{"id":10784,"date":"2016-04-06T21:07:06","date_gmt":"2016-04-07T00:07:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10784"},"modified":"2016-05-05T22:35:39","modified_gmt":"2016-05-06T01:35:39","slug":"as-licoes-de-obama-a-cuba-e-a-sociedade-cubana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10784","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es de Obama a Cuba e \u00e0 Sociedade Cubana"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cubadebate.cu\/wp-content\/gallery\/autores\/rafael-hernandez.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Rafael Hern\u00e1ndez*<\/p>\n<p>Neste texto, Rafael Hern\u00e1ndez, brilhante intelectual cubano director da revista trimensal \u00abTemas\u00bb, comenta o discurso de Obama em Havana, \u00abuma j\u00f3ia da joalharia pol\u00edtica que deveria ser estudada nas faculdades de comunica\u00e7\u00e3o e nas escolas do Partido. As suas frases nem parecem ter sido bordadas por peritos e habilmente lidas num teleponto, parecem ditas do cora\u00e7\u00e3o. Esta pe\u00e7a de orat\u00f3ria, a sua encena\u00e7\u00e3o e a sua perfeita interpreta\u00e7\u00e3o parecem uma conversa, n\u00e3o um documento carregado de teses do princ\u00edpio ao fim\u00bb.<!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 este documento que Rafael Hern\u00e1ndez desmonta.<\/p>\n<p>A<i> interven\u00e7\u00e3o do presidente Obama perante uma representa\u00e7\u00e3o da sociedade<\/i> civil cubana, especialmente selecionada e convidada, que vimos pela televis\u00e3o, \u00e9 uma j\u00f3ia da joalharia pol\u00edtica que deveria ser estudada nas faculdades de comunica\u00e7\u00e3o e nas escolas do Partido. As suas frases nem parecem ter sido bordadas por peritos e habilmente lidas num teleponto, parecem ditas do cora\u00e7\u00e3o. Esta pe\u00e7a de orat\u00f3ria, a sua encena\u00e7\u00e3o e a sua perfeita interpreta\u00e7\u00e3o parecem uma conversa, n\u00e3o um documento carregado de teses do princ\u00edpio ao fim.<\/p>\n<p>Comento algumas destas teses e o seu brilhante trabalho de orat\u00f3ria, a partir da l\u00f3gica com que o Presidente construiu a vis\u00e3o da nossa realidade e da dos Estados Unidos, tal como o seu tom directo. Os meus modestos coment\u00e1rios n\u00e3o pretendem ser o espelho da sociedade civil cubana, apenas uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o senso comum, o de Obama e o dessa sociedade, reconhecendo-a na sua heterogeneidade, vibrante e politizada, n\u00e3o satisfeita com mon\u00f3logos bem armados e carism\u00e1ticos, mas com o di\u00e1logo real entre a diversidade de cidad\u00e3os, j\u00e1 estes s\u00e3o muito mais que dois. Fa\u00e7o-o com um esp\u00edrito de debate, n\u00e3o apenas por um convite do presidente Obama a uma discuss\u00e3o \u00abboa e saud\u00e1vel\u00bb, mas porque esse debate se legitimou entre n\u00f3s h\u00e1 j\u00e1 muito tempo, como parte de uma liberdade de express\u00e3o que a sociedade civil ganhou por si pr\u00f3pria, para al\u00e9m das estrid\u00eancias e da gritaria, sem esperar dons de cima ou de benfeitores poderosos de fora.