{"id":10822,"date":"2016-04-09T19:17:38","date_gmt":"2016-04-09T22:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10822"},"modified":"2016-05-05T22:43:59","modified_gmt":"2016-05-06T01:43:59","slug":"a-degradacao-institucional-brasileira-chegou-ao-seu-ponto-mais-agudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10822","title":{"rendered":"&#8220;A degrada\u00e7\u00e3o institucional brasileira chegou ao seu ponto mais agudo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/ricardo_antunes_abr16.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>por Ricardo Antunes [*]<br \/>\nentrevistado por Raphael Sanz e Val\u00e9ria Nader [**]<\/b><\/p>\n<p>O pa\u00eds vive momento de extrema polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na fase mais aguda da atual crise pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica. Enquanto vemos o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff levado adiante por parlamentares conhecidamente envolvidos em corrup\u00e7\u00e3o, a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, <!--more--><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" \/>que deveria investigar todos esses atores, apresenta uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es.Em um primeiro momento, a mencionada opera\u00e7\u00e3o investigou e prendeu corruptos e corruptores. Agora recebe a cr\u00edtica de que est\u00e1 politicamente aparelhada pela oposi\u00e7\u00e3o. Paralelamente a isso, vemos o campo social e de esquerda imobilizado em torno da defesa de um governo indefens\u00e1vel, ao passo que uma s\u00e9rie de direitos do trabalho, conquistados e garantidos constitucionalmente, recebem uma enxurrada de ataques, que buscam sua flexibiliza\u00e7\u00e3o total, quando n\u00e3o o seu aniquilamento.<\/p>\n<p>Para fazer uma an\u00e1lise dessa complexa conjuntura, entrevistamos o soci\u00f3logo e professor da Unicamp Ricardo Antunes.<\/p>\n<p>&#8220;O parlamento brasileiro \u00e9 o p\u00e2ntano no seu volume morto. E ele preferiu utilizar-se de um instrumento legal, que \u00e9 o impeachment, a partir de uma manobra ilegal. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se o impeachment \u00e9 golpe ou n\u00e3o \u00e9. O impeachment \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o presente na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Ele se torna golpe quando as causas que podem levar ao impeachment est\u00e3o sendo forjadas sem prova material e cabal. Hoje, 29 de mar\u00e7o de 2016, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia cabal de que o atual governo Dilma cometeu um crime que possa levar \u00e0 sua deposi\u00e7\u00e3o pelo impeachment&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Apesar de cr\u00edtico \u00e0 condu\u00e7\u00e3o deste processo de impeachment, Antunes tamb\u00e9m tece duras cr\u00edticas ao lulismo, aos governos petistas e em especial \u00e0 presidente da Rep\u00fablica. &#8220;Eu disse em 2010 que ela ganharia a elei\u00e7\u00e3o j\u00e1 que Lula tinha quase 80% de aprova\u00e7\u00e3o e, transferindo metade desses votos, poderia eleger at\u00e9 um poste. Mas em uma \u00e9poca de crise, um presidente tem que ter lastro pol\u00edtico, e ela n\u00e3o teve&#8221;.<\/p>\n<p>Para ele, diferente [do golpe] de 1964, o governo n\u00e3o corre o risco de cair por haver adotado medidas populares, mas pelo fato de que o fim do ciclo lulista de concilia\u00e7\u00e3o de classes se esgotou e se exauriu. &#8220;Eles n\u00e3o precisam mais de um servo, querem agora um pr\u00edncipe para impor sua pol\u00edtica brutal de destrui\u00e7\u00e3o dos direitos da classe trabalhadora&#8221;. Ainda nessa toada, defende que os pr\u00f3prios governos petistas tenham cavado seu t\u00famulo, uma vez que se abriram \u00e0s mudan\u00e7as e flexibiliza\u00e7\u00e3o nas leis e direitos trabalhistas, afastando boa parte de suas bases pol\u00edticas e sociais, a partir de uma inabilidade em lidar com cr\u00edticas vindas das bases da sociedade e voracidade em sentar-se \u00e0 mesa com os grandes figur\u00f5es financeiros e empresariais.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o fatores que, segundo o soci\u00f3logo, fizeram com que se esgotasse n\u00e3o s\u00f3 o lulismo por si s\u00f3, mas tamb\u00e9m todo o sistema pol\u00edtico brasileiro e a ordem tal qual a conhecemos. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o trabalhadora sabe que a nossa institucionalidade est\u00e1 comprometida em todas as suas esferas. No Executivo, no Legislativo, no Judici\u00e1rio, nas pol\u00edcias, ou seja, a degrada\u00e7\u00e3o institucional brasileira chegou ao seu ponto mais agudo de modo que a alternativa n\u00e3o passa por uma reforma pol\u00edtica dentro da ordem&#8221;.<\/p>\n<p>Antunes ainda falou sobre as ferramentas e alternativas populares para enfrentar a atual crise e os tantos retrocessos na vida do trabalhador brasileiro, al\u00e9m de analisar o movimento secundarista paulista e posturas viciadas da esquerda.<\/p>\n<p>Leia abaixo a entrevista completa.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Correio da Cidadania: Qual sua avalia\u00e7\u00e3o da crise pol\u00edtica acentuada a partir do \u00faltimo dia 4, com a condu\u00e7\u00e3o coercitiva do ex-presidente Lula \u00e0 Pol\u00edcia Federal, a nomea\u00e7\u00e3o de Lula para a casa Civil e a sequ\u00eancia do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff? Podemos falar de uma esp\u00e9cie de golpe parlamentar, como voc\u00ea sugeriu em entrevista para este Correio em novembro de 2015? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>De fato estamos vivendo uma situa\u00e7\u00e3o brasileira muito diferente e profundamente cr\u00edtica se compararmos com o cen\u00e1rio que est\u00e1vamos vivendo desde meados dos anos 80, quando come\u00e7ou o processo da chamada &#8220;abertura&#8221; e, depois, com as elei\u00e7\u00f5es diretas em 89, que levaram ao in\u00edcio de um per\u00edodo relativamente democr\u00e1tico no Brasil. O quadro se acentuou profundamente nesse \u00faltimo ano por tr\u00eas ou quatro elementos que vale a pena serem aqui indicados.<\/p>\n<p>O primeiro elemento fundamental \u00e9 que se encerrou o ciclo do governo do PT, que come\u00e7ou com Lula em seus dois primeiros mandatos, seguiu com o mandato primeiro da Dilma e agora este segundo mandato dela. Pouco mais de um ano e alguns meses do in\u00edcio do segundo mandato, a crise chega ao seu ponto mais profundo.