{"id":10777,"date":"2016-04-05T21:07:32","date_gmt":"2016-04-06T00:07:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10777"},"modified":"2021-05-31T14:12:45","modified_gmt":"2021-05-31T17:12:45","slug":"viva-a-comuna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10777","title":{"rendered":"Viva a Comuna!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/VIVAACOMUNA.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Georges Gastaud<\/p>\n<p>Jean-Pierre Hemmen*<\/p>\n<p>Evocar hoje a Comuna de Paris, cujo 145\u00ba anivers\u00e1rio do seu in\u00edcio se comemorou a 26 de Mar\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 apenas o relembrar de um facto hist\u00f3rico passado do proletariado franc\u00eas.<!--more--><\/p>\n<p>Comemorar o anivers\u00e1rio da Comuna \u00e9 tamb\u00e9m, nos nossos dias, a reafirma\u00e7\u00e3o do ideal comunista e o reconhecimento de que \u00ab(\u2026) uma luta sem tr\u00e9guas das massas, mesmo por uma causa desesperada, \u00e9 indispens\u00e1vel para a educa\u00e7\u00e3o ulterior dessas pr\u00f3prias massas, para as preparar para a luta futura\u00bb.<\/p>\n<p>A Comuna de 1871 n\u00e3o sa\u00eda do nada. Trazia dentro de si a ardente mem\u00f3ria da Comuna revolucion\u00e1ria de 1793, que tinha sido a ala de vanguarda da Revolu\u00e7\u00e3o francesa e o \u00faltimo basti\u00e3o robespierrista quando o incorrupt\u00edvel foi abatido pelos corruptos conjurados do Thermidor. E, ainda que a Comuna de 1871, obra do proletariado emergente e anunciadora das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias futuras, tenha sido um acontecimento irredutivelmente novo, o eco long\u00ednquo das insurrei\u00e7\u00f5es populares parisienses do passado continuava nela a ressoar profundamente, o eco de fevereiro de 1848 (elemento desencadeador da Primavera dos Povos da Europa) e das barricadas oper\u00e1rias afogadas no sangue de junho de 1848, mas tamb\u00e9m das Tr\u00eas Gloriosas de 1830 (celebradas pelo quadro de Delacroix A Liberdade Guiando o Povo), sem esquecer, para al\u00e9m de Gracchus Babeuf e a sua Conspira\u00e7\u00e3o pela Igualdade (1796), as jornadas revolucion\u00e1rias do 14 de julho de 1789 e do 10 de agosto de 1792 (Tomada das Tulherias pelos Sans Culottes parisienses e pelos Federados marselheses). E como n\u00e3o evocar a Fronda do Povo, que agitou a monarquia absoluta do s\u00e9c. XVII e, bem mais longe ainda, a primeira revolu\u00e7\u00e3o parisiense de 1357 (conduzida por Etienne Marcel e seus \u00abchaperons \u00bb azuis e vermelhos, em alian\u00e7a com a Grande Jacquerie do norte dirigida por Guillaume Carle), ou as comunas medievais que, de Laon a Beauvais, por vezes em alian\u00e7a com o poder real (Bouvines) e por vezes contra ele, desafiavam do alto dos respetivos Beffrois os privil\u00e9gios arrogantes dos nobres e prelados.<\/p>\n<p><strong>Da Comuna \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9c. XX<\/strong><\/p>\n<p>Disseram-se tantas coisas sobre a Comuna, que nos contentamos de remeter aqui para dois livros maiores : A Guerra Civil em Fran\u00e7a, em que Marx mostra o que \u00e9 para um comunista, ou nas suas palavras um \u00abmaterialista pr\u00e1tico\u00bb, a assimila\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da heran\u00e7a <em>revolucion\u00e1ria,<\/em> a igual dist\u00e2ncia entre o culto religioso e a ingratid\u00e3o pseudo-\u00abmodernista\u00bb. Principal fundador e dirigente da <em>Primeira Internacional <\/em>oper\u00e1ria (de que fazia parte o oper\u00e1rio \u201ccommunard\u201d Eug\u00e8ne Varlin) e exilado em