{"id":10483,"date":"2016-02-19T20:51:37","date_gmt":"2016-02-19T23:51:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10483"},"modified":"2016-03-08T13:15:01","modified_gmt":"2016-03-08T16:15:01","slug":"franca-uma-democracia-de-caserna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10483","title":{"rendered":"Fran\u00e7a: Uma democracia de caserna"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.elsarbresdefahrenheit.net\/documentos\/autores\/2064\/html\/images\/413482394_640.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Jean Salem*<\/p>\n<p>O texto que hoje publicamos \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o e os dois primeiros cap\u00edtulos de La D\u00e9mocratie de Caserne, Apr\u00e8s les atentats Hollande s\u2019en va-t-en guerre, novo ensaio do grande amigo de <a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fxn--odirio-rta.info&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNGXYsEhmLmXsthFQ9pnI9wLZ7QAWA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">odi\u00e1rio.info<\/a>, Jean Salem, a editar em Portugal por Cooperativa Editorial Alentejana.<br \/>\nNele, Salem quer acreditar numa ressurrei\u00e7\u00e3o dos povos e, quem sabe?, se ela n\u00e3o ir\u00e1 trazer-nos \u00abde volta o bom gosto e a esperan\u00e7a\u00bb.<br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nUm dos actos desta farsa sinistra est\u00e1 quase a terminar! Um dos actos, e n\u00e3o a pe\u00e7a completa, pois o pior ainda n\u00e3o aconteceu. Mas parece encaminhar-se bem, a passos cada vez mais r\u00e1pidos, para um desenlace muito plaus\u00edvel. Guerras cada vez mais numerosas e cada vez mais incontrol\u00e1veis; guerras cada vez menos \u00abperif\u00e9ricas\u00bb em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias \u00abcentrais\u00bb; assim como a anarquia nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, no seio das quais todo o Estado ou semelhan\u00e7a de Estado, a come\u00e7ar pela hiperpot\u00eancia norte-americana, adopta assim a postura de um naipe evoluindo numa s\u00e9rie de statu naturalis, do \u00abestado de natureza\u00bb (ou seja independ\u00eancia \u00e0 revelia de qualquer lei externa \u2014 antes ao abrigo da lei do mais forte, como de costume. [1]<\/p>\n<div>\n<p>E, como na v\u00e9spera das duas guerras mundiais, uma crise financeira maior, estrutural, o aumento dos nacionalismos, o desejo da\u00ed avan\u00e7ar, a aus\u00eancia de uma resist\u00eancia coerente e organizada, e centenas de outros sintomas an\u00e1logos: as elei\u00e7\u00f5es regionais francesas, de 6 a 13 de Dezembro passado, consagraram a vit\u00f3ria ideol\u00f3gica, \u00abmoral\u00bb e organizacional da Frente Nacional, o partido da extrema-direita franc\u00eas. Esse partido, que foi fundado em 1972 por um pequeno grupo de neofascistas e de nost\u00e1lgicos do regime de Vichy (um certo Leon Gaultier, ex-subtenente das Waffen-SS), reagrupados em volta de um velho torcion\u00e1rio da guerra da Arg\u00e9lia, reuniu mais de 6,8 milh\u00f5es de sufr\u00e1gios na noite de uma segunda volta que mesmo assim, n\u00e3o lhe assegurou a vit\u00f3ria de uma \u00fanica presid\u00eancia de regi\u00e3o [2]. \u2014 Uma alian\u00e7a bizarra da direita dita \u00abcl\u00e1ssica\u00bb mas n\u00e3o menos virulenta, e de um melting pot em que o Partido Socialista tem o papel forte pouco interessante; restos de listas de \u00abesquerda\u00bb em benef\u00edcio das actuais, sob pretexto de erguer uma \u00abfrente republicana\u00bb; e \u00abfus\u00f5es t\u00e9cnicas\u00bb, ali\u00e1s muito espantosas, operadas aqui e ali entre as listas que dizem representar a \u00abesquerda da esquerda\u00bb, (comunistas, ecologistas, v\u00e1rios) com as listas do Partido Socialista; tais foram os v\u00e1rios processos que, sem o menor debate de ideias, permitiram chegar aqui.