{"id":108,"date":"2009-09-08T23:11:14","date_gmt":"2009-09-08T23:11:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=108"},"modified":"2009-09-08T23:11:14","modified_gmt":"2009-09-08T23:11:14","slug":"eleicoes-e-participacao-na-luta-dos-povos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/108","title":{"rendered":"ELEI\u00c7\u00d5ES E PARTICIPA\u00c7\u00c3O NA LUTA DOS POVOS"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>REFORMAS, PROGRESSO E PERDA DE COMBATIVIDDE<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 transparente que os trabalhadores da Europa Ocidental vivem hoje muito melhor do que h\u00e1 um s\u00e9culo, n\u00e3o obstante a gravidade da crise.<\/p>\n<p>As grandes conquistas da classe oper\u00e1ria foram conseguidas no rescaldo de grandes lutas a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XX ,sobretudo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro e a segunda guerra mundial.<\/p>\n<p>O hor\u00e1rio das 8 horas, a humaniza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, as f\u00e9rias pagas, as pens\u00f5es de reforma, o 13\u00ba sal\u00e1rio, o direito \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o tendencialmente gratuitas , alcan\u00e7ados atrav\u00e9s de lutas tenazes, foram enormemente facilitados pelo medo do socialismo.<\/p>\n<p>A burguesia n\u00e3o fez concess\u00f5es ; as grandes reformas que criaram o chamado Estado Social foram conquistas da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nunca se repete mecanicamente. Mas \u00e9 \u00fatil recordar o que se passou na Alemanha no final do s\u00e9culo XIX quando ali tomou forma o moderno reformismo.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o Partido Social Democrata Alem\u00e3o, o partido do proletariado, era a mais prestigiada das organiza\u00e7\u00f5es marxistas europeias que se batiam pelo socialismo.<\/p>\n<p>A economia do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o apresentava as taxas de crescimento mais elevadas do mundo. Era evidente a melhora das condi\u00e7\u00f5es de vida dos oper\u00e1rios. Notava-se um amolecimento do esp\u00edrito de luta das massas. Foi ent\u00e3o, no Congresso de Erfurt, que Edward Bernstein, com o apoio de outros dirigentes, defendeu as teses que conduziram o partido a uma progressiva integra\u00e7\u00e3o no sistema. Segundo ele, atrav\u00e9s de sucessivas reformas seria poss\u00edvel chegar- se ao socialismo sem uma ruptura revolucion\u00e1ria .O \u00abmovimento\u00bb seria tudo e o resto quase nada.<\/p>\n<p>Comentando a atitude assumida por Bernstein e mais tarde por Karl Kautsky, o historiador sovi\u00e9tico Evgueni Tarl\u00e9 escreveu na sua \u00abHistoria da Europa-l871-1919\u00bb: \u00abuma parte, bastante consider\u00e1vel (dos dirigentes) seguiu as palavras de ordem de Bernstein, abandonando as posi\u00e7\u00f5es revolucionarias pelo \u201creformismo\u201d, enquanto a t\u00e1ctica da luta parlamentar e da oposi\u00e7\u00e3o legal acabava por ocupar a situa\u00e7\u00e3o predominante num partido que era revolucion\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 pela sua origem mas tamb\u00e9m pelos fundamentos e bases da doutrina que oficialmente continuava a ser aceite e reafirmada\u00bb.<\/p>\n<p>E que aconteceu?<\/p>\n<p>\u00abO sindicato, o economismo, a luta pela melhora da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, o crescimento do \u00abapoliticismo\u00bb, a indiferen\u00e7a perante as palavras de ordem revolucion\u00e1rias, eis os fen\u00f3menos pelos quais a Inglaterra havia passado antes e a Alemanha depois, precisamente na \u00e9poca em que a sua industria avan\u00e7ava de \u00eaxito em \u00eaxito\u00bb .