<\/p>\n<p>E por que chegamos a essa crise do governo do PT? Primeiro porque todo o projeto de governo foi constru\u00eddo em cima de uma arquitetura, de uma engenharia pol\u00edtica elaborada por um mestre da concilia\u00e7\u00e3o brasileira, o Lula. Aquela ideia de que esse pa\u00eds s\u00f3 avan\u00e7aria se ele fosse capaz de organizar, vincular e aliar os dois polos da trag\u00e9dia brasileira. Em um polo, os setores da alta burguesia financeira, agroexportadora, industrial, comercial e de servi\u00e7os; uma burguesia, por suposto, predat\u00f3ria, que h\u00e1 d\u00e9cadas vem acumulando riquezas atrav\u00e9s da pen\u00faria, da explora\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo da super explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n<p>Esse projeto sustentado em uma engenharia pol\u00edtica fundada na concilia\u00e7\u00e3o entre classes visava beneficiar os mais ricos, minimizar o pauperismo dos mais pobres e levar a um ganho relativo das camadas m\u00e9dias. Essa foi a engenharia do Lula que de certo modo o faz ser o \u00fanico pol\u00edtico brasileiro, no que concerne \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o, a ser comparado a Get\u00falio Vargas no passado. Vargas foi por excel\u00eancia um homem da concilia\u00e7\u00e3o, ainda que o desfecho dele tenha sido tr\u00e1gico com seu suic\u00eddio em 1954. E isso aconteceu porque naquele momento sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o entrava em uma fase cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Por que essa atual pol\u00edtica poli-classista, de concilia\u00e7\u00e3o de polos opostos de extrema riqueza e extrema pobreza, faliu? Por alguns elementos. A incapacidade do PT de perceber a profundidade da crise econ\u00f4mica, que come\u00e7ou em 2008 e que chegou de modo devastador aos BRICS \u2013 Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China \u2013, e tamb\u00e9m \u00e0 Venezuela e vizinhos sul americanos, com mais intensidade a partir de 2013, at\u00e9 tornar-se uma crise profunda, como estamos vendo agora a partir 2015. Al\u00e9m dessa crise econ\u00f4mica que tem componentes globais, ela \u00e9 uma crise <i>desigual e combinada, <\/i>ocorre com mais ou menos intensidade em regi\u00f5es e espa\u00e7os nacionais. Come\u00e7ou no norte do mundo \u2013 Europa, Estados Unidos e Jap\u00e3o \u2013, mas acabou chegando ao sul e aos pa\u00edses intermedi\u00e1rios da periferia.<\/p>\n<p>Essa crise solapou e fez ruir o mito petista da concilia\u00e7\u00e3o e do equivocadamente chamado &#8220;neodesenvolvimentismo&#8221;. Este mito neodesenvolvimentista ruiu a partir das rebeli\u00f5es de junho de 2013, quando o PT estava comemorando o seu anivers\u00e1rio de 10 anos do governo Lula. A degrada\u00e7\u00e3o p\u00fablica da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o e do transporte coletivo, somada a outras, come\u00e7ava a vazar pelo ralo, mostrando que o mito de um pa\u00eds neodesenvolvimentista que caminhava para o primeiro mundo era uma fic\u00e7\u00e3o desprovida de qualquer lastro material.<\/p>\n<p>Isso fez com que houvesse aquele movimento de revolta popular poli-classista, que juntou os pobres da periferia, trabalhadores jovens de servi\u00e7os ultra precarizados, setores do movimento estudantil que acreditaram que entrando na universidade poderiam ter um emprego melhor e perceberam a fal\u00e1cia disto \u2013 ou seja, pagavam a faculdade privada pelo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Programa_Universidade_para_Todos\" target=\"_blank\">Prouni<\/a> para chegar \u00e0 conclus\u00e3o que aquilo era um engodo e n\u00e3o traria empregos duradouros, nem qualificados e nem uma perspectiva de futuro. E especialmente, a partir de um dado momento, come\u00e7aram a participar as camadas m\u00e9dias conservadoras. Tudo isso em uma conjuntura muito particular: a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, quando a popula\u00e7\u00e3o percebeu que o que ia para a FIFA n\u00e3o vinha para as pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transporte, etc.<\/p>\n<p>Nesse momento houve uma grande limita\u00e7\u00e3o das esquerdas (das correntes \u00e0 esquerda do PT), refletida numa dificuldade muito grande, especialmente dos partidos de esquerda, de perceber que aquele movimento tinha como um de seus elementos fundamentais uma tend\u00eancia contr\u00e1ria \u00e0 institucionalidade completamente corrompida. O \u00e1pice daquele movimento foi a tentativa de chegar dentro do Pal\u00e1cio do Planalto, aquela tomada do Congresso e este descontentamento posteriormente bastante politizado, a meu ju\u00edzo, pelas direitas.<\/p>\n<p>Simultaneamente a esse quadro de crise pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica que abalou o projeto do PT, houve o deflagrar da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, que devastou o n\u00facleo do PT, e que fazia com que uma parte importante dos recursos p\u00fablicos migrassem para as campanhas eleitorais, com todos os benef\u00edcios e enriquecimentos privados que isto gera, uma vez que come\u00e7a como uma esp\u00e9cie de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para garantir as elei\u00e7\u00f5es do PT (na medida que no passado o Partido n\u00e3o tinha recursos do empresariado). Pouco a pouco o PT viu-se completamente envolvido com os piores setores da burguesia brasileira.<\/p>\n<p>Criou-se um am\u00e1lgama de interesses, uma simbiose, entre diversas fra\u00e7\u00f5es das altas burguesias brasileiras \u2013 empreiteiras, agroneg\u00f3cio, industrial \u2013, tudo isso muito imbricado e comandado pelo mundo do capital financeiro \u2013 que via no governo do PT o melhor dos mundos. Uma esp\u00e9cie de governo semi bonapartista que, mesmo n\u00e3o sendo origin\u00e1rio das classes burguesas, garantia um crescimento para essa grande burguesia como ela s\u00f3 vira nos tempos da ditadura militar e no governo Juscelino Kubitschek. Ou seja, o PT se meteu num territ\u00f3rio pantanoso e agora este p\u00e2ntano est\u00e1 pulando fora. \u00c9 o PMDB do Temer, Renan Calheiros, Cunha e por a\u00ed vai. Inclusive os pequenos partidos que formam uma significativa esc\u00f3ria pol\u00edtica se beneficiaram do per\u00edodo de enriquecimento que tiveram no segundo mandato de Lula e boa parte do primeiro governo Dilma.<\/p>\n<p>Quando a crise bateu e chegou aqui de modo duro, essas fra\u00e7\u00f5es dominantes chegaram a um primeiro consenso: &#8220;em \u00e9poca de crise quem vai pagar com o \u00f4nus dessas perdas? A classe trabalhadora&#8221;. E come\u00e7aram a impor ao governo Dilma medidas ainda mais duras, brutalmente duras, contra a classe trabalhadora, que agudizaram o fosso entre o governo do PT e seu leque de alian\u00e7as pantanosas (o impeachment hoje est\u00e1 sendo impulsionado por esse mesmo p\u00e2ntano que se locomove na medida em que os corpos caem dentro dele). E neste quadro, as fra\u00e7\u00f5es dominantes come\u00e7aram a exigir que o \u00f4nus da crise fosse inteiramente pago pelos assalariados: cortes no seguro-desemprego, no Bolsa Fam\u00edlia e assim por diante.