<\/p>\n<p>Assim, na noite da segunda volta de toda esta elei\u00e7\u00e3o, a 13 de Dezembro, n\u00e3o levando em conta quase 19 milh\u00f5es de absten\u00e7\u00f5es e 5,7 milh\u00f5es de n\u00e3o inscritos, s\u00e3o duas \u00abfor\u00e7as\u00bb que reuniram uma (os Republicanos e seus aliados) cerca de 10 milh\u00f5es de sufr\u00e1gios, e o outra (o PS e seus sat\u00e9lites) apenas 7,3 milh\u00f5es, que tiraram a parte de le\u00e3o dos lugares de concelheiros regionais (1.259 dos 1.758 que estavam em disputa, ou seja cerca de 72% dos lugares) ainda que essas duas for\u00e7as n\u00e3o tivessem sido escolhidas por mais de 34% dos 54 milh\u00f5es de pessoas em idade de votar\u2026<\/p>\n<p>Resta um \u00abderrotado\u00bb perante o qual tudo deveria ajustar-se: a Frente nacional de Marine Le Pen. Pois este escrut\u00ednio tem toda a apar\u00eancia de um simples adiamento. Devemos pensar, que num pa\u00eds em que dois milh\u00f5es de jovens na idade de votar com pelo menos 25 anos est\u00e3o no desemprego e sem forma\u00e7\u00e3o, 76% dos eleitores entre 18 e 24 anos (contra 49,4% de absten\u00e7\u00f5es no conjunto dos inscritos) n\u00e3o foram \u00e0s urnas, a 6 de Dezembro \u00faltimo, dia da primeira volta destas elei\u00e7\u00f5es regionais. E, entre aqueles (bem raros) que nesse dia se votaram, 34% dos entre 18-30 anos deram o seu sufr\u00e1gio \u00e0 Frente nacional [3].<\/p>\n<p>Tal fen\u00f3meno est\u00e1 presente h\u00e1 muito tempo em quase todos os Estados europeus. Traduz-se pelo crescimento na Su\u00ed\u00e7a da UDC, cujo l\u00edder Oskar Freysinger quer defender \u00aba bandeira nacional, que ostenta uma cruz\u00bb, e o hino nacional (que) tem, lembra ele, a forma de um c\u00e2ntico\u00bb. Este vento mau inflama, na Pol\u00f3nia, o eleitorado do PiS (O partido Direito e justi\u00e7a\u00bb, Prawo i Sprawiedliwose) cujo deputado Marek Jurek diz recusar a \u00abislamiza\u00e7\u00e3o\u00bb do pa\u00eds. Em It\u00e1lia, \u00e9 preciso votar na Liga, que n\u00e3o \u00e9 apenas do Norte: o senador Volpi, membro da Liga, afirma claramente opor-se \u00e0 \u00abexplos\u00e3o migrat\u00f3ria\u00bb e defender \u00abos valores ancestrais\u00bb. Os pa\u00edses n\u00f3rdicos, como Francis Arzalier, observa, v\u00eaem em cada momento eleitoral aumentar os mesmos intrat\u00e1veis defensores de uma identidade pretensamente amea\u00e7ada, \u00abVerdadeiros Finlandeses\u00bb em Hels\u00ednquia, \u00abDemocratas\u00bb da Su\u00e9cia ou da Noruega, \u00abPartido do povo dinamarqu\u00eas\u00bb em Copenhaga, que se definem todos como \u00abidentit\u00e1rios\u00bb, fascistas de toda a esp\u00e9cie proclamam alto e bom som que os antigos colaboradores dos nazis foram na verdade os verdadeiros patriotas, na Eslov\u00e1quia, na Let\u00f3nia, na Ucr\u00e2nia, etc. Ou ainda partid\u00e1rios do universit\u00e1rio brit\u00e2nico John Laughland, pr\u00f3ximo do partido UKIP (Partido da Independ\u00eancia do Reino Unido) ou os inquietantes manifestantes de \u00abPegida\u00bb [4], em Dresden, na Alemanha, para os quais a f\u00f3rmula \u00abN\u00f3s somos o povo\u00bb exprime a vontade de defender o \u00absangue germ\u00e2nico\u00bb como h\u00e1 setenta anos\u2026 [5]<\/p>\n<p><strong>Paris, 13 de Novembro 2015<br \/>\nUm breve apanhado dos factos<\/strong><\/p>\n<p>Paris ter\u00e1 conhecido, na sexta-feira 13 de Novembro de 2015, uma noite marcada pelos