{"id":10659,"date":"2016-03-19T17:45:56","date_gmt":"2016-03-19T20:45:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10659"},"modified":"2016-04-16T12:20:22","modified_gmt":"2016-04-16T15:20:22","slug":"o-brasil-no-rescaldo-das-manifestacoes-de-13-de-marco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10659","title":{"rendered":"O Brasil no rescaldo das manifesta\u00e7\u00f5es de 13 de mar\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/anasald_01.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Ana Saldanha<\/p>\n<p>Escrito aquando da nomea\u00e7\u00e3o de Lula para o cargo de ministro da Casa Civil de Dilma e antes da sua suspens\u00e3o por um tribunal, este texto de Ana Saldanha n\u00e3o s\u00f3 mant\u00e9m plena actualidade, como nos diz o qu\u00ea e porqu\u00ea da crise pol\u00edtica brasileira, e o como da ascens\u00e3o e da queda do PT e do chamado \u00abneodesenvolvimentismo\u00bb brasileiro.<!--more--><\/p>\n<p>\u00abChamemos ou n\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica posta em pr\u00e1tica pelos governos PT de neodesenvolvimentismo, o facto \u00e9 que se verificou um poder absoluto dos trusts e das corpora\u00e7\u00f5es monopolistas, dos bancos e da oligarquia financeira. O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e suas consequentes rela\u00e7\u00f5es sociais, a par do trav\u00e3o \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o que os governos do PT conseguiram alcan\u00e7ar, prosseguiu a largos passos. Lula havia servido o grande capital transnacionalizado, e Dilma prosseguira o empenho lulista\u00bb.<\/p>\n<p>O Brasil no rescaldo das manifesta\u00e7\u00f5es de 13 de mar\u00e7o<\/p>\n<p>No domingo, dia 13 de mar\u00e7o, n\u00e3o foi o Brasil que saiu \u00e0 rua. Foram camadas da popula\u00e7\u00e3o e estratos sociais endinheirados, foi a burguesia, acompanhada tamb\u00e9m por setores desfavorecidos da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo, trabalhadores, \u00e9 certo, os quais, no entanto, n\u00e3o eram representativos da maioria daqueles que trocaram o footing de domingo, na Paulista ou em Copacabana, por uma passeata que nos remete para tempos obscurantistas recentes, ainda frescos na mem\u00f3ria deste continente.<\/p>\n<p>No domingo, dia 13 de mar\u00e7o, os arredores da Av. Paulista regurgitavam camisas amarelas e verdes, chap\u00e9us verdes e amarelos, cal\u00e7as e cal\u00e7\u00f5es de marca, cabelos tingidos de amarelo (s\u00e3o as patr\u00edcias, na cultura brasileira, ou as tias, na cultura portuguesa), t\u00e9nis Nike, Adidas ou Puma. E botox, silicone, seios desmesurados, risos plastificados, e tanta, tanta ignor\u00e2ncia concentrada nos mais de 2 km de extens\u00e3o daquela avenida.<\/p>\n<p>Subir pela Avenida Ang\u00e9lica, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Avenida Paulista, atravessando Santa Cec\u00edlia, \u00e9 o mesmo que subir na hierarquia social paulista. Iniciando a caminhada no in\u00edcio da Avenida Ang\u00e9lica, quanto mais avan\u00e7amos na \u00edngreme escalada, quanto mais nos acercamos daquela Avenida maior, maior \u00e9 tamb\u00e9m o pre\u00e7o do metro quadrado.<\/p>\n<p>Se o PIB do Brasil fosse medido em silicone, o indicador principal de medi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, no interior de um pa\u00eds, teria a sua concentra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, no caso brasileiro, nas avenidas de Copacabana, no Rio de Janeiro, e na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo, neste domingo, dia 13 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Corpos estereotipados, caras violentamente agredidas por pl\u00e1sticas, seios e bundas desmesurados, cada bochecha preenchida de botox corresponde ao sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal brasileiro &#8211; ganho por praticamente metade da popula\u00e7\u00e3o. Com efeito, 44.8% dos 60.8 milh\u00f5es de agregados familiares com rendimento declarado vivem, apenas, com um sal\u00e1rio m\u00ednimo (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), 2014). Assim sendo, mais de 44% dos lares brasileiros vive com metade do custo de um par de bochechas ou de n\u00e1degas, que no domingo passeava pelas principais avenidas das grandes cidades brasileiras. Imagine-se, desta forma, a concentra\u00e7\u00e3o de capital verificada nos pares de bochechas, de seios e de bundas que naquele dia se juntaram. Isto sem falar dos t\u00e9nis, das cal\u00e7as e das camisas.