{"id":10851,"date":"2016-04-14T19:48:01","date_gmt":"2016-04-14T22:48:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10851"},"modified":"2017-08-24T22:39:21","modified_gmt":"2017-08-25T01:39:21","slug":"os-movimentos-sociais-e-os-processos-revolucionarios-na-america-latina-uma-critica-aos-pos-modernistas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10851","title":{"rendered":"Os movimentos sociais e os processos revolucion\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina: Uma cr\u00edtica aos p\u00f3s-modernistas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/-rBM0J9hw5NI\/VxAdkY0GOfI\/AAAAAAAALyI\/jShn2TTzLaweix1ER3qB4ZcsRNnpvgKngCCo\/s512-Ic42\/edmilson.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>Os anos 90 do s\u00e9culo passado e os primeiros dez anos deste s\u00e9culo foram marcados por intenso debate entre as for\u00e7as de esquerda sobre o papel dos movimentos sociais, das minorias, das lutas de g\u00eanero e das vanguardas pol\u00edticas nos processos de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica da sociedade. Colocou-se na ordem do dia a discuss\u00e3o sobre novas palavras de ordem, novos agentes pol\u00edticos e sociais, novas formas de luta, novas concep\u00e7\u00f5es sobre a a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica pol\u00edtica.<!--more--><\/p>\n<p>Esses temas e concep\u00e7\u00f5es ocuparam o vazio pol\u00edtico nesse per\u00edodo em fun\u00e7\u00f5es de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos que ocorreram na d\u00e9cada de 80 e 90, como a queda do Muro de Berlim, o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos pa\u00edses do Leste Europeu, o refluxo do movimento sindical, a redu\u00e7\u00e3o das lutas oper\u00e1rias nos principais centros capitalistas, a perda de protagonismo dos partidos revolucion\u00e1rios, especialmente dos comunistas,al\u00e9m da ofensiva da ideologia neoliberal em todas as partes do mundo, sob o comando das for\u00e7as mais reacion\u00e1rias do capital.<\/p>\n<p>A conjuntura de derrota das for\u00e7as progressistas favoreceu a todo tipo modismo te\u00f3rico e fetiche ideol\u00f3gico. Sob diversos pretextos, certas for\u00e7as pol\u00edticas, inclusive alguns companheiros de esquerda, come\u00e7aram a questionar a centralidade do trabalho na vida social, o papel dos partidos pol\u00edticos como vanguarda dos processos de transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, a atualidade da luta de classes como instrumento de mudan\u00e7a da hist\u00f3ria e o pr\u00f3prio socialismo-comunismo como processo que leva \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Esse movimento te\u00f3rico e pol\u00edtico envolveu for\u00e7as difusas, mas influentes junto \u00e0 juventude e v\u00e1rios movimentos sociais. O objetivo era desconstruir o discurso dos partidos pol\u00edticos revolucion\u00e1rios, do movimento sindical e do pr\u00f3prio marxismo, como s\u00edntese te\u00f3rica da revolu\u00e7\u00e3o. Para estas for\u00e7as, os discursos de temas abrangentes, como a igualdade, o socialismo, a emancipa\u00e7\u00e3o humana, os valores hist\u00f3ricos do proletariado, as solu\u00e7\u00f5es coletivas contra a opress\u00e3o humana, eram coisa do passado e produto de um mundo que j\u00e1 existia mais.<\/p>\n<p>No lugar desses velhos temas, tornava-se necess\u00e1rio colocar um novo discurso, como forma de forma a reconhecer a fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade e do conhecimento, a constata\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, a emerg\u00eancias de novos sujeitos sociais, com caracter\u00edsticas, valores e reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como os movimentos sociais, de g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia, etc, e novas formas de formas de luta, inclusive com ren\u00fancia \u00e0 tomada do poder.