piores atentados jamais cometidos em Fran\u00e7a, 150 mortos, 351 feridos. Tratou-se, na ocorr\u00eancia, de um terr\u00edvel cocktail, constitu\u00eddo por v\u00e1rios massacres coordenados, que lembravam simultaneamente: 1\u00ba os massacres de Mumbai, na \u00cdndia (em Novembro de 2008, uma dezena de ataques coordenados e que levaram \u00e0 morte de 170 pessoas ao acaso e feriram outras 330); 2\u00ba a tomada de ref\u00e9ns no teatro de Doubrovka em Moscovo (170 mortos, em Outubro de 2002, depois da tomada como ref\u00e9ns de quase 1.000 espectadores por um comando checheno, composto de uns cinquenta homens armados; 3\u00ba o recente atentado kamikase de Beirute (a 12 de Novembro, dois kamikazes accionam os seus cintur\u00f5es explosivos diante de um centro comercial, causando a morte de mais de 40 pessoas e ferindo outros 200) \u2026<\/p>\n<p>Os franceses e todos os que residem em Fran\u00e7a acordaram na manh\u00e3 seguinte a 13 de Novembro, \u00abensonados\u00bb, groggy, mergulhados em tristeza. Tinham acabado de saber que o pa\u00eds estava a partir da\u00ed \u00abem guerra\u00bb. Na verdade, foi essa f\u00f3rmula entoada em un\u00edssono pela maioria dos membros da \u00abclasse pol\u00edtica\u00bb: o presidente Fran\u00e7ois Hollande (Partido socialista), o seu primeiro-ministro, Manuel Valls (que igual a si pr\u00f3prio evocou uma \u00abguerra que nos foi declarada\u00bb, o seu predecessor Nicolas Sarkozy (direita), etc. \u00abDesta vez \u00e9 a guerra\u00bb podia ler-se no s\u00e1bado 14, de manh\u00e3, na primeira p\u00e1gina do jornal Le Parisien Aujourd\u2019hui en France. Numa pagina totalmente negra Le F\u00edgaro, titulava, tamb\u00e9m ele, a \u00abFran\u00e7a em Guerra\u00bb, etc.<\/p>\n<p><strong>Primeira fun\u00e7\u00e3o dos grandes media:<br \/>\nfornecer uma vers\u00e3o in-dis-cu-t\u00ed-vel<br \/>\ndos acontecimentos<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 normal, durante v\u00e1rios dias e a toda a hora, os grandes media papaguearam uma vers\u00e3o \u00fanica e inteiramente in-dis-cu-t\u00ed-vel sobre a identidade dos assassinos, o seu modus operandi, os factos e gestos m\u00ednimos. Esses senhores e senhoras quase sempre t\u00e3o agressivamente ir\u00f3nicos, t\u00e3o obsessivamente inclinados \u00e0 \u00abdecrepitude\u00bb e \u00e0 a p\u00f4r em causa a mais simples declara\u00e7\u00e3o de um \u00abmalvado\u00bb (quer se trate de um chefe de Estado a abater, ou se um simples sindicalista), limitaram-se, como sempre, a repetir esta vers\u00e3o, sem nunca sublinhar qualquer bizarria ou inverdade. A martelar, por assim dizer, informa\u00e7\u00f5es, vindas dos servi\u00e7os da pol\u00edcia nacional e dos departamentos governamentais.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste mesmo ano de 2015, por ocasi\u00e3o do assass\u00ednio dos caricaturistas do jornal Charlie Hebdo, j\u00e1 se sabia que os membros de um comando de assassinos de aspecto muito \u00abprofissional\u00bb, tinham sido encontrados, depois abatidos (como de costume), no espa\u00e7o de 24 horas, apesar de um deles, Said Kopuachi, ter deixado o seu cart\u00e3o de identidade num ve\u00edculo utilizado, e depois abandonado pelos assassinos algures nos limites de Paris. Estranho cen\u00e1rio. Desta vez, no m\u00eas de Novembro, os media \u00e0s ordens desdobraram-se a difundir micro-pormenores que ningu\u00e9m poder\u00e1 alguma vez verificar, mas que constituem a vers\u00e3o oficial sobre como procederam e foram executados os criminosos, que n\u00e3o tiveram nem processo nem silhueta bem delineada. Para nos limitarmos a um \u00fanico