(1)<\/p>\n<p>\u00c9 bem conhecida a pol\u00e9mica de Rosa Luxemburgo com Bernstein e a contribui\u00e7\u00e3o decisiva que a tese deste teve para a gradual transforma\u00e7\u00e3o do SPD alem\u00e3o de partido marxista revolucion\u00e1rio em partido reformador que, de tombo em tombo, acabaria, na actualidade, inspirando muitos outros como executor de politicas neoliberais .<\/p>\n<p>Os chamados \u00abanos dourados\u00bb do capitalismo ficaram a assinalar na Europa Ocidental o decl\u00ednio da combatividade dos trabalhadores. O baixo n\u00edvel do desemprego, o acesso de milh\u00f5es \u00e0 casa pr\u00f3pria, \u00e0s f\u00e9rias , aos benef\u00edcios da Seguran\u00e7a Social, a um bem estar relativo, coincidiram com uma ofensiva ideol\u00f3gica que fez estragos em muitos partidos oper\u00e1rios . As campanhas contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica adquiriram um estilo novo com a vaga do eurocomunismo. Partidos Comunistas como o Franc\u00eas e o de Espanha distanciaram-se dos seus programas revolucion\u00e1rios, optando por um reformismo que os descaracterizou. O italiano, de grandes tradi\u00e7\u00f5es, renunciou ao marxismo, mudou de nome , transformou-se em poucos anos num partido burgu\u00eas, aliado do imperialismo .<\/p>\n<p>A crise do petr\u00f3leo, em l973, tra\u00e7ou a fronteira entre duas \u00e9pocas. O capitalismo arquivou as politicas neokeynesianas . As teses neoliberais de Friedrick Hayek foram desenterradas, envernizadas e gradualmente encontraram a sua express\u00e3o em pol\u00edticas impostas em todo o Ocidente no \u00e2mbito de uma estrat\u00e9gia do capital que teve em Margaret Thatcher e Ronald Reagan os seus mais fieis int\u00e9rpretes.<\/p>\n<p>Nos anos 90 o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica abriu a porta ao hegemonismo do imperialismo estadounidense , criando condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis a uma ofensiva generalizada na Europa Ocidental contra o impropriamente chamado Estado do Bem Estar Social.<\/p>\n<p>Num contexto muito diferente do existente no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a luta dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rios \u00e9 hoje muit\u00edssimo mais dif\u00edcil, sobretudo na Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca post-bismarkiana as contradi\u00e7\u00f5es de interesses entre as grandes potencias capitalistas desembocaram na guerra imperialista, uma trag\u00e9dia que abriu perspectivas de luta inesperadas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e dos partidos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 impens\u00e1vel admitir que as contradi\u00e7\u00f5es do capital sejam resolvidas mediante o recurso a guerras interimperialistas. O desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a criminaliza\u00e7\u00e3o do comunismo surgem simultaneamente como factores que dificultam extraordinariamente a ascens\u00e3o das lutas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Na Europa e nos EUA n\u00e3o se vislumbram no horizonte, em tempo previs\u00edvel, perspectivas de mudan\u00e7as revolucion\u00e1rias. Afirmar o contrario \u00e9 resvalar para posi\u00e7\u00f5es irrealistas, rom\u00e2nticas.<\/p>\n<p>Entretanto, paradoxalmente, a crise do capitalismo aprofundou-se e assumiu uma dimens\u00e3o planet\u00e1ria. Sendo estrutural e n\u00e3o c\u00edclica , os ide\u00f3logos do sistema, conscientes de que n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es, sugerem medidas e estrat\u00e9gias enganadoras (incluindo guerras asi\u00e1ticas) que lhe prolongam a exist\u00eancia mas n\u00e3o podem curar o paciente.