<\/p>\n<p><b>1. \u00abDevemos deixar tudo para tr\u00e1s\u00bb<\/b><\/p>\n<p>Desde o seu primeiro discurso, na Cimeira de Puerto Espa\u00f1a (2009) [1], o presidente Obama insistiu em n\u00e3o ser respons\u00e1vel pela guerra que os EUA mant\u00eam contra Cuba, porque tudo isso se passou \u00abantes de nascer\u00bb. Com esta volta, pessoal, demarca-se do legado no uso da for\u00e7a pelos EUA para com Cuba nos \u00faltimos 150 anos. Hoje, diz-nos que a sua mensagem \u00e9 \u00abuma sauda\u00e7\u00e3o de paz\u00bb, e que o melhor \u00e9 encerrarmos o passado. Sempre que se trate de olhar em frente, fa\u00e7amo-lo. No entanto, <b>na linha seguida por este doce intr\u00f3ito, passa para a revolu\u00e7\u00e3o a conta a pagar pela dor e o sofrimento do povo cubano, e despacha este per\u00edodo como \u00abuma aberra\u00e7\u00e3o\u00bb na hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es bilaterais.<\/b><\/p>\n<p>Em vez de deixar o passado para tr\u00e1s n\u00f3s queremos reexamin\u00e1-lo de maneira equ\u00e2nime, e v\u00ea-lo em toda a sua complexidade, sem espelhos ideol\u00f3gicos nem frases diplom\u00e1ticas, pois n\u00e3o ajuda evoca-lo como se fosse <i>The P\u00e9rez Family,<\/i> aquele filme com Alfred Molina e Marisa Tomei. <b>A normaliza\u00e7\u00e3o inicia-se do lado dos EUA, n\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 sua infinita benevol\u00eancia, mas porque \u00e9 nas suas m\u00e3os que tem estado a decis\u00e3o de alterar as coisas<\/b>. Olhando mais de perto, a recapacita\u00e7\u00e3o de Obama e o seu desacordo com a pol\u00edtica dos EUA durante todo esse per\u00edodo \u00ababerrante\u00bb consiste na constata\u00e7\u00e3o de que \u00abn\u00e3o estava a funcionar\u00bb, porque n\u00e3o atingiu o seu objectivo: derrubar o socialismo cubano pela for\u00e7a e pelo isolamento. O seu m\u00e9rito consiste em t\u00ea-lo declarado em Puerto Espa\u00f1a, e proclamar agora \u00abcoragem de o reconhecer\u00bb, ainda que se trate de uma pol\u00edtica que o resto do mundo assumiu h\u00e1 mais de vinte anos.<\/p>\n<p><b>discurso caracterizado pela franqueza, no entanto, n\u00e3o diz nem uma \u00fanica vez que al\u00e9m de err\u00f3nea, essa pol\u00edtica foi contra-producente, porque atropelou o bem-estar do povo e a soberania cubanas, como imp\u00f4s a necessidade de armarmo-nos at\u00e9 aos dentes, e conduziu \u00e0 maldita situa\u00e7\u00e3o de uma fortaleza sitiada, e um estado de seguran\u00e7a nacional cujas consequ\u00eancias econ\u00f3micas e pol\u00edticas ainda estamos a pagar. <\/b>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desconhecer que esse eloquente e sem papas na l\u00edngua cidad\u00e3o norte-americano, que reclama dizer-nos o que pensa, \u00e9 tamb\u00e9m o Presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica. <b>Com essa mesma franqueza, podia ter arrega\u00e7ado as mangas e metido as m\u00e3os no tema reconhecendo o papel do Estado norte-americano, n\u00e3o s\u00f3 nos custos do povo, mas os dos nossos problemas actuais, se quisermos ir ao fundo das coisas, agora e no futuro.<\/b><\/p>\n<p><b>2. \u00abGra\u00e7as \u00e0s virtudes de um sistema democr\u00e1tico e respeitador da liberdade dos indiv\u00edduos, os EUA s\u00e3o o pa\u00eds das oportunidades, onde o filho de um imigrante africano e uma m\u00e3e branca solteira p\u00f4de chegar a presidente\u00bb.<\/b><\/p>\n<p>Este not\u00e1vel discurso leva-nos ami\u00fade por caminhos cl\u00e1ssicos como o do sonho americano, com uma mestria narrativa pr\u00f3pria de Steven Spielberg, que tinha invejado, entre outros, o grande F\u00e9lix B. Caignet. <b>Ainda que recuse, e com raz\u00e3o, ficar atolado na hist\u00f3ria, Obama termina por dar-nos vis\u00e3o das coisas que se passaram n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas tamb\u00e9m l\u00e1. <\/b>Numa das suas teses centrais, afirma que a justi\u00e7a social alcan\u00e7ada por eles se deve, precisamente, ao sistema democr\u00e1tico adoptado pelos pais fundadores.