exemplo, \u00e9 dificilmente compreens\u00edvel que v\u00e1rios destes tr\u00eas \u00abkamikazes\u00bb, que segundo informa\u00e7\u00f5es, tinham \u00abpreparado minuciosamente as suas opera\u00e7\u00f5es\u00bb se tenham feito explodir longe das multid\u00f5es. Tr\u00eas deles, segundo nos informaram, foram at\u00e9 ao est\u00e1dio de Fran\u00e7a, em Saint Denis, numa noite de desafio de futebol. Havia multid\u00f5es\u2026 Depois teriam, cada um deles, feito accionar o detonador do seu cintur\u00e3o de explosivos, um numa rua adjacente, outro diante de um bar, e o terceiro diante de uma porta do est\u00e1dio, ent\u00e3o deserta. Tudo isso para afinal matar s\u00f3 uma pessoa, algu\u00e9m que passava, por acaso. Mas o atentado suicida mais terr\u00edvel sucedeu no bar \u00abComptoir Voltaire\u00bb, perto da pra\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o. Segundo o Expresso, um jornal s\u00e9rio, \u00abo terrorista\u00bb instalou-se tranquilamente no caf\u00e9. Foi quando fez o pedido que se explodiu [6], o que provocou a sua morte assim como ferimentos num empregado particularmente infeliz que se encontrava a menos de um metro dele [7]<\/p>\n<p>Tudo isto se junta \u00e0s j\u00e1 cl\u00e1ssicas cenas alucinantes que foram lan\u00e7ando ao longo do dia as cadeias ditas de \u00abinforma\u00e7\u00e3o\u00bb, principais vectores da difus\u00e3o do terror em Fran\u00e7a, que tudo teria acontecido de repente, como se algu\u00e9m tivesse tentado a toda a for\u00e7a uma submiss\u00e3o perfeita dos eleitos e dos simples cidad\u00e3os \u00e0 opacidade militar.<\/p>\n<p><strong>Os medias, ainda e sempre:<br \/>\nA indecente apoteose do psicobl\u00e1bl\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>Durante mais de dez dias, foram proferidas as mais fr\u00edvolas reflex\u00f5es num tom douto, e conseguiram saturar o espa\u00e7o medi\u00e1tico, alternando com informa\u00e7\u00f5es\u00bb repetidas at\u00e9 \u00e0 n\u00e1usea e an\u00e1lises fornecidas por muitos especialistas\u00bb, mais ou menos autoproclamados. \u00c9 importante lembrar que todos que procuravam informa\u00e7\u00f5es, na r\u00e1dio, televis\u00e3o ou Internet, quase sempre ca\u00edam nas mesmas vozes idiotas de sempre: \u00abcomprem isto! Comprem aquilo! Durante a carnificina e o luto, por assim dizer, os neg\u00f3cios continuaram\u2026<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a, dizia um, seria odiada pelos jiadistas porque \u00e9 o pa\u00eds do prazer, do pensamento e da do\u00e7ura de viver [8] Nada mais que isso! \u00c9 certo que um tal \u00abespecialista\u00bb em hedonismo-turismo-e-<wbr \/>ressentimentos-culturais-e-<wbr \/>sociais teria podido utilizar essa frase, que serviria muito bem e que \u00e9 retirada do comunicado delirante atribu\u00eddo a essa nebulosa chamada \u00abDaesh\u00bb (EIIL \u2013 abreviatura \u00e1rabe do \u00abEstado Isl\u00e2mico no Iraque e no Levante\u00bb). \u00abTomamos como alvo a capital da abomina\u00e7\u00e3o e da pervers\u00e3o\u00bb [9].<\/p>\n<p>Outros cujo nome n\u00e3o importa, revelando at\u00e9 que ponto um empolamento egoc\u00eantrico e megal\u00f3mano se propagou na sua profiss\u00e3o, garantem que alguns bairros (o 10.o e o 11.o de Paris) foram escolhidos pelos autores desses crimes, porque l\u00e1 vivem muitos jornalistas (!), e que isso garantia aos assassinos um grande efeito medi\u00e1tico; etc. Uma boa parte do espa\u00e7o p\u00fablico (como se chama por piada) foi igualmente oferecido aos autores de coment\u00e1rios mais ou menos ins\u00edpidos, perfeitamente despolitizados e revelando frequentemente confiss\u00f5es amedrontadas ou at\u00e9 do g\u00e9nero \u00abpsico-bl\u00e1bl\u00e1\u00bb, g\u00e9nero que nos nossos dias faz furor. O escritor Camille Laurens avisa assim os leitores do Lib\u00e9ration que \u00abcada um de n\u00f3s est\u00e1 visado simplesmente pela raz\u00e3o de existir [10].