<\/p>\n<p>E nesse contexto as pr\u00f3prias fra\u00e7\u00f5es dominantes come\u00e7am a discutir quem vai perder menos com a crise: uma vez que todas elas tendem a perder um pouco, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da burguesia financeira, que pode utilizar sua dimens\u00e3o especulativa e fict\u00edcia.<\/p>\n<p>Em um dado momento, as burguesias come\u00e7aram a disputar entre si quem vai perder mais ou menos. Isto se deu em 2015, j\u00e1 que nas elei\u00e7\u00f5es de 2014 Dilma ainda tinha uma parte do empresariado que a apoiava, enquanto uma outra parte j\u00e1 come\u00e7ou a apoiar abertamente o esquema do tucanato, que \u00e9 o da barb\u00e1rie pura e simples. Afinal, o tucanato sempre se celebrizou por ser dotado de uma absoluta insensibilidade social e A\u00e9cio Neves \u00e9 uma express\u00e3o perfeita dessa insensibilidade social e de um privatismo devastador).<\/p>\n<p>Muito bem, ganhou a Dilma com o apoio de parte do empresariado, enquanto outra parte estava com a oposi\u00e7\u00e3o. E ap\u00f3s sua posse em 2015, isso se soma \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que a corrup\u00e7\u00e3o vinha sendo implementada pelo governo petista, ou pelo PT no governo e partidos aliados (PMDB, PP e esses v\u00e1rios agrupamentos de aluguel que estavam no entorno do governo Dilma). Foi quando se descortinou essa corrup\u00e7\u00e3o profunda e se chegou \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o na qual das classes dominantes se encontram hoje: de que o governo, neste contexto de crise profunda, n\u00e3o lhes interessa mais.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Voc\u00ea afirmou na entrevista supracitada que &#8220;o PT est\u00e1 sendo completamente fagocitado por uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se entregou de corpo e alma para o dem\u00f4nio, o capital. Agora \u00e9 vomitado e devolvido, porque n\u00e3o interessa mais. O dem\u00f4nio quer de volta os velhos executores de sua pol\u00edtica&#8221;. Como essa afirma\u00e7\u00e3o se relaciona com a atualidade da crise no lulopetismo? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>Mesmo que esse governo tenha feito absolutamente tudo o que [lhe] exigiram desde 2003, dizem as classes dominantes que &#8220;agora \u00e9 o momento de limpar&#8221;, ou seja, descartar um governo servil e introduzir um governo pr\u00f3prio para garantir a pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o. Vale dizer que a domina\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil sempre se revezou entre a concilia\u00e7\u00e3o pelo alto e o golpe. No quesito concilia\u00e7\u00e3o, Get\u00falio e Lula foram os grandes nomes, com as ressalvas de que Get\u00falio era um estancieiro dos pampas e Lula foi um oper\u00e1rio metal\u00fargico. E isso mostra uma enorme contradi\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes do PT, j\u00e1 que Lula \u00e9 oriundo das classes trabalhadoras enquanto Get\u00falio vinha da burguesia.<\/p>\n<p>Quando as classes dominantes, de modo coeso, decidiram colocar fora o governo Dilma, essa decis\u00e3o ocorreu ao longo de 2015 e hoje \u00e9 cabal: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Federa%C3%A7%C3%A3o_das_Ind%C3%BAstrias_do_Estado_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\">FIESP<\/a> , <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Federa%C3%A7%C3%A3o_Brasileira_de_Bancos\" target=\"_blank\">Febraban<\/a> , associa\u00e7\u00f5es comerciais, grande m\u00eddia; todos est\u00e3o dizendo que o governo Dilma n\u00e3o os interessa e encerrou o ciclo da concilia\u00e7\u00e3o pelo alto. Agora \u00e9 o momento do golpe. Mas o golpe n\u00e3o \u00e9 militar como o de 1964. \u00c9 um golpe urdido no p\u00e2ntano parlamentar.<\/p>\n<p>Marx j\u00e1 dizia no 18 Brum\u00e1rio (lembro aqui de mem\u00f3ria) que <i>o parlamento franc\u00eas chegou \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o mais degradante e mais degradada <\/i>\u2013 isso porque Marx n\u00e3o viu o parlamento brasileiro. \u00c9 incompar\u00e1vel com o franc\u00eas. O parlamento brasileiro \u00e9 o p\u00e2ntano no seu volume morto. E ele preferiu se utilizar de um instrumento legal, que \u00e9 o impeachment, a partir de uma manobra ilegal. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se o impeachment \u00e9 golpe ou n\u00e3o \u00e9. O impeachment \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o presente na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Ele se torna golpe quando as causas que podem levar ao impeachment est\u00e3o sendo forjadas sem prova material e cabal. Hoje, 29 de mar\u00e7o de 2016, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia cabal de que o atual governo Dilma cometeu um crime que possa levar \u00e0 sua deposi\u00e7\u00e3o pelo impeachment. Ou seja, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se o impeachment \u00e9 legal ou ilegal, a quest\u00e3o \u00e9 que o impeachment que est\u00e1 em curso burla a legalidade pois ainda n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia para tal. As evid\u00eancias podem aparecer amanh\u00e3 ou depois, mas elas ainda n\u00e3o apareceram. Ent\u00e3o, hoje ele \u00e9 um golpe.<\/p>\n<p>Se imaginarmos que os recursos da campanha de 2014 sejam oriundos de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobr\u00e1s e eles elegeram Dilma e Temer, esses mesmos recursos irrigaram a campanha do A\u00e9cio. Ent\u00e3o, se formos at\u00e9 o fim da linha, o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] teria de cancelar as elei\u00e7\u00f5es. Isso para n\u00e3o falar do Eduardo Campos, que \u00e9 um caso inusitado: o \u00fanico que conhe\u00e7o de um avi\u00e3o que n\u00e3o tem dono. Um avi\u00e3o que \u00e9 uma coisa car\u00edssima e que n\u00e3o \u00e9 qualquer burgu\u00eas que tem um avi\u00e3o e de repente o Eduardo Campos andava em um avi\u00e3o que n\u00e3o tinha dono. Ou seja, a corrup\u00e7\u00e3o entra em todas as candidaturas burguesas.<\/p>\n<p>Pois bem, o golpe parlamentar encontrou um aliado imprescind\u00edvel para um golpe judicial. Porque se a Lava Jato come\u00e7ou encarcerando empres\u00e1rio, e isso \u00e9 um dado novo na realidade brasileira, j\u00e1 que nunca houve tantas express\u00f5es do capital encarceradas, pouco a pouco esta Lava Jato foi assumindo uma clara conota\u00e7\u00e3o de parcialidade pol\u00edtica estampada na seguinte propositura: &#8220;\u00e9 hora de aniquilar o governo do PT&#8221;.