<\/p>\n<p>Uma das contradi\u00e7\u00f5es da crise que a diferencia de outras anteriores \u00e9 a que resulta da certeza de que n\u00e3o h\u00e1 hoje reforma que possa salvar o capitalismo ou sequer humaniz\u00e1-lo, mas tamb\u00e9m da convic\u00e7\u00e3o de que a agonia do sistema pode ser muito prolongada. N\u00e3o h\u00e1 data sequer imagin\u00e1vel para o desaparecimento do capitalismo que, na sua evolu\u00e7\u00e3o, adquiriu os contornos de amea\u00e7a \u00e0 humanidade, \u00e0 pr\u00f3pria continuidade da vida na Terra.<\/p>\n<p>Coloca-se ent\u00e3o a velha pergunta : Que fazer num contexto t\u00e3o complexo?<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1sia , em situa\u00e7\u00f5es ali\u00e1s muito diferentes, abrem-se aos povos em luta contra o imperialismo perspectivas menos desfavor\u00e1veis. N\u00e3o nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia. Neste Velho Mundo os trabalhadores enfrentam desafios que na pr\u00e1tica inviabilizam num horizonte pr\u00f3ximo a instala\u00e7\u00e3o de governos progressistas.<\/p>\n<p>O grande capital montou engrenagens que mant\u00eam o Estado a seu servi\u00e7o . Para evitar tens\u00f5es sociais os regimes s\u00e3o formalmente democr\u00e1ticos na Europa Ocidental ,mas funcionam como ditaduras de fachada democr\u00e1tica(2).<\/p>\n<p>O clintoniano Samuel Huntington, autor da tese racista sobre o \u00abconflito de civiliza\u00e7\u00f5es\u00bb, levanta num relat\u00f3rio \u00e0 Comiss\u00e3o Trilateral a ponta do v\u00e9u que encobre mecanismos que, atrav\u00e9s dos processos eleitorais, travam nos pa\u00edses avan\u00e7ados a ascens\u00e3o ao poder politico dos partidos progressistas. Huntington \u00abexplica\u00bb que a \u201cdemocracia\u201d ,tal como a concebe e deseja, exige que uma parcela importante da cidadania n\u00e3o participe da vida pol\u00edtica. Por outras palavras, que milh\u00f5es de eleitores n\u00e3o possam ou n\u00e3o estejam interessados em exercer direitos que lhes s\u00e3o garantidos pelas constitui\u00e7\u00f5es dos respectivos pa\u00edses. Essa massa enorme de cidad\u00e3os, ou se abstem ou \u00e9 induzida por sistemas medi\u00e1ticos perversos controlados pelo capital a votar contra os seus interesses.<\/p>\n<p>A sua atitude configura o fen\u00f3meno que Marx definia como aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a Historia n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. A situa\u00e7\u00e3o descrita por Huntington funciona na Europa e nos EUA, mas a sua tese est\u00e1 a ser desmentida na Am\u00e9rica Latina. A\u00ed a mis\u00e9ria, a fome, o sofrimento das grandes maiorias atingiu um n\u00edvel tal que as massas trabalhadoras passaram a exercer direitos que lhes asseguram a participa\u00e7\u00e3o activa na constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>Quando o sofrimento ultrapassa determinados limites a vida perde valor para as v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o que passam a desafiar os respons\u00e1veis pela opress\u00e3o. Pelo voto ou por outros meios. Isso aconteceu no Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Equador, no Uruguai, no Paraguai, na Nicar\u00e1gua, em El Salvador. Em alguns casos \u2013 Brasil, Uruguai, Argentina- os pol\u00edticos guindados ao poder (Lula, Tabar\u00e9 ,os Kirchner ) esquecem os compromissos assumidos e pactuam com o inimigo, mas essa atitude n\u00e3o trava a tend\u00eancia dos povos da Am\u00e9rica Latina para se assumirem como sujeito da Historia , rumo a democracias participativas.