{"id":1058,"date":"2010-12-13T21:08:58","date_gmt":"2010-12-13T21:08:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1058"},"modified":"2010-12-13T21:08:58","modified_gmt":"2010-12-13T21:08:58","slug":"derrotar-dilma-nas-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1058","title":{"rendered":"DERROTAR DILMA NAS RUAS"},"content":{"rendered":"\n<p>Exatamente como aconteceu no dia 3 de outubro, 36 milh\u00f5es de eleitores (n\u00famero equivalente 27% do universo de 136 milh\u00f5es de brasileiros qualificados para votar) preferiram n\u00e3o depositar o seu voto em qualquer candidato \u00e0 presid\u00eancia. Esse \u00e9, de longe, o dado mais significativo de segundo turno das elei\u00e7\u00f5es: 4,7 milh\u00f5es anularam o voto, 2,5 milh\u00f5es votaram em branco e 29 milh\u00f5es se abstiveram. Dilma Rousseff foi eleita, portanto com apenas 41% do total de votos poss\u00edveis, ao passo que Jos\u00e9 Serra obteve 32% (isto \u00e9, ficou m\u00edseros 5 pontos percentuais acima dos votos n\u00e3o v\u00e1lidos e das absten\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>Para um pa\u00eds onde o voto \u00e9 obrigat\u00f3rio, os resultados revelam, no m\u00ednimo, que boa parte de popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o deposita qualquer confian\u00e7a ou entusiasmo nos dois candidatos. Os votos em Dilma tampouco demonstraram uma suposta for\u00e7a de \u201cesquerda a direita\u201d como alardeiam supostas lideran\u00e7as da mais suposta ainda \u201cesquerda\u201d, j\u00e1 que boa parte dos votos foi carreada pela m\u00e1quina coronelista do PMDB, com a preciosa ajuda de tradicionais esquerdistas do quilate de Jos\u00e9 Sarney e Michel Temer, e outra parte, ainda foi depositada pelo subproletariado cooptado pela distribui\u00e7\u00e3o das migalhas oriundas do assistencialismo estatal.<\/p>\n<p>Os votos em Dilma n\u00e3o refletem sequer o apoio do Partido dos Trabalhadores \u00e0 sua candidatura. Dilma foi a \u201ccandidata do lula\u201d, n\u00e3o do PT a presid\u00eancia do pa\u00eds. Ela filiou\u2014se ao PT apenas em 2001, n\u00e3o tem base partid\u00e1ria e foi guindada pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u00e0 chefia da casa civil ap\u00f3s a queda de Jos\u00e9 Dirceu, em 2005, em detrimento da op\u00e7\u00e3o por petistas \u201chist\u00f3ricos\u201d. Da mesma forma, Lula acertou \u201cpelo alto\u201d um acordo com o PMDB, assegurando-lhe o cargo de vice de Dilma (Michel Temer) e o apoio do PT \u00e0 candidatura aos governos do Maranh\u00e3o (Roseana Sarney) e Minas Gerais (H\u00e9lio Costa).<\/p>\n<p>Os conflitos provocados no PT por essas medidas foram p\u00fablicos, assim como as defec\u00e7\u00f5es que o partido sofreu a partir de 2003, incluindo a de petistas \u201cemblem\u00e1ticos\u201d como Helo\u00edsa Helena, Marina Silva e Ivan Valente, entre outros. A capacidade de Lula impor a sua vontade ai PT decorre de uma combina\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplus fatores: alian\u00e7as internas entre grupos que formam a \u201cm\u00e1quina\u201d do partido, controladas diretamente por ele; uma pol\u00edtica de coopta\u00e7\u00e3o de militantes guinados a cargos p\u00fablicos bem remunerados e o mais importante: o fortalecimento do \u201clulismo\u201d descolado do PT.<\/p>\n<p>O \u201clulismo\u201d \u2013 do qual Dilma tornou-se imagem refratada \u2013 \u00e9, provavelmente, o fen\u00f4meno pol\u00edtico e social mais importante e nefasto do cen\u00e1rio conjuntural brasileiro contempor\u00e2neo. Come\u00e7ou a adquirir uma forma n\u00edtida e concreta a partir de 1998, quando Lula, antes identificado com as grande greves do ABC, passou a se apresentar como \u201clulinha paz e amor\u201d e a cortejar o voto do subproletariado \u2013 constitu\u00eddo por trabalhadores informais, sem carteira assinada, dispostos a aceitar sal\u00e1rios miser\u00e1veis e condi\u00e7\u00f5es indignas de trabalho -, com um discurso assistencialista (centrando no programa Fome Zero), ao mesmo tempo em que acenava para os banqueiros a disposi\u00e7\u00e3o de aceitar as regras do jogo financeiro, compromisso consagrado pela \u201ccarta aos Brasileiros\u201d,em 2002.