<\/p>\n<p>Este processo de aniquila\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o do governo do PT n\u00e3o manteve seu correlato na averigua\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o dos governos do tucanato. Por exemplo,<\/p>\n<div class=\"gmail_default\">\u200b \u200b<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eletrobras_Furnas\" target=\"_blank\">Furnas<\/a>, envolvendo A\u00e9cio Neves, a constru\u00e7\u00e3o de estradas beneficiando a fam\u00edlia do A\u00e9cio e uma s\u00e9rie de elementos conhecidos envolvendo o tucanato. A corrup\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo dos metr\u00f4s, da merenda, da Sabesp e da seguran\u00e7a p\u00fablica. A corrup\u00e7\u00e3o no Paran\u00e1. Tudo isso foi posto para baixo do tapete e todo o estado de excepcionalidade jur\u00eddica voltou-se somente contra o PT, sem atingir tamb\u00e9m a enorme corrup\u00e7\u00e3o do tucanato e aliados-assemelhados.<\/p>\n<p>Lula tem que ser julgado. E se isso mostrar que Lula utilizou recursos p\u00fablicos \u2013 do povo brasileiro \u2013 para beneficiar sua vida privada, ele tem que pagar por isso. Mas o Fernando Henrique tamb\u00e9m. \u00c9 plaus\u00edvel que a empresa que controla a massa de recursos dos <i>freeshops<\/i>dos aeroportos tenha dado mesada para a &#8220;companheira&#8221; que FHC tinha no exterior? \u00c9 t\u00e3o repulsivo quanto as acusa\u00e7\u00f5es feitas contra Lula. \u00c9 o mau uso de recursos p\u00fablicos em benef\u00edcio privado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para fechar a quest\u00e3o, gestou-se um golpe parlamentar-judicial, que avan\u00e7ou uma legisla\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o, para poder articular com uma m\u00eddia poderos\u00edssima e com um parlamento pantanoso e garantir esse golpe. \u00c9 inaceit\u00e1vel que o parlamento que esteja comandando o impeachment seja dirigido pela express\u00e3o mais corrupta entre os pol\u00edticos brasileiros desde a era Collor. Isso n\u00e3o significa ser conivente com os governos petistas, que por sua vez est\u00e3o em um processo de crise praticamente terminal.<\/p>\n<p>O lulismo \u00e9 respons\u00e1vel por isso, a escolha da Dilma como sucessora foi uma imposi\u00e7\u00e3o de Lula e, na \u00e9poca, eu escrevi que isso era um erro grave. Embora a Dilma possa estar no plano pessoal \u2013 at\u00e9 o presente \u2013 isenta de corrup\u00e7\u00e3o em beneficio de si pr\u00f3pria, ela \u00e9 politicamente de uma incapacidade completa. Eu disse em 2010 que ela ganharia a elei\u00e7\u00e3o j\u00e1 que Lula tinha quase 80% de aprova\u00e7\u00e3o e, transferindo metade desses votos, poderia eleger at\u00e9 um poste. Mas em uma \u00e9poca de crise, a presidente tem que ter um forte lastro pol\u00edtico, e ela n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>A crise \u00e9 profunda, terminal, no que se refere ao projeto do PT. Eu n\u00e3o vejo possibilidade de o PT se repor como partido de esquerda. H\u00e1 setores importantes do PT que nunca se envolveram nesse tipo de pr\u00e1tica, como Ol\u00edvio Dutra e Tarso Genro, para citar alguns exemplos do Rio Grande do Sul, mas que tamb\u00e9m nunca foram capazes de confrontar a alma do lulismo. Portanto, para que o PT pudesse sair dessa fase na qual se encontra hoje, no meio do p\u00e2ntano, seria necess\u00e1ria uma depura\u00e7\u00e3o dos seus n\u00facleos mais comprometidos com a corrup\u00e7\u00e3o, o que implicaria em uma cr\u00edtica radical ao lulismo e uma separa\u00e7\u00e3o definitiva entre o petismo e o lulismo. Mas como essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 umbilical e quem comanda o PT \u00e9 o lulismo, a crise \u00e9 profunda.<\/p>\n<p>Independente disto, os poderes judici\u00e1rio e parlamentar n\u00e3o est\u00e3o agindo com equil\u00edbrio e nem em tom equ\u00e2nime. Toda a voracidade que demonstram em demolir o governo do PT n\u00e3o \u00e9 feita em rela\u00e7\u00e3o ao PSDB. \u00c9 consenso que o Lula n\u00e3o deveria ter ido depor sob comando coercitivo. \u00c9 \u00f3bvio que ele n\u00e3o precisaria disso. \u00c9 inaceit\u00e1vel que um presidente da Rep\u00fablica tenha sua vida privada devastada e que, algumas horas depois de uma conversa telef\u00f4nica particular, essa conversa esteja em rede nacional. Isto \u00e9 inaceit\u00e1vel mesmo em uma democracia burguesa. E isso n\u00e3o aconteceu porque o PT tenha realizado pol\u00edticas populares, mas sim porque a classe dominante percebeu que chegou a hora de trocar um governo servil por um governo com a marca da oligarquia dominante. Eles n\u00e3o precisam mais de um servo, querem agora um pr\u00edncipe para impor sua pol\u00edtica brutal de destrui\u00e7\u00e3o dos direitos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Como avalia as massivas manifesta\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o de direita, que levaram milh\u00f5es de pessoas \u00e0s ruas nesse m\u00eas de mar\u00e7o? O que pensa da cobertura que a grande m\u00eddia tem feito de todo esse processo? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>Qualquer medida hoje que abra uma ruptura dessa intensidade, com a deposi\u00e7\u00e3o de um presidente da Rep\u00fablica sem que haja prova cabal de crime cometido, \u00e9 imposs\u00edvel se n\u00e3o tiver o apoio decisivo da m\u00eddia.<\/p>\n<p>Durante toda a semana que antecedeu a manifesta\u00e7\u00e3o do \u00faltimo dia 13 de mar\u00e7o e tamb\u00e9m durante todo este domingo, houve uma campanha de todos os \u00f3rg\u00e3os de r\u00e1dio, televis\u00e3o e imprensa escrita. De todos os grupos. Especialmente o r\u00e1dio e a televis\u00e3o fizeram uma campanha devastadora de que a popula\u00e7\u00e3o deveria ir para a rua pedir a demiss\u00e3o do governo. Isto mostra a incapacidade completa do PT, em sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, de ter minimamente estabelecido uma pol\u00edtica de concess\u00e3o p\u00fablica fundada na obriga\u00e7\u00e3o que as m\u00eddias deveriam ter \u2013 ainda que privadas, mas usufruindo de concess\u00f5es p\u00fablicas de r\u00e1dio e televis\u00e3o \u2013 de informar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o golpe parlamentar-judicial foi intensamente &#8220;popularizado&#8221; por esses meios de comunica\u00e7\u00e3o. As cenas de casais brancos de classe m\u00e9dia indo para a manifesta\u00e7\u00e3o com a bab\u00e1 cuidando de seus filhos, somadas \u00e0 idiotia dominante que berravam em frente \u00e0 Fiesp, s\u00e3o emblem\u00e1ticas. Essas manifesta\u00e7\u00f5es tomam a Fiesp como espa\u00e7o arquitet\u00f4nico que simboliza seu grito, o que \u00e9 uma express\u00e3o eivada de significado.