Londres, Marx impulsionou a solidariedade internacional com os \u201ccommunards\u201d. Fortalecido por esta legitimidade concreta que se prolongou por inumer\u00e1veis esfor\u00e7os ap\u00f3s a impiedosa repress\u00e3o versalhesa, Marx soube no mesmo texto celebrar a ousadia dos \u201ccommunards\u201d \u00ab subindo ao assalto do C\u00e9u \u00bb, fustigar o \u00ab sangrento minorca \u00bb Thiers e os seus imundos carrascos versalheses, e apontar imparcialmente as fraquezas pol\u00edticas da dire\u00e7\u00e3o comun\u00e1ria, n\u00e3o pelo prazer de denegrir camaradas de luta que ele venerava, mas para<em> tirar da sua derrota ensinamentos suscet\u00edveis de ajudar as revolu\u00e7\u00f5es futuras a vencer resistindo.<\/em><\/p>\n<p>Foi exatamente ao deparar-se com as ila\u00e7\u00f5es cr\u00edticas tiradas por Marx da derrota sofrida que L\u00e9nine escreveu por sua vez em 1917, em plena Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, a impressionante brochura<em> O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> . O chefe de fila dos bolcheviques mostra a\u00ed de forma concreta como se articulam na teoria marxista da transi\u00e7\u00e3o para o comunismo a quest\u00e3o do duplo poder, das alian\u00e7as de classes para isolar a rea\u00e7\u00e3o, da <em>conquista pol\u00edtica do poder<\/em> de Estado pelo proletariado, da conexa instala\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado e da democracia dos sovietes de oper\u00e1rios, camponeses e soldados (<em>\u00aba mais larga democracia para as massas populares e uma ditadura implac\u00e1vel sobre as for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias\u00bb,<\/em> escreve L\u00e9nine para definir o conte\u00fado de classe da \u00abditadura do proletariado \u00bb), tudo isso na perspetiva final da socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o desembocando a longo prazo no <em>\u00abdesaparecimento do Estado\u00bb<\/em>, ele pr\u00f3prio tornado poss\u00edvel pela progressiva extin\u00e7\u00e3o das classes sociais e pela transi\u00e7\u00e3o por ela permitida entre o atual \u00abpoder sobre as pessoas\u00bb e a futura \u00abadministra\u00e7\u00e3o das coisas\u00bb, conforme disse Saint-Simon. Todas estas conce\u00e7\u00f5es estavam j\u00e1 certamente a operar de uma maneira ainda confusa e esparsa (e n\u00e3o podia ser de outra maneira enquanto o jovem proletariado, ainda muito restrito \u00e0 oficina artesanal e \u00e0 loja, n\u00e3o tinha ainda edificado um Partido de vanguarda seu) nas lutas her\u00f3icas dos prolet\u00e1rios parisienses do s\u00e9c. XIX e dos seus camaradas lioneses, marselheses, etc. (porque a Comuna de Paris teve fortes prolongamentos \u00abprovinciais\u00bb), esses iluminadores da futura revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Entre os numerosos ensinamentos que se podem tirar da experi\u00eancia da Comuna, permita-se-nos insistir em quatro pontos que t\u00eam particular import\u00e2ncia para a nossa atualidade militante, enquanto o grande movimento da luta dos Goodyear e dos defensores do C\u00f3digo do Trabalho rendem indireta homenagem \u00e0 Comuna neste 17 de mar\u00e7o, apelando ao povo trabalhador e \u00e0 juventude para ocuparem a rua sob a palavra de ordem tipicamente \u00ab communard \u00bb lan\u00e7ada pelos militantes do PRCF (\u00ab P\u00f4le de Rennaissance Communiste en France \u00bb, movimento sa\u00eddo do PCF, Partido Comunista Franc\u00eas \u2013 N.T.) durante as lutas pelas reformas de 2003 : \u00ab n\u00e3o \u00e9 o patronato que faz a lei, a verdadeira democracia est\u00e1 aqui ! \u00bb.