{"id":1054,"date":"2010-12-10T03:57:05","date_gmt":"2010-12-10T03:57:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1054"},"modified":"2010-12-10T03:57:05","modified_gmt":"2010-12-10T03:57:05","slug":"nao-matem-o-mensageiro-por-revelar-verdades-incomodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1054","title":{"rendered":"N\u00e3o matem o mensageiro por revelar verdades inc\u00f3modas"},"content":{"rendered":"\n<p>WIKILEAKS merece protec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o amea\u00e7as e ataques.<\/p>\n<p>Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, ent\u00e3o propriet\u00e1rio e editor do jornal <em>The News, <\/em>de Adelaide, escreveu: &#8220;Na corrida entre o segredo e a verdade, parece inevit\u00e1vel que a venda sempre ven\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>A sua observa\u00e7\u00e3o talvez reflicta o desmascaramento feito pelo seu pai, Keith Murdoch, de que tropas australianas estavam a ser sacrificadas inutilmente nas praias de Galipoli por comandantes brit\u00e2nicos incompetentes. Os brit\u00e2nicos tentaram cal\u00e1-lo mas Keith Murdoch n\u00e3o foi silenciado e os seus esfor\u00e7os levaram ao t\u00e9rmino da desastrosa campanha de Galipoli.<\/p>\n<p>Aproximadamente um s\u00e9culo depois, WikiLeaks est\u00e1 tamb\u00e9m a publicar destemidamente factos que precisam ser tornados p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Criei-me numa cidade rural em Queensland onde as pessoas falavam dos seus pensamentos directamente. Elas desconfiavam do governo como de algo que podia ser corrompido se n\u00e3o fosse vigiado cuidadosamente. Os dias negros de corrup\u00e7\u00e3o no governo de Queensland antes do inqu\u00e9rito Fitzgerald testemunham do que acontece quando pol\u00edticos amorda\u00e7am os media que informam a verdade.<\/p>\n<p>Estas coisas ficaram em mim. WikiLeaks foi criado em torno destes valores centrais. A ideia, concebida na Austr\u00e1lia, era utilizar tecnologias da Internet de novas maneiras a fim de relatar a verdade.<\/p>\n<p>WikiLeaks cunhou um novo tipo de jornalismo: jornalismo cient\u00edfico. Trabalhamos com outros media para levar not\u00edcias \u00e0s pessoas, assim como para provar que s\u00e3o verdadeiras. O jornalismo cient\u00edfico permite-lhe ler um artigo e ent\u00e3o clicar online para ver o documento original em que se baseia. Esse \u00e9 o modo como pode julgar por si pr\u00f3prio: Ser\u00e1 verdadeiro este artigo? Ser\u00e1 que o jornalista informou com rigor?<\/p>\n<p>Sociedades democr\u00e1ticas precisam de meios de comunica\u00e7\u00e3o fortes e WikiLeaks faz parte desses media. Os media ajudam a manter o governo honesto. WikiLeaks revelou algumas verdades duras acerca das guerras do Iraque e Afeganist\u00e3o, e desvendou not\u00edcias acerca da corrup\u00e7\u00e3o corporativa.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que sou anti-guerra: para que conste, n\u00e3o sou. Por vezes os pa\u00edses precisam ir \u00e0 guerra e h\u00e1 guerras justas. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo acerca daquelas guerras, pedindo ent\u00e3o a estes mesmos cidad\u00e3os para porem as suas vidas e os seus impostos ao servi\u00e7o daquelas mentiras. Se uma guerra \u00e9 justificada, ent\u00e3o digam a verdade e o povo decidir\u00e1 se a apoia.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 leu algum dos registos da guerra do Afeganist\u00e3o ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos EUA ou algumas das hist\u00f3rias acerca das coisas que WikiLeaks informou, considere qu\u00e3o importante \u00e9 para todos os media ter capacidade para relatar estas coisas livremente.