<\/p>\n<p>Em sua primeira gest\u00e3o, Lula criou uma s\u00e9rie de programas sociais destinados a atrair o subproletariado. No final de 2003, lan\u00e7ou o Programa Bolsa Familia (PBF), que hoje atende a 12 milh\u00f5es de lares. Entre os milh\u00f5es daqueles que votaram em Lula pela primeira vez em 2006, e os que elegeram Dilma agora, a maioria era composta por nordestinos de renda baixa, o p\u00fablico alvo por excel\u00eancia do PBF. Combinado com o PBF, Lula manteve o controle da infla\u00e7\u00e3o, garantiu um aumento menor do pre\u00e7o da cesta b\u00e1sica nas regi\u00f5es mais pobres, assegurou um ganho real de 25% no sal\u00e1rio m\u00ednimo, criou o \u201ccr\u00e9dito consignado\u201d e outras medidas destinadas a expandir o financiamento popular. Al\u00e9m disso, lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de programas que beneficiam setores tradicionalmente marginalizados, como o Luz para Todos (de eletrifica\u00e7\u00e3o rural).<\/p>\n<p>Se a \u201cdistribui\u00e7\u00e3o real de renda\u201d \u00e9 cantada em verso e prosa pela \u201cesquerda\u201d lulista como \u201cprova\u201d de que seu governo tem \u201cuma lado progressista\u201d, a contrapartida \u00e9 o fato de que Lula passou a governar com o apoio direto do capital financeiro, cujos lucros, sem precedentes na hist\u00f3ria do pa\u00eds, somam dezenas de vezes o total dos investimentos em programas sociais. A contrapartida \u00e9 o apaziguamento de uma ampla camada conservadora da classe m\u00e9dia que quer a \u201cordem\u201d e a estabilidade, e o amor do subproletario, que v\u00ea no presidente um \u201cigual\u201d que \u201cchegou l\u00e1\u201d e est\u00e1 \u201cajeitando as coisas\u201d para os mais pobres. Seu governo incorporou plenamente a no\u00e7\u00e3o conservadora que dispensa a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, pois um Messias conduz as reformas.<\/p>\n<p>Mas para fazer isso Lula teve que \u201ccongelar\u201d- principalmente, por meio da coopta\u00e7\u00e3o \u2013 os movimentos sociais, as principais lideran\u00e7as sindicais do pa\u00eds e \u201crifar\u201d o seu pr\u00f3prio partido, o PT, que hoje existe apenas como sombra do poder pessoal de um presidente que se coloca acima de todos os partidos. O \u201clulismo\u201d significou, portanto, o abandono dos perspectivas de esquerda que estiveram na base da funda\u00e7\u00e3o do PT, as quais pressupunham uma eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe por meio da luta pol\u00edtica. Houve , ao contrario, um rebaixamento da consci\u00eancia. Por essa raz\u00e3o \u00e9 que o esc\u00e2ndalo do \u201cmensal\u00e3o\u201d, em 2005, n\u00e3o impediu a reelei\u00e7\u00e3o de Lula: ele tinha o apoio de uma camada da sociedade que n\u00e3o l\u00ea jornais e que n\u00e3o se sentiu afetada. Por esse mesmo motivo, n\u00e3o teve repercuss\u00f5es mais desastrosas as revela\u00e7\u00f5es. \u00c0s v\u00e9speras do primeiro turno de 2010, das maracutaias envolvendo Erenice Guerra, amiga intima de Dilma e sua substituta na casa civil.<\/p>\n<p>O governo Dilma \u2013 o Lula do mundo bizarro \u2013 ser\u00e1, necessariamente, muito pior e mais ca\u00f3tico. Lula, ao menos, tem brilho pr\u00f3prio, controla a m\u00e1quina petista e coloca-se acima da disputa entre as v\u00e1rias fac\u00e7\u00f5es dos grupos burgueses (negocia, costura acordos e concilia com todos eles, e ainda faz a ponte com o senhores do Imp\u00e9rio). Dilma Roussef n\u00e3o \u00e9 nada disso. Ela deve sua elei\u00e7\u00e3o a Lula, sem ter o seu carisma nem base organizada para sustentar o seu governo. Come\u00e7a como ref\u00e9m do PMDB no congresso e comprometida at\u00e9 o pesco\u00e7o com um programa de governo que significa a manuten\u00e7\u00e3o da total subordina\u00e7\u00e3o ao capital financeiro.<\/p>\n<p>A \u00fanica perspectiva real que sobre \u00e0 esquerda brasileira \u00e9 romper com a paralisia que a marcou durante os oito anos de Lula e passar \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ativa, mais ou menos como propunha a f\u00f3rmula lan\u00e7ada pelo comit\u00ea central do PCB, logo ap\u00f3s o primeiro turno: \u201c<strong><em>Derrotar Serra nas urnas e depois Dilma nas ruas<\/em><\/strong>.\u201d A primeira parte j\u00e1 se cumpriu.<\/p>\n<p><strong>*Jos\u00e9 Arbex Jr. \u00e9 jornalista<\/strong><\/p>\n<p><strong>Publicado em &#8220;Caros Amigos&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de novembro de 2010<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 2.bp.blogspot.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Arbex Jr*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1058\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-1058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-h4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1058\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}