{"id":10609,"date":"2016-03-10T17:44:11","date_gmt":"2016-03-10T20:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10609"},"modified":"2016-04-16T12:14:34","modified_gmt":"2016-04-16T15:14:34","slug":"a-crise-do-pt-o-ponto-de-chegada-da-metamorfose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10609","title":{"rendered":"A crise do PT: o ponto de chegada da metamorfose"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/03\/mauro-iasi-lula.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/><em>Por <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\" target=\"_blank\">Mauro Luis Iasi<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cNa luta pol\u00edtica, n\u00e3o se pode macaquear<br \/>\nos m\u00e9todos de luta das classes dominantes<br \/>\nsem cair em emboscadas f\u00e1ceis\u201d.<br \/>\n\u2013 ANTONIO GRAMSCI<\/em><\/p>\n<p>No momento em que encerrava meus estudos de doutorado sobre o PT em 2004 (<em>As metamorfoses da consci\u00eancia de classe: o PT entre a nega\u00e7\u00e3o e o amoldamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2006) utilizei uma cita\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Genoino que me parecia bastante <!--more-->representativa do ponto a que chegara este importante partido em sua trajet\u00f3ria. O mais interessante \u00e9 que no texto, que foi publicado em 1989, o ex-presidente do PT que na \u00e9poca se localizava nas fileiras da esquerda daquela agremia\u00e7\u00e3o, buscava descrever as caracter\u00edsticas dos partidos conservadores, pr\u00f3prios da estrutura pol\u00edtica tradicional. Por uma das ironias da hist\u00f3ria, pareceu-me que tal descri\u00e7\u00e3o poderia bem ser utilizada para descrever o ponto a que chegou a metamorfose do PT.<\/p>\n<p>Dizia Genoino:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cGenericamente, na sociedade industrial moderna, os partidos pol\u00edticos da ordem nascem e atuam fundamentalmente no terreno das institui\u00e7\u00f5es representativas do Estado. O seu modo de ser e sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica t\u00eam como refer\u00eancia e destino <em>estar a\u00ed<\/em>, operando em algum dos aparatos do Estado. A forma como estes partidos se organizam e se estruturam j\u00e1 vem marcada por este objetivo interesseiro, o de conservar a funcionalidade do estado de coisas estabelecido. Ou, no m\u00e1ximo, moldando as exig\u00eancias de mudan\u00e7as a um esquema de representa\u00e7\u00f5es significativas que n\u00e3o abalem os alicerces das rela\u00e7\u00f5es sociais determinadas pelo conservadorismo. Estes partidos mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o com as massas populares essencialmente manipulat\u00f3ria, fazendo-as crer que a sociedade (e o Estado) s\u00f3 ter\u00e1 garantias de funcionamento se determinados limites n\u00e3o forem ultrapassados e se determinados esquemas funcionais forem mantidos. <strong><u>E n\u00e3o poucas vezes, a manipula\u00e7\u00e3o e a mentira s\u00e3o revestidas com discursos moralizantes para encobrir a sua descarada hipocrisia<\/u><\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>(GENOINO, Jos\u00e9. \u201cUm projeto socialista ainda em constru\u00e7\u00e3o\u201d. In: GADOTI, Moacir. Pra que PT?. S\u00e3o Paulo: Cortez, 1989. p. 356)<\/p><\/blockquote>\n<p>O paradoxo \u00e9 que o PT n\u00e3o nasceu no terreno das institui\u00e7\u00f5es representativas do Estado, mas no terreno f\u00e9rtil da luta de classes. Entretanto, a descri\u00e7\u00e3o acima indica com clareza o ponto de chegada de uma organiza\u00e7\u00e3o que, nascida no solo da luta de classes, deslocou seu ser para o terreno perigoso do \u201cestar a\u00ed, operando em alguns dos aparatos de Estado\u201d, com todas as consequ\u00eancias que da\u00ed derivam. N\u00e3o apenas o respeitar dos limites, afirmados como intranspon\u00edveis pois ancorados nas restri\u00e7\u00f5es da \u201cfuncionalidade do estado de coisas estabelecido\u201d, mas sobretudo aquilo que hoje se torna dram\u00e1tico: fazer crer \u00e0s massas que a garantia de sua vitalidade s\u00f3 de dar\u00e1 na medida em que sejam respeitados tais limites, levando \u00e0 uma a\u00e7\u00e3o marcada pela \u201cmanipula\u00e7\u00e3o e a mentira\u201d revestidas por um discurso moralizante que tenta encobrir sua descarada hipocrisia.