{"id":1082,"date":"2010-12-23T23:43:56","date_gmt":"2010-12-23T23:43:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1082"},"modified":"2010-12-23T23:43:56","modified_gmt":"2010-12-23T23:43:56","slug":"a-recriacao-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1082","title":{"rendered":"A Recria\u00e7\u00e3o do Homem"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u00c9<\/em><em>claro que gost\u00e1vamos dele.<\/em><\/p>\n<p><em>Era um homem pobre, humilde, ofendido e maltratado<\/em><\/p>\n<p><em>Como n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p><em>Era tamb\u00e9m corajoso e humano,<\/em><\/p>\n<p><em>Muito humano, talvez humano demais.<\/em><\/p>\n<p><em>Ficava com raiva, se comovia e chorava.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas o Livro n\u00e3o registra o seu riso.<\/em><\/p>\n<p><em>Naquela \u00e9poca como hoje,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o havia motivos para rir.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 dois mil anos que gostamos dele<\/em><\/p>\n<p><em>Porque fomos n\u00f3s, os pobres, que o inventamos.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o ag\u00fcent\u00e1vamos mais a tirania do Pai,<\/em><\/p>\n<p><em>Do Pai aliado dos tiranos governantes,<\/em><\/p>\n<p><em>Dono de uma religi\u00e3o contra a nossa independ\u00eancia;<\/em><\/p>\n<p><em>Religi\u00e3o que nos mantinha de joelhos<\/em><\/p>\n<p><em>Diante do Algoz.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o quer\u00edamos uma religi\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Que s\u00f3 servia de consolo<\/em><\/p>\n<p><em>Para as impostas priva\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o quer\u00edamos uma religi\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Que nos fazia aceitar com naturalidade<\/em><\/p>\n<p><em>A nossa mis\u00e9ria,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o quer\u00edamos uma religi\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Que aliviava a culpa dos poderosos.<\/em><\/p>\n<p><em>(Viv\u00edamos num grande Nordeste chamado<\/em><\/p>\n<p><em>Jud\u00e9ia, famintos e desesperados, sob as patas<\/em><\/p>\n<p><em>dos cavalos do FMI do Imp\u00e9rio Romano.)<\/em><\/p>\n<p><em>Gost\u00e1vamos dele porque era filho<\/em><\/p>\n<p><em>de uma bela adolescente virgem<\/em><\/p>\n<p><em>E de um honesto carpinteiro de m\u00e3os calosas<\/em><\/p>\n<p><em>Como as nossas.<\/em><\/p>\n<p><em>Al\u00e9m disso,<\/em><\/p>\n<p><em>Havia nascido numa manjedoura.<\/em><\/p>\n<p><em>Contava f\u00e1bulas lindas sobre uma vida melhor<\/em><\/p>\n<p><em>Para todos n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p><em>Havia amor e comunismo entre n\u00f3s que divid\u00edamos<\/em><\/p>\n<p><em>O p\u00e3o, a l\u00e1grima, a esperan\u00e7a e o riso eventual.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas cedo os ricos e poderosos<\/em><\/p>\n<p><em>Descobriram as vantagens da nossa religi\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Prenderam nosso deus simples e humano<\/em><\/p>\n<p><em>E o trancaram num pal\u00e1cio.<\/em><\/p>\n<p><em>Cobriram-no de j\u00f3ias<\/em><\/p>\n<p><em>E o afastaram de n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p><em>Fizeram dele um s\u00f3cio-mercador.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando algu\u00e9m da nossa tribo ousava reclamar,<\/em><\/p>\n<p><em>O Poder explicava:<\/em><\/p>\n<p>\u201c<em>Se ele que \u00e9 Deus foi crucificado\u201d,<\/em><\/p>\n<p><em>Por que tu, m\u00edsero mortal,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o queres sofrer aqui na terra<\/em><\/p>\n<p><em>Quando sabes de antem\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Que ter\u00e1s toda a felicidade no c\u00e9u?&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Protegidos pelas armas,<\/em><\/p>\n<p><em>Como falavam bem os nossos tiranos!<\/em><\/p>\n<p><em>E n\u00f3s continuamos a agradecer aos senhores<\/em><\/p>\n<p><em>Que por mais de dois mil anos nos obrigam a conviver<\/em><\/p>\n<p><em>Com a fome, o desemprego, a peste, a mis\u00e9ria,<\/em><\/p>\n<p><em>A brutalidade, a humilha\u00e7\u00e3o e o sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/em><\/p>\n<p><em>Dizem que um dia ele voltar\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><em>Por isso sonhamos com Baltazar, Melchior e Gaspar<\/em><\/p>\n<p><em>Como eles eram naquela \u00e9poca,<\/em><\/p>\n<p><em>Bem diversos do que s\u00e3o hoje e atendem pelos nomes<\/em><\/p>\n<p><em>De Lucro, Gan\u00e2ncia e Poder.<\/em><\/p>\n<p><em>Deixaram de ser reis para se transformarem<\/em><\/p>\n<p><em>Em assistentes de Papai Noel.<\/em><\/p>\n<p><em>E se esta bela hist\u00f3ria da Carochinha fosse verdade<\/em><\/p>\n<p><em>(Como o \u00e9 em alguns cora\u00e7\u00f5es)<\/em><\/p>\n<p><em>Senhores donos das pompas do mundo?<\/em><\/p>\n<p><em>Se no dia do ju\u00edzo Final, n\u00f3s, os pobres,<\/em><\/p>\n<p><em>Formos mesmo os primeiros?<\/em><\/p>\n<p><em>Haver\u00e1 um inferno suficientemente quente<\/em><\/p>\n<p><em>Para aqueles que h\u00e1 dois mil\u00eanios nos maltratam?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 f\u00e1cil reverenci\u00e1-lo agora que ele est\u00e1 morto<\/em><\/p>\n<p><em>E pode ser adorado sem riscos.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas n\u00f3s nos lembramos de como ele era antes;<\/em><\/p>\n<p><em>Antes que o roubassem de n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p><em>Um dia nos revoltaremos ao lado dele.<\/em><\/p>\n<p><em>Ou sem ele e, se for preciso,<\/em><\/p>\n<p><em>At\u00e9 mesmo contra ele!<\/em><\/p>\n<p><em>Hoje \u00e0 noite, quando voc\u00eas estiverem<\/em><\/p>\n<p><em>Abrindo presentes,<\/em><\/p>\n<p><em>Bebendo champanhe<\/em><\/p>\n<p><em>Como bons fi\u00e9is<\/em><\/p>\n<p><em>Pensem bem antes de mandar o porteiro expulsar<\/em><\/p>\n<p><em>Aquele crioulo sujo, desdentado, cheirando<\/em><\/p>\n<p><em>A \u00e1lcool, medo, humilha\u00e7\u00e3o e mijo.<\/em><\/p>\n<p><em>Pode ser o juiz supremo disfar\u00e7ado,<\/em><\/p>\n<p><em>Aquele por quem tanto esperamos<\/em><\/p>\n<p><em>E o qual voc\u00eas tanto temiam.<\/em><\/p>\n<p><em>Pode ser o aniversariante.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: jornale.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\n(Fausto Wolff)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1082\"> 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