<\/p>\n<p>WikLeaks n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico divulgador dos telegramas de embaixadas dos EUA. Outros media, incluindo <em>The Guardian <\/em>brit\u00e2nico, <em>The New York Times, El Pais <\/em>na Espanha e <em>Der Spiegel <\/em>na Alemanha publicaram os mesmos telegramas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 o WikiLeaks, como coordenador destes outros grupos, que tem enfrentado os ataques e acusa\u00e7\u00f5es mais brutais do governo dos EUA e dos seus ac\u00f3litos. Fui acusado de trai\u00e7\u00e3o, embora eu seja australiano e n\u00e3o cidad\u00e3o dos EUA. Houve d\u00fazias de apelos graves nos EUA para eu ser &#8220;removido&#8221; pelas for\u00e7as especiais estado-unidenses. Sarah Palin diz que eu deveria ser &#8220;perseguido e capturado como Osama bin Laden&#8221;, um projecto de republicano no Senado dos EUA procura declarar-me uma &#8220;amea\u00e7a transnacional&#8221; e desfazer-se de mim em conformidade. Um conselheiro do gabinete do primeiro-ministro do Canad\u00e1 apelou na televis\u00e3o nacional ao meu assassinato. Um bloguista americano apelou a que o meu filho de 20 anos, aqui na Austr\u00e1lia, fosse sequestrado e espancado por nenhuma outra raz\u00e3o sen\u00e3o a de atingir-me.<\/p>\n<p>E os australianos deveriam observar com nenhum orgulho o deplor\u00e1vel est\u00edmulo a estes sentimentos por parte de Julia Gillard e seu governo. Os poderes do governo australiano parecem estar \u00e0 plena disposi\u00e7\u00e3o dos EUA quer para cancelar meu passaporte australiano ou espionar ou perseguir apoiantes do WikiLeaks. O procurador-geral australiano est\u00e1 a fazer tudo o que pode para ajudar uma investiga\u00e7\u00e3o estado-unidense destinada claramente a enquadrar cidad\u00e3os australianos e despach\u00e1-los para os EUA.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro Gillard e a secret\u00e1ria de Estado Hillary Clinton n\u00e3o tiveram uma palavra de cr\u00edtica para com as outras organiza\u00e7\u00f5es de media. Isto acontece porque <em>The Guardian, The New York Times <\/em>e <em>Der Spiegel <\/em>s\u00e3o antigos e grandes, ao passo que WikiLeaks ainda \u00e9 jovem e pequeno.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos os perdedores. O governo Gillard est\u00e1 a tentar matar o mensageiro porque n\u00e3o quer que a verdade seja revelada, incluindo informa\u00e7\u00e3o acerca do seu pr\u00f3prio comportamento diplom\u00e1tico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 havido alguma resposta do governo australiano \u00e0s numerosas amea\u00e7as p\u00fablicas de viol\u00eancia contra mim e outros colaboradores do W\u00eekLeaks? Algu\u00e9m poderia pensar que um primeiro-ministro australiano defendesse os seus cidad\u00e3os contra tais coisas, mas houve apenas afirma\u00e7\u00f5es de ilegalidade completamente n\u00e3o fundamentadas. O primeiro-ministro e especialmente o procurador-geral pretendem cumprir seus deveres com dignidade e acima da perturba\u00e7\u00e3o. Fique tranquilo, aqueles dois pretendem salvar as suas pr\u00f3prias peles. Eles n\u00e3o conseguir\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as vezes que WikiLeaks publica a verdade acerca de abusos cometidos por ag\u00eancias dos EUA, pol\u00edticos australianos cantam um coro comprovadamente falso com o Departamento de Estado: &#8220;Voc\u00ea arriscar\u00e1 vidas! Seguran\u00e7a nacional! Voc\u00ea p\u00f5e tropas em perigo!&#8221; Mas a seguir dizem que n\u00e3o h\u00e1 nada de importante no que WikiLeaks publica. N\u00e3o pode ser ambas as coisas, uma ou outra. Qual \u00e9?