{"id":10797,"date":"2016-04-07T12:21:06","date_gmt":"2016-04-07T15:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10797"},"modified":"2016-05-05T22:36:51","modified_gmt":"2016-05-06T01:36:51","slug":"o-homem-na-jaula-uma-estoria-contra-a-discriminacao-racial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10797","title":{"rendered":"O homem na jaula &#8211; Uma est\u00f3ria contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/VIOLENCIARACIAL.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Ant\u00f3nio Santos*<\/p>\n<p>\u00abOs EUA eram ent\u00e3o o epicentro mundial das teorias eug\u00e9nicas sobre a \u00absuperioridade branca\u00bb que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o \u00abImp\u00e9rio Americano\u00bb exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos.\u00bb<!--more--><\/p>\n<p>No Ver\u00e3o de 1906, o n\u00famero de visitantes do Jardim Zool\u00f3gico do Bronx triplicou. Segundo os registos oficiais do Zoo nova-iorquino, durante o m\u00eas de Setembro, eram mais de 40 mil os curiosos que, diariamente, pagavam bilhete para ver a jaula com os pr\u00f3prios olhos. Numa placa junto \u00e0s grades, podia ler-se: \u00abO Pigmeu Africano Ota Benga. Idade, 23 anos. Altura, 1,25m. Trazido do rio Kasai, Estado Livre do Congo, pelo Dr. Samuel P. Verner\u00bb.<\/p>\n<p>Quando a hist\u00f3ria de Ota Benga come\u00e7a, a escravatura j\u00e1 tinha sido abolida nos EUA h\u00e1 40 anos, mas o grande capital tinha herdeiros promissores. Foi William John McGee, presidente da prestigiada Associa\u00e7\u00e3o Antropol\u00f3gica Americana, que solicitou \u00e0 comunidade cient\u00edfica \u00aba captura de africanos pigmeus\u00bb para exibi\u00e7\u00e3o na Exposi\u00e7\u00e3o Mundial de St. Louis de 1904. Os EUA eram ent\u00e3o o epicentro mundial das teorias eug\u00e9nicas sobre a \u00absuperioridade branca\u00bb que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o \u00abImp\u00e9rio Americano\u00bb exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos. Ota Benga era um deles.<\/p>\n<p>Segundo o relato do autoproclamado \u00abexplorador e etn\u00f3logo\u00bb Paul Verner, o jovem Ota Benga fora \u00absalvo de uma tribo de canibais e ficou muito feliz por se poder juntar a n\u00f3s\u00bb. Mais tarde, Verner admitiria que o jovem fora comprado como escravo, por cinco d\u00f3lares, ao governo belga. O Rei Leopoldo II, genocida respons\u00e1vel por mais de 10 milh\u00f5es de mortos e amigo pessoal de Verner, confessou-se \u00abt\u00e3o entusiasmado com a ca\u00e7ada\u00bb que quis participar pessoalmente. Mas n\u00e3o foi necess\u00e1rio ca\u00e7ar: o governo belga conduziu Verner ao mercado de escravos de Bassongo e, entre centenas de prisioneiros mutilados, uns sem m\u00e3os, outros sem orelhas, o \u00abetn\u00f3logo\u00bb escolheu e comprou nove jovens da tribo mbuti, o mais novo com apenas 12 anos. Ota Benga \u00e9, dos nove, o \u00fanico cujo destino nos \u00e9 conhecido.<\/p>\n<p>A manchete do St. Louis Pot-Dispatch de 26 de Junho era \u00abAfricanos Pigmeus na Expo\u00bb e, no interior, podia ler-se \u00abPigmeus requerem dieta de macaco\u00bb. Preso dentro de uma jaula, Ota Benga era o centro das aten\u00e7\u00f5es do \u00abmundo civilizado\u00bb: os homens picavam-no com bengalas para for\u00e7\u00e1-lo a mexer-se, as crian\u00e7as gritavam-lhe e atiram-lhe pedras, as senhoras riam. Mais tarde, no Jardim Zool\u00f3gico do Bronx, onde a tortura continuou, v\u00e1rios visitantes descrevem como Ota Benga, fechado numa cela com um orangotango, se tornara ap\u00e1tico e indiferente \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es das multid\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que