<\/p>\n<p>O condensamento desse ecletismo conservador, dessa matriz te\u00f3rica diluidora, pode ser expresso no que se convencionou chamar de p\u00f3s-modernismo. Essa \u00e9 a fonte te\u00f3rica inspiradora de todos os modismos te\u00f3ricos e fetiches que se tornou moda as duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Quais s\u00e3o os principais supostos te\u00f3ricos dos p\u00f3s-modernistas, que tanta influ\u00eancia tiveram nesses anos de vazio pol\u00edtico? Vamos nos ater a tr\u00eas vertentes fundamentais que norteiam os fundamentos dessa corrente te\u00f3rica.<\/p>\n<p>1) O fim da centralidade do trabalho. Um dos temas mais destacados pelos p\u00f3s-modernistas \u00e9 o fato de que as tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e a inser\u00e7\u00e3o acelerada de ci\u00eancia no processo produtivo tornaram obsoleto o conceito de classe oper\u00e1ria e proletariado, at\u00e9 mesmo porque esses atores est\u00e3o se tornando residuais num mundo globalizado onde impera a rob\u00f3tica, a internet e a inform\u00e1tica avan\u00e7ada. Alguns desses te\u00f3ricos chegaram a dar adeus ao proletariado, que seria um conceito t\u00edpico da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial. Prova disso, seria a constata\u00e7\u00e3o de que a classe oper\u00e1ria est\u00e1 diminuindo em todo o mundo e, por isso mesmo, perdeu o protagonismo para outros movimentos emergentes no capitalismo globalizado.<\/p>\n<p>Os te\u00f3ricos p\u00f3s-modernistas se comportam como o ca\u00e7ador que v\u00ea apenas as \u00e1rvores mas n\u00e3o consegue enxergar a floresta. Olham o mundo a partir de uma perspectiva da Europa ou Estados Unidos. Por isso, n\u00e3o conseguem compreender que o capital possui uma extraordin\u00e1ria mobilidade, em fun\u00e7\u00e3o da busca permanente por valoriza\u00e7\u00e3o. Por isso, s\u00e3o incapazes de perceber que o proletariado est\u00e1 crescendo de maneira expressiva em termos mundiais, com o deslocamento de milhares de ind\u00fastrias dos EUA e da Europa para a \u00c1sia, processo que est\u00e1 incorporando ao mundo do trabalho centenas de milh\u00f5es de trabalhadores na China, na \u00cdndia e em toda a \u00c1sia, num movimento que est\u00e1 mudando a conjuntura mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguem entender que o pr\u00f3prio capitalismo \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em processo, pois quanto mais se moderniza, quanto mais insere ci\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o, mais amplia sua composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e, consequentemente, mais pressiona as taxas de lucro para baixo. Por isso, o capitalismo n\u00e3o pode existir sem seu contraponto, o proletariado. Se o capitalismo automatizasse todas suas f\u00e1bricas o sistema entraria em colapso, pois os rob\u00f4s s\u00e3o at\u00e9 mais disciplinados que os seres humanos, s\u00e3o capazes de trabalhar sem descanso, n\u00e3o reivindicam sal\u00e1rio, nem fazem greve, mas tamb\u00e9m tem seu calcanhar de Aquiles: n\u00e3o consomem. Se n\u00e3o tem consumidores, os capitalistas n\u00e3o t\u00eam para quem vender suas mercadorias. Ou seja, antes de uma automatiza\u00e7\u00e3o total, o sistema entraria em colapso em fun\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>2) O fim da centralidade da luta de classes. Outro dos argumentos dos te\u00f3ricos p\u00f3s-modernos \u00e9 a alega\u00e7\u00e3o de que a luta de classes \u00e9 coisa do passado. Afinal, dizem, se o proletariado est\u00e1 se reduzindo aceleradamente, n\u00e3o existe mais identidade de classe e, portanto, n\u00e3o teria sentido se falar em luta de classes. Nessa perspectiva, dizem, a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva pode ser considerada uma esp\u00e9cie de dobre de finados que veio sepultar os velhos agentes do passado, como o movimento sindical. Prova disso, \u00e9 que os sindicatos perderam o protagonismo e agora agonizam em todo o mundo. E o principal representante te\u00f3rico do mundo do trabalho, o marxismo, tamb\u00e9m estaria ultrapassado, em fun\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o monol\u00edtica do mundo.