{"id":10585,"date":"2016-03-06T14:58:39","date_gmt":"2016-03-06T17:58:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10585"},"modified":"2017-08-24T22:42:16","modified_gmt":"2017-08-25T01:42:16","slug":"como-superar-os-males-do-lulismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10585","title":{"rendered":"Como superar os males do lulismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/institutolula.org\/uploads\/5296-medium.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Hamilton Octavio de Souza*<\/strong><\/p>\n<p>As v\u00e1rias for\u00e7as pol\u00edticas que comungam os ideais da esquerda, no Brasil, precisam urgentemente reconstruir os seus instrumentos de luta na sociedade com an\u00e1lises, propostas e a\u00e7\u00f5es qualificadas para superar os danos gerais causados pelo lulismo, que \u00e9 respons\u00e1vel n\u00e3o apenas pela descaracteriza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do Partido dos Trabalhadores, mas fundamentalmente pela rendi\u00e7\u00e3o, domestica\u00e7\u00e3o e desarticula\u00e7\u00e3o das principais entidades e movimentos sociais populares <!--more-->constru\u00eddos pelas classes trabalhadoras nas lutas de 1970, 1980 e 1990. Naquelas d\u00e9cadas nasceram a CUT, MST, MNU, CMP, Grito dos Exclu\u00eddos, in\u00fameros movimentos de luta por moradia, centenas de organiza\u00e7\u00f5es voltadas para a defesa dos direitos humanos, das mulheres, dos negros, da juventude e do movimento LGBT.<\/p>\n<p>Com essas ferramentas, a for\u00e7a espetacular do povo deu as caras na Assembleia Constituinte que aprovou a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; deu as caras na campanha eleitoral de Luiza Erundina, em S\u00e3o Paulo, em 1988; deu as caras na campanha eleitoral de Lula, em 1989; deu as caras no impeachment de Collor em 1992; deu as caras nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra as privatiza\u00e7\u00f5es do governo FHC. Mas, gradativamente, o lulismo tratou de hegemonizar a rebeldia popular e de excluir as correntes de esquerda que atuavam dentro do PT; tratou de sufocar in\u00fameras lideran\u00e7as combativas surgidas interna e externamente, at\u00e9 culminar na alian\u00e7a expl\u00edcita com o empresariado nas elei\u00e7\u00f5es de 2002, tendo como vice o industrial Jos\u00e9 Alencar.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do lulismo \u00e9 a hist\u00f3ria de uma lideran\u00e7a popular surgida no meio oper\u00e1rio e na ascens\u00e3o da classe trabalhadora contra o arrocho salarial da ditadura militar, na retomada do sindicalismo combativo; uma lideran\u00e7a impulsionada por setores da Igreja Cat\u00f3lica e apoiada por diversos setores da esquerda, apesar da prematura voca\u00e7\u00e3o anticomunista e antissocialista; uma lideran\u00e7a transformada em mito por setores politizados e intelectualizados das classes m\u00e9dias e idolatrada pelas massas populares; uma lideran\u00e7a que chegou ao governo federal em alian\u00e7a com a direita olig\u00e1rquica tradicional e que, desde ent\u00e3o, utiliza todos os tipos de malabarismos para garantir o apoio eleitoral dos mais pobres e dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, assegurar aos grandes grupos econ\u00f4micos (bancos, agroneg\u00f3cios, empreiteiras) os maiores lucros da hist\u00f3ria do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Loteamento do poder\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Justamente por desprezar a principal contradi\u00e7\u00e3o do sistema (trabalho versus capital) e a exist\u00eancia de doutrina ou programa, por fundamentar-se basicamente no imediatismo e no pragmatismo primitivo, o lulismo atraiu durante anos os mais diferentes segmentos e grupos sociais, ao ponto de se constituir num aglomerado de interesses dispersos, que mistura neg\u00f3cios privados com o Estado, tr\u00e1fico de cargos, privil\u00e9gios e benesses com os recursos dos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Entraram nesse balaio desde os especuladores financeiros que mamam nos juros da d\u00edvida p\u00fablica, os grandes grupos do PAC e benefici\u00e1rios do BNDES, as PPPs das corpora\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociais, at\u00e9 a base da pir\u00e2mide amparada por Bolsa Fam\u00edlia, Prouni, Fies e Pronatec.<\/p>\n<p>Para manter esse conglomerado difuso como instrumento de poder, o lulismo tratou de articular no Congresso Nacional uma base parlamentar fisiol\u00f3gica\u00a0cada vez mais gananciosa, e cada vez mais de direita (neoliberal e conservadora), sustentada com pixulecos\u00a0variados, desde o mensal\u00e3o, loteamento de minist\u00e9rios e de cargos, verbas para parlamentares e a permanente troca de favores.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, precisou ampliar de tal forma o leque de seu esquema de sustenta\u00e7\u00e3o que acabou por carrear ao Congresso Nacional um contingente expressivo de parlamentares manietados pelos lobbies mais nefastos do pa\u00eds, como o do agrot\u00f3xico, do fumo, das montadoras, ruralistas, fundamentalistas evang\u00e9licos e as bancadas da bola e da bala.