<\/p>\n<p>Seria este um destino inescap\u00e1vel para aqueles que buscam o poder? Creio que n\u00e3o. Tal conclus\u00e3o nada mais \u00e9 que a express\u00e3o mais sofisticada da m\u00e1xima do senso comum segundo a qual o \u201cpoder corrompe\u201d. Caso nos rend\u00eassemos a esta conclus\u00e3o, ter\u00edamos que nos aprofundar nos <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/mudar-o-mundo-sem-tomar-o-poder\">escritos de John Holloway buscando os caminhos para mudar o mundo sem tomar o poder<\/a>, apenas para descobrir que ele tamb\u00e9m ainda n\u00e3o os encontrou.<\/p>\n<p>Continuo convencido de que a explica\u00e7\u00e3o para a metamorfose do PT tem de ser buscada na pr\u00f3pria estrat\u00e9gia adotada pelo partido e seus limites. Ainda que o desfecho atual n\u00e3o possa ser entendido como o \u00fanico desenvolvimento poss\u00edvel desta estrat\u00e9gia (governos como o da Venezuela e da Bol\u00edvia comprovam que haviam outras trajet\u00f3rias poss\u00edveis, ainda que n\u00e3o isentas de impasses semelhantes), \u00e9 seguro afirmar que o ponto de chegada guarda uma coer\u00eancia com o caminho escolhido.<\/p>\n<p><strong>A TRAJET\u00d3RIA DA ESTRAT\u00c9GIA DEMOCR\u00c1TICA POPULAR<\/strong><\/p>\n<p>O caminho que leva das inten\u00e7\u00f5es iniciais da Estrat\u00e9gia Democr\u00e1tica Popular \u00e0 sua implementa\u00e7\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de governo \u00e9 muito longo e cheio de matizes que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aqui reproduzir. Desta maneira, vou centrar a aten\u00e7\u00e3o em alguns pontos que considero centrais para jogar um pouco mais de luz no desfecho tr\u00e1gico que agora presenciamos e pensar sobre perspectivas que se abrem.<\/p>\n<p>Em sua subst\u00e2ncia mais essencial, a Estrat\u00e9gia Democr\u00e1tica Popular esperava, atrav\u00e9s de uma combina\u00e7\u00e3o de dois movimentos em \u201cpin\u00e7a\u201d (a constru\u00e7\u00e3o de um movimento socialista de massas de um lado, e assegurar as express\u00f5es institucionais destas lutas na conquista de espa\u00e7os institucionais de outro), chegar ao Governo Federal para executar um programa anti-latifundi\u00e1rio, anti-imperialista e anti-monopolista. Buscando diferenciar-se da antiga formula\u00e7\u00e3o do PCB sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional, um governo nestas condi\u00e7\u00f5es que busca realizar este programa n\u00e3o representaria uma nova teoria de \u201cetapas\u201d, uma vez que sua implementa\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia se dar por um governo \u201chegemonizado pelos trabalhadores\u201d, sem nenhuma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a burguesia.<\/p>\n<p>Completa tal formula\u00e7\u00e3o a afirma\u00e7\u00e3o presente no V Encontro Nacional do PT (1987) segundo a qual a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o socialista marcava uma \u201cruptura radical\u201d que pressupunha a necessidade dos trabalhadores tornarem-se classe \u201chegem\u00f4nica e dominante no poder de Estado\u201d, eliminando o \u201cpoder pol\u00edtico exercido pela burguesia\u201d.