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo ano cumprem-se 150 anos do fim da Guerra civil que dividiu o Norte e o Sul dessa grande na\u00e7\u00e3o no confronto mais terr\u00edvel, em termos materiais e humanos, sofrido pelos EUA, tendo em conta todas as guerras em que participaram. Se a democracia tivesse chegado para resolver o problema da escravatura, n\u00e3o teria sido necess\u00e1ria aquela guerra atroz, provocada pelo levantamento dum ter\u00e7o do pa\u00eds contra o poder leg\u00edtimo, democraticamente eleito, e que custou 750 mil mortos, meio milh\u00e3o de feridos, 40% de destrui\u00e7\u00e3o do do Sul do pa\u00eds, propriedades perdidas para sempre pelos sulistas derrotados, um presidente Lincoln vilipendiado e finalmente assassinado, s\u00f3 para abolir a escravatura.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo depois dessa terr\u00edvel Guerra civil, ao lado da qual a nossa revolu\u00e7\u00e3o com todos os seus custos humanos e familiares \u00e9 um passeio pelo campo, ainda a mam\u00e3 Obama e a fam\u00edlia tiveram que partir com a fam\u00edlia para o criar num estado t\u00e3o pr\u00f3ximo como Hawai, onde o seu filho, mulato, p\u00f4de crescer rodeado de menos discrimina\u00e7\u00e3o galopante que nos EUA continentais \u2013 como ele mesmo nos recorda no seu discurso. Todavia, ainda hoje, como demonstram historiadores e soci\u00f3logos norte-americanos, as feridas daquela conflagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fecharam de todo, e as causas estruturais da desigualdade racial e a viol\u00eancia associada n\u00e3o conseguem baixar. Se Martin Luther King Jr e muitos norte-americanos, de todas as cores, tal como n\u00f3s em Cuba, celebramos o triunfo de um candidato negro nas elei\u00e7\u00f5es de 2008, tamb\u00e9m sabemos que isso n\u00e3o basta para que um sistema pol\u00edtico se torne mais democr\u00e1tico \u2013 nem l\u00e1 nem em parte alguma.<\/p>\n<p>Quanto ao pluralismo do sistema, soa como um<i> wishful thinking <\/i>[2], ou uma boa ideia, que um candidato social-democrata fizesse a campanha e chegasse at\u00e9 ao final com alguma visibilidade, como uma terceira via no quadro de ferro bipartid\u00e1rio dos EUA, em vez de se ver for\u00e7ado a um Partido Democrata que abomina, para ter alguma hip\u00f3tese de participar nesse bicenten\u00e1rio sistema pol\u00edtico estadounidense, ao qual Jos\u00e9 Mart\u00ed dedicou centenas de p\u00e1ginas, que lemos pouco e conhecemos menos do que dev\u00edamos.<\/p>\n<p><b>3. \u00abO socialismo tem as suas coisas boas, como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o (ainda que lhe falte os direitos humanos e as liberdades que t\u00eam os EUA.\u00bb<\/b><\/p>\n<p>Muito obrigado. Mas isso da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o di-lo todo o mundo. Em rigor, a quest\u00e3o de p\u00f4r em contraste os atributos dos nossos sistemas requere p\u00f4-los num contexto mais amplo. Antes de o comparar com Cuba havia que p\u00f4r o sistema norte-americano ao lado de outras economias de mercado e democracias liberais do mundo. Algu\u00e9m mais tem um igual? <b>O que h\u00e1 que explicar \u00e9 por que raz\u00e3o essa democracia baseada em valores universais, onde tudo se alcan\u00e7a, n\u00e3o p\u00f4de conseguir um sistema nacional de sa\u00fade, nem sequer um t\u00e3o incompleto como era o projecto original do Obamacare. <\/b>Como se explica que a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que n\u00e3o \u00e9 um invento comunista, tenha funcionado em muitos pa\u00edses europeus, enquanto nos EUA tem \u00edndices t\u00e3o pobres?