<\/p>\n<p>Outros debitaram sobre uma gera\u00e7\u00e3o (18-35 anos) que<\/p>\n<p>tomaram como alvo: a que frequenta os bares e concertos rock; \u00e9 poss\u00edvel, mas ao fazerem essa afirma\u00e7\u00e3o, ignoram soberanamente aa idade dos jovens assassinos, todos ou quase todos longe de serem actores externos da sociedade francesa, tendo crescido, segundo parece, na Europa, em Estrasburgo, ou nos arredores de Bruxelas\u2026 Foi o que martelaram da maneira mais fren\u00e9tica \u00abn\u00e3o nos atacam tanto pelo fazemos mas pelo que somos. Marcela Iacub, directora de pesquisa no CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Cient\u00edfica) especialista na propaga\u00e7\u00e3o dos paradoxos bobo-libero-libert\u00e1rios, e que foi recentemente not\u00edcia, no microcosmo parisiense, ao fazer a apologia de um \u00abdireito \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o [11], decide agora explicar o momento actual, pretendendo interrogar-se sobre uma quest\u00e3o crucial, ou seja: \u00abPorque n\u00e3o dar a todos esses jovens a possibilidade de uma sexualidade livre, para evitar transformar os seus desejos recalcados em actos violentos? [12]Malek Chebel, antrop\u00f3logo, anuncia que a \u00abcidadania\u00bb (mais uma palavra que seria bom explicar inteligivelmente ao autor destas linhas!) constituiria \u00abo la\u00e7o visceral que nos une a todos\u00bb [13]. Quanto a Dounia Bouzar, tamb\u00e9m apresentada como \u00abantrop\u00f3loga\u00bb, diz-nos que \u00abos jovens terroristas est\u00e3o desumanizados\u00bb [14]. Um verdadeiro achado! Gra\u00e7as, Dounia!<\/p>\n<p>Mis\u00e9ria da politologia, quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nem \u00abimperialismo\u00bb, nem pa\u00edses dominados, nem complexo militar-industrial, nem classes sociais, nem conflitos sociais, mas apenas grupos de press\u00e3o, \u00abcomunidades\u00bb, confiss\u00f5es, indiv\u00edduos, \u00aborienta\u00e7\u00f5es\u00bb, ou outras \u00abidentidades\u00bb religiosas, \u00e9tnicas, sexuais, etc. Mis\u00e9ria da cr\u00edtica de pretens\u00e3o anal\u00edtica, quando a reduzem a um psico-bl\u00e1-bl\u00e1 sem fundamento, sem efeito e destitu\u00edda da menor import\u00e2ncia, quando a guerra que fazemos no pa\u00eds dos outros se transforma num jogo de v\u00eddeo \u2014 um jogo em que o mau nunca deixa de ser uma esp\u00e9cie de punching-ball virtual e ectopl\u00e1smico a 200%.<\/p>\n<p><em>Notas:<\/em><\/p>\n<p>[1] Cf. A este respeito: KANT (Emmanuel), Para a paz perp\u00e9tua (1795) \u00abSegundo artigo definitivo para a paz perp\u00e9tua\u00bb; trad. Francesa, Paris, Hatier, 2001, p. 25<br \/>\n[2] Sete regi\u00f5es da direita dita \u00abcl\u00e1ssica\u00bb e cinco \u00e0 \u00abesquerda\u00bb, que se quer assim chamar, \u2014 uma decima terceira regi\u00e3o (a C\u00f3rsega) que ficou nos autonomistas locais.<\/p>\n<p>[3] Mis\u00e9ria c\u00edvica, massividade da absten\u00e7\u00e3o: um modelo made in USA<br \/>\n\u00e9 o t\u00edtulo que dei, no meio do meu Ensaio Elei\u00e7\u00f5es, armadilha? Que resta da democracia? (Paris, Flammarion\/Antidote\u00bb 2011, p. 30-34), em cujas p\u00e1ginas onde evoquei essas taxas de absten\u00e7\u00e3o \u00ab\u00e0 americana\u00bb que agora s\u00e3o normais na Europa.