{"id":10786,"date":"2016-04-07T12:41:22","date_gmt":"2016-04-07T15:41:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10786"},"modified":"2016-05-05T22:38:43","modified_gmt":"2016-05-06T01:38:43","slug":"ilusoes-progressistas-devoradas-pela-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10786","title":{"rendered":"Ilus\u00f5es progressistas devoradas pela crise"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.alainet.org\/sites\/default\/files\/styles\/articulo-ampliada\/public\/interest-rates_0.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Jorge Beinstein<\/p>\n<p>A conjuntura global est\u00e1 marcada por uma crise deflacion\u00e1ria alimentada pelas grandes pot\u00eancias. A queda dos pre\u00e7os das commodities, cujo aspecto mais chamativo foi, desde meados de 2014, o das cotiza\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo, descobre o esvaziamento da demanda internacional enquanto se estanca a onda financeira, muleta estrat\u00e9gica do sistema durante as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. A crise da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia mundial vai ingressando de maneira ziguezagueante em uma zona de depress\u00e3o, as principais economias capitalistas tradicionais crescem pouco ou nada <a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftn1\"><u>[1]<\/u><\/a> e a China se desacelera rapidamente. Frente a isso, <!--more-->o Ocidente implanta seu \u00faltimo recurso: o aparato de interven\u00e7\u00e3o militar integrando componentes armados profissionais e mercen\u00e1rios, midi\u00e1ticos e mafiosos articulados como \u201cGuerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o\u201d, destinada a destruir sociedades perif\u00e9ricas para convert\u00ea-las em zonas de saqueios. \u00c9 a radicaliza\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno de longa dura\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia sist\u00eamica, onde o parasitismo financeiro e militar foi se convertendo no centro hegem\u00f4nico do Ocidente.<\/p>\n<p>N\u00e3o presenciamos a \u201crecomposi\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edtica-econ\u00f4mica-militar do sistema como o foi a reconvers\u00e3o keynesiana (militarizada) dos anos 1940 e 1950, mas sua degrada\u00e7\u00e3o geral. A muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria do capitalismo o converte em um sistema de destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas, do meio ambiente e de estruturas institucionais, onde as velhas burguesias v\u00e3o se transformando em c\u00edrculos de bandidos, nova eleva\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria de l\u00fampem-burguesias centrais e perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p><b>O decl\u00ednio do progressismo<\/b><\/p>\n<p>Imersa neste mundo se encontra a conjuntura latino-americana, onde convergem dois eventos not\u00e1veis: o decl\u00ednio das experi\u00eancias progressistas e a prolongada degrada\u00e7\u00e3o do neoliberalismo que as precedeu e as acompanhou desde pa\u00edses que n\u00e3o entraram nessa corrente da qual agora esse neoliberalismo degradado aparece como o sucessor.<\/p>\n<p>Os progressismos latino-americanos se instalaram sobre a base dos desgastes e, em certos casos, das crises dos regimes neoliberais e quando chegaram ao governo, os bons pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias primas, somados a pol\u00edticas de expans\u00e3o dos mercados internos, lhes permitiram recompor a governabilidade.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o progressista se apoiou em duas impot\u00eancias: a das direitas, que n\u00e3o podiam assegurar a governabilidade, colapsadas em alguns casos (Bol\u00edvia em 2005, Argentina em 2001-2002, Equador em 2006, Venezuela em 1998) ou sumamente deterioradas em outros (Brasil, Uruguai e Paraguai) e a impot\u00eancia das bases populares que derrubaram governos, desgastaram regimes, por\u00e9m que, inclusive nos processos mais radicalizados, n\u00e3o puderam impor revolu\u00e7\u00f5es, mas transforma\u00e7\u00f5es que foram mais al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o das estruturas de domina\u00e7\u00e3o existentes.