<\/p>\n<p>Novamente, os te\u00f3ricos p\u00f3s-modernistas tamb\u00e9m n\u00e3o compreendem a hist\u00f3ria e confundem sua submiss\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e0 ordem capitalista com a realidade dos trabalhadores. A luta de classes sempre existiu desde que as classes se constitu\u00edram na humanidade e continuar\u00e1 sua trajet\u00f3ria enquanto existir a explora\u00e7\u00e3o de um ser humano por outro. N\u00e3o porque os marxistas querem, mas porque a realidade a imp\u00f5e. Nos tempos de refluxo as lutas sociais diminuem, parece que os trabalhadores est\u00e3o passivos e os capitalistas imaginam que conseguiram disciplinar para sempre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, o discurso do fim da luta de classe, da passividade dos trabalhadores, chega a influenciar muita gente, afinal, quem n\u00e3o tem uma perspectiva hist\u00f3rica do mundo se at\u00e9m apenas \u00e0 superf\u00edcie dos fen\u00f4menos, \u00e0 apar\u00eancia das coisas. Mas nos momentos de crise do capitalismo, esse discurso se torna inteiramente inadequado, entra em choque com a realidade, uma vez que a crise coloca a luta de classes na ordem do dia com uma atualidade extraordin\u00e1ria, para desespero daqueles que imaginavam o seu fim.<\/p>\n<p>Se observarmos a realidade atual, onde o sistema capitalismo enfrenta sua maior crise desde a Grande Depress\u00e3o, poderemos facilmente constatar e emerg\u00eancia da luta de classes em praticamente todas as partes do mundo. \u00c9 s\u00f3 observar as insurrei\u00e7\u00f5es no Oriente M\u00e9dio, na \u00c1frica, as lutas na Am\u00e9rica Latina, as greves e mobiliza\u00e7\u00f5es na Europa. Al\u00e9m disso, a crise tamb\u00e9m tornou o marxismo mais atual do que nunca. Mesmo os capitalistas est\u00e3o lendo O Capital para tentar entender o que est\u00e1 ocorrendo no mundo.<\/p>\n<p>3) As vanguardas pol\u00edticas n\u00e3o t\u00eam mais nenhum papel a desempenhar no mundo globalizado. O terceiro dos argumentos-chave dos te\u00f3ricos p\u00f3s-modernistas \u00e9 o fato de os partidos revolucion\u00e1rios, especialmente os comunistas, n\u00e3o t\u00eam mais nenhum papel a desempenhar no mundo atual. A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica agora deve ser comandada pelos movimentos sociais, pelos movimentos de g\u00eanero, minorias \u00e9tnicas, de ra\u00e7as, sexuais, etc, que s\u00e3o v\u00edtimas de \u201copress\u00f5es espec\u00edficas\u201d. Isso porque os partidos seriam organiza\u00e7\u00f5es autoproclamat\u00f3rias, autorit\u00e1rias, portadoras de um fetiche autorealiz\u00e1vel, que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o socialista.Essas institui\u00e7\u00f5es, portadoras de um discurso ut\u00f3pico de emancipa\u00e7\u00e3o humana, est\u00e3o tamb\u00e9m definhando em todo o mundo porque n\u00e3o estariam entendendo a realidade do mundo globalizado.<\/p>\n<p>Mais uma vez os te\u00f3ricos p\u00f3s-modernistas n\u00e3o conseguem compreender a totalidade da vida social. Por isso, v\u00eaem o mundo sem unidade, fragmentado e disperso. N\u00e3o entendem que, por tr\u00e1s da \u201copress\u00e3o espec\u00edfica\u201d que atinge os movimentos sociais e de g\u00eanero, etnia, ra\u00e7a, sexual, est\u00e1 o grande capital apropriando a mais-valia de todos, independentemente de ra\u00e7a, sexo ou orienta\u00e7\u00e3o religiosa . N\u00e3o compreendem que os movimentos, por sua pr\u00f3pria natureza, t\u00eam limites institucionais e de representatividade.