<\/p>\n<p>Se o sistema monet\u00e1rio parteiro do FMI, o sistema de Bretton Woods (fruto do acordo hom\u00f3nimo assinado em 1944, extinto de facto em 1971 quando Nixon recusa a convertibilidade dos d\u00f3lares em ouro) voltasse a entrar em vigor, n\u00e3o tendo, contudo, como referente o ouro, mas o silicone, o Banco Central do Brasil teria de construir muralhas na zona oeste de S\u00e3o Paulo e na zona sul do Rio de Janeiro para proteger as suas sempre crescentes reservas.<\/p>\n<p>PT: da ascens\u00e3o \u00e0 queda<\/p>\n<p>O Partido dos Trabalhadores (PT) e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva haviam sido o motor da esperan\u00e7a num Brasil depauperado, num Brasil com fome, num Brasil cuja taxa de desemprego, em 2002, ascendia a 12%, num Brasil cuja d\u00edvida p\u00fablica duplicou no governo de Fernando Henrique Cardoso, num Brasil onde grassava a corrup\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia e a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Neste quadro, Lula e o PT surgiram como a esperan\u00e7a anunciada de um Brasil novo.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, no entanto, seria um logro. O Brasil novo esperan\u00e7osamente esperado pela maioria explorada, nunca chegaria.<\/p>\n<p>Certo: o programa Bolsa Fam\u00edlia chega a 45,8 milh\u00f5es de brasileiros (ou seja, um em cada quatro brasileiros \u00e9 benefici\u00e1rio do programa institu\u00eddo pelo governo de Lula, em 2003), enquanto o coeficiente de Gini, que em 2003 era de 0.59, passou, em 2012, para 0.519 [ ] (apesar dos avan\u00e7os, o \u00edndice de Gini do Brasil \u00e9 um dos piores do mundo. Entre os 127 pa\u00edses analisados, em 2012, o Brasil encontrava-se na 120\u00aa posi\u00e7\u00e3o). Se em 2004, os 10% mais ricos concentravam 45.3% da renda, e os 10% mais pobres se contentavam com 0.9%, em 2012, os 10% mais ricos controlavam 41.9% da renda nacional e os 10% mais pobres possu\u00edam 1.1% da renda nacional (dados do IBGE, 2013). A diferen\u00e7a \u00e9 pequena, mas representa uma ligeira melhoria da distribui\u00e7\u00e3o da renda. Tudo isto \u00e9 certo. E merece ser dito, louvado e n\u00e3o esquecido.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que a esta pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o esteve subjacente uma perspetiva ideol\u00f3gica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, que permitiu travar as manifesta\u00e7\u00f5es de descontentamento das camadas mais empobrecidas da popula\u00e7\u00e3o, num momento muito particular da vida latino-americana.<\/p>\n<p>Num contexto socio-hist\u00f3rico e econ\u00f4mico da Am\u00e9rica latina marcado pela vit\u00f3ria de Hugo Chavez, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2002, pela vit\u00f3ria de Evo Morales, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2005, pela vit\u00f3ria de Rafael Correa, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2007, quando for\u00e7as progressistas avan\u00e7avam no plano eleitoral e alcan\u00e7avam, no quadro da democracia burguesa, vit\u00f3rias eleitorais hist\u00f3ricas, quando um ciclo de alta dos pre\u00e7os internacionais das commodities e do barril de petr\u00f3leo se iniciava (em dezembro de 2002 o pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo bruto era de 27,89 d\u00f3lares e em junho de 2008 atingia os 132,55 d\u00f3lares) &#8211; ou seja, num momento em que o capitalismo permitia o crescimento dos \u00edndices econ\u00f4micos dos pa\u00edses latino-americanos -, a burguesia brasileira decide fazer um pacto com o Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de uma melhor redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza e de alguns avan\u00e7os no plano social seria, contudo, concomitante com uma pol\u00edtica de aprofundamento do capitalismo.