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 era uma composi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica sem qualquer compromisso program\u00e1tico, o lulismo ficou assentado num terreno ainda mais pantanoso, com estelionat\u00e1rios e reacion\u00e1rios de toda ordem. Em momento de crise econ\u00f4mica, ao contr\u00e1rio do que ocorreu nos seus dois primeiros mandatos, as alian\u00e7as se esgar\u00e7aram ao mesmo tempo em que os setores m\u00e9dios e populares, protegidos por programas sociais em anos anteriores, retornaram \u00e0 instabilidade hist\u00f3rica e \u00e0 vulnerabilidade causada pelo aumento da infla\u00e7\u00e3o e do desemprego, e especialmente pela escassez de recursos nos cofres p\u00fablicos para as &#8220;pol\u00edticas compensat\u00f3rias&#8221; do capitalismo.<\/p>\n<p>O quadro de crise geral econ\u00f4mica e pol\u00edtica, seriamente agravado pelas den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras e pelos processos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, consumiu rapidamente a popularidade do governo Dilma Rousseff, enfraqueceu o PT e colocou em xeque o futuro do lulismo, na medida em que seus esquemas de sustenta\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo pulverizados pelas institui\u00e7\u00f5es do Estado (Pol\u00edcia Federal, Minist\u00e9rio P\u00fablico e Judici\u00e1rio), pela m\u00eddia burguesa, pelos setores m\u00e9dios e pela estrutura partid\u00e1ria tradicional, dentro e fora de seu amplo e multifacetado arco de alian\u00e7as, a come\u00e7ar da dobradinha com o PMDB.<\/p>\n<p><strong>Coer\u00eancia na a\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na medida em que derrete em pra\u00e7a p\u00fablica, o lulismo tem boa parte da sua base social capturada pelos setores mais conservadores da luta pol\u00edtica, que levantam as bandeiras da oposi\u00e7\u00e3o, da cr\u00edtica ao governo e do &#8220;combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o&#8221;. As for\u00e7as sociais do eterno governismo entram em estado de letargia oportunista \u00e0 espera do que vai acontecer. E as for\u00e7as sociais do campo da esquerda que ainda tentam conter a derrocada do lulismo s\u00e3o arrastadas para o centro do p\u00e2ntano, perdem espa\u00e7o na sociedade e se isolam dos pobres e dos trabalhadores, exatamente porque empunham bandeiras desprovidas de significado e coer\u00eancia.<\/p>\n<p>Afinal, por que os movimentos sociais populares e dos trabalhadores seriam contra o impeachment de uma presidente que mentiu na campanha eleitoral e que adotou o programa neoliberal defendido pela direita? Por que o movimento social dos trabalhadores e das esquerdas necessita ser omisso, silencioso ou mesmo conivente com os esquemas de corrup\u00e7\u00e3o? Por que os pobres e os trabalhadores precisam dar respaldo pol\u00edtico a um governo loteado com os partidos tradicionais das classes dominantes? Por que apoiar um governo que n\u00e3o se empenha na reforma agr\u00e1ria, na constru\u00e7\u00e3o de moradias e muito menos no investimento real dos servi\u00e7os p\u00fablicos de transportes, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>As for\u00e7as pol\u00edticas autenticamente de esquerda n\u00e3o podem ser ref\u00e9ns do &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221; de uma lideran\u00e7a popular com trajet\u00f3ria direcionada para a direita. Assim como n\u00e3o podem ser ref\u00e9ns de um governo estruturado pelo lulismo para ser o gestor mais c\u00f4modo ao capital, aquele que trata de pacificar as massas trabalhadoras enquanto as grandes corpora\u00e7\u00f5es abocanham sem nenhum constrangimento a maior parte dos recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Os partidos e movimentos sociais populares de esquerda s\u00f3 ser\u00e3o respeitados pelos trabalhadores e pelo povo brasileiro quando se livrarem da influ\u00eancia do lulismo, quando criticarem abertamente as pr\u00e1ticas adotadas pelo conglomerado lulista, quando, enfim, cessarem de vez com o endeusamento de uma lideran\u00e7a que abandonou h\u00e1 muito tempo o seu compromisso com a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O futuro sem lulismo \u00e9 restaura\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o do protagonismo coletivo dos que apostam na verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>*J\u200bornalista e professor.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Hamilton Octavio de Souza* As v\u00e1rias for\u00e7as pol\u00edticas que comungam os ideais da esquerda, no Brasil, precisam urgentemente reconstruir os seus instrumentos de \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10585\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-10585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2KJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}