<\/p>\n<p>Nenhuma delas. WikiLeaks tem um historial de publica\u00e7\u00e3o quatro anos. Durante esse tempo mud\u00e1mos governos, mas nem uma \u00fanica pessoa, que se saiba, foi prejudicada. Mas os EUA, com a coniv\u00eancia do governo australiano, mataram milhares de pessoas s\u00f3 nestes \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio da Defesa dos EUA, Robert Gates, admitiu numa carta ao congresso estado-unidense que nenhumas fontes de intelig\u00eancia ou m\u00e9todos sens\u00edveis haviam sido comprometidos pela revela\u00e7\u00e3o dos registos de guerra afeg\u00e3os. O Pent\u00e1gono declarou que n\u00e3o havia evid\u00eancia de que as informa\u00e7\u00f5es do WikiLeaks tivessem levado qualquer pessoa a ser prejudicada no Afeganist\u00e3o. A NATO em Cabul disse \u00e0 CNN que n\u00e3o podia encontrar uma \u00fanica pessoa que precisasse de proteger. O Departamento da Defesa australiano disse o mesmo. Nenhuma tropa ou fonte australiana foi prejudicada por qualquer coisa que tiv\u00e9ssemos publicado.<\/p>\n<p>Mas as nossas publica\u00e7\u00f5es estavam longe de serem n\u00e3o importantes. Os telegramas diplom\u00e1ticos dos EUA revelam alguns factos estarrecedores:<\/p>\n<ul>\n<li>Os EUA pediram aos seus diplomatas para roubar material humano pessoal e informa\u00e7\u00e3o de respons\u00e1veis da ONU e de grupos de direitos humanos, incluindo DNA, impress\u00f5es digitais, escaneriza\u00e7\u00e3o de \u00edris, n\u00fameros de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, passwords de Internet e fotos de identifica\u00e7\u00e3o, violando tratados internacionais. Presumivelmente, diplomatas australianos na ONU tamb\u00e9m podem ser atacados. <\/li>\n<li>O rei Abdula da Ar\u00e1bia Saudita pediu que os EUA atacassem o Ir\u00e3o. <\/li>\n<li>Respons\u00e1veis na Jord\u00e2nia e no Bahrain querem que o programa nuclear do Ir\u00e3o seja travado por quaisquer meios dispon\u00edveis. <\/li>\n<li>O inqu\u00e9rito do Iraque na Gr\u00e3-Bretanha foi viciado para proteger &#8220;US interests&#8221;. <\/li>\n<li>A Su\u00e9cia \u00e9 um membro encoberto da NATO e a partilha da intelig\u00eancia dos EUA \u00e9 resguardada do parlamento. <\/li>\n<li>Os EUA est\u00e3o a agir de forma agressiva para conseguir que outros pa\u00edses recebam detidos libertados da Baia de Guantanamo. Barack Obama s\u00f3 concordou em encontrar-se com o presidente esloveno se a Eslov\u00e9nia recebesse um prisioneiro. Ao nosso vizinho do Pac\u00edfico, Kiribati, foram oferecidos milh\u00f5es de d\u00f3lares para aceitar detidos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Na sua memor\u00e1vel decis\u00e3o no caso dos Pentagon Papers, o Supremo Tribunal dos EUA declarou: &#8220;s\u00f3 uma imprensa livre e sem restri\u00e7\u00f5es pode efectivamente revelar fraude no governo&#8221;. Hoje, a tempestade vertiginosa em torno do WikiLeaks refor\u00e7a a necessidade de defender o direito de todos os media revelarem a verdade.<\/p>\n<p>08\/Dezembro\/2010<\/p>\n<p><strong>*Editor-chefe do WikiLeaks. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.theaustralian.com.au\/in-depth\/wikileaks\/dont-shoot-messenger-for-revealing-uncomfortable-truths\/story-fn775xjq-1225967241332\" target=\"_blank\">www.theaustralian.com.au<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/varios\/assange_08dez10.html\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info<\/a><\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: wikipedia.org\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Julian Assange*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1054\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1054","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-h0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1054\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}