<\/p>\n<p>PT, Lula e capitalismo<\/p>\n<p>A essa pol\u00edtica redistribuidora, na qual o Estado se assume como o promotor da economia, alguns economistas e cientistas sociais &#8211; tendo como ponto de partida as teorias cepalinas (Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe &#8211; CEPAL) dos anos 60 e uma perspetiva neokeynesiana &#8211; designam de neodesenvolvimentista.<\/p>\n<p>\u00c0 pol\u00edtica posta em pr\u00e1tica pelos governos de Lula e de Dilma n\u00e3o correspondeu, no entanto, o anunciado fim do neoliberalismo (conceito que, na realidade, corresponde ao aprofundamento do capitalismo monopolista de Estado) no Brasil. Chamemos ou n\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica posta em pr\u00e1tica pelos governos PT de neodesenvolvimentismo, o facto \u00e9 que se verificou um poder absoluto dos trusts e das corpora\u00e7\u00f5es monopolistas, dos bancos e da oligarquia financeira. O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e suas consequentes rela\u00e7\u00f5es sociais, a par do trav\u00e3o \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o que os governos do PT conseguiram alcan\u00e7ar, prosseguiu a largos passos. Lula havia servido o grande capital transnacionalizado, e Dilma prosseguira o empenho lulista. Como nos diz Maria Orlanda Pinassi ((Neo)desenvolvimentismo ou luta de classes?, 2013):<\/p>\n<p>\u00abSegundo consta, o Estado procuraria, ent\u00e3o [no neodesenvolvimentismo], recompor sua fun\u00e7\u00e3o (de \u201cal\u00edvio\u201d) social \u2013 atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de empregos (quase sempre prec\u00e1rios e tempor\u00e1rios), pol\u00edticas de recupera\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e redistribui\u00e7\u00e3o de renda (Bolsas Fam\u00edlia, Escola, Desemprego etc.) -, enquanto a economia se renacionalizaria por meio de financiamentos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social] \u00e0 reindustrializa\u00e7\u00e3o pautada na substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Argumentos fortemente question\u00e1veis visto que as empresas p\u00fablicas privatizadas hoje s\u00e3o fortemente controladas por capitais externos (vide Vale), numa l\u00f3gica em que a economia transnacionalizada do sistema reconduz o Brasil ao papel produtor de bens prim\u00e1rios para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(\u2026) O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui: veja-se a estratosf\u00e9rica lucratividade banc\u00e1ria e o enorme crescimento da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil. Mais impressionante ainda \u00e9 o desempenho da minera\u00e7\u00e3o, do agroneg\u00f3cio, do setor energ\u00e9tico e dos n\u00fameros que apontam para o grande aumento de \u00e1reas agricult\u00e1veis, de florestas, de rios e outras tantas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, invadidas e destru\u00eddas por pasto, monocultivo de cana, de soja, de celulose, de laranja, por extra\u00e7\u00e3o mineral, por barragens\u00bb.<\/p>\n<p>No entanto, hoje, \u00e0 grande burguesia detentora dos meios de produ\u00e7\u00e3o, ao grande capital nacional em associa\u00e7\u00e3o com o grande capital estrangeiro, o governo do PT j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. A grande burguesia, depois de 14 anos de governo PT, logrou alcan\u00e7ar uma vit\u00f3ria ideol\u00f3gica, apenas poss\u00edvel ap\u00f3s a passagem do PT pelas altas esferas das institui\u00e7\u00f5es burguesas: a ideia de que a pol\u00edtica posta em pr\u00e1tica pelo PT \u00e9 uma pol\u00edtica progressista, at\u00e9 mesmo socialista. O que \u00e9 falso. Redondamente falso.