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: O que esperar para o mundo do trabalho diante desse contexto todo, em um momento em que o desemprego continua a subir? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>Estamos em uma quadra da hist\u00f3ria, na qual \u00e9 a hora de arrebentar com o que resta do direito do trabalho em escala global. No caso brasileiro, isso \u00e9 ainda mais emblem\u00e1tico porque a CUT nos anos 80 foi uma forte barreira contra a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 88, resultado da Assembleia Nacional Constituinte de 86\/88, conseguiu garantir certos direitos gra\u00e7as \u00e0s lutas dos sindicatos, da CUT, do PT e de outros partidos de esquerda e movimentos sociais, como o MST. Naquela \u00e9poca a Constitui\u00e7\u00e3o ainda era vista por n\u00f3s como relativamente conservadora, com avan\u00e7os razo\u00e1veis. Agora, as classes dominantes querem, em seu governo, um<i>pr\u00edncipe oligarca <\/i>cujo objetivo \u00e9 devastar essas conquistas: uma verdadeira pol\u00edtica de terra arrasada. Teremos terceiriza\u00e7\u00e3o total se n\u00e3o houver resist\u00eancia. Al\u00e9m de flexibiliza\u00e7\u00e3o total e contrato zero hora.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Zero-hour_contract\" target=\"_blank\"><i>zero hour contract<\/i><\/a> apareceu na Inglaterra h\u00e1 uns anos atr\u00e1s: o trabalhador fica dispon\u00edvel para trabalhar. Um, dois, tr\u00eas dias com o celular ligado; no terceiro dia \u00e9 chamado para fazer uma atividade de uma hora, faz aquela atividade, em geral no setor de servi\u00e7os, e recebe por uma hora; e n\u00e3o pelas 72 horas nas quais ficou dispon\u00edvel. No Brasil j\u00e1 temos m\u00e9dicos, limpeza, comunica\u00e7\u00e3o e v\u00e1rios setores de servi\u00e7os funcionando assim. Voc\u00ea chama um m\u00e9dico na sua casa para uma consulta, ele te atende, e uma parte do pagamento dele vai para a empresa \u00e0 qual ele est\u00e1 filiado. \u00c9 uma esp\u00e9cie de &#8220;ubberiza\u00e7\u00e3o&#8221; do trabalho. O aplicativo Ubber \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p>Nem bem foi empossado o presidente conservador do Tribunal Superior do Trabalho e ele j\u00e1 prop\u00f4s a terceiriza\u00e7\u00e3o total, afirmando que ela \u00e9 boa para a classe trabalhadora. Seria grotesco se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Por sorte, ainda temos sindicatos combativos. O Conlutas, as Intersindicais e sindicatos de classe que resistem. Temos os sindicatos de metal\u00fargicos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, de Campinas, o ANDES, sindicato nacional dos professores, sindicatos do funcionalismo p\u00fablico e outros. Temos hoje sindicatos que ainda t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a CUT e que s\u00e3o pressionados pelas bases. H\u00e1 sindicatos que n\u00e3o est\u00e3o necessariamente engajados nas lutas das centrais, mas que t\u00eam uma sensibilidade. Isso sem contar um am\u00e1lgama de movimentos sociais da periferia muito importantes. O MTST por exemplo. H\u00e1 o Movimento Passe Livre. Enfim, h\u00e1 uma mir\u00edade de movimentos da periferia. O MST, por sua vez, tem uma forte organiza\u00e7\u00e3o de base e as ocupa\u00e7\u00f5es que ainda s\u00e3o feitas, muitas vezes \u00e0 margem das dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse quadro profundamente nefasto, pelo menos vai acabar a ilus\u00e3o com esse governo. Sabe aquela coisa de que o Lula e a Dilma s\u00e3o &#8220;o nosso governo&#8221;? Ou at\u00e9 a ideia de um &#8220;governo em disputa&#8221;, o que \u00e9 uma grande piada. N\u00e3o h\u00e1 governo em disputa. Disputa de qu\u00ea? Basta olhar os minist\u00e9rios da Dilma. Tem mais representantes do MST, do MTST e dos sindicatos ou da burguesia agr\u00e1ria, industrial e financeira?<\/p>\n<p>Um governo com Temer, A\u00e9cio, Alckmin ou assemelhados trar\u00e1 uma guerra aberta de classes sem a ilus\u00e3o do lulismo. Isso porque o lulismo enfraqueceu muito a esquerda e n\u00e3o tomou nenhuma medida estrutural para beneficiar \u2013 estruturalmente falando \u2013 a classe trabalhadora. Acabou perdendo muito apoio popular por isso. Mas o lulismo tem um tra\u00e7o messi\u00e2nico, do l\u00edder, e quando esse l\u00edder \u00e9 atacado, ele ainda consegue, l\u00e1 no seu volume quase morto, alguma coisa.<\/p>\n<p>Por exemplo, no dia que antecedeu o suic\u00eddio de Vargas, milhares de pessoas estavam em frente ao Pal\u00e1cio do Catete no Rio de Janeiro exigindo sua ren\u00fancia, impulsionados por Carlos Lacerda e pela direita udenista em geral. Com o car\u00e1ter de como\u00e7\u00e3o que teve \u2013 Vargas era um forte l\u00edder carism\u00e1tico e messi\u00e2nico do trabalhismo brasileiro \u2013, minutos depois do suic\u00eddio de Vargas, uma parte imensa daquela massa que no dia anterior pedia sua deposi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a atacar os partidos pol\u00edticos e institui\u00e7\u00f5es anti-varguistas. A situa\u00e7\u00e3o gerara um ato de como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desespero de Lula \u00e9 uma tentativa de dizer que ele ainda tem algum respaldo e, por certo, tem. Combina muito mais com uma lideran\u00e7a carism\u00e1tica e messi\u00e2nica e tamb\u00e9m com o fato ineg\u00e1vel de que a for\u00e7a popular do Lula foi sedimentada ao longo de anos. Uma parte muito grande dessa sedimenta\u00e7\u00e3o da base de apoio do Lula foi corro\u00edda, mas n\u00e3o est\u00e1 completamente eliminada. E \u00e9 com isso que o Lula est\u00e1 desesperadamente jogando. \u00c9 sua \u00faltima cartada e, comparada ao que foi o Lula nos anos 80, hoje ele \u00e9 uma express\u00e3o p\u00edfia de si mesmo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, para a popula\u00e7\u00e3o pobre das periferias (n\u00e3o necessariamente a popula\u00e7\u00e3o que se beneficia do Bolsa Fam\u00edlia), que sofre a viol\u00eancia urbana, a brutalidade da pol\u00edcia militar, um desemprego alt\u00edssimo, com dados oficiais de mais de 10 milh\u00f5es de desempregados (mas com um n\u00edvel real superior a isso, pois os meios de medir s\u00e3o limitados), \u00e9 mais complicado. Por exemplo, uma pessoa que n\u00e3o procura emprego h\u00e1 mais de um m\u00eas n\u00e3o entra nessa estat\u00edstica, mas isso n\u00e3o significa que ela n\u00e3o esteja mais desempregada. At\u00e9 porque procurar emprego \u00e9 algo muito trabalhoso: voc\u00ea acorda de manh\u00e3, se prepara, precisa de dinheiro para pegar uma condu\u00e7\u00e3o, comer na rua, ir para uma f\u00e1brica, ir para outra e outra; para ouvir uma s\u00e9rie de &#8220;n\u00e3os&#8221; e, ao final, voltar para casa com ainda menos recursos do que havia pela manh\u00e3. Tudo isso vai solapando a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a popula\u00e7\u00e3o da periferia tamb\u00e9m percebe que h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o urdida pelas direitas. Ela sabe que o tucanato n\u00e3o a representa. Ela sabe que, com as direitas, a coisa ser\u00e1 ainda pior. E mesmo com a perda do lastro que Lula tinha com os de baixo, ainda h\u00e1 essa forma de pensamento, e \u00e9 a partir desses v\u00ednculos remanescentes que ele tenta mostrar que n\u00e3o \u00e9 um l\u00edder morto, embora esteja a milhares de quil\u00f4metros do l\u00edder vivo dos anos 80. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia abissal.<\/p>\n<p>Basta lembrar que, quando Lula saiu no in\u00edcio do m\u00eas da Pol\u00edcia Federal, foi \u00e0 sede do PT e fez um discurso no qual afirmou que os empreiteiros pagam impostos e empregam, e que por isso deveriam ser melhor tratados. Tamb\u00e9m ainda em seu primeiro mandato, Lula disse que os verdadeiros her\u00f3is brasileiros eram os l\u00edderes do agroneg\u00f3cio; como nunca desmentiu essa frase ou afirmou que fosse uma ironia, mostrou o tamanho da decad\u00eancia ideol\u00f3gica do lulismo.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: J\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda com o lulopetismo, \u00e9 poss\u00edvel alguma sa\u00edda institucional de defesa do governo, levando em considera\u00e7\u00e3o a seletividade do nosso atual Estado de Direito e o dano que isso tem causado a todos os setores da esquerda e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de baixa renda? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>A popula\u00e7\u00e3o trabalhadora sabe que a nossa institucionalidade est\u00e1 comprometida em todas as suas esferas. No Executivo, no Legislativo, no Judici\u00e1rio, nas pol\u00edcias, ou seja, a degrada\u00e7\u00e3o institucional brasileira chegou ao seu ponto mais agudo, de modo que a alternativa n\u00e3o passa por uma reforma pol\u00edtica dentro da ordem. A alternativa passaria por um movimento popular, das classes trabalhadoras, dos movimentos sociais, das periferias, buscando uma nova forma distinta do que \u00e9 hoje presente.<\/p>\n<p>As esquerdas debatem muito um tema que j\u00e1 deveria ter sido melhor equacionado: &#8220;mas afinal, o que \u00e9 mais importante: um partido, um movimento social ou um sindicato&#8221;? Minha resposta \u00e9 que o mais importante \u00e9 aquele movimento social, sindical ou pol\u00edtico que toca as nossas ra\u00edzes e mazelas.<\/p>\n<p>Por exemplo, os partidos de esquerda e anticapitalistas em geral t\u00eam um pouco o desenho da sociedade que querem criar. Os partidos socialistas dizem que devemos lutar fortemente contra a corrup\u00e7\u00e3o, mas sabem que eliminar completamente a corrup\u00e7\u00e3o no capitalismo \u00e9 uma fal\u00e1cia. Existe corrup\u00e7\u00e3o na Noruega, nos Estados Unidos, no Jap\u00e3o&#8230; O que se pode fazer \u00e9 diminuir o n\u00edvel brutal do saque \u00e0 <i>res publica, <\/i>mas elimin\u00e1-lo \u00e9 outra coisa. Sup\u00f5e, para come\u00e7ar, eliminar o pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Os partidos de esquerda, portanto, t\u00eam um futuro mais ou menos definido de onde querem chegar, mas t\u00eam uma enorme dificuldade de entender o aqui e o agora. Mesmo na esquerda, os partidos est\u00e3o muito preocupados com elei\u00e7\u00f5es. O pa\u00eds acabando, a institucionalidade corrompida at\u00e9 a medula e os partidos preocupados em qual ser\u00e1 a candidatura de 2018!<\/p>\n<p>Dos movimentos sociais, talvez possamos dizer o inverso disso. Eles nascem a partir de uma quest\u00e3o crucial da vida cotidiana. O MST quer terra para trabalhar, viver, alimentar-se e sobreviver. O <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Movimento_dos_Trabalhadores_Sem_Teto\" target=\"_blank\">MTST<\/a> quer teto porque n\u00e3o h\u00e1 um m\u00ednimo de dignidade humana se os trabalhadores e suas fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam onde morar. O <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Movimento_Passe_Livre\" target=\"_blank\">MPL<\/a> luta pela desprivatiza\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico; e assim por diante. Os movimentos sociais t\u00eam muita vitalidade, mas \u00e9 querer demais que esses movimentos sociais, at\u00e9 por conta dessa luta exaustiva e vital pela vida cotidiana, possam desenhar e conceber claramente um projeto de futuro para al\u00e9m do capital. Porque a luta do dia-a-dia \u00e9 muito intensa. Quando se luta por casa e comida, ou seja, pela sobreviv\u00eancia vital, acaba ficando dif\u00edcil pensar profundamente sobre o mundo que queremos.<\/p>\n<p>Os sindicatos por sua vez est\u00e3o mais pr\u00f3ximos aos interesses imediatos da classe trabalhadora, mas muitas vezes se perdem tamb\u00e9m nesses interesses imediatos ou s\u00e3o prisioneiros de um burocratismo e de uma pol\u00edtica negocial e de concilia\u00e7\u00e3o. Isso pode fazer com que percam frequentemente o sentido de pertencimento de classe que deveriam ter.<\/p>\n<p>O desafio n\u00e3o \u00e9 ver qual desses s\u00e3o mais importantes previamente. \u00c9 preciso acabar com as hierarquias pr\u00e9-estabelecidas. Nosso ponto de partida \u00e9 partir do fato de que essas s\u00e3o as nossas ferramentas. S\u00e3o os sindicatos de classe, os partidos e movimentos sociais de classe e de base, aut\u00f4nomos, que comp\u00f5em uma mir\u00edade de formas de resist\u00eancia e, junto com o avan\u00e7o das assembleias, ruas, f\u00e1bricas e periferias, capazes de lutar por uma alternativa real e positiva, <i>por uma nova pol\u00edtica radical, <\/i>que possa proporcionar uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vinda da classe trabalhadora, dos assalariados em geral e dos movimentos sociais. O desafio \u00e9 buscar uma alternativa de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social de <i>novo tipo <\/i>que desconstrua a institucionalidade hoje dominante. E ainda estamos um pouco aqu\u00e9m disto. E n\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil, pois \u00e9 preciso lutar contra a ordem dominante, a m\u00eddia e os partidos dominantes. Essa \u00e9 o desafio. E qualquer tentativa de reforma pol\u00edtica dentro da ordem \u00e9 pura perfumaria.