<\/p>\n<p><strong>Ensinamentos para hoje e amanh\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>\u2022 Em primeiro lugar, <strong> \u00e9 absurdo opor a verdadeira democracia, a democracia prolet\u00e1ria e popular, \u00e0 ditadura do proletariado. <\/strong> \u00c9 contudo o que fazem n\u00e3o apenas os dirigentes euro-reformistas do PCF, que desde 1976, h\u00e1 quarenta anos, denigrem este conceito estrat\u00e9gico do marxismo e lhe op\u00f5em uma nevoenta \u00abdemocracia\u00bb sem fronteiras que mal disfar\u00e7a a sua ades\u00e3o \u00e0 democracia burguesa em plena decrepitude fascizante e maastrichtiana. Em un\u00edssono com os deputados \u00absocialistas\u00bb, estes mesmos reformistas em rotura com o marxismo n\u00e3o t\u00eam ali\u00e1s medo de votar em unanimidade pelo estado de urg\u00eancia que podiam perceber servir menos para combater o terrorismo fan\u00e1tico do que para intimidar e amea\u00e7ar o movimento popular. \u00c9 ali\u00e1s ao mesmo tipo de ren\u00fancia que procederam os dirigentes do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste, sa\u00eddo da LCR, Liga Comunista Revolucion\u00e1ria \u2013 N.T.), o qual com a gritaria dos seus megafones tamb\u00e9m repudiaram solenemente a refer\u00eancia marxista a este conceito marxista fundador. A experi\u00eancia hist\u00f3rica da Comuna mostra pelo contr\u00e1rio que<strong> \u00e9 ao mesmo tempo que devem ser exercidas a mais vasta democracia prolet\u00e1ria<\/strong> (a mais direta poss\u00edvel, com contr\u00f4le dos deputados do povo, proibi\u00e7\u00e3o de ganharem mais do que um sal\u00e1rio de oper\u00e1rio, possibilidade de revoga\u00e7\u00e3o no decurso do mandato se este n\u00e3o for respeitado, etc.) <strong>e a luta intransigente contra as manobras contra-revolucion\u00e1rias. <\/strong> Marx censurou aos dirigentes \u00ab communards \u00bb, na verdade bastante divididos, o n\u00e3o terem tomado medidas mais severas para amorda\u00e7arem a contra-revolu\u00e7\u00e3o e, especialmente, para expropriarem o Banco de Fran\u00e7a cujos haveres eram de facto produto desviado do trabalho prolet\u00e1rio. A op\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pois entre uma revolu\u00e7\u00e3o gentil, ignorando as rigorosas medidas a tomar contra os seus inimigos mortais, e a \u00ab malvada \u00bb ditadura do proletariado. Se n\u00e3o forem tomadas com determina\u00e7\u00e3o medidas rigorosas pelo poder revolucion\u00e1rio sa\u00eddo do povo, ent\u00e3o sem d\u00favida que, como diz o poeta \u00ab communard \u00bb Jean-Baptiste Cl\u00e9ment, \u00ab Os castigos da bandeira vermelha \/ S\u00e3o substitu\u00eddos pelo terror \/ De todos os patifes de esguelha \/ Criados de reis e do Imperador \u00bb, porque os chefes reacion\u00e1rios safam muito crist\u00e3mente a pele\u2026 mas vingam-se muito \u00ab pag\u00e3mente \u00bb durante a Semana Santa (\u00ab Batem, prendem, fusilam \/ Tudo o que encontram ao calhas \/ A m\u00e3e ao p\u00e9 da filha \/ A crian\u00e7a ao colo do velho\u2026 \u00bb, escrevia ainda Cl\u00e9ment). E n\u00e3o s\u00e3o os militantes chilenos da Unidade Popular, torturados por Pinochet e o seu tutor yankee pr\u00e9mio Nobel da paz Henry Kissinger, que poder\u00e3o infelizmente vir afirmar o contr\u00e1rio, nem o milh\u00e3o de comunistas indon\u00e9sios esmagados por Suharto em 1965 sob os aplausos da imprensa \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb americana e na total indiferen\u00e7a do \u00abFigaro\u00bb e da ORTF (R\u00e1dio e TV francesa \u2013 N.T.) de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a