<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da medida do socialismo cubano, pergunto-me se esta se cont\u00e9m em dois servi\u00e7os p\u00fablicos gratuitos, como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, tal com tem os canadianos e os finlandeses. J\u00e1 sei que muitos cubanos pensam assim. Do meu ponto de vista, no entanto, <b>o maior \u00eaxito do socialismo cubano (incluindo n\u00e3o s\u00f3 o governo mas todos os cubanos que o tornam poss\u00edvel) foi a reivindica\u00e7\u00e3o do sentido da dignidade das pessoas e da pr\u00e1tica da justi\u00e7a social, independentemente da sua origem, classe, cor ou g\u00e9nero<\/b>. Isso explica, por certo, que os cubanos estejam hoje alarmados perante o crescimento da desigualdade e da pobreza, e n\u00e3o a aceitemos como um facto natural mas como eros\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 fundamental. Ou \u00e9 que o custo do retrocesso dos perdedores se equilibra com a prosperidade dos ganhadores? Resolve-se com impostos e um suposto efeito de derrame de cima para baixo? Onde \u00e9 que isso se passa? Quando digo igualdade \u2013 n\u00e3o uniformidade nem igualitarismo \u2013 refiro-me \u00e0 pr\u00e1tica real desse direito, n\u00e3o \u00e0 letra de uma constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s, cubanos, devemos recordar que o nosso h\u00f3spede, o Dr. Barack Obama, \u00e9 graduado pela Escola de Direito de Harvard, e ensinou na Universidade de Chicago essa mat\u00e9ria, Direito Constitucional, antes de ser organizador comunit\u00e1rio nessa cidade, e depois pol\u00edtico local, pelo que tem plena consci\u00eancia do que estamos a tratar. <b>coisa \u00e9 a lei e as institui\u00e7\u00f5es do sistema, e outra a justi\u00e7a social. Dizer que a pr\u00e1tica dessa justi\u00e7a em Cuba consiste \u00abno papel e nos direitos do Estado\u00bb, em oposi\u00e7\u00e3o aos do indiv\u00edduo, revela, no melhor dos casos, ignor\u00e2ncia, e no pior, m\u00e1-f\u00e9. <\/b>Tratando-se dele, seguramente, se trata s\u00f3 da primeira hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Claro que temos muito de avan\u00e7ar em mat\u00e9ria de direitos de cidadania <i>efectivos<\/i>, refor\u00e7o da lei, mais poder e representa\u00e7\u00e3o de todos os grupos sociais, e n\u00e3o s\u00f3 dos nossos empreendedores privados, no caminho para uma democracia cidad\u00e3 plena. Faz\u00ea-lo sobre a base da nossa pr\u00f3pria cultura pol\u00edtica, e tendo em conta outras experi\u00eancias de descentraliza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o local na Am\u00e9rica Latina, mais que as dos nossos amigos asi\u00e1ticos, \u00e9 uma tarefa que n\u00e3o se deve deixar mais l\u00e1 para a frente. Com sincera admira\u00e7\u00e3o para com os lutadores pelos direitos civis nos EUA, dezenas deles assassinados pela ultra-direita e acossados pelo FBI, o nosso horizonte de direitos de cidadania est\u00e1 muito mais para l\u00e1.