<\/p>\n<p>O PT p\u00f4s em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica ao servi\u00e7o dos grandes grupos econ\u00f4micos brasileiros (os quais se encontram associados ao capital estrangeiro), entregou setores da economia brasileira ao capital externo (concess\u00e3o de mais de 2,5 mil km de rodovias ao grupo espanhol OHL, privatiza\u00e7\u00e3o do Banco do Estado do Par\u00e1, privatiza\u00e7\u00e3o do Banco do Estado do Maranh\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o da hidroel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, privatiza\u00e7\u00e3o da hidroel\u00e9trica Jirau \u2013 cons\u00f3rcio Suez Energy South Am\u00e9rica (50,1%), Camargo Corr\u00eaa (9,9%), Eletrosul (20%) e Companhia Hidro El\u00e9trica do S\u00e3o Francisco (20%) -, entrega de alguns campos da bacia de petr\u00f3leo do pr\u00e9-sal, continua\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es para explora\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o de energia, venda de participa\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias em empresas que tinham sido privatizadas), enquanto impulsionou a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e fez do Brasil um dos maiores produtores e exportadores do planeta (em 2013, este setor foi respons\u00e1vel por 41.28% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras) . Segundo dados do IBGE para 2012, o contingente de 1% dos brasileiros mais ricos ganhava quase cem vezes mais do que o contingente dos 10% mais pobres.<\/p>\n<p>O PT, aplicando uma pol\u00edtica ao servi\u00e7o dos grandes grupos econ\u00f4micos, n\u00e3o apenas traiu a sua base social e eleitoral, mas demonstrou ser um partido com o qual a classe dominante brasileira poder\u00e1 sempre contar, contra os interesses da classe oper\u00e1ria, contra os interesses dos trabalhadores. Um partido corrupto e corrupt\u00edvel, que demonstrou que o exerc\u00edcio do poder numa democracia burguesa n\u00e3o apenas confirma que \u201co partido dominante de uma democracia burguesa s\u00f3 garante a protec\u00e7\u00e3o da minoria\u201d (V.I. L\u00e9nine, A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky), como que a pr\u00f3pria democracia burguesa, apesar de representar um progresso hist\u00f3rico relativamente aos modos de produ\u00e7\u00e3o precedentes, \u201ccontinua a ser sempre (\u2026) estreita, amputada, falsa, hip\u00f3crita, para\u00edso para os ricos, uma armadilha e um engano para os explorados, para os pobres\u201d (V. I. L\u00e9nine, A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky).<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o foi, nem ser\u00e1 nunca, o partido dos trabalhadores. A sua a\u00e7\u00e3o sempre se pautar\u00e1 pela defesa da minoria exploradora, pelo aprofundamento do capitalismo, pela defesa das institui\u00e7\u00f5es que garantem o exerc\u00edcio de poder por essa mesma minoria, afastando \u201cas massas da administra\u00e7\u00e3o, da liberdade de reuni\u00e3o e de imprensa, etc.\u201d (V. I. L\u00e9nine, A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky), tentando escamotear o facto de que, na realidade, \u201cmil barreiras fecham \u00e0s massas trabalhadoras a participa\u00e7\u00e3o no parlamento burgu\u00eas (que nunca resolve as quest\u00f5es mais importantes na democracia burguesa: estas s\u00e3o resolvidas pela Bolsa e pelos bancos)\u201d (V. I. L\u00e9nine, A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky). Sem nunca se posicionar ideologicamente do ponto de vista das classes oprimidas, o PT, atrav\u00e9s da corrup\u00e7\u00e3o, da mentira, do engano, tentou sempre fazer crer \u00e0s massas exploradas que a ordem capitalista, e as desigualdades que lhe s\u00e3o inerentes, s\u00e3o uma inevitabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Lutar pelo Trabalho, contra o Capital<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria, as diferentes camadas de trabalhadores, os estratos mais empobrecidos da popula\u00e7\u00e3o t\u00eam raz\u00f5es para sair \u00e0 rua.