<br \/>\nLembro ainda que pode ler-se o que se segue num relat\u00f3rio de 1975, da Comiss\u00e3o Trilateral (cen\u00e1culo de homens de neg\u00f3cios, de altos respons\u00e1veis pol\u00edticos, de \u00abgente que decide\u00bb, foi criado em 1973 por iniciativa de David Rockfeller, Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, e procurava orientar a pol\u00edtica dos Estados Unidos, da Europa e do Jap\u00e3o): \u00abO funcionamento eficaz de um sistema democr\u00e1tico requer em geral um certo n\u00edvel de apatia e de n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o da parte de alguns indiv\u00edduos e grupos\u00bb. Como se a exist\u00eancia de um ex\u00e9rcito eleitoral de reserva, de uma massa sempre mais imensa de cidad\u00e3os indiferentes, desabusados ou amorfos, tenha constitu\u00eddo uma das condi\u00e7\u00f5es da coloca\u00e7\u00e3o do Estado reduzido aos adquiridos, do Estado neoliberal, do Estado velador da noite que vai chegar\u00bb (cit. p. 33),<\/p>\n<p>[4] Abrevia\u00e7\u00e3o de Europeus Patriotas contra a islamiza\u00e7\u00e3o da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>[5] Esta recens\u00e3o, a que se poderia juntar a situa\u00e7\u00e3o que existe actualmente na Hungria, na \u00c1ustria, etc. reporta-se a ARZALIER (Francis \u00abAlerta. Das aldeias corsas \u00e0s da Picardia, de Dresden a Copenhaga, o ballet das identidades agressivas\u00bb Veja-se\u2026<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fwww.collectif-communiste-polex.org%2Fmouvement%2520communiste%2Falerte.htm&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNFwubq1U0SUTIxcwlY8YQ9qzCD-Pg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">www.collectif-communiste-<wbr \/>polex.org\/mouvement%<wbr \/>20communiste\/alerte.htm<\/a> (cf. igualmente, do mesmo autor, As na\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e as suas patologias nacionalistas. Da revolu\u00e7\u00e3o francesa \u00e0 FN, Paris, Delga, 2015).<\/p>\n<p>[6] Cf. \u00abNa Nation, o kamikaze fez-se saltar ao fazer o pedido\u00bb, o comando, por A. Sulzer _ <a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Flexpress.fr%2Factuelle%2Fsociete%2Ffait-divers%2Fa-nation-le-kamikaze-s-est-fit-sauter-en-passant-la-commande-1735885.html&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNFU-cClp2QYVSbp52TcxeDeuFEBZw\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">http:\/\/lexpress.fr\/actuelle\/<wbr \/>societe\/fait-divers\/a-nation-<wbr \/>le-kamikaze-s-est-fit-sauter-<wbr \/>en-passant-la-commande-<wbr \/>1735885.html<\/a><\/p>\n<p>[7] Veja-se:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fwww.w.wistrike.com%2F2015%2F11%2Fbreaking-newas-la-preuve-que-les-attentats-de-paris-sont-un-false-flag.htmlet&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNEo4GPfuBOPkhdPOIdQzxi81w9M9Q\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">http:\/\/www.w.wistrike.com\/<wbr \/>2015\/11\/breaking-newas-la-<wbr \/>preuve-que-les-attentats-de-<wbr \/>paris-sont-un-false-flag.<wbr \/>htmlet<\/a><br \/>\nNo site Wikistrike, e sob o t\u00edtulo \u00abA prova que os atentados de Paris s\u00e3o um false flag (um atentado cometido sob uma bandeira falsa)\u00bb David J. Feldmann escreve depois o que chama\u00bb O mist\u00e9rio dos 3 kamikazes do est\u00e1dio de Fran\u00e7a\u00bb Entre outras coisas afirma:<br \/>\nPorque se fizeram explodir naqueles locais? Todos se interrogam. Ningu\u00e9m entende. Pesquisadores e especialistas tentam saber porqu\u00ea, j\u00e1 que poderiam ter causado uma carnificina e um p\u00e2nico mortal, os tr\u00eas kamikazes do est\u00e1dio de Fran\u00e7a explodiram-se na sexta feira 13 de Novembro em locais isolados, matando apenas uma pessoa, e at\u00e9 essa provavelmente por acidente, onde poderiam ter feito muito mais vitimas.