<\/p>\n<p><b>4. \u00abA altera\u00e7\u00e3o em Cuba \u00e9 coisa dos cubanos\u00bb<\/b><\/p>\n<p>Naturalmente, todos aplaudimos. Mas nesse mesmo par\u00e1grafo, o Presidente pega nas r\u00e9deas no assunto, para defender os direitos dos \u00abseus cubanos\u00bb, isto \u00e9, os exilados de Miami e os dissidentes em Cuba, precisamente aqueles que se reconhecem como aliados dos EUA. Ainda que saibamos que a maioria dos emigrados dos anos 80 e 90, e os actuais, n\u00e3o se foram embora pelas mesmas raz\u00f5es pol\u00edticas que os emigrados de 60 e 70, mas econ\u00f3micas e familiares; ainda que os que se foram desde 1994-1995 n\u00e3o sejam considerados refugiados pol\u00edticos pela lei norte-americana, mas simplesmente imigrantes; que 300 mil deles visitam pacificamente Cuba cada ano; que esses imigrantes mais recentes representam metade de todos os cubanos residentes nos EUA, e s\u00e3o os que mandam 1,7 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares aos seus parentes na ilha com quem mant\u00e9m estreitas liga\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o partiram zangados; que metade dos restantes nasceram nos EUA, e portanto tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o refugiados pol\u00edticos, e inclusive visitam a ilha com passaporte norte-americano, o presidente Obama fala de dois milh\u00f5es de \u00abexilados\u00bb cubanos, com os quais ele promove qualquer coisa chamada \u00abreconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb. Ser\u00e1 poss\u00edvel que tamb\u00e9m n\u00e3o saiba o n\u00famero crescente de repatriados desde a lei migrat\u00f3ria de Janeiro de 2013? Dos cubanos-americanos que n\u00e3o fazem neg\u00f3cios com Cuba porque a lei do bloqueio o impede? Se n\u00e3o \u00e9 assim, ent\u00e3o entre quem \u00e9 a \u00abreconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb que advoga? Ser\u00e3o os pol\u00edticos do lobby archi-conservador cubano-americano, oposto \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o? Os seus aliados em Cuba? Os sobre-vivos batistianos?<\/p>\n<p>Certamente, quando ele fala das nossas rela\u00e7\u00f5es, das de todos os cubanos de Cuba com os norte-americanos, diz que somos exactamente \u00abdois irm\u00e3os do mesmo sangue\u00bb que nos temos visto \u00abseparados h\u00e1 muitos anos\u00bb devido \u00e0 fatalidade desta \u00ababerra\u00e7\u00e3o\u00bb que aqui temos. Seja dito em nome da verdade, desde h\u00e1 mais de um s\u00e9culo que n\u00f3s, cubanos, somos vistos (e para muitos continuamos a s\u00ea-lo), como uma ra\u00e7a inferior, porque somos um povo de cor, nada de consanguinidades. Quanto ao nosso c\u00f3digo partilhado com os afro norte-americanos e latinos, seria conveniente que os seus assessores dissessem ao presidente e a esses cubanos exilados em Miami, onde n\u00e3o abundam os negros mas o racismo exacerbado da classe alta cubana, a quem n\u00e3o agrada que lhes chamem latinos, porque se sentem superiores \u2013 como muito bem sabem os restantes latinos e negros norte-americanos. Esses exilados de pura cepa fizeram uma ac\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio ao mesm\u00edssimo Nelson Mandela quando visitou os EUA e quis ir a Miami; e costumam chamar ao presidente Obama desde que foi eleito, \u00abo negrito da Caridade\u00bb (o que n\u00e3o \u00e9 propriamente um tratamento carinhoso, ainda que o pare\u00e7a). Agora, que fez tudo isto com Cuba chamam-no simplesmente \u00abo traidor\u00bb. Seguramente entende que n\u00e3o nos \u00e9 f\u00e1cil entendermo-nos.