<\/p>\n<p>A conjun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores (a derrota eleitoral para Collor, a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva do capital, a crise nas experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista, etc.) far\u00e1 com que um processo de inflex\u00e3o moderada se iniciasse a partir do VII Encontro Nacional (1990). A diferen\u00e7a sutil, mas cheia de significado, aparece nas resolu\u00e7\u00f5es deste encontro quando cita a formula\u00e7\u00e3o do V Encontro que apresentamos antes, afirmando que os trabalhadores devem se tornar hegem\u00f4nicos na sociedade civil e no Estado, deixando outros aspectos do projeto socialista como \u201cdesafios em aberto\u201d.<\/p>\n<p>Para os bons observadores, \u00e9 f\u00e1cil notar que o que desaparece da frase \u00e9 a necessidade dos trabalhadores tornarem classe dominante no Estado destruindo o poder pol\u00edtico da burguesia e a desconsidera\u00e7\u00e3o explicita na primeira formula\u00e7\u00e3o segundo a qual n\u00e3o haveria \u201cqualquer exemplo hist\u00f3rico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder pol\u00edtico \u2013 o Estado \u2013 a seu servi\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>O que parece ficar impl\u00edcito \u00e9 que os trabalhadores poderiam ocupar a m\u00e1quina do Estado burgu\u00eas e coloc\u00e1-la a seu servi\u00e7o. Tal racioc\u00ednio se explicita j\u00e1 no I Congresso em 1991, quando as resolu\u00e7\u00f5es afirmam, para apontar o tipo de socialismo que se desejava e diferenci\u00e1-lo das experi\u00eancias hist\u00f3ricas do s\u00e9culo XX, que no caso petista o socialismo deveria se dar no quadro de um \u201cEstado de Direito\u201d. Ainda que tal debate se d\u00ea no contexto de uma avalia\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da rela\u00e7\u00e3o entre democracia e socialismo e os problemas nas experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o realizadas, no caso do PT isso, parece-me, acaba desembocando para muito al\u00e9m. Vejamos mais de perto a passagem das resolu\u00e7\u00f5es do I Congresso que trata do tema:<\/p>\n<p>\u201cO socialismo pelo qual o PT luta prev\u00ea, portanto, a exist\u00eancia de um Estado de Direito, no qual prevale\u00e7am as mais amplas liberdades civis e pol\u00edticas, de opini\u00e3o, de manifesta\u00e7\u00e3o, de imprensa, partid\u00e1ria, sindical etc.; onde os mecanismos de democracia representativa, libertos da coa\u00e7\u00e3o do capital, devem ser conjugados com formas de participa\u00e7\u00e3o direta do cidad\u00e3o nas decis\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais. A democracia socialista que queremos construir estabelece a legitima\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do poder pol\u00edtico, o respeito \u00e0s minorias e a possibilidade de altern\u00e2ncia do poder\u201d. (Resolu\u00e7\u00f5es do I Congresso (1991)<\/p>\n<p>Quando analisamos mais detidamente a afirma\u00e7\u00e3o, percebemos que trata-se do mesmo Estado Burgu\u00eas na forma \u201cdemocr\u00e1tica\u201d, com todas seus princ\u00edpios tornados universais (ordenamento jur\u00eddico como fundamento das rela\u00e7\u00f5es, liberdades civis, democracia representativa combinada com formas de democracia direta, legitima\u00e7\u00e3o da maioria, respeito \u00e0s minorias e altern\u00e2ncia de poder), as famosas \u201cregras do jogo\u201d, tal como define ningu\u00e9m menos que Norberto Bobbio e que foram invocadas pelo ex-presidente Lula em seu discurso recente. A diferen\u00e7a \u00e9 que esta m\u00e1quina pol\u00edtica seria, agora, liberta da \u201ccoa\u00e7\u00e3o do capital\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que se estas concep\u00e7\u00f5es navegam em um inevit\u00e1vel terreno de abstra\u00e7\u00f5es, na situa\u00e7\u00e3o concreta da possibilidade de chegar ao governo do Estado burgu\u00eas elas ganham materialidade. A principal altera\u00e7\u00e3o na opera\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia surge exatamente da possibilidade de chegar ao Governo Federal antes que o trabalho da \u201cpin\u00e7a\u201d estivesse avan\u00e7ado o suficiente para criar uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que permitisse implementar o programa anunciado.