<\/p>\n<p>Nos casos da Bol\u00edvia e Venezuela, os discursos revolucion\u00e1rios acompanharam pr\u00e1ticas reformistas repletas de contradi\u00e7\u00f5es. Anunciavam-se grandes transforma\u00e7\u00f5es, por\u00e9m as iniciativas se complicavam em infinitas idas e vindas, ind\u00edcios, desacelera\u00e7\u00f5es \u201crealistas\u201d e outras ast\u00facias que expressavam o temor profundo de saltar os obst\u00e1culos do capitalismo. Isso n\u00e3o s\u00f3 possibilitou a recomposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de direita, como tamb\u00e9m a prolifera\u00e7\u00e3o a n\u00edvel estatal de podrid\u00f5es de todo tipo, grandes corrup\u00e7\u00f5es e pequenas corruptelas.<\/p>\n<p>A Venezuela aparece como o caso mais evidente de mistura de discursos revolucion\u00e1rios, desordem operativa, transforma\u00e7\u00f5es em meio caminho e auto-bloqueios ideol\u00f3gicos conservadores. N\u00e3o se conseguiu encaminhar a proclamada transi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria (muito pelo contr\u00e1rio), ainda que se tenha conseguido caotizar o funcionamento de um capitalismo estigmatizado, por\u00e9m de p\u00e9. Obviamente os Estados Unidos promovem e aproveitam essa situa\u00e7\u00e3o para avan\u00e7ar em sua estrat\u00e9gia de reconquista do pa\u00eds. O resultado \u00e9 uma recess\u00e3o cada vez mais grave, uma infla\u00e7\u00e3o descontrolada, importa\u00e7\u00f5es fraudulentas massivas que agravam a escassez de produtos e a evas\u00e3o de divisas que marcam uma economia em crise aguda <a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftn2\"><u>[2]<\/u><\/a>.<\/p>\n<p>No Brasil, o ziguezagueio entre um neoliberalismo \u201csocial\u201d e um keynesianismo light quase irreconhec\u00edvel, foi reduzindo o espa\u00e7o de poder de um progressismo que transbordava fanfarronice \u201crealista\u201d (inclu\u00edda sua astuta aceita\u00e7\u00e3o da hegemonia dos grupos econ\u00f4micos dominantes). A depend\u00eancia das exporta\u00e7\u00f5es de commodities e a submiss\u00e3o a um sistema financeiro local transnacionalizado terminaram por bloquear a expans\u00e3o econ\u00f4mica. Finalmente, a combina\u00e7\u00e3o da queda dos pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias primas e a exacerba\u00e7\u00e3o da pilhagem financeira precipitaram uma recess\u00e3o que foi gerando uma crise pol\u00edtica sobre a qual come\u00e7aram a cavalgar os promotores de um \u201cgolpe brando\u201d, executado pela direita local e monitorado pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na Argentina, o \u201cgolpe brando\u201d se produziu protegido por uma m\u00e1scara eleitoral forjada por uma manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica desmesurada. O progressismo kirchnerista em sua \u00faltima etapa conseguiu evitar a recess\u00e3o, ainda que com um crescimento econ\u00f4mico an\u00eamico sustentado por um fomento do mercado interno respeitoso do poder econ\u00f4mico. Tamb\u00e9m foi respeitada a m\u00e1fia judicial que, junto \u00e0 m\u00e1fia midi\u00e1tica, o perseguiu at\u00e9 mov\u00ea-lo politicamente em meio a uma onda de histeria reacion\u00e1ria das classes altas e do grosso das classes m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, Evo Morales sofreu sua primeira derrota pol\u00edtica significativa no referendo sobre reelei\u00e7\u00e3o presidencial. Sua chegada ao governo marcou a ascens\u00e3o das bases sociais submergidas pelo velho sistema racista colonial. Por\u00e9m, a mistura h\u00edbrida de reivindica\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, p\u00f3s-capitalistas e indigenistas com a persist\u00eancia do modelo mineral-extrativista de deteriora\u00e7\u00e3o ambiental, de comunidades rurais, do burocratismo estatal gerador de corrup\u00e7\u00e3o e autoritarismo terminaram por diluir o discurso do \u201csocialismo comunit\u00e1rio\u201d. Ficou, assim, aberto o espa\u00e7o para a recomposi\u00e7\u00e3o das elites econ\u00f4micas e a mobiliza\u00e7\u00e3o revanchista das classes altas e seu s\u00e9quito de classes m\u00e9dias penetrando em um vasto leque social desconcertado.