<\/p>\n<p><b>5. \u00abA normaliza\u00e7\u00e3o com os EUA est\u00e1 a abrir as portas \u00e0s altera\u00e7\u00f5es em Cuba\u00bb<\/b><\/p>\n<p>Segundo este diagn\u00f3stico aqui n\u00e3o se passou nada nestes \u00faltimos anos. Ou seja, o governo cubano \u00ababriu-se ao mundo gra\u00e7as ao 17 de Dezembro de 2014; e ainda lhe falta reconhecer que a maior riqueza deste pa\u00eds \u00e9 o seu capital humano. <b>Com todo o respeito pelo sector privado que temos, imaginar que o nosso potencial de desenvolvimento e inventiva se limita a alugar casas, a fundar paladares [3], a manter a andar os <\/b><i><b>\u2018almendrones\u2019<\/b><\/i><b>[4] \u00e9 ignorar o nosso maior capital humano, formado pelo que fazem os nossos m\u00e9dicos, professores universit\u00e1rios, artistas, agricultores, cientistas, profissionais. Esquecer os jornalistas oficiais das institui\u00e7\u00f5es armadas, diplom\u00e1ticas, professores do ensino b\u00e1sico e secund\u00e1rio, dirigentes, muitos deles jovens e bem preparados, s\u00e3o a parte principal da riqueza da na\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o sejam nem se v\u00e3o a converter em \u00absector privado\u00bb.<\/b> N\u00e3o que confundir a sociedade civil com os neg\u00f3cios. Ou h\u00e1 algu\u00e9m que pense que estes barbeiros e donas de pequenos neg\u00f3cios t\u00e3o justamente celebrados estes dias brotaram nas ruas por gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, em vez de terem sido criados por uma lei cubana, e que se mant\u00eam ligados \u00e0s institui\u00e7\u00f5es locais, com que colaboram?<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o excludente privado-estatal parece acompanhar a imagem de um pa\u00eds que se representa como paralisado, onde nada muda, e n\u00e3o o far\u00e1 at\u00e9 que os cubanos n\u00e3o conhe\u00e7am outros pontos de vista diferentes dos prevalecentes, gra\u00e7as a uma comunica\u00e7\u00e3o com o mundo exterior de que carecem. Quando tiverem uma conex\u00e3o ADSL nas suas casas, e descubram a internet despertar\u00e3o como a princesa quando foi beijada pelo pr\u00edncipe. Entretanto seguir\u00e3o noutro mundo, sem nenhuma modalidade de acesso \u00e0 internet, nem correio electr\u00f3nico, nem telem\u00f3veis. N\u00e3o \u00e9 sequer o copo meio vazio, \u00e9 a ideia que n\u00e3o h\u00e1 copo algum.<\/p>\n<p>Finalmente, <b>no espelho do discurso do Presidente n\u00e3o se reflecte nada parecido com um programa de reformas em curso, nem uma sociedade cubana capaz de debater os seus problemas publicamente. Claro que a normaliza\u00e7\u00e3o pode ser um factor favor\u00e1vel a essa altera\u00e7\u00e3o; ainda que tamb\u00e9m um factor negativo. <\/b>Do lado de l\u00e1, depende da capacidade da pol\u00edtica norte-americana tratar Cuba como trata outros pa\u00edses com quem colabora, apesar das diferen\u00e7as e problemas internos. Os casos da China e do Vietname evocados no discurso do dia de S. L\u00e1zaro, poderiam ser uma pauta positiva a seguir. Do lado de c\u00e1, depende da capacidade da nossa pol\u00edtica para evitar ader\u00eancias ideol\u00f3gicas, como as que ocorrem cada vez que os EUA decidem favorecer um sector, seja ele a internet, os trabalhadores do sector estatal ou os jovens. Para o dizer como Nitza Villapol, agora que a pol\u00edtica com os EUA \u00e9 tarefa de muitos, havia que aprender a cozinh\u00e1-la numa panela de teflon, para que as coisas n\u00e3o se peguem ou se amargurem sem necessidade.