<\/p>\n<p>Na Europa \u00e9 muito diferente o quadro. Tornou-se rotineiro o rod\u00edzio no governo de partidos que aplicam com varia\u00e7\u00f5es as pol\u00edticas de direita que servem o capital. Mas, n\u00e3o obstante a crise, os padr\u00f5es de vida das maiorias oprimidas s\u00e3o muito superiores aos dos trabalhadores da Am\u00e9rica Latina. Paradoxalmente, um n\u00edvel m\u00e9dio cultural melhor n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com um \u00edndice de aliena\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>Da\u00ed a extrema dificuldade que os partidos revolucion\u00e1rios encontram nos processos eleitorais no di\u00e1logo com as v\u00edtimas do sistema.<\/p>\n<p><strong>S\u00d3CRATES, UM POPULISTA DE DIREITA<\/strong><\/p>\n<p>A campanha oficial para as elei\u00e7\u00f5es legislativas portuguesas vai principiar. Pode-se desde j\u00e1 prever que o seu n\u00edvel n\u00e3o ser\u00e1 melhor do que o a da prolongada e massacrante pr\u00e9-campanha.<\/p>\n<p>Com excep\u00e7\u00e3o do PCP, a crise mundial apareceu no discurso da maioria dso candidatos,sobretudo do PS, como factor determinante e praticamente o \u00fanico da situa\u00e7\u00e3o que Portugal vive. Mas foi encarada por uma chusma de pol\u00edticos apenas como um sismo financeiro, com implica\u00e7\u00f5es na economia real, nascido de erros de banqueiros e especuladores e da falta de controle e regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado, ou seja um problema que na pr\u00e1tica-assim afirmam- estaria prestes a ser resolvido. Ali\u00e1s, o Governo, imitando o dos EUA, est\u00e1 preocupado n\u00e3o com o desemprego e a pobreza da maioria do povo, mas sobretudo em acudir aos banqueiros e a outros respons\u00e1veis pela \u00abturbul\u00eancia\u00bb e pelos esc\u00e2ndalos que atingiram os mercados financeiros.<\/p>\n<p>A crise global de civiliza\u00e7\u00e3o que a humanidade enfrenta, resultante da crise do capitalismo, \u00e9 ignorada por esses senhores. Essa op\u00e7\u00e3o marca o tom e o conte\u00fado do discurso de direita do PS, do PSD e do CDS, concentrado numa abordagem farisaica da pequena pol\u00edtica. A forma pode diferir, mas o denominador comum \u00e9 uma demagogia torrencial, o vazio de ideias e uma montanha de promessas que repetem outras anteriores, sempre incumpridas.<\/p>\n<p>S\u00f3crates suavizou a arrog\u00e2ncia. Em campanha pelo pais sorri agora muito e repete-se monocordicamente, elogiando a grandeza e lucidez da sua pol\u00edtica enquanto anuncia futuros \u00eaxitos mir\u00edficos. A mensagem \u00e9 pouco inteligente. Durante tr\u00eas anos aplicou uma politica neoliberal ortodoxa; fez a apologia das privatiza\u00e7\u00f5es, invocando a necessidade de \u00abmodernizar\u00bb Portugal. Agora, numa pirueta, critica o neoliberalismo e afirma que a direita pretende destruir as suas \u00abpoliticas sociais \u00bb. Aprendeu com M\u00e1rio Soares \u2013 subitamente mascarado de socratiano &#8211; a comportar- se como um camale\u00e3o. \u00c9 muito descaramento reivindicar pol\u00edticas sociais quem promoveu o desemprego ,tentou destruir o que resta do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade e desencadeou na frente da Educa\u00e7\u00e3o uma ofensiva contra os professores que levou estes a sair \u00e0s ruas em gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de protesto.<\/p>\n<p>Uma eventual derrota nas elei\u00e7\u00f5es significaria para S\u00f3crates, politico med\u00edocre e inculto, um fim de carreira. O seu nome seria rapidamente esquecido. Admito que ser\u00e1 recordado apenas por haver chefiado o governo mais reaccion\u00e1rio que o Pais teve desde o 25 de Abril.