<\/p>\n<p>Tal dilema se expressa em algumas perguntas: \u00c9 poss\u00edvel, mesmo nesta situa\u00e7\u00e3o, chegar ao governo? \u00c9 desej\u00e1vel? Caso se chegue \u00e9 poss\u00edvel manter-se, isto \u00e9, n\u00e3o ser derrubado por um golpe? As respostas a estas quest\u00f5es s\u00e3o chave na compreens\u00e3o de nosso tema. Porque depois de avaliar que por conta crise econ\u00f4mica, das contradi\u00e7\u00f5es dos governos burgueses de plant\u00e3o, etc. essa era sim uma alternativa <em>poss\u00edvel<\/em>, e depois de definir que ela era de fato <em>desej\u00e1vel<\/em>, a discuss\u00e3o passa a se centrar nas condi\u00e7\u00f5es para manter-se no governo.<\/p>\n<p>O sentido geral desta equa\u00e7\u00e3o resolveu-se da seguinte forma. \u00c9 poss\u00edvel chegar ao governo mesmo sem a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as necess\u00e1ria, mas isto implica que n\u00e3o seria poss\u00edvel implementar o programa anti-latif\u00fandio, anti-imperialista e anti-monopolista, o que significaria seguir o ac\u00famulo de for\u00e7as em novo patamar \u2013 agora numa situa\u00e7\u00e3o privilegiada de poder por se encontrar no governo.<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/03\/fb_img_1457531288492.jpg?w=747\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>REGRAS DO JOGO<\/strong><\/p>\n<p>Neste ponto, no entanto, a opera\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia se torna complexa, pois a chegada ao governo significava, no esquema anterior, a oportunidade para desencadear o programa democr\u00e1tico popular e, num segundo momento, confirmada a impossibilidade de lev\u00e1-lo a cabo em sua integralidade no interior da ordem burguesa (at\u00e9 pela resist\u00eancia \u00f3bvia dos segmentos conservadores), a possibilidade de seguir com uma ruptura mais radical em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo. Agora, no novo contexto, trata-se de seguir a acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as utilizando-se do espa\u00e7o de governo, para depois buscar este desfecho. Mas, para isso, \u00e9 preciso e essencial <em>permanecer<\/em> no governo e a \u00fanica forma de faz\u00ea-lo era n\u00e3o implementar os eixos do programa e sua radicalidade para n\u00e3o despertar a rea\u00e7\u00e3o das classes dominantes.<\/p>\n<p>A forma do Estado proposta e os termos deste dilema se resolvem, no andar da carruagem, na equa\u00e7\u00e3o que conduziria \u00e0 inflex\u00e3o moderada: rebaixar o programa, ampliar alian\u00e7as, ganhar as elei\u00e7\u00f5es e garantir a governabilidade.<\/p>\n<p>Durante todo o tempo em que, nas novas condi\u00e7\u00f5es apresentadas, o PT levaria o processo de ac\u00famulo de for\u00e7as para uma situa\u00e7\u00e3o de governo, o Estado burgu\u00eas n\u00e3o interviria no sentido da interrup\u00e7\u00e3o do processo, uma vez que o PT estaria comprometido a respeitar as regras do jogo.<\/p>\n<p>Acontece que as regras n\u00e3o dizem respeito apenas ao tabuleiro pol\u00edtico. O jogo principal se d\u00e1 na luta de classes, e \u00e9 em seu terreno (que s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e as formas de propriedade) que se encontram as principais regras que a burguesia quer ver respeitada. O equil\u00edbrio n\u00e3o estaria, portanto, apenas na aceita\u00e7\u00e3o das regras da disputa pol\u00edtica e do exerc\u00edcio de governo, mas na aceita\u00e7\u00e3o expl\u00edcita que ningu\u00e9m estava disposto a chutar o tabuleiro da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, ou nas palavras do jovem Genoino, \u201cmoldando as exig\u00eancias de mudan\u00e7as a um esquema de representa\u00e7\u00f5es significativas que n\u00e3o abalem os alicerces das rela\u00e7\u00f5es sociais determinadas pelo conservadorismo\u201d, dir\u00edamos n\u00f3s, determinadas pela forma capitalista de produ\u00e7\u00e3o e a sociabilidade burguesa que dela deriva.