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que no momento atual temos que impedir que a Constitui\u00e7\u00e3o seja burlada por um golpe que tenha apar\u00eancias de constitucionalidade, mas uma ess\u00eancia de ilegalidade e inconstitucionalidade. Mas esse \u00e9 t\u00e3o somente nosso ponto de partida do hoje, aqui e agora. Porque sabemos que h\u00e1 uma tend\u00eancia global nesses anos mais recentes, onde o recrudescimento da contra-revolu\u00e7\u00e3o global e dos movimentos de extrema direita n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o e a \u00fanica for\u00e7a capaz de frear isso \u00e9 a da organiza\u00e7\u00e3o popular, aut\u00f4noma, de base, objetivando a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica radical \u2013 e n\u00e3o vencer as elei\u00e7\u00f5es para vereador, governador e etc.. At\u00e9 porque a \u00faltima chance que a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora brasileira teve para ver uma altera\u00e7\u00e3o eleitoral substantiva foi em 2002 com a vit\u00f3ria do Lula, e o resultado \u00e9 tr\u00e1gico. \u00c9 preciso recome\u00e7ar pela base, pelos movimentos sociais, sindicais e pol\u00edticos que tenham vida e autenticidade no mundo cotidiano, pela classe trabalhadora e a impuls\u00e3o da periferia.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: Uma das teses que voc\u00ea tem proposto \u00e9 a de que o pr\u00f3prio PT cavou seu t\u00famulo, a partir de uma crescente despolitiza\u00e7\u00e3o e desmobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora brasileira, que culminou no enfraquecimento da esquerda. Na linha do que est\u00e1 sendo discutido, que sa\u00eddas \u00e0 esquerda podem ser encontradas a partir de agora e como avalia a <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/povosemmedonacional\" target=\"_blank\">Frente Povo Sem Medo<\/a> ? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>O PT acreditou na tese da Margareth Thatcher, do &#8220;capitalismo popular&#8221; na ideologia e na alian\u00e7a capital e trabalho em prol do crescimento do pa\u00eds. Quer dizer, ele acreditou em uma coisa muito velha e abandonou o que tinha de mais positivo quando era jovem, a sua ousadia e sua pujan\u00e7a de classe.<\/p>\n<p>A coisa mais importante que ocorreu no Brasil em 2015 foi o movimento dos secundaristas. J\u00e1 a Frente Povo Sem Medo participa com alguma tentativa de se diferenciar da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Frente_Brasil_Popular\" target=\"_blank\">Frente Brasil Popular<\/a> .<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelos secundaristas, o que o movimento dos estudantes fez em S\u00e3o Paulo foi a coisa mais importante em 2015. Um governo nefasto e privatista, antip\u00fablico, antissocial, dizia que melhoraria a educa\u00e7\u00e3o destruindo a educa\u00e7\u00e3o. E tomou medidas duras nesse sentido. A seguir, aconteceu uma espetacular rebeli\u00e3o da juventude, de estudantes, de pais, amigos, professores, dos bairros afetados, das periferias etc&#8230; Pareceu com a rebeli\u00e3o do Chile em 2011, que virou o pa\u00eds de cabe\u00e7a pra baixo. O primeiro grande movimento do pa\u00eds no sentido de mostrar como a ditadura Pinochet foi brutal, b\u00e1rbara e tinha destro\u00e7ado a educa\u00e7\u00e3o. No caso, um pa\u00eds onde tudo \u00e9 privatizado e as universidades p\u00fablicas cobram car\u00edssimo pra se manter. Um pai pobre tem de vender sua casa se quiser bancar os estudos dos filhos. Destro\u00e7aram o ensino p\u00fablico de l\u00e1 e criaram pre\u00e7os acess\u00edveis somente aos filhos dos ricos.<\/p>\n<p>J\u00e1 em S\u00e3o Paulo, a rebeli\u00e3o deixou o governador tucano completamente desconcertado, pois ganhou fort\u00edssima ades\u00e3o popular. Esse \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico do que eu dizia anteriormente, de que a resposta vem da periferia, dos movimentos organizados, com maior autonomia e pela base. Fecharam escolas e a resposta foi colocar m\u00e3es dos alunos dentro das escolas para defender os direitos de seus filhos, opondo-se \u00e0 pol\u00edtica tucana de que se pretendia &#8220;melhorar a educa\u00e7\u00e3o reduzindo as escolas e ainda tendo que estudar cada vez mais longe de casa&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 leviano chamar isso de projeto pedag\u00f3gico, quando na verdade \u00e9 uma reestrutura\u00e7\u00e3o para diminuir o ensino p\u00fablico, algo que vem desde a ditadura militar. Uma das principais trag\u00e9dias da ditadura foi destruir um ensino p\u00fablico de alta qualidade e humanista que se esbo\u00e7ava antes de 1964. As principais experi\u00eancias de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica cr\u00edtica e humanista foram destru\u00eddas pela ditadura, o que d\u00e1 no\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o espetacular foi a rea\u00e7\u00e3o dos estudantes. A despeito das diferen\u00e7as, a rea\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo veio na linha dos estudantes chilenos e dos levantes da juventude espanhola tamb\u00e9m. Foi ela, em sua faixa de 25 anos de idade, que se levantou na Espanha, ao ver que n\u00e3o adiantava estudar e se formar, porque n\u00e3o tinha emprego. Movimentos do tipo <i>ni trabajo ni estudio <\/i>, uma gera\u00e7\u00e3o de jovens que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o de encontrar emprego, dadas as pol\u00edticas de privatiza\u00e7\u00e3o e de financeiriza\u00e7\u00e3o dominantes na Europa.<\/p>\n<p>A Frente Povo Sem Medo requer cuidado nosso na discuss\u00e3o. Por exemplo: acho o MTST uma das mais importantes experi\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o pobre do Brasil, porque ela permitiu a percep\u00e7\u00e3o de que nosso pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o desigual, a renda t\u00e3o concentrada, que fica claro que a arquitetura das nossas cidades estampa uma contradi\u00e7\u00e3o visceral. Os ricos encastelados, em condom\u00ednios hiper-sofisticados, no n\u00edvel da alta burguesia europeia e norte-americana, e os pobres nas favelas, nas periferias sem esgoto, sem espa\u00e7os livres, mas sim para sofrer a viol\u00eancia das PMs e as tantas brutalidades que afetam os pobres.<\/p>\n<p>O MTST surge nesse universo e tem tra\u00e7os de ser um movimento expressivo que vem das periferias. Numa das refer\u00eancias que vi recentemente do Boulos, ele falava que o governo Dilma mostrou como acabou a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o. Devemos acrescentar, tamb\u00e9m, que acabou o lulismo, ou seja, a ideia de que um l\u00edder substitui a classe trabalhadora para praticar &#8220;a grande pol\u00edtica&#8221;, no caso, a pior modalidade da pol\u00edtica, por conta de sua faceta burguesa e servil.