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o social teima em qualificar de \u00abesquerda\u00bb o Partido Socialista. Essa inverdade \u00e9 perniciosa porque engana uma parcela ponder\u00e1vel do eleitorado.<\/p>\n<p>O PS tem uma direc\u00e7\u00e3o que, n\u00e3o obstante algumas nuances quanto aos m\u00e9todos e ao discurso, aplicou com zelo durante quatro anos uma politica neoliberal respeitadora da ortodoxia definida por Washington.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de se reconhecer a evid\u00eancia: o PS n\u00e3o se limita a fazer uma pol\u00edtica de direita; transformou-se pela sua pr\u00e1tica num partido de direita , como a maioria dos partidos social democratas europeus, embora a sua base social n\u00e3o o seja maioritariamente.<\/p>\n<p>Todo o alarido e confus\u00e3o provocados pelos discursos de campanha dos lideres do PS e do PSD, assim como pelas suas entrevistas \u00e0 televis\u00e3o, contribuem para gerar a ilus\u00e3o de que haveria diferen\u00e7as sens\u00edveis na politica que desenvolveriam no Governo .<\/p>\n<p>Iludem-se os que assim pensam. O sistema funciona com uma l\u00f3gica tal que, na pratica, o resultado de uma elei\u00e7\u00e3o \u00e9 condicionado fundamentalmente n\u00e3o pela esperan\u00e7a de uma nova pol\u00edtica mas pela indigna\u00e7\u00e3o provocada pela anterior. O eleitorado mais do que votar pelo mais forte partido da oposi\u00e7\u00e3o costuma punir a politica do partido que no governo a executou, desrespeitando as promessas e o programa. O desfecho \u00e9 mais um castigo do que uma vitoria. Assim aconteceu mais uma vez nas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu. Manuela Ferreira Leite festejou um \u00eaxito , mas, na realidade, o povo limitou-se a punir o PS.<\/p>\n<p>A promo\u00e7\u00e3o do Bloco de Esquerda pelos media tem criado outra ilus\u00e3o, a de que estamos perante uma inflex\u00e3o para a esquerda de um segmento da sociedade portuguesa. Mas o crescimento eleitoral dessa organiza\u00e7\u00e3o politica \u00e9 sobretudo resultante da frustra\u00e7\u00e3o de milhares de cidad\u00e3os ,sobretudo jovens, decepcionados com a politica reaccion\u00e1ria de S\u00f3crates. O voto no BE \u00e9 antes de mais outra forma de infligir um castigo ao PS. A inesperada vota\u00e7\u00e3o que o partido de Francisco Lou\u00e7\u00e3 obteve em Junho em distritos de grande maioria conservadora, como Vila Real, Bragan\u00e7a,Viseu e Guarda, \u00e9 esclarecedora dessa tend\u00eancia. Alias, a simpatia que o BE inspira hoje \u00e0 burguesia confirma que o grande capital o considera inofensivo.<\/p>\n<p>Aos dirigentes do BE ajusta-se o qualificativo de \u00abpequenos burgueses enraivecidos\u00bb que Lenine aplicava a alguns grupos esquerdistas.<\/p>\n<p>Integrado do sistema e com fome de poder e prebendas, o BE mudou o discurso e engavetou as referencias a Trotsky e a Mao , os ide\u00f3logos dos partidos de cuja fus\u00e3o resultou.<\/p>\n<p>A prud\u00eancia da morna campanha do PSD n\u00e3o surpreende. O seu programa , amb\u00edguo, tem afinidades com o do PS. O partido de S\u00e1 Carneiro e Cavaco Silva, consciente da profundidade do descontentamento popular, refugia-se em banalidades e silencios quanto \u00e0s suas reais inten\u00e7\u00f5es, mas o historial dos seus governos dissipa duvidas. No Poder seria, como sempre foi, um instrumento da estrat\u00e9gia do grande capital , submisso a todas as exig\u00eancias de Bruxelas e de Washington.<\/p>\n<p>Quanto ao CDS, espelho embaciado da direita tradicional, sobrevive gra\u00e7as fundamentalmente ao populismo agressivo de Paulo Portas, mas carece de uma base social est\u00e1vel. \u00c9 um partido caricatural.