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto que a estrat\u00e9gia petista desemboca no p\u00e2ntano do pacto social e da concilia\u00e7\u00e3o de classes como condi\u00e7\u00e3o de sua governabilidade. Os termos do XII Encontro Nacional em 2002, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o que levaria Lula ao seu primeiro mandato \u00e9 reveladora desta inten\u00e7\u00e3o ao falar da necessidade de um \u201cnovo contrato social\u201d, uma ampla alian\u00e7a entre for\u00e7as pol\u00edticas para dar \u201csuporte ao Estado-Na\u00e7\u00e3o\u201d, leque de for\u00e7as que deveria incluir \u201cempres\u00e1rios produtivos de qualquer porte\u201d. O problema era como atrair o empresariado de qualquer porte e a resposta \u00e9 os benef\u00edcios de superar a l\u00f3gica rentista, a amplia\u00e7\u00e3o do mercado de massas e garantir a \u201cprevisibilidade para o capital\u201d.<\/p>\n<p>Ora, previsibilidade para o capital significa garantir para a burguesia que n\u00e3o se mexer\u00e1 nas formas de propriedade, nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e, conjunturalmente, n\u00e3o se alteraria o rumo da contra reforma em curso e seus mecanismos macro-econ\u00f4micos. Ou seja, exatamente o que foi depois expresso na \u201cCarta aos brasileiros\u201d, de Lula em 2002.<\/p>\n<p>Quatro mandatos presidenciais demonstram, \u00e9 certo, a efici\u00eancia t\u00e1tica do caminho do pacto social. Mas algo salta \u00e0 vista de qualquer analista atento: a t\u00e1tica de perman\u00eancia no governo n\u00e3o acumulou for\u00e7as no sentido esperado no quadro da estrat\u00e9gia democr\u00e1tica popular. Pelo contr\u00e1rio: desarmou a classe trabalhadora de sua autonomia necess\u00e1ria, a desorganizou, despolitizou, e deslocou o campo de luta para o terreno do inimigo: seu Estado. A\u00ed est\u00e1 um n\u00f3 principal no grande equ\u00edvoco de implementa\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia na situa\u00e7\u00e3o de governo. O Estado n\u00e3o \u00e9 neutro, nem altera sua natureza de classe pela ocupa\u00e7\u00e3o de seus espa\u00e7os por for\u00e7as sociais oriundas de outras classes, segue funcionando como Estado-classe, nos termos gramscianos.<\/p>\n<p>Para manter os termos necess\u00e1rios ao pacto e a concilia\u00e7\u00e3o de classes, o governo \u00e9 obrigado a golpear os trabalhadores em seus direitos mais elementares. O pre\u00e7o da governabilidade n\u00e3o \u00e9 o adiar da execu\u00e7\u00e3o integral do programa democr\u00e1tico popular, \u00e9 sua mais retumbante ren\u00fancia.<\/p>\n<p><strong>MAS E A OPERA\u00c7\u00c3O LAVA JATO?<\/strong><\/p>\n<p>Neste ponto da exposi\u00e7\u00e3o, o leitor inquieto do <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/\">Blog da Boitempo<\/a> se pergunta: <em>\u201cpuxa, a conjuntura explodindo em fatos dram\u00e1ticos, a Presidente sob risco de impedimento, Lula sendo levado sob condu\u00e7\u00e3o coercitiva para depor na Lava-Jato, e este cara nos falando de estrat\u00e9gia!?\u201d<\/em><\/p>\n<p>Pois \u00e9, o problema \u00e9 que n\u00e3o creio ser poss\u00edvel entender os acontecimentos envoltos nas brumas enganosas da conjuntura, e muito menos posicionar-se politicamente, sem compreender estes fatos \u00e0 luz do processo hist\u00f3rico mais recente. Aquele que tomar as decis\u00f5es pelo f\u00edgado ou movido pelas paix\u00f5es mais candentes, corre um enorme risco de errar.<\/p>\n<p>Uma lembran\u00e7a pessoal pode me ajudar a finalizar esta reflex\u00e3o. In\u00fameras vezes, quando militava no PT, era provocado pela veemente afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual Lula tinha uma casa no Morumbi. Ocorre que naquela \u00e9poca eu morava em S\u00e3o Bernardo e era vizinho de Lula. Ele morava ao final da Rua S\u00e3o Jo\u00e3o e eu uma rua acima. Era uma casa absolutamente compat\u00edvel com as condi\u00e7\u00f5es de um oper\u00e1rio e dirigente sindical. Desta forma, sempre respondia a tais provoca\u00e7\u00f5es com humor, afirmando que meu pequeno apartamento na cidade do ABC paulista tinha ent\u00e3o valorizado muito, pois n\u00e3o sabia que ali era o Morumbi.