<\/p>\n<p>Agora, as direitas latino-americanas v\u00e3o ocupando as posi\u00e7\u00f5es perdidas e consolidam as preservadas, por\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o aquelas velhas camarilhas neoliberais otimistas dos anos 90. Foram mudando atrav\u00e9s de um complexo processo econ\u00f4mico, social e cultural que as converteram em componentes de lumpem-burguesias niilistas embarcadas na onda global do capitalismo parasit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Grupos industriais ou de agrobusiness foram combinando seus investimentos tradicionais com outros mais rent\u00e1veis, por\u00e9m mais vol\u00e1teis tamb\u00e9m: aventuras especulativas, neg\u00f3cios ilegais de todo tipo (desde o narcotr\u00e1fico at\u00e9 opera\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias obscuras, passando por fraudes comerciais, fiscais e outros empreendimentos turvos), convergindo com \u201cinvestimentos\u201d saqueadores provenientes do exterior como a megaminera\u00e7\u00e3o ou as rapinas financeiras.<\/p>\n<p>Dita muta\u00e7\u00e3o tem distantes antecedentes locais e globais, variantes nacionais e din\u00e2micas espec\u00edficas, por\u00e9m todas tendem para uma configura\u00e7\u00e3o baseada no predom\u00ednio de elites econ\u00f4micas influenciadas pela \u201ccultura financeira-depredadora\u201d (vis\u00e3o de curto prazo, desenraizamento territorial, elimina\u00e7\u00e3o de fronteiras entre legalidade e ilegalidade, manipula\u00e7\u00e3o de redes de neg\u00f3cios com uma vis\u00e3o mais pr\u00f3xima ao videogame que \u00e0 gest\u00e3o produtiva e outras caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do globalismo mafioso), que disp\u00f5e do controle midi\u00e1tico como instrumento essencial de domina\u00e7\u00e3o, rodeando-se de sat\u00e9lites pol\u00edticos, judiciais, sindicais, policiais-militares, etc.<\/p>\n<p><b>Restaura\u00e7\u00f5es conservadoras ou instaura\u00e7\u00f5es de neofascismos coloniais?<\/b><\/p>\n<p>No geral, o progressismo qualifica suas derrotas ou amea\u00e7as de derrotas como vit\u00f3rias ou perigos de regresso do passado neoliberal. Muitas vezes utiliza-se o termo <i>\u201crestaura\u00e7\u00e3o conservadora\u201d<\/i>, por\u00e9m ocorre que esses fen\u00f4menos s\u00e3o sumamente inovadores, t\u00eam muito pouco de \u201cconservadores\u201d. Quando avaliamos personagens como A\u00e9cio Neves, Mauricio Macri ou Henrique Capriles, n\u00e3o encontramos chefes autorit\u00e1rios de elites olig\u00e1rquicas est\u00e1veis, mas personagens completamente inescrupulosos, sumamente ignorantes das tradi\u00e7\u00f5es burguesas de seus pa\u00edses (inclusive, em certos casos, com olhares depreciativos para as mesmas). Aparecem como uma sorte de mafiosos entre primitivos e p\u00f3s-modernos, encabe\u00e7ando politicamente grupos de neg\u00f3cios, cuja norma principal \u00e9 a de n\u00e3o respeitar nenhuma norma (na medida do poss\u00edvel).<\/p>\n<p>Outro aspecto importante da conjuntura \u00e9 o da irrup\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00f5es ultrarreacion\u00e1rias de grande dimens\u00e3o, onde as classes m\u00e9dias ocupam um lugar central. Os governos progressistas supunham que a bonan\u00e7a econ\u00f4mica facilitaria a captura pol\u00edtica desses setores sociais, por\u00e9m aconteceu o contr\u00e1rio: as camadas m\u00e9dias se direitizavam enquanto ascendiam economicamente, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como pr\u00f3prios os del\u00edrios neofascistas dos e cima. O fen\u00f4meno sincroniza com tend\u00eancias neofascistas ascendentes no Ocidente, da Ucr\u00e2nia at\u00e9 os Estados Unidos, passando pela Alemanha, Fran\u00e7a, Hungria, etc., express\u00e3o cultural do neoliberalismo decadente, pessimista, de um capitalismo niilista ingressando em sua etapa de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada negativa, onde o apartheid aparece como a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, este neofascismo latino-americano inclui tamb\u00e9m a reapari\u00e7\u00e3o de velhas ra\u00edzes racistas e segregacionistas, que tinham ficado escondidas pelas crises de governabilidade dos governos neoliberais, a irrup\u00e7\u00e3o de protestos populares e as primaveras progressistas. Sobreviveram \u00e0 tempestade e em v\u00e1rios casos ressurgiram inclusive antes do come\u00e7o do decl\u00ednio do progressismo, como na Argentina o ego\u00edsmo social da \u00e9poca de Menem ou o \u201cgorillismo\u201d racista anterior; na Bol\u00edvia, o desprezo ao \u00edndio e em quase todos os casos recuperando restos do anticomunismo da \u00e9poca da Guerra Fria. Perman\u00eancias do passado, lat\u00eancias sinistras agora mescladas com as novas modas.