\u00bb Segundo o autor desse artigo, \u00abos servi\u00e7os secretos accionaram por controle remoto micro-explosivos que dissimularam no blus\u00e3o ou no cintur\u00e3o de Brahim Abdeslam (o indiv\u00edduo que se fez explodir, sozinho, \u00e0s 21 e 41 no terra\u00e7o do bar \u00abComptoir Voltaire\u00bb com poder suficiente para o matar e ferir pessoas \u00e0 volta, mas sem grande gravidade. Tudo isso para fazer crer num atentado suicida.\u00bb \u2014 Vers\u00e3o totalmente \u00abcomplotista como diriam os amadores de evidencias e de interpreta\u00e7\u00f5es. Ou hip\u00f3tese poss\u00edvel, entre muitas outras?<\/p>\n<p>[8] CLERC (Thomas), \u00abNas margens do canal Saint-Martin, o terror surge ali, onde Paris vivia em paz\u00bb, Le Monde, 16 de Novembro 2015: O terrorismo odeia a uni\u00e3o do prazer com o pensamento\u00bb, etc.<\/p>\n<p>[9] <a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fwww.medias-presse.info%2Flet-islamique-revendique-au-nom-dallah-le-misericordieux-l-abominable-carnage-de-paris-du-13-au-14-novembre-2015-texte-integral%2F43370&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNGcNENatOpORg8gYy92MsQh6oB66Q\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">http:\/\/www.medias-presse.info\/<wbr \/>let-islamique-revendique-au-<wbr \/>nom-dallah-le-misericordieux-<wbr \/>l-abominable-carnage-de-paris-<wbr \/>du-13-au-14-novembre-2015-<wbr \/>texte-integral\/43370<\/a><\/p>\n<p>[10] Lib\u00e9ration, 20 de Novembro 2015.<\/p>\n<p>[11] Ver o seu artigo intitulado \u00abPara um servi\u00e7o publico do sexo\u00bb, publicado no Lib\u00e9ration, a 28 de Setembro de 2012.<\/p>\n<p>[12] JACUB (Marcela), \u00abDa mis\u00e9ria sexual dos islamitas\u00bb, Lib\u00e9ration, 14-15 Novembro 2015: \u00abEis uma pista que o Minist\u00e9rio do Interior deveria considerar na sua luta contra a radicaliza\u00e7\u00e3o dos jovens franceses: dar todos os meios poss\u00edveis para que todos tenham uma sexualidade sen\u00e3o livre pelo menos poss\u00edvel e agrad\u00e1vel, a fim de que [\u2026] pensem que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o para\u00edso, depois de ter assassinado algumas dezenas de pessoas, que poder\u00e3o gozar as del\u00edcias do erotismo\u00bb Obrigado mil vezes, cara Marcela, por esta an\u00e1lise t\u00e3o cheia de penetra\u00e7\u00e3o, t\u00e3o sexy e t\u00e3o endiabrada!<br \/>\n[13] L\u2019Humanit\u00e9, 20-22 de Novembro de 2015<br \/>\n[14] Ibid.<\/p>\n<p>* Jean Salem, amigo e colaborador de <a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fodiario.info&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNH5vF4LWdhmBP8h8FJqUbwEJKHSnA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer\">odiario.info<\/a>, \u00e9 Professor de Filosofia na Sorbonne, Fran\u00e7a. Em Portugal est\u00e1 editado do Autor L\u00e9nine e a Revolu\u00e7\u00e3o, Editorial Avante, Lisboa, 2007.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Manuela Antunes<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jean Salem* O texto que hoje publicamos \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o e os dois primeiros cap\u00edtulos de La D\u00e9mocratie de Caserne, Apr\u00e8s les atentats \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10483\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[],"class_list":["post-10483","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2J5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10483\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}