<\/p>\n<p><strong>PERSPECTIVAS NEVOENTAS<\/strong><\/p>\n<p>Neste contexto, seria uma ingenuidade acreditar que das elei\u00e7\u00f5es de Setembro pode resultar uma viragem na vida portuguesa, ou pelo menos um governo comprometido com uma politica que responda a aspira\u00e7\u00f5es permanentes do nosso povo.<\/p>\n<p>As engrenagens do sistema foram concebidas para impedir que isso possa ocorrer no \u00e2mbito daquilo a que chamei a ditadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nestas v\u00e9speras eleitorais , a \u00fanica certeza \u00e9 o desaparecimento da maioria absoluta. Nem o PS nem o PSD podem alcan\u00e7\u00e1 &#8211; la.<\/p>\n<p>Mas seja qual for o mais votado, quer a sa\u00edda seja um governo minorit\u00e1rio quer um governo de coliga\u00e7\u00e3o (n\u00e3o sendo de excluir o formato \u00abbloco central\u00bb ), a gravidade da crise e o mais elementar bom senso tornariam invi\u00e1vel a continuidade da agressiva politica socratiana. A conjuntura exige do futuro governo a aplica\u00e7\u00e3o da formula de Lampedusa : mudar alguma coisa para que tudo continui na mesma !<\/p>\n<p>Na Europa Ocidental, o panorama n\u00e3o \u00e9 alias muito diferente. Embora em cada pa\u00eds o povo enfrente situa\u00e7\u00f5es e problemas insepar\u00e1veis de heran\u00e7as hist\u00f3ricas diferenciadas e da multiplicidade de culturas, tornou-se rotineiro ,num circulo vicioso, o rod\u00edzio no Poder dos partidos da direita tradicional e da social democracia, esta convicta de que administra melhor o capitalismo.<\/p>\n<p>O quadro n\u00e3o justifica optimismo.<\/p>\n<p>Complexa \u00e9 ,portanto, a situa\u00e7\u00e3o em que vai actuar o PCP, um dos poucos partidos oper\u00e1rios da Europa que se assume como marxista-leninista e se mant\u00e9m fiel ao seu programa revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A direita ,com m\u00e1scara ou sem ela, continuar\u00e1 a governar. PS ou PSD ,ou ambos em converg\u00eancia, levar\u00e3o adiante uma politica de direita ,qualquer que seja o seu figurino. As elei\u00e7\u00f5es de Setembro n\u00e3o abrir\u00e3o a porta a uma alternativa de esquerda.<\/p>\n<p>Subestimar a import\u00e2ncia da chamada \u00e0s urnas \u00e9, entretanto, uma atitude inaceit\u00e1vel e capituladora.<\/p>\n<p>Lutar pela elei\u00e7\u00e3o de uma bancada comunista mais numerosa \u00e9 dever de todos quantos em Portugal est\u00e3o consciente de que o capitalismo ,mergulhado numa das maiores crises da sua historia, est\u00e1 condenado a desaparecer \u2013e que a \u00fanica alternativa \u00e0 barb\u00e1rie e ao exterminismo por ele desenvolvido \u00e9 o socialismo.<\/p>\n<p>As gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es do povo portugu\u00eas condenando nas ruas a politica do governo do PS demonstraram que a \u00fanica alternativa ao poder de uma direita mascarada de democr\u00e1tica passa pela intensifica\u00e7\u00e3o da luta das massas, pelo desafio ampliado dos trabalhadores -ou seja do povo assumido como sujeito da historia- aos respons\u00e1veis pelo desgoverno do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa perspectiva que concebo o refor\u00e7o da presen\u00e7a comunista na Assembleia da Republica , orientada para uma solidariedade actuante e criadora com a luta de massas, numa permanente,firme e combativa denuncia do sistema e na condena\u00e7\u00e3o de todos as armadilhas do reformismo.