<\/p>\n<p>Conto isso para afirmar duas coisas. Primeiro, que o que tem aparecido \u00e9 apenas uma cortina de fuma\u00e7a. N\u00e3o se trata de bens pessoais ou favorecimentos. N\u00e3o tenho o menor interesse em saber onde fica ou qual o tamanho da moradia do ex-Presidente, nem de onde ele descansa nos fins de semana. Segundo, que diferente daquela \u00e9poca, n\u00e3o estou disposto a botar minha m\u00e3o no fogo para atestar a inoc\u00eancia de Lula, como parece ter se prontificado Fernando Morais. N\u00e3o pelos fatos que o imputam, como disse, mas por algo maior que se refere \u00e0 reflex\u00e3o aqui apresentada.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias da concilia\u00e7\u00e3o de classes operada \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o promiscua entre o poder p\u00fablico e os interesses monopolistas privados. Vejam, n\u00e3o discuto a dimens\u00e3o legal de tais atos, uma vez que ex\u00e9rcitos de bons advogados podem chegar a provar que nada do que foi feito \u00e9 il\u00edcito. N\u00e3o opino e n\u00e3o quero opinar neste campo. Interessa-me uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e moral.<\/p>\n<p>Pode ser perfeitamente legal, num exemplo hipot\u00e9tico, que um ex-Presidente aproveite suas viagens para apresentar a um determinado candidato em um certo pa\u00eds, seu amigo publicit\u00e1rio com um portf\u00f3lio invej\u00e1vel de vit\u00f3rias eleitorais; ou ainda, um esfor\u00e7ado empres\u00e1rio de uma grande empreiteira disposto a contribuir desinteressadamente com os custos de tal campanha e depois discutir, j\u00e1 que est\u00e1 por ali, a eventualidade de um ou outro contrato caso o candidato ganhe. Independente de discutir a legalidade de tais procedimentos, do ponto de vista moral \u00e9 reprov\u00e1vel e do ponto de vista pol\u00edtico tal postura \u00e9 indefens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em outro plano, com o perd\u00e3o dos adoradores da \u00e1lea singular dos acontecimentos conjunturais, o desenvolvimento da estrat\u00e9gia petista na situa\u00e7\u00e3o de governo comprovou que o malabarismo do pacto social acabou por favorecer muito os interesses das camadas dominantes, ao mesmo tempo em que se operavam ataques severos contra nossa classe trabalhadora, como a reforma da previd\u00eancia, o rigor na aplica\u00e7\u00e3o do ajuste fiscal, a lei antiterrorismo que criminaliza as lutas sociais, a entrega do pr\u00e9-sal, o abandono da reforma agr\u00e1ria, o c\u00f3digo florestal e o c\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o, a libera\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos, e uma lista que n\u00e3o caberia neste espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Assim, nos parece que a burguesia est\u00e1 disposta a se livrar de seu aliado, n\u00e3o por suas eventuais virtudes de um l\u00edder oper\u00e1rio que um dia foi, mas pelo simples fato de que, tendo sido muito \u00fatil para operar uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o fundada no apassivamento da classe trabalhadora, torna-se agora fonte de instabilidade que pode colocar em risco os interesses dominantes. E a burguesia vai usar todos os meios para tanto, fazendo uso inclusive daqueles instrumentos de seu Estado-classe que o PT julgava que fossem \u201crepublicanos\u201d e que estariam a servi\u00e7o desta abstra\u00e7\u00e3o chamada \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o se preparou para esta eventualidade pelo simples fato de que em sua estrat\u00e9gia tal possibilidade inexistia \u2013 seria neutralizada pelo caminho escolhido e o