James Gordon, um religioso afro-americano, declarou guerra ao espect\u00e1culo degradante. \u00abA nossa ra\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 deprimida o suficiente sem que nos exibam junto de s\u00edmios. Somos dignos de sermos considerados seres humanos\u00bb, escreveu o reverendo numa carta ao New York Times. O editor do jornal respondeu que \u00abos pigmeus s\u00e3o muito inferiores na escala humana\u00bb acrescentando que \u00aba sugest\u00e3o de que Benga devia estar numa escola em vez de numa jaula ignora a alta probabilidade de que uma escola seria para ele um lugar de tortura. A ideia de que todos os homens s\u00e3o iguais em tudo excepto nas oportunidades \u00e9 uma ideia extremamente anacr\u00f3nica\u00bb.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 press\u00e3o exercida pelos afro-americanos somou-se a resist\u00eancia de Ota Benga, que tinha aprendido ingl\u00eas sozinho e usava a nova l\u00edngua para denunciar a sua situa\u00e7\u00e3o aos visitantes do jardim zool\u00f3gico. A gota de \u00e1gua chegou, em 1906, quando Benga, usando uma faca roubada, se defendeu de um grupo de agressores. Finalmente, no dia 28 de Setembro de 1906, Ota Benga foi libertado e acolhido num orfanato para negros, onde teve acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Depois, trabalhou numa f\u00e1brica de tabaco em Lynchburg, na Virg\u00ednia. Segundo os que o conheceram pessoalmente, era um homem bom que gostava de andar descal\u00e7o e tinha nas crian\u00e7as os melhores companheiros e amigos. Ensinava os rapazes a ca\u00e7ar e contava-lhes hist\u00f3rias sobre a vida no Congo. As crian\u00e7as costumavam observ\u00e1-lo a acender uma fogueira para cantar na sua l\u00edngua e dan\u00e7ar conforme a sua cultura. Estava, contava aos vizinhos, a planear a viagem de regresso para \u00c1frica.<\/p>\n<p>A I Guerra Mundial veio paralisar as viagens transatl\u00e2nticas e travar os planos de Ota Benga. Dizem os relatos coevos que, lentamente, tornou-se taciturno e deixou de brincar com as crian\u00e7as. Ent\u00e3o, na noite de 20 de Mar\u00e7o de 1916, h\u00e1 precisamente 100 anos, as crian\u00e7as de Lynchburg viram-no acender uma fogueira cerimonial. Ter\u00e1 dan\u00e7ado e cantado toda a noite. Mas dessa vez, antes da manh\u00e3 romper, suicidou-se com um tiro no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na semana em que se assinala o Dia Internacional contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, devemos lembrar-nos, que os captores de Ota Benga eram \u00abcivilizados\u00bb, \u00abdemocr\u00e1ticos\u00bb, \u00abdesenvolvidos\u00bb e \u00abcosmopolitas\u00bb. E tamb\u00e9m que, \u00abanacronicamente\u00bb, poucos meses depois da morte de Benga, na R\u00fassia czarista, uma das regi\u00f5es mais atrasadas do mundo, come\u00e7ava a constru\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada da humanidade. E o princ\u00edpio do fim do racismo.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado no Avante n\u00ba 2.208 de 24 de Mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/?p= 3968<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ant\u00f3nio Santos* \u00abOs EUA eram ent\u00e3o o epicentro mundial das teorias eug\u00e9nicas sobre a \u00absuperioridade branca\u00bb que mais tarde inspirariam Hitler e a \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10797\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-10797","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2O9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10797"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10797\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}