<\/p>\n<p>No quadro atual da luta entre Trabalho e Capital, a maioria explorada deve abrir caminho para lutas maiores e obrigar o capital a retroceder: combater o plano de privatiza\u00e7\u00f5es impulsionado por Fernando Henrique Cardoso e prosseguido por Lula e por Dilma, exigir a prometida e tra\u00edda Reforma Agr\u00e1ria, lutar contra a precariedade laboral, contra o trabalho escravo que subsiste em muitos setores, pela dignidade no trabalho, por condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o dignas, pela reposi\u00e7\u00e3o dos cortes nos programas sociais, contra a promiscuidade entre o Estado e os interesses econ\u00f4micos de uma minoria, por uma educa\u00e7\u00e3o e por um servi\u00e7o de sa\u00fade p\u00fablicos, universais e de qualidade, contra a exclus\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o social de camadas da popula\u00e7\u00e3o pertencentes \u00e0 maioria explorada, contra os megaprojetos do agroneg\u00f3cio e da agroind\u00fastria, contra a entrega da Natureza \u00e0 iniciativa privada, pela salvaguarda do direito \u00e0 terra dos povos amer\u00edndios, contra o assassinato e a persegui\u00e7\u00e3o a l\u00edderes e militantes de movimentos sociais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Estas n\u00e3o s\u00e3o, no entanto, as bandeiras de luta da burguesia e seus ac\u00f3litos endinheirados que no domingo sa\u00edram \u00e0 rua.<\/p>\n<p>No atual contexto de retrocesso civilizacional e ideol\u00f3gico na Am\u00e9rica latina, em que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as parece ser mais favor\u00e1vel ao Capital, num quadro da luta de classes em que as for\u00e7as mais reacion\u00e1rias, guiadas pelas grandes burguesias nacionais associadas ao capital estrangeiro, buscam impor-se sem trav\u00f5es nem amarras, destruindo as conquistas alcan\u00e7adas pelo Trabalho nos \u00faltimos 15 anos no continente, a classe dominante brasileira, apoiada pelas suas cong\u00e9neres exteriores, n\u00e3o precisa do PT.<\/p>\n<p>A burguesia brasileira j\u00e1 n\u00e3o precisa da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o classista impulsionada pelo governo Lula. J\u00e1 n\u00e3o precisa de travar o movimento popular emancipat\u00f3rio e de reivindica\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do mil\u00e9nio. J\u00e1 conseguiu expandir a falsa ideia de que a pol\u00edtica do PT \u00e9 uma pol\u00edtica progressista. Sabe que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as lhe \u00e9, neste momento, favor\u00e1vel, manipulando a seu favor as institui\u00e7\u00f5es do Estado por ela criadas, e para ela criadas.<\/p>\n<p>Lula, o ex-presidente que se havia tornado o palestrante mais caro do Brasil, cobrando cachets que variavam entre os 200 mil reais e os 790 mil reais, que deu palestras para multinacionais como a LG, a Telef\u00f4nica, a Microsoft, a Acapulco, a Associa\u00e7\u00e3o dos Bancos do M\u00e9xico, o Bank of Am\u00e9rica Merril Lynch, este Lula e o seu governo criaram, como afirma o Partido Comunista Brasileiro (PCB), na sua nota pol\u00edtica de 6 de mar\u00e7o de 2016, \u201co terreno pantanoso em que agora se afunda[m]\u201d.<\/p>\n<p>Abandonado pela classe dominante que havia servido, Lula volta-se, hoje, de novo, para a base social e eleitoral que o levara ao poder em outubro de 2002. Essa mesma base social e eleitoral que, no terreno da luta de classes, se viu tra\u00edda e defraudada por aquele Presidente que, antes de ser o palestrante mais caro do Brasil, havia sido o sindicalista torneiro mec\u00e2nico que afirmava, caso um dia fosse eleito Presidente da Rep\u00fablica, que iria \u201cprovar que voc\u00ea pode tranquilamente botar corrupto na cadeia. (\u2026) O grande rouba sem-vergonha e, esse, n\u00f3s precisamos de colocar na cadeia\u201d (vide <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TBwvT5nTUEo%29\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/<wbr \/>watch?v=TBwvT5nTUEo)<\/a>.