ditadura do proletariado n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, nunca deve perder de vista que o seu objetivo \u00e9 construir uma sociedade em que, atrav\u00e9s da extin\u00e7\u00e3o das classes sociais, o Estado de classe se torna progressivamente obsoleto e a sua tarefa em cada momento \u00e9 promover a atividade pol\u00edtica das massas, alargar sem cessar a democracia popular e a interven\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os-trabalhadores, para fazer de maneira que, como dizia ainda L\u00e9nine, \u00aba cozinheira possa governar o Estado\u00bb.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, <strong> \u00e9 aberrante opor o internacionalismo prolet\u00e1rio<\/strong> (\u00abProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos ! \u00bb) <strong>ao patriotismo popular. <\/strong> Os \u00abcommunards\u00bb eram ao mesmo tempo ardentes patriotas franceses que recusavam capitular perante Bismarck e magn\u00edficos internacionalistas que levaram a ter responsabilidades imigrados progressistas famosos como L\u00e9o Frankel (h\u00fangaro), Dombrowski (her\u00f3i da independ\u00eancia polaca, que defendeu Paris admiravelmente), n\u00e3o falando do revolucion\u00e1rio italiano Garibaldi, que foi ent\u00e3o eleito deputado franc\u00eas, ou Elisabeth Dmitrieva que, ao lado da parisiense Louise Michel ou da bretona Nathalie Le Mel, desempenhou um papel maior no recrutamento revolucion\u00e1rio das indom\u00e1veis mulheres parisienses. Conforme n\u00e3o deixamos de lembrar, a verdadeira cis\u00e3o de classe n\u00e3o \u00e9 a que separa os patriotas dos internacionalistas, como quereriam em conjunto faz\u00ea-lo crer os partid\u00e1rios nacionalistas dos Le Pen ou os adeptos neoliberais da UE supranacional e da NATO : quando a luta de classes endurece, op\u00f5e invariavelmente de um lado da barricada social os partid\u00e1rios do <em>cosmopolitismo capitalista aliados aos nacionalistas burgueses <\/em>(aquilo a que o PRCF, nas condi\u00e7\u00f5es presentes, chama <em>U.M.-Pen-S., <\/em>mostrando as converg\u00eancias dos dois processos reacion\u00e1rios que s\u00e3o em Fran\u00e7a a fasciza\u00e7\u00e3o xen\u00f3foba e a euro-desintegra\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es soberanas) e do outro lado dessa mesma barricada, os partid\u00e1rios do patriotismo republicano e os defensores da solidariedade internacional de classe. E isso \u00e9 ainda mais verdade nos nossos dias do que em 1871, visto que o capitalismo tomou a forma de imperialismo, de esmagamento dos pa\u00edses livres pelo capital financeiro, ou mesmo de vassaliza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses dominantes em decl\u00ednio por outros, como se v\u00ea com a odienta UE dominada pelo imperialismo alem\u00e3o e seus neocolaboracionistas \u00ab franceses \u00bb do grande patronato e do Partido Maastrichtiano \u00danico (PS e ex-UMP). \u00c9 por isso ali\u00e1s que a palavra de ordem da Terceira Internacional j\u00e1 n\u00e3o era apenas <em>\u00ab Prolet\u00e1rios de todos os pa\u00edses uni-vos \u00bb, mas \u00ab Prolet\u00e1rios de todos os pa\u00edses e povos oprimidos do mundo inteiro, uni-vos \u00bb<\/em>, tendo no horizonte a palavra de ordem largamente unificadora e defendida por L\u00e9nine do \u00ab direito de todas as na\u00e7\u00f5es a disporem de si pr\u00f3prias \u00bb. Concretamente, isso traduz-se pela necessidade para os verdadeiros herdeiros dos \u00abcommunards\u00bb de apelarem ao povo franc\u00eas, n\u00e3o para esperar tontamente pela imposs\u00edvel \u00abEuropa social\u00bb cara a Pierre Laurent, mas a exigir que a Fran\u00e7a saia pela esquerda, numa din\u00e2mica revolucion\u00e1ria de rotura com o capitalismo assassino de na\u00e7\u00f5es, com a mort\u00edfera UE atl\u00e2ntica e com o seu destrutivo euro.