<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o ao mil\u00edmetro de Obama encenada durante toda a visita, cujo ponto culminante, em termos dramat\u00fargicos foi o discurso perante a sociedade civil, o 22 de Mar\u00e7o, era antecipado no blog do Departamento de Estado, com o t\u00edtulo <i>Engaging the Cuban People,<\/i> quatro dias antes, pelo seu encarregado, o vice-assessor de Seguran\u00e7a Nacional para Comunica\u00e7\u00f5es e Discursos Estrat\u00e9gicos, Ben Rhodes.<\/p>\n<p>No seu discurso o presidente Obama reconheceu afinidades culturais cubanas com os EUA em basebol, no ch\u00e1-ch\u00e1-ch\u00e1, nos \u00abvalores familiares\u00bb. Tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o para as capacidades dos cubanos, especialmente os jovens, para funcionar no contexto cultura de mercado dos EUA. Ao longo deste documento fez uma exibi\u00e7\u00e3o de familiaridade com o cubano e a sua cultura popular.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou certo que os assessores de Obama compreendam que a familiaridade cubana com o norte-americano n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma raz\u00e3o para apreciar os seus produtos e o sentido do espect\u00e1culo, mas a capacidade de entender o seu uso e manejo. Na verdade, sem nunca ter posto os p\u00e9s na ilha nem ter sido criado com cubanos, no discurso do dia de S. L\u00e1zaro de 2014 disse \u00abN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u00bb em espanhol; quando aterrou em Havana e na sua conversa telef\u00f3nica com algu\u00e9m, sem vir muito a prop\u00f3sito, solta \u00abQu\u00e9 bola\u00bb, tal como quando o Air Force One toca em solo cubano; foi capaz de citar Jos\u00e9 Mart\u00ed uma e outra vez (nenhuma delas a falar dos EUA). No empacotamento cultural da mensagem n\u00e3o parece ter faltado nada, nem a Ermida de la Caridad de Miami.<\/p>\n<p>Segundo este gui\u00e3o, a reuni\u00e3o procurava demonstrar o seu apoio \u00abaos valores e direitos humanos universais, incluindo o respeito pelo direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o e reuni\u00e3o.\u00bb E o seu \u00abprofundo desacordo com o Governo cubano\u00bb, sobre estes temas, e a sua convic\u00e7\u00e3o de que o encontro coloca os EUA em melhor posi\u00e7\u00e3o para suscitar estas diferen\u00e7as directamente ao governo cubano, e continuar a ouvir a sociedade civil. Finalmente, \u00abeste gui\u00e3o anuncia que as quest\u00f5es a\u00ed colocadas sublinhar\u00e3o o cont\u00ednuo espirito de Amizade, e projectar\u00e3o a sua vis\u00e3o sobre o futuro da rela\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses\u00bb. Em resumo, uma no cravo outra na ferradura, como era de esperar.<\/p>\n<p>Gostei de ver Ra\u00fal na tribuna, sorrindo depois de ouvir a tirada de Obama, saudando e fazendo sinais aos assistentes, em vez de assumir uma express\u00e3o austera ou contrariada. Umas horas depois, com um elegante saco de sport azul, acompanhou Obama nos primeiros movimentos <i>[innings]<\/i> de um jogo de basebol, que perdemos irremediavelmente. Sportmanship [esp\u00edrito desportivo] \u00e9 uma velha palavra que pode resumir de forma muito simples o novo estilo que pedem as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas entre Cuba e os Estados Unidos.