<\/p>\n<p>Ao assumir, hoje, dia 16 de mar\u00e7o, a Casa Civil (minist\u00e9rio mais importante no Brasil, correspondendo ao de Primeiro-Ministro, em outros regimes parlamentares burgueses), as investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o que, atualmente, sobre ele pesam, deixam de estar sob a al\u00e7ada do juiz de Primeira Inst\u00e2ncia e passam a estar sob a jurisdi\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal (STF). Esta nomea\u00e7\u00e3o ministerial vem confirmar a corruptibilidade e pervers\u00e3o ideol\u00f3gica de Lula, descredibilizando-o, descredibilizando o PT, demonstrando o quanto a corrup\u00e7\u00e3o constitui um comportamento intrinsecamente ligado ao exerc\u00edcio do poder, num Estado ao servi\u00e7o de uma minoria exploradora. Esta nomea\u00e7\u00e3o demonstra, ainda, quer o facto de nem Lula, nem o PT serem pass\u00edveis de defender os interesses da maioria explorada (que, hipocritamente, e por raz\u00f5es de sobreviv\u00eancia, dizem proteger), quer o facto de o PT (assim como Lula e Dilma) terem sido um mero instrumento do capital, num per\u00edodo preciso da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Outros serventu\u00e1rios do capital suceder\u00e3o aos eleitos petistas, sob os aplausos do imperialismo norte-americano, provavelmente ainda mais retr\u00f3grados e d\u00f3ceis ao capital; este facto, contudo, n\u00e3o anula nem as responsabilidades do PT, nem as responsabilidades de Lula e de Dilma no processo de aprofundamento do capitalismo e de suas consequentes desigualdades gritantes.<\/p>\n<p>A luta de classes agudiza-se. Mas no terreno concreto desta Luta, a maioria daqueles que, no domingo, dia 13 de mar\u00e7o, sa\u00edram \u00e0 rua, defende acerrimamente a classe dominante do atual modo de produ\u00e7\u00e3o. Lula, antes por aquela acarinhado, hoje \u00e9 por ela espezinhado.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 certa: Lula n\u00e3o est\u00e1 na luta pelo p\u00e3o, pelo trabalho, pela dignidade da classe oper\u00e1ria e de todos os trabalhadores, aquela mesma que, desde 2002, Lula tem continuamente atrai\u00e7oado.<\/p>\n<hr \/>\n<p>i. O coeficiente de Gini \u00e9 um par\u00e2metro internacional usado para medir a desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o de renda entre os pa\u00edses. Varia entre 0 e 1, sendo que mais pr\u00f3ximo estiver do zero, menor \u00e9 a desigualdade de renda num pa\u00eds.<br \/>\nii. Como exemplo do aprofundamento do capitalismo e da defer\u00eancia perante o capital estrangeiro, observem-se os n\u00fameros do Banco Central do Brasil, referentes ao primeiro mandato do presidente Lula (2003 \u2013 2006). Com efeito, por cada dez reais investidos por empresas multinacionais no Brasil, seis reais foram enviados para as suas matrizes no exterior. Os bancos foram, ali\u00e1s, em 2006, as entidades que mais enviaram recursos brasileiros para fora do Brasil.<\/p>\n<p>http:\/\/odiario.info<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ana Saldanha Escrito aquando da nomea\u00e7\u00e3o de Lula para o cargo de ministro da Casa Civil de Dilma e antes da sua suspens\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10659\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-10659","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2LV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10659","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10659"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10659\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}