<\/p>\n<p>Verifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desta<strong> dial\u00e9tica materialista do patriotismo popular e do internacionalismo prolet\u00e1rio<\/strong> \u00e9 o facto de ser sempre a classe dominante que, desde a Idade M\u00e9dia (o bispo Cauchon entregando Jeanne Darc \u00e0 fogueira inglesa) at\u00e9 aos nossos dias, se aliou \u00e0 domina\u00e7\u00e3o estrangeira para se resguardar do povo e preservar os seus privil\u00e9gios, enquanto que pelo contr\u00e1rio o povo trabalhador defendeu o solo nacional, como se viu durante a Grande Revolu\u00e7\u00e3o, quando os soldados do Ano II sa\u00eddos do Faubourg Antoine salvavam a Fran\u00e7a republicana, enquanto os emigrados nobres de Koblenz tra\u00edam o pa\u00eds combatendo nas fileiras inglesas e austr\u00edacas. E em 1871, enquanto Thiers suplicava ao vitorioso Bismarck a liberta\u00e7\u00e3o dos soldados franceses feitos prisioneiros em Sedan jurando por escrito ao chefe do Segundo Reich alem\u00e3o que os ditos soldados n\u00e3o seriam \u00abutilisados a n\u00e3o ser contra Paris\u00bb, os internacionalistas presentes em Paris defendiam a Fran\u00e7a ocupada, tal como os franco-atiradores e os resistentes da m\u00e3o-de-obra imigrada, os Manouchian, os Epstein e Roger Landini, permaneciam fi\u00e9is \u00e0 Fran\u00e7a dos direitos do homem o mesmo tempo que os Louis Renault produziam tanques para a ocupa\u00e7\u00e3o nazi. Quem n\u00e3o se lembra da palavra do escritor gaulista Mauriac declarando, a prop\u00f3sito dos mineiros vermelhos do norte que aguentaram dois meses de greve debaixo da bota alem\u00e3 em 1941, que \u00ab apenas a classe oper\u00e1ria ficou fiel \u00e0 Fran\u00e7a profanada\u00bb ?<\/p>\n<p>\u2022 <strong>\u00c9 suicid\u00e1rio opor a democracia prolet\u00e1ria de massas ao partido de classe e de vanguarda. Este partido comunista, <\/strong> que tanta falta fez aos \u00ab communards \u00bb, entre os quais dominavam ainda as ideias pequeno-burguesas e anarquisantes hostis \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, tinham-no os bolcheviques constru\u00eddo e temperado no fogo das lutas da Revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905, n\u00e3o opondo-o, mas apoiando-o nessa cria\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea das massas oper\u00e1rias russas em movimento que eram os sovietes (conselhos) de oper\u00e1rios e camponeses. Sem o partido bolchevique, sem a sua disciplina de a\u00e7\u00e3o baseada no centralismo democr\u00e1tico (a mais larga democracia antes da tomada de decis\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o maiorit\u00e1ria por todos, incluindo a minoria), n\u00e3o teria havido revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria vitoriosa em outubro de 17, porque como seria poss\u00edvel unir e disciplinar o esfor\u00e7o de um povo-continente face a uma rea\u00e7\u00e3o feudal-burguesa unida e armada at\u00e9 aos dentes, sem dispor desse elemento indispens\u00e1vel a todo o ex\u00e9rcito que quer ganhar e n\u00e3o apenas \u00abdar testemunho\u00bb que \u00e9 <em>um Estado-Maior pol\u00edtico<\/em> ? E inversamente, que seria de um partido autoproclamado de vanguarda, um grup\u00fasculo declarando-se \u00ab o \u00bb partido, sem manifestar a menor preocupa\u00e7\u00e3o por federar os revolucion\u00e1rios e tornar-se a vanguarda efetiva do movimento popular aqui e agora ?