<\/p>\n<p>No horizonte, o socialismo \u00e9 ainda uma aspira\u00e7\u00e3o distante . Mas a crise do capitalismo aprofunda-se , a decad\u00eancia do poder imperial dos EUA \u00e9 inocult\u00e1vel. O fim do capitalismo ser\u00e1 apressado pela lenta mas necess\u00e1ria converg\u00eancia da luta dos povos.<\/p>\n<p>Os portugueses progressistas, com os comunistas na vanguarda, t\u00eam nela um papel insubstitu\u00edvel a desempenhar.<\/p>\n<p>Serpa e V.N.de Gaia, Setembro de 2009<\/p>\n<p>&#8211; 1. Evgueni Tarl\u00e9, Hist\u00f3ria de Europa-1871-1919, Editoral Futuro, Buenos Aires, 1960, pg 88<\/p>\n<p>-2. A express\u00e3o \u00abDitadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica\u00bb \u00e9 suscept\u00edvel de ser mal interpretada por muitos leitores . Ela traduz, porem, numa realidade. Em Portugal (e na Uni\u00e3o Europeia) utiliza-se tanto a palavra democracia para definir os regimes vigentes que as grandes maiorias tendem a crer que o sistema pol\u00edtico \u00e9 efectivamente democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Formalmente \u00e9, porque a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica garante direitos e liberdades fundamentais . Mas o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es contraria o esp\u00edrito da Constitui\u00e7\u00e3o. O grande capital exerce sobre a sociedade um controlo hegem\u00f3nico concebido e aplicado de maneira a impedir que o poder pol\u00edtico seja reflexo e consequ\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o do povo. O Governo \u00e9 respons\u00e1vel perante o Parlamento de cuja confian\u00e7a depende. Mas a engrenagem funciona de maneira viciosa. Os deputados dos Partidos ,com a excep\u00e7ao do PCP, s\u00e3o designados pelas direc\u00e7\u00f5es, sem consulta \u00e0s bases, salvo casos raros. A liberdade de express\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m ficcional; a frase esconde a evid\u00eancia: o poder absoluto daqueles que controlam os meios de comunica\u00e7\u00e3o social .<\/p>\n<p>O povo \u00e9 assim sistematicamente exclu\u00eddo das grandes decis\u00f5es que lhe condicionam o futuro pelos representantes do capital que exercem o poder politico.<\/p>\n<p>Na pratica vivemos sob uma \u00abDitadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica\u00bb.<\/p>\n<p>*Miguel Urbano Rodrigues \u00e9 jornalista e escritor portugu\u00eas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"As elei\u00e7\u00f5es legislativas portuguesas v\u00e3o realizar-se num momento em que a humanidade atravessa uma das maiores crises dos \u00faltimos s\u00e9culos.\nNa Europa e nos EUA os media, repetindo o que afirmam os governantes e os senhores do capital, insistem em defini-la como financeira e passageira. Mentem conscientemente porque sabem estar perante uma crise global do capitalismo, estrutural e duradoura.\nO discurso dos partidos da burguesia nesta campanha \u00e9, por isso mesmo, um novelo de mentiras. Esconder do povo a realidade tem sido um objectivo permanente dos dirigentes e candidatos do PS, do PSD e do CDS.\nAtribuir a responsabilidade da grav\u00edssima situa\u00e7\u00e3o que o pais atravessa \u2013 como fazem S\u00f3crates e a sua gente &#8211; quase exclusivamente \u00e0 crise internacional, apresentada como financeira, \u00e9 n\u00e3o somente uma inverdade como um acto de hipocrisia.\nMas para que a maioria dos eleitores possa elaborar um quadro minimamente rigoroso dos problemas que o povo portugu\u00eas enfrenta hoje \u00e9 indispens\u00e1vel inseri-los na historia contempor\u00e2nea da Europa e das crises do capitalismo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/108\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-108","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}