respeito \u00e0s regras do jogo. N\u00e3o h\u00e1 culpados na luta de classes, n\u00e3o somos crist\u00e3os. Mas h\u00e1 responsabilidade. Se a direita, como parece ser o caso, resolver se livrar do PT com os m\u00e9todos mais escusos, certamente a responsabilidade n\u00e3o pode ser atribu\u00edda \u00e0queles que sempre apontaram esta possibilidade e indicaram os limites do desenvolvimento desta estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>O argumento que convoca \u00e0 defesa p\u00fablica de Lula (e, por via de consequ\u00eancia, de seu partido), de que se \u00e9 a direita que o ataca, a esquerda \u201ctem a obriga\u00e7\u00e3o de defend\u00ea-lo\u201d, \u00e9 absolutamente falacioso. A \u00fanica maneira de defender Lula \u00e9 torn\u00e1-lo um fetiche. Isto \u00e9, abstrair toda a particularidade concreta que o constitui para produzir um Lula simb\u00f3lico muito distinto da pessoa real que ele \u00e9 e que sua pr\u00e1tica demonstrou ser. Para emergir um Lula defensor injusti\u00e7ado dos mais pobres e dos trabalhadores, perseguido pelos poderosos, \u00e9 necess\u00e1rio abstrair o Lula amigo destes poderosos, levando-os em v\u00f4os fretados para fazer neg\u00f3cios e criando as condi\u00e7\u00f5es para que ganhassem dinheiro como nunca, como ele pr\u00f3prio gosta de dizer. Mas mesmo assim, proclamam outros, este s\u00edmbolo pode ser o que nos resta para resistir contra o ataque da direita.<\/p>\n<p>Os caminhos nefastos do culto \u00e0 personalidade \u2013 de se acoplar o destinos da classe ao carisma pessoal de um l\u00edder independente do sentido real que sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aponta \u2013 j\u00e1 demonstrou seus enormes riscos na hist\u00f3ria de nossa classe. Se um Lula abstrato e fetichizado \u2013 em outras palavras, o <em>lulismo<\/em> \u2013 for nossa \u00faltima e \u00fanica linha de resist\u00eancia (o que n\u00e3o creio que seja verdade) contra o pr\u00f3ximo movimento da direita, seja qualquer que for o resultado, n\u00f3s j\u00e1 estaremos derrotados.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>PARA APROFUNDAR A REFLEX\u00c3O\u2026 5 DICAS DE LEITURA DA BOITEMPO<\/strong><\/p>\n<p><strong><em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/a-legalizacao-da-classe-operaria\" target=\"_blank\">A legaliza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria<\/a><\/em>, de Bernard Edelman<\/strong><br \/>\n<strong> <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/marxismo-e-direito\" target=\"_blank\">Marxismo e direito: um estudo sobre Pachukanis<\/a><\/em>, de Marcio Bilharino Naves<\/strong><br \/>\n<strong> <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/estado-e-forma-politica\" target=\"_blank\">Estado e forma pol\u00edtica<\/a><\/em>, de Alysson Leandro Mascaro<\/strong><br \/>\n<strong> <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/hegemonia-as-avessas\" target=\"_blank\">Hegemonia \u00e0s avessas: Economia, pol\u00edtica e cultura na era da servid\u00e3o financeira<\/a><\/em>, organizado por Chico de Oliveira, Ruy Braga e Cibele Rizek<\/strong><br \/>\n<strong> <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>, de Mauro Iasi<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/03\/10\/a-crise-do-pt-o-ponto-de-chegada-da-metamorfose\/\">A crise do PT: o ponto de chegada da&nbsp;metamorfose<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. \u201cNa luta pol\u00edtica, n\u00e3o se pode macaquear os m\u00e9todos de luta das classes dominantes sem cair em emboscadas f\u00e1ceis\u201d. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10609\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-10609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2L7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10609"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10609\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}