<\/p>\n<p>Um sindicato, por mais combativo que seja, deve representar os interesses dos trabalhadores que representa. Da mesma forma que uma entidade estudantil, uma organiza\u00e7\u00e3o de moradores, de mulheres ou de homosexuais tem como objetivo defender os interesses espec\u00edficos de seus representados, atuam nos limites institucionais da ordem burguesa. Somente o partido pol\u00edtico revolucion\u00e1rio, que se prop\u00f5e a derrotar a ordem capitalista e que junta em suas fileiras todos esses segmentos sociais, possui condi\u00e7\u00f5es para entender a totalidade da luta pol\u00edtica e lan\u00e7ar propostas globais para a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica das lutas sociais<\/p>\n<p>Se observarmos as lutas sociais que foram realizadas nos \u00faltimos anos, poderemos constatar facilmente que grande parte delas foram derrotadas exatamente porque n\u00e3o existiam vanguardas com capacidade de conduzir e orientar essas lutas para a radicalidade da luta de classes e a emancipa\u00e7\u00e3o do proletariado. N\u00e3o se trata aqui de negar a import\u00e2ncia das lutas espec\u00edficas ou dos movimentos sociais. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o fundamentais para qualquer processo de mudan\u00e7a, servem tamb\u00e9m como aprendizado da luta dos trabalhadores, mas deixadas por si mesmas, apenas com seu conte\u00fado espontane\u00edsta, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de realizaras transforma\u00e7\u00f5es da sociedade e terminam se esvaziando e sendo derrotadas pelo capital.<\/p>\n<p>O teatro de opera\u00e7\u00f5es \u00e9 mais ou menos o seguinte: ap\u00f3s um momento de euforia e mobiliza\u00e7\u00e3o os movimentos sociais s\u00e3o capazes de realizar proezas impressionantes, como desacreditar a velha ordem, desafiar as classes dominantes, mas num segundo momento a euforia se esgota em si mesma sem atingir os objetivos por falta de perspectivas. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 um importante posto de observa\u00e7\u00e3o para constatarmos essa hip\u00f3tese, mas tamb\u00e9m em v\u00e1rias partes do mundo os exemplos s\u00e3o f\u00e9rteis para verificarmos a necessidades de vanguardas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A Bol\u00edvia, por exemplo, foi palco de v\u00e1rias insurrei\u00e7\u00f5es populares contra governos neoliberais. As massas se sublevaram, foram \u00e0s ruas aos milh\u00f5es, derrubaram os governos conservadores, mas o m\u00e1ximo que conseguiram foi eleger um presidente progressista que \u00e9 fustigado a todo momento pelo capital e n\u00e3o consegue realizar plenamente nem o pr\u00f3prio programa a que se prop\u00f4s no per\u00edodo das elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNo Equador, ocorreram tamb\u00e9m v\u00e1rias insurrei\u00e7\u00f5es populares. Em uma delas, os movimentos conquistaram o poder e o entregaram a um militar que depois os traiu e agora \u00e9 um personagem conservador na pol\u00edtica do Pa\u00eds. Posteriormente, no bojo de outra insurrei\u00e7\u00e3o, conseguiram eleger um presidente progressista, mas este n\u00e3o consegue implementar um programa transformador porque o capital n\u00e3o lhe d\u00e1 tr\u00e9gua. Recentemente quase foi deposto por um setor militar sublevado.<\/p>\n<p>Na Argentina, em fun\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica herdada do governo neoliberal de Menem, as massas tamb\u00e9m se sublevaram aos milh\u00f5es em v\u00e1rias regi\u00f5es do Pa\u00eds. Em um per\u00edodo curto o Pa\u00eds mudou tr\u00eas vezes de presidente. O resultado da subleva\u00e7\u00e3o popular foi a elei\u00e7\u00e3o de Nestor Kirchner e, posteriormente, de sua companheira, Cristina Kirchner. Nesses anos de poder, os Kirchner tamb\u00e9m n\u00e3o realizaram nenhuma mudan\u00e7a de fundo. O capitalismo seguiu seu curso como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p>Mais recentemente, duas grandes