<\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que o fen\u00f4meno assume caracter\u00edsticas de tipo <i>\u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d<\/i>, apontando para uma pol\u00edtica de terra arrasada, de extirpa\u00e7\u00e3o do inimigo progressista. \u00c9 o que se v\u00ea atualmente na Argentina ou o que promete a direita na Venezuela ou no Brasil: a brandura do advers\u00e1rio, seus medos e vacila\u00e7\u00f5es excitam a ferocidade reacion\u00e1ria. Referindo-se \u00e0 vit\u00f3ria do fascismo na It\u00e1lia, Ignazio Silone a definia como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o que tinha operado de maneira preventiva contra uma amea\u00e7a revolucion\u00e1ria inexistente <a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftn3\"><u>[3]<\/u><\/a>. Essa n\u00e3o exist\u00eancia real de amea\u00e7a ou de processo revolucion\u00e1rio em marcha, de avalanche popular contra estruturas decisivas do sistema desmoronando-se ou quebradas, encoraja (outorga sensa\u00e7\u00e3o de impunidade) \u00e0s elites e sua base social.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 contrarrevolucion\u00e1ria \u00e9 um dos resultados poss\u00edveis da decomposi\u00e7\u00e3o do sistema, impondo de maneira exitosa, em alguns casos do passado, projetos de recomposi\u00e7\u00e3o elitista. No caso latino-americano, expressa decomposi\u00e7\u00e3o capitalista sem recomposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Se o progressismo foi a supera\u00e7\u00e3o fracassada do fracasso neoliberal, este neofascismo subdesenvolvido exacerba ambos fracassos, inaugurando uma era de dura\u00e7\u00e3o incerta de contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e desintegra\u00e7\u00e3o social. Basta ver o ocorrido na Argentina com a chegada de Macri \u00e0 presid\u00eancia: em umas poucas semanas, o pa\u00eds passou de um crescimento fraco a uma recess\u00e3o que vai se agravando rapidamente, produto de uma gigantesca pilhagem. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o que pode ocorrer no Brasil ou na Venezuela, que j\u00e1 est\u00e3o em recess\u00e3o, caso a direita conquiste o poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A queda dos pre\u00e7os das commodities e sua crescente volatilidade, que o prolongamento da crise global certamente agravar\u00e1, foram causas importantes do fracasso progressista e aparecem como bloqueios irrevers\u00edveis dos projetos de reconvers\u00e3o elitista-exportadora medianamente est\u00e1veis. As vit\u00f3rias direitistas tendem a instaurar economias funcionando \u00e0 baixa intensidade, com mercados internos contra\u00eddos e inst\u00e1veis. Isso significa que a sobreviv\u00eancia desses sistemas de poder depender\u00e1 de fatores que as m\u00e1fias governantes pretender\u00e3o controlar. Em primeiro lugar, o descontentamento da maior parte da popula\u00e7\u00e3o aplicando doses vari\u00e1veis de repress\u00e3o, legal e ilegal, embrutecimento midi\u00e1tico, corrup\u00e7\u00e3o de dirigentes e degrada\u00e7\u00e3o moral das classes baixas. Trata-se de instrumentos que a pr\u00f3pria crise e a combatividade popular podem inutilizar. Nesse caso, o fantasma da revolta social pode converter-se em amea\u00e7a real.