragem\u201d ou \u201cvadiagem\u201d. Um bom exemplo de composi\u00e7\u00e3o afinada com os valores bo\u00eamios \u00e9 <i>A Malandragem<\/i>, samba de estreia de Bide, integrante da primeira gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos do Est\u00e1cio. A letra do samba (gravado por Francisco Alves em 1927) consiste na fala ir\u00f4nica de um malandro anunciando que est\u00e1 prestes a abandonar a vida de orgia e virar \u201calmofadinha\u201d. Outros exemplos contendo esta tem\u00e1tica podem ser encontrados em sambas de Ismael Silva, Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira, etc.<\/p>\n<p>Ao longo de sua rica hist\u00f3ria, o samba enfrentou a persegui\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia ao ser associado \u00e0 vadiagem, superou a tentativa de domestica\u00e7\u00e3o feita pelo regime de Vargas, que o queria d\u00f3cil, a servi\u00e7o da imagem positiva do trabalho sob o progresso capitalista. Sofreu a censura imposta pela ditadura empresarial-militar de 1964 a 1985 e resiste o quanto pode \u00e0s investidas da ind\u00fastria cultural imperialista, que busca desfigur\u00e1-lo. Segue firme como a grande for\u00e7a da cultura popular e do povo negro. Como canta Nei Lopes: \u201cO samba vem de muito longe\/De antes da Pra\u00e7a Onze\/De emo\u00e7\u00f5es ancestrais\/Candeia por sinal j\u00e1 dizia\/Que ele \u00e9 filosofia\/N\u00e3o \u00e9 moda fugaz\u201d.<\/p>\n<p>(<a href=\"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10346\" target=\"_blank\">O PODER POPULAR N\u00ba 8<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, a cidade do Rio de Janeiro, capital da Rep\u00fablica rec\u00e9m proclamada, viveu a conjuntura \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10456\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[140],"tags":[],"class_list":["post-10456","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c140-jornal-o-poder-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2IE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10456","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10456"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10456\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}