insurrei\u00e7\u00f5es populares derrubaram os governos conservadores da Tun\u00edsia, do Egito e do I\u00eamen. Milhares de pessoas se sublevaram durante v\u00e1rios dias, centenas de pessoas morreram, os ditadores deixaram o poder, mas os movimentos sociais, sem vanguarda pol\u00edtica, n\u00e3o conseguiram seus objetivos. Setores da burguesia local encabe\u00e7aram a forma\u00e7\u00e3o de novos governos e os trabalhadores mais uma vez deixaram escapar de suas m\u00e3os a revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo Brasil, um grande movimento social, o Movimento dos Sem Terra (MST) enfrentou com bravura os governos neoliberais, tendo como norte a bandeira da reforma agr\u00e1ria. Organizou um movimento original e de massas, com base social em todo o Pa\u00eds, especialmente entre a popula\u00e7\u00e3o mais pobre da cidade e do campo. O MST ocupou fazendas dos latifundi\u00e1rios, realizou forma\u00e7\u00e3o de grande parte dos seus quadros e at\u00e9 mesmo conseguiu construir uma universidade popular para forma\u00e7\u00e3o permanente dos seus militantes.<\/p>\n<p>No entanto, o desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro e a emerg\u00eancia do agroneg\u00f3cio criaram uma nova conjuntura no campo brasileiro, onde as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o passaram a se dar predominantemente entre capital e trabalho. Essa conjuntura, aliada ao programa de compensa\u00e7\u00e3o social do governo Lula, o \u201cBolsas Fam\u00edlia\u201d, uma programa de transfer\u00eancia de renda para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, levou o MST a uma encruzilhada.<\/p>\n<p>Ou seja, a realidade mudou radialmente no campo brasileiro, mas a raz\u00e3o de ser do MST era a reforma agr\u00e1ria. Por isso, o movimento, que se tornara um dos s\u00edmbolos de luta contra o neoliberalismo e, por isso mesmo obteve simpatia mundial, agora est\u00e1 perdendo protagonismo. Os acampamentos do MST foram reduzidos para menos da metade e o movimento vive grandes dificuldades estrat\u00e9gicas. Afinal, se a maioria dos trabalhadores est\u00e1 nas cidades, se o capitalismo hegemonizou as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o no campo e subordinou a pequena agricultura \u00e0 l\u00f3gica do capital, torna-se dif\u00edcil a sobreviv\u00eancia no longo prazo de um movimento que tem apenas a bandeira da reforma agr\u00e1ria como luta estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>A condensa\u00e7\u00e3o mais expressiva da teoria movimentista foi o F\u00f3rum Social Mundial (FSM). Por ocasi\u00e3o do primeiro FSM, em Porto Alegre, parecia que todos tinham encontrado a f\u00f3rmula ideal, a varinha m\u00e1gica,para as novas lutas sociais. Milhares de lutadores de todo o mundo convergiram para o Rio Grande do Sul para se fazer presentes no lan\u00e7amento da nova grife da luta mundial aut\u00f4noma. Foi um sucesso extraordin\u00e1rio e um contraponto ao Foro de Davos, onde os capitalistas tramavam novas estrat\u00e9gias para domina\u00e7\u00e3o do mundo.<br \/>\nO sucesso de p\u00fablico e de m\u00eddia do FSM parecia ter enterrado de vez a no\u00e7\u00e3o de vanguarda pol\u00edtica. Agora seriam os movimentos sociais, os movimentos de g\u00eanero, etnia, das mulheres, os movimentos sociais que doravante comandariam as lutas no mundo. Adeus partidos pol\u00edticos, adeus movimento sindical, adeus velhos atores sociais da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial. Agora eram os movimentos difusos, sem centralidade pol\u00edtica, inteiramente aut\u00f4nomos, livres de dogmas e ideologias ultrapassadas que iriam provar ao mundo a nova realidade da luta social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Muita gente sinceramente acreditou que o FSM poderia ser a f\u00f3rmula m\u00e1gica, o contraponto contempor\u00e2neo ao capital, o substituto das