<\/p>\n<p><b>A estrat\u00e9gia imperial<\/b><\/p>\n<p>Os Estados Unidos desenvolvem uma estrat\u00e9gia de reconquista da Am\u00e9rica Latina, aplicando-a de maneira sistem\u00e1tica e flex\u00edvel. O golpe brando em Honduras foi o pontap\u00e9 inicial ao qual se seguiu o golpe no Paraguai e um conjunto de a\u00e7\u00f5es desestabilizadoras, algumas muito agressivas, de variado \u00eaxito que foram avan\u00e7ando ao ritmo das urg\u00eancias imperiais e do desgaste dos governos progressistas. Em v\u00e1rios casos, as agress\u00f5es mais ou menos abertas ou intensas se combinam com bons modos, que tentavam vencer sem viol\u00eancias militar ou econ\u00f4mica ou somando doses menores das mesmas com opera\u00e7\u00f5es domesticadoras. Onde n\u00e3o funcionava eficazmente a agress\u00e3o come\u00e7ou a ser praticado o abrandamento moral, se implantaram pacotes persuasivos de configura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel, combinando penetra\u00e7\u00e3o, coopta\u00e7\u00e3o, press\u00e3o, pr\u00eamios e outras formas retorcidas de ataque psicol\u00f3gico-pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O resultado dessa complexa implanta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal: enquanto os Estados Unidos retrocedem a n\u00edvel global em termos econ\u00f4micos e geopol\u00edticos, v\u00e3o reconquistando passo a passo seu quintal latino-americano. A queda da Argentina foi para o Imp\u00e9rio uma vit\u00f3ria de grande import\u00e2ncia trabalhada durante muito tempo, a qual \u00e9 necess\u00e1rio agregar tr\u00eas manobras decisivas de seu jogo regional: a submiss\u00e3o do Brasil, o fim do governo chavista na Venezuela e a rendi\u00e7\u00e3o negociada da insurg\u00eancia colombiana. Cada um destes objetivos tem um significado especial:<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria imperialista no Brasil mudaria dramaticamente o cen\u00e1rio regional e produziria um impacto negativo de grande envergadura ao bloco BRICS, afetando seus dois inimigos estrat\u00e9gicos globais: a China e a R\u00fassia. A vit\u00f3ria na Venezuela n\u00e3o s\u00f3 lhe outorgaria o controle de 20% das reservas petrol\u00edferas do planeta (a maior reserva mundial), mas teria um efeito domin\u00f3 sobre outros governos da regi\u00e3o, como os da Bol\u00edvia, Equador e Nicar\u00e1gua, e prejudicaria Cuba, sobre a qual os Estados Unidos est\u00e3o empregando uma sorte de <i>abra\u00e7o de urso<\/i>.<\/p>\n<p>Finalmente, a extin\u00e7\u00e3o da insurg\u00eancia colombiana, al\u00e9m de derrubar o principal obst\u00e1culo ao saqueio desse pa\u00eds, lhe deixaria as m\u00e3os livres para suas for\u00e7as armadas em eventuais interven\u00e7\u00f5es na Venezuela. A partir deste ponto de vista estrat\u00e9gico regional, o fim da guerrilha colombiana tiraria do cen\u00e1rio uma poderosa for\u00e7a combatente, que poderia chegar a operar como um megamultiplicador de insurg\u00eancias em uma regi\u00e3o em crise, onde a generaliza\u00e7\u00e3o de governos mafioso-direitistas agravar\u00e1 a decomposi\u00e7\u00e3o de suas sociedades. Trata-se talvez da maior amea\u00e7a estrat\u00e9gica \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial, de um enorme perigo revolucion\u00e1rio continental. \u00c9 precisamente essa dimens\u00e3o latino-americana do tema que ocultam os meios de comunica\u00e7\u00e3o dominantes.<\/p>\n<p><b>Decad\u00eancia sist\u00eamica e perspectivas populares <\/b><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do curioso paradoxo de um imp\u00e9rio decadente reconquistando sua retaguarda territorial, do ponto de vista da conjuntura global, da decad\u00eancia sist\u00eamica do capitalismo, a generaliza\u00e7\u00e3o de governos pr\u00f3-norte-americanos na Am\u00e9rica Latina pode ser interpretada superficialmente como uma grande vit\u00f3ria geopol\u00edtica dos Estados Unidos, ainda que se aprofundarmos a analise e introduzirmos, por exemplo, a quest\u00e3o do agravamento da crise impulsionada por esses governos, tender\u00edamos a interpretar o fen\u00f4meno como express\u00e3o espec\u00edfica regional da decad\u00eancia do sistema global.<\/p>\n<p>O distanciamento do estorvo progressista pode chegar a gerar problemas maiores \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial. Embora as ilus\u00f5es sociais e as mudan\u00e7as econ\u00f4micas realizadas pelo progressismo tenham sido insuficientes, confusas, estando impregnadas de limita\u00e7\u00f5es burguesas e sua autonomia em mat\u00e9ria de pol\u00edtica internacional tenha tido uma aud\u00e1cia restringida, a verdade \u00e9 que seu caminho deixou vest\u00edgios, experi\u00eancias sociais, dignifica\u00e7\u00f5es (suprimidas pela direita) que ser\u00e3o muito dif\u00edceis extirpar e que, em consequ\u00eancia, podem chegar a converter-se em apoios significativos a futuros (e n\u00e3o t\u00e3o distantes) excessos populares radicalizados.