<\/p>\n<p>\u00c9 ali\u00e1s conjugando a constru\u00e7\u00e3o do partido comunista (ao qual L\u00e9nine escolheu a denomina\u00e7\u00e3o de origem francesa em tripla refer\u00eancia \u00e0 Comuna, ao objetivo final comunista e n\u00e3o socialista do partido e tamb\u00e9m ao que ele chamava o \u00abEstado-Comuna\u00bb, o Estado visando a sua pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o, por muito long\u00ednqua que fosse) e a din\u00e2mica pr\u00f3pria dos sovietes de oper\u00e1rios, camponeses e soldados, que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro triunfou, como o atesta de forma grandiosa o livro-reportagem de John Reed sobre Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, porque Outubro n\u00e3o foi apenas uma insurrei\u00e7\u00e3o militar vitoriosa do proletariado e da guarni\u00e7\u00e3o vermelha de Petrogrado. A pr\u00f3pria insurrei\u00e7\u00e3o, que entregou imediatamente todo o poder aos sovietes (onde os bolcheviques tinham ganho democraticamente a maioria), foi sobretudo necess\u00e1ria para que se lan\u00e7asse um imenso debate, ganho pelos bolcheviques em cada f\u00e1brica, cada caserna, cada aldeia em que foi necess\u00e1rio pronunciar-se sobre os tr\u00eas primeiros decretos do novo poder sovi\u00e9tico : <em>o Decreto sobre a paz dos povos, o Decreto sobre a terra para os camponeses e o Decreto sobre o contr\u00f4le oper\u00e1rio nas f\u00e1bricas.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 por isso que \u00e9 aberrante ver alguns comunistas atuais, que acreditam no entanto opor-se \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do PCF-PGE (Partido Comunista Franc\u00eas \u2013 Partido da Esquerda Europeia \u2013 N.T.), tratarem por alto a \u00ab matriz leninista do comunismo \u00bb \u00e0 maneira do primeiro euro-mutante ca\u00eddo do c\u00e9u, sonharem voltar hoje \u00e0 <em>Primeira Internacional saltando por cima da experi\u00eancia da Internacional Comunista <\/em>e do primeiro campo socialista da hist\u00f3ria que, durante d\u00e9cadas, fez frente ao imperialismo construindo uma sociedade certamente imperfeita, mas sem desemprego, sem explora\u00e7\u00e3o capitalista e sem traficantes de canh\u00f5es. Se se quer analisar como marxistas e n\u00e3o como derrotistas e pequeno-burgueses lamurientos as causas da derrota provis\u00f3ria do socialismo (tarefa que n\u00e3o \u00e9 o objeto deste curto artigo), h\u00e1 melhor a fazer do que armar em bem-pensantes arrependidos, renegar o passado comunista, autoflagelar-se para agradar ao advers\u00e1rio, e sonhar com o regresso \u00e0s formas antigas pr\u00e9-bolcheviques do poder prolet\u00e1rio, enquanto o capitalismo est\u00e1 mil vezes mais agressivo, destruidor, fascizante, exterminista at\u00e9 do que ainda n\u00e3o o podia ser o capitalismo do s\u00e9c. XIX. Como dizia o poeta Arthur Rimbaud, \u00ab\u00e9 preciso ser resolutamente moderno: aguentar o passo dado!\u00bb e n\u00e3o praticar o que j\u00e1 L\u00e9nine fustigava, essa dan\u00e7a do ventre pr\u00f3pria dos elementos mencheviques que se traduz pelo tristemente famoso \u00abum passo em frente, dois passos atr\u00e1s !\u00bb. Isto, a n\u00e3o ser que se queira perder eternamente os combates face a um inimigo de classe mais determinado que nunca e numa situa\u00e7\u00e3o em que, mesmo no cora\u00e7\u00e3o dos nossos pa\u00edses imperialistas em crise, a deteriora\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria de massas amea\u00e7am muito diretamente os trabalhadores e a parte inferior das assim chamadas \u00ab classes m\u00e9dias \u00bb !