velhas vanguardas pol\u00edticas e seu discurso autoproclamat\u00f3rio. Mas a realidade aos poucos foi colocando no devido lugar o modismo movimentista. Com o tempo, o FSM foi perdendo f\u00f4lego, foi se esvaziando, at\u00e9 o ponto em que hoje ningu\u00e9m mais acredita que possa ser alternativa a coisa nenhuma. Mas uma vez a vida provou que os movimentos por si s\u00f3 n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de mudar a sociedade, \u00e9 necess\u00e1rio a vanguarda pol\u00edtica para conduzir os processos de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O significado do p\u00f3s-modernismo e as lutas sociais<\/p>\n<p>Em outras palavras, a ideologia p\u00f3s-modernista \u00e9 respons\u00e1vel por grande parte das derrotas dos movimentos sociais nestas duas d\u00e9cadas, n\u00e3o s\u00f3 porque esse modismo te\u00f3rico influenciou parte da juventude e lideran\u00e7as dos movimentos sociais, como tamb\u00e9m porque levou \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o milhares de lutadores sociais. Isso porque as lutas fragmentadas geralmente se desenvolvem de maneira espont\u00e2nea. No in\u00edcio tem uma trajet\u00f3ria de ascenso, empolga milhares de pessoas, mas logo depois o movimento vai enfraquecendo at\u00e9 ser absorvido pelo sistema.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o p\u00f3s-modernismo \u00e9 o fetiche ideol\u00f3gico t\u00edpico dos tempos de neoliberalismo e representa a ideologia pequeno-burguesa da submiss\u00e3o sofisticada \u00e0 ordem do capital. Mas essa ideologia carrega consigo uma contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel: no momento em que o capital mais se globaliza, com a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as, \u00e9 justamente neste momento que os p\u00f3s-modernos pregam a fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade, a setoriza\u00e7\u00e3o das lutas sociais, a especificidade dos combates de g\u00eanero, etnia, ra\u00e7a, sexo, etc. S\u00f3 mesmo quem n\u00e3o quer mudar a ordem capitalista pensa desse jeito.<\/p>\n<p>Na verdade, todos que seguem esse ritual te\u00f3rico, de maneira direta ou indireta, est\u00e3o abrindo m\u00e3o de um projeto emancipat\u00f3rio e escondem sua impot\u00eancia mediante um discurso cheio de abstra\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas, mas muito conveniente para o capital. Por isso, combatem as lutas gerais, para fragment\u00e1-las em lutas espec\u00edficas, que n\u00e3o afrontam abertamente o sistema dominante.Trata-se do varejo da pol\u00edtica fantasiado de moderno.<\/p>\n<p>Esses setores cumpriram, nos \u00faltimos 20 anos e ainda cumprem at\u00e9 hoje, um papel muito especial na luta ideol\u00f3gica atual: eles s\u00e3o a m\u00e3o esquerda do social-liberalismo capitalista. Influenciam as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, desenvolvem um discurso com apar\u00eancia de modernidade, influem na organiza\u00e7\u00e3o das lutas sociais. Com seu discurso ecl\u00e9tico e fatalista, cheio de senso comum, desorientam setores importantes da sociedade no que se refere \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e, na pr\u00e1tica, ajudam a organizar, mesmo que indiretamente, a submiss\u00e3o de v\u00e1rios setores sociais \u00e0 ordem capitalista e aos valores do mercado.<\/p>\n<p>Essas duas d\u00e9cadas de experi\u00eancias fragmentadas nos levam \u00e0 conclus\u00e3o de que, mais do que nunca, as vanguardas revolucion\u00e1rias t\u00eam um papel fundamental no processo de transforma\u00e7\u00f5es sociais. S\u00e3o elas exatamente que podem conduzir e orientar os v\u00e1rios movimentos sociais com uma plataforma estrat\u00e9gica de emancipa\u00e7\u00e3o da humanidade, o que significa derrotar o imperialismo e o capitalismo e transitar para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade socialista.<\/p>\n<