<\/p>\n<p>A meu ver, temos muito caminho pela frente em mat\u00e9ria de fortalecimento das pr\u00e1ticas de participa\u00e7\u00e3o e de democracia cidad\u00e3s, n\u00e3o meramente multipartid\u00e1rias. E mais vale que peguemos esse touro pelos cornos, em vez de assumir uma postura envergonhada de que ao nosso socialismo a \u00fanica coisa que lhe falta \u00e9 efici\u00eancia econ\u00f3mica e recupera\u00e7\u00e3o do bem-estar social, de modo que n\u00e3o h\u00e1 que tocar no funcionamento do sistema pol\u00edtico, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, no papel dos sindicatos e das organiza\u00e7\u00f5es sociais, no pr\u00f3prio Partido Comunista e no poder omn\u00edmodo da burocracia \u2013 isso a que Ra\u00fal chama \u00aba velha mentalidade\u00bb. N\u00e3o basta cit\u00e1-lo, h\u00e1 que cumprir esse gui\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 precisamente o de um espect\u00e1culo com uma nova encena\u00e7\u00e3o, \u00e0 altura que o exigem os tempos e as pessoas.<\/p>\n<p>Quanto ao significado da visita para os cubanos, esta cumpriu a sua fun\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do que foi vis\u00edvel, pois abriu caminho a que ambos os presidentes conversem directamente nos pr\u00f3ximos dez meses sobre os nossos interesses comuns, a etapa decisiva na constru\u00e7\u00e3o da ponte que a pr\u00f3xima administra\u00e7\u00e3o deve encontrar t\u00e3o avan\u00e7ada que seja demasiado custoso dinamit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ironicamente, quando Barack Hussein Obama sair do cargo de 44\u00ba presidente dos EUA, onde chegou h\u00e1 oito anos envolto nas maiores esperan\u00e7as das \u00faltimas d\u00e9cadas, entre a sua m\u00e3o-cheia de realiza\u00e7\u00f5es estar\u00e1 a normaliza\u00e7\u00e3o com Cuba. Talvez dentro de alguns anos n\u00e3o se recordem das frases bordadas pela sua talentosa equipa de especialistas em comunica\u00e7\u00e3o, nem o que dizem sobre n\u00f3s e sobre eles. Mas muitos cubanos e norte-americanos n\u00e3o esquecer\u00e3o a sua mensagem de paz e, muito especialmente, a sua determina\u00e7\u00e3o como primeiro presidente, depois de tantos anos de guerra, a atravessar este caminho, t\u00e3o longe e t\u00e3o perto, para nos visitar em Havana.<\/p>\n<p><b>Notas do Tradutor:<\/b><br \/>\n[1] V Cimeira das Am\u00e9ricas realizada em Puerto Espa\u00f1a (Trinidad e Tobago), de 17 a 19 de Abril de 2009.<br \/>\n[2] Desejo, pensamento desejado. Em ingl\u00eas no texto original<br \/>\n[3] S\u00e3o restaurantes privados autorizados desde 1994, in\u00edcio do per\u00edodo especial.<br \/>\n[4] Carros antigos de antes da revolu\u00e7\u00e3o que continuam a circular, alguns muito bem tratados.<\/p>\n<p>*Soci\u00f3logo. Director de la revista cubana \u201cTemas\u201d.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado em: <a href=\"http:\/\/www.cubadebate.cu\/opinion\/2016\/03\/25\/sobre-las-lecciones-de-obama-ante-la-sociedad-civil-cubana\/#.VvkW6o-cGDJ\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cubadebate.cu\/opinion\/2016\/03\/25\/sobre-las-lecciones-de-obama-ante-la-sociedad-civil-cubana\/#.VvkW6o-cGDJ<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Rafael Hern\u00e1ndez* Neste texto, Rafael Hern\u00e1ndez, brilhante intelectual cubano director da revista trimensal \u00abTemas\u00bb, comenta o discurso de Obama em Havana, \u00abuma j\u00f3ia \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10784\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[77],"tags":[],"class_list":["post-10784","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c90-solidariedade-a-cuba"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2NW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10784"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}