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o progressista de humaniza\u00e7\u00e3o do sistema, de realiza\u00e7\u00e3o de reformas \u201csensatas\u201d dentro dos marcos institucionais existentes, pode passar da decep\u00e7\u00e3o inicial a uma reflex\u00e3o social profunda, cr\u00edtica da institucionalidade mafiosa, da opress\u00e3o midi\u00e1tica e dos grupos de neg\u00f3cios parasit\u00e1rios. Isso inclui a farsa democr\u00e1tica que os legitima. Nesse caso, o problema progressista poderia converter-se cedo ou tarde em furac\u00e3o revolucion\u00e1rio n\u00e3o porque o progressismo como tal evoluciona para a radicalidade antissistema, mas porque emergiria uma cultura popular de supera\u00e7\u00e3o, desenvolvida na luta contra regimes condenados a degradar-se cada vez mais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, poder\u00edamos entender um dos significados da revolu\u00e7\u00e3o cubana que depois se estendeu como onda anticapitalista na Am\u00e9rica Latina, como supera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos reformismos nacionalistas democratizantes fracassados (como o varguismo no Brasil, o nacionalismo revolucion\u00e1rio na Bol\u00edvia, o primeiro peronismo na Argentina ou o governo de Jacobo Arbenz na Guatemala). A mem\u00f3ria popular n\u00e3o pode ser extirpada, pode chegar a se fundir em uma sorte de clandestinidade cultural, em uma lat\u00eancia subterr\u00e2nea digerida misteriosamente, pensada pelos de baixo, subestimadas pelos de cima, para reaparecer como presente, quando as circunst\u00e2ncias o requeiram, renovada, implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; <i><b>Jorge Beinstein<\/b><\/i> \u00e9 economista argentino, docente da Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jorgebeinstein@gmail.com\"><u>jorgebeinstein@gmail.com<\/u><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftnref1\"><u>[1]<\/u><\/a> Se considerarmos os \u00faltimos cinco anos (2010-2014), o crescimento m\u00e9dio real da economia do Jap\u00e3o foi da ordem de 1,5 %, o dos Estados Unidos 2,2 % e o da Alemanha 2 % (Fonte: Banco Mundial).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftnref2\"><u>[2]<\/u><\/a> Um bom exemplo \u00e9 o da \u201cimporta\u00e7\u00e3o\u201d de f\u00e1rmacos, onde empresas multinacionais como Pfizer, Merck e P&amp;G fazem fabulosos neg\u00f3cios ilegais ante um governo \u201csocialista\u201d, que lhes oferece d\u00f3lares a pre\u00e7os preferenciais. Com um jogo de superfaturamento, sobrepre\u00e7o e importa\u00e7\u00f5es inexistentes, as empresas farmac\u00eauticas importaram, em 2003, cerca de 222 mil toneladas de produtos pelos quais pagaram 434 milh\u00f5es de d\u00f3lares (uns 2 mil d\u00f3lares por tonelada). Em 2010, as importa\u00e7\u00f5es baixaram para 56 mil toneladas e se pagou 3410 milh\u00f5es de d\u00f3lares (60 mil d\u00f3lares a tonelada). Em 2014, as importa\u00e7\u00f5es diminu\u00edram ainda mais, chegando a 28 mil toneladas e se pagou 2400 milh\u00f5es de d\u00f3lares (um pouco menos de 87 mil d\u00f3lares a tonelada). Como bem assinala Manuel Sutherland, de cujo estudo extraio essa informa\u00e7\u00e3o: <i>\u201clonge de apresentar-se a cria\u00e7\u00e3o de uma grande empresa estatal de produ\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos, o governo prefere dar divisas preferenciais a importadores <\/i><i>fraudulentos ou confiar em burocratas que realizam importa\u00e7\u00f5es sob maior obscuridade\u201d. <\/i>Manuel Sutherland, \u201c2016: La peor de las crisis econ\u00f3micas, causas, medidas y cr\u00f3nica de una ruina anunciada\u201d, CIFO, Caracas 2016.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210#_ftnref3\"><u>[3]<\/u><\/a> Ignazio Silone, \u201cL&#8217;\u00c9cole des dictateurs\u201d, Collection Du monde entier, Gallimard, Par\u00eds 1964.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/176210<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jorge Beinstein A conjuntura global est\u00e1 marcada por uma crise deflacion\u00e1ria alimentada pelas grandes pot\u00eancias. 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