\u2026<\/p>\n<p>\u2022 Finalmente, \u00e9<strong> desonesto opor a constru\u00e7\u00e3o multissecular da na\u00e7\u00e3o e depois a instala\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da Rep\u00fablica una, laica, soberana, social legada por Robespierre, \u00e0 descentraliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica popular, ou parcialmente popular, que historicamente foi trazida n\u00e3o apenas pela Comuna de 1871, mas pelos insurretos medievais das \u00abcomunas de jurados\u00bb da Idade M\u00e9dia<\/strong>. S\u00e3o historicamente o Primeiro e o Segundo Imp\u00e9rio e n\u00e3o os \u00absans culottes\u00bb, nem por maioria de raz\u00e3o os \u00abcommuneux\u00bb**, quem suspendeu as liberdades comunais ao passarem \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o dos \u00ab maires \u00bb e imporem um super-presidente para Paris, Pelo contr\u00e1rio, <strong> a na\u00e7\u00e3o francesa e as comunas, apesar de muitas atribula\u00e7\u00f5es, foram contru\u00eddas a par. <\/strong> Foi o processo, historicamente progressista numa primeira fase, de constru\u00e7\u00e3o de um Reino de Fran\u00e7a centralizado que viu os capetianos, desejosos de conjurarem as frondas feudais, aliarem-se \u00e0s mil\u00edcias comunais : em Bouvines (1214), a batalha contra a coliga\u00e7\u00e3o entre o rei ingl\u00eas, o Imperador alem\u00e3o, o conde flamengo e diversos grandes feudat\u00e1rios rebeldes, foi ganha por Phillipe-Auguste e pelos seus aliados comunalistas aos gritos de \u00abComuna, Comuna !\u00bb e essa vit\u00f3ria permitiu a Paris consolidar o seu papel de capital pol\u00edtica do Reino. Foi igualmente uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica real que tem a ver com alian\u00e7as de classe a que inspirou Fran\u00e7ois I quando escolheu erigir o franc\u00eas (quer dizer, a l\u00edngua falada pela burguesia e pelo povo, pelo menos na Ile-de-France) a l\u00edngua administrativa e jur\u00eddica, afastando o latim caro aos eclesi\u00e1sticos (sem por isso proibir as l\u00ednguas perif\u00e9ricas). Quanto \u00e0 <em>Rep\u00fablica una e indivis\u00edvel,<\/em> criada pelos horr\u00edveis \u00ab centralizadores \u00bb jacobinos, os Marat, Robespierre, Saint-Just, Couthon, etc., ela liquidou as velhas <em>prov\u00edncias \u00e9tnicas <\/em>herdadas da feudalidade em proveito dos novos departamentos, mas nem por isso deixou de confirmar a elei\u00e7\u00e3o dos \u00ab maires \u00bb e conselhos comunais sem melindrar as suas prerrogativas, o que reduz a nada a atual contra-reforma territorial de inspira\u00e7\u00e3o maastrichtiana. Em resumo, antes de dizer tontamente que \u00ab em geral, o centralismo op\u00f5e-se \u00e0 interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica local \u00bb, \u00e9 preciso verificar o conte\u00fado de classe do centralismo e da proclamada \u00ab descentraliza\u00e7\u00e3o \u00bb, porque <strong>o centralismo nacional n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 democracia local quando em todo o territ\u00f3rio franc\u00eas \u00e9 a classe progressista, ontem a burguesia jacobina, hoje o proletariado virtualmente \u00ab communard \u00bb, que conduzem a iniciativa hist\u00f3rica. <\/strong>Mais uma vez, que diferen\u00e7a marcante com a nossa sinistra \u00e9poca contra-revolucion\u00e1ria em que, tudo de uma vez, sob a \u00e9gide da grande burguesia agora olig\u00e1rquica, temos o reagrupamento autorit\u00e1rio dos territ\u00f3rios confortando as \u00ab metr\u00f3poles \u00bb em detrimento das comunas, temos as super-regi\u00f5es \u00e0 custa dos departamentos, temos o Imp\u00e9rio europeu berlino-formatado e a Uni\u00e3o transatl\u00e2ntica centrada na Am\u00e9rica, ambos apoiados pelo poder planetariamente devastador da NATO, mil vezes mais perigosa para o futuro da humanidade do que nunca o foram os \u00abreiters\u00bb de Bismarck ou os hussardos do duque de Brunswick !