<\/p>\n<p>Assim, penso que \u00e9 vital que tais movimentos deem um passo adiante. N\u00e3o s\u00f3 romper com a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, mas romper com o lulismo, que na medida em que vitalizava a concilia\u00e7\u00e3o de classes, quer desconstruir a autonomia e pujan\u00e7a dos movimentos. Estamos adentrando um per\u00edodo muito dif\u00edcil da hist\u00f3ria social e pol\u00edtica brasileira. E muitos desses movimentos t\u00eam papel decisivo. Ser\u00e1 preciso dizer claramente que o projeto nascido em 1980 com o PT acabou como pol\u00edtica de esquerda, capaz de lutar pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e sua l\u00f3gica acentuadamente destrutiva. O PT n\u00e3o deve necessariamente acabar, pode ser o PMDB do s\u00e9culo 21, a fazer a pol\u00edtica da ordem e ficar com o esp\u00f3lio sobrante da triste domina\u00e7\u00e3o brasileira. E tenho cuidado para deixar claro que muitos militantes do PT, fundadores do partido e simpatizantes, hoje em n\u00famero bem menor que no passado, n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis por essa pol\u00edtica verdadeiramente corruptora que vitaminou o enriquecimento pol\u00edtico e financeiro do partido e desaguou nessa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Mas o PT enquanto partido de esquerda, popular e de massa, francamente, n\u00e3o vejo possibilidades de ressurgir. O PT no poder sempre recusou um debate pela esquerda. N\u00e3o lembro de uma \u00fanica vez o Lula, em todos os seus anos de presidente, fazer qualquer men\u00e7\u00e3o positiva \u00e0s esquerdas, inclusive de dentro do PT. Uma desconsidera\u00e7\u00e3o cabal. Claro que ao PT interessava preservar seus setores de esquerda, mas o lulismo sempre o aceitou como margem, nunca como centro, uma vez que de fato o lulismo visava a concilia\u00e7\u00e3o de classes. E, em \u00faltima inst\u00e2ncia, acabava na personifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, onde o l\u00edder sempre tem a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p><b>Correio da Cidadania: O que voc\u00ea intui para as pr\u00f3ximas semanas e meses da pol\u00edtica brasileira? Acredita que Dilma cai ou se mant\u00e9m? <\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Antunes: <\/b>\u00c9 muito dif\u00edcil ousar qualquer resposta. Especialmente quando n\u00f3s, ao mesmo tempo em que pensamos como intelectuais, tendo de apresentar algo reflexivo, pensamos tamb\u00e9m como seres engajados. A Dilma ter condi\u00e7\u00f5es de se manter at\u00e9 2018 \u00e9 uma possibilidade muito remota. Porque ela est\u00e1 sendo tragada pelas classes dominantes, depois de exercitar a pol\u00edtica do lulismo, do deus (min\u00fasculo mesmo) e o diabo na terra do sol. Os ratos que ancoravam o governo Lula-Dilma est\u00e3o pulando do navio. O PMDB rompeu com o governo e este que foi o grande resultado da engenharia de Lula \u2013 a pol\u00edtica policlassista que fez o PT deixar de ser um partido de esquerda para ganhar o poder \u2013 est\u00e1 sendo fagocitado.<\/p>\n<p>Os n\u00facleos partid\u00e1rios que o PT pensava como pontos de apoio tragaram a sua pol\u00edtica. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica. Se a Dilma for cassada e subir o vice Temer, tamb\u00e9m envolvido nos mesmos problemas, al\u00e9m de acumular den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o pessoal, ele n\u00e3o poder\u00e1 ter suporte legal e constitucional. O perigo \u00e9 a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato depor a Dilma e parar, como se fosse cumprido um objetivo. Um judici\u00e1rio moralista e de direita pode considerar miss\u00e3o cumprida e dizer &#8220;agora o trabalho est\u00e1 finalizado&#8221;. Eduardo Cunha ou Renan, os outros sucessores, seriam a tragicom\u00e9dia mais farsesca.<\/p>\n<p>\u00c9 uma crise muito profunda. Na hip\u00f3tese de generaliza\u00e7\u00e3o da Lava Jato, de modo a comprometer todos os envolvidos em corrup\u00e7\u00e3o, chegar\u00edamos \u00e0 necessidade de uma nova elei\u00e7\u00e3o. Mas isso s\u00f3 seria plaus\u00edvel com a condena\u00e7\u00e3o de todos, depois de feitas as devidas averigua\u00e7\u00f5es, defesas etc.<\/p>\n<p>Est\u00e1 muito dif\u00edcil imaginar, ent\u00e3o, o que ir\u00e1 acontecer. A situa\u00e7\u00e3o da Dilma \u00e9 quase de crise profunda, mas entramos numa \u00e9poca em que a popula\u00e7\u00e3o assalariada das periferias est\u00e1 percebendo que, independentemente de apoiar Dilma ou n\u00e3o, um golpe est\u00e1 sendo urdido. E entraremos em novas lutas sociais, o que deve gerar muita repress\u00e3o a movimentos populares. Um risco efetivo, at\u00e9 pela aprova\u00e7\u00e3o da acintosa Lei Antiterrorismo, uma lei de arb\u00edtrio e exce\u00e7\u00e3o. Estamos, ent\u00e3o, vendo no Brasil a montagem de um estado de exce\u00e7\u00e3o sem que haja golpe militar. E s\u00f3 teremos uma alternativa: recome\u00e7ar, com base nas experi\u00eancias citadas acima, isto \u00e9, dos secundaristas, do sindicalismo de classe, como Conlutas e Intersindical, de lutas pela base, dos movimentos sociais de terra, de moradia etc.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o se resuma tudo ao pessimismo e mesmo \u00e0 melancolia, temos um mosaico de lutas e movimentos sociais, experi\u00eancias novas. Houve um avan\u00e7o muito significativo de movimentos moleculares das classes populares e trabalhadoras. Como fazer para que tais movimentos atinjam um n\u00edvel de organicidade que os aproximem mais, ao inv\u00e9s de isol\u00e1-los? Como avan\u00e7ar numa nova pol\u00edtica radical, como soldar novos la\u00e7os de solidariedade e de pertencimento de classe, ao inv\u00e9s de ficarmos na pol\u00edtica de fracionamento e fragmenta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 o desafio que se coloca na pr\u00f3xima quadra.<\/p>\n<p>02\/Mar\u00e7o\/2016<\/p>\n<p><b>[*] Soci\u00f3logo<br \/>\n[**] Jornalistas.<\/b><\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=11554%3A2016-04-02-16-38-22&amp;catid=34%3Amanchete&amp;\" target=\"_blank\">www.correiocidadania.com.<wbr \/>br\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p><b>Esta entrevista encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ricardo Antunes [*] entrevistado por Raphael Sanz e Val\u00e9ria Nader [**] O pa\u00eds vive momento de extrema polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na fase mais \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10822\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-10822","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Oy","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10822\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}