<\/p>\n<p>Haveria mil outras li\u00e7\u00f5es a tirar da experi\u00eancia cultural e humana sem precedentes que foi a Comuna sob a dire\u00e7\u00e3o dos her\u00f3icos Varlin, Flourens, Ferr\u00e9 e Courbet, nomeadamente pela maneira pela qual separou claramente, pela primeira vez em Fran\u00e7a, o Estado republicano das Igrejas, coisa que outros historiadores do laicismo e das Luzes j\u00e1 disseram cem vezes melhor do que saber\u00edamos faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Por ora, enquanto Hollande rasteja diante dos neo-versalheses do MEDEF (Movimento das Empresas de Fran\u00e7a \u2013 N.T.) e que o dito MEDEF aceita alegremente dissolver a Rep\u00fablica soberana, a l\u00edngua francesa, a heran\u00e7a das Luzes e a de 1936 e do CNR (Conselho Nacional da Resist\u00eancia \u2013 N.T.) nas \u00e1guas geladas da UE maastrichtiana e do todo-ingl\u00eas \u00ab transatl\u00e2ntico \u00bb, os verdadeiros sucessores dos \u00ab communards \u00bb assumem orgulhosamente a heran\u00e7a dos her\u00f3icos prolet\u00e1rios e artes\u00e3os parisienses que abriram ao mundo inteiro a era provisoriamente interrompida das revolu\u00e7\u00f5es socialistas. Sem opor Outubro de 1917 \u00e0 breve primavera vermelha de 1871, a hora mais do que nunca \u00e9 a da resist\u00eancia popular, da contra-ofensiva de todos em conjunto e em simult\u00e2neo com os Goodyear, com os outros assalariados do p\u00fablico e do privado, com os reformados, os estudantes, os professores, os camponeses e os artes\u00e3os em luta, para que o nosso pa\u00eds volte a ser o que nunca devia ter deixado de ser, o pa\u00eds das Luzes comuns.<\/p>\n<p>* G. Gastaud, fil\u00f3sofo franc\u00eas, \u00e9 amigo de odiario.info.<br \/>\nJ.-P. Hemmen \u00e9 diretor pol\u00edtico da revista \u00abEtincelles\u00bb<\/p>\n<p>** Lembremos que a palavra \u00abcommunard\u00bb era originalmente um insulto versalh\u00eas: segundo Jaur\u00e8s, os partid\u00e1rios da Comuna chamavam-se entre si \u00ab communeux \u00bb.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o : Jorge Vasconcelos<\/p>\n<blockquote data-secret=\"q4JIcjiLiI\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3970\">Analistas preveem alta da produ\u00e7\u00e3o industrial<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3970\/embed#?secret=q4JIcjiLiI\" data-secret=\"q4JIcjiLiI\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Analistas preveem alta da produ\u00e7\u00e3o industrial&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Georges Gastaud Jean-Pierre Hemmen* Evocar hoje a Comuna de Paris, cujo 145\u00ba anivers\u00e1rio do seu in\u00edcio se comemorou a 26 de Mar\u00e7o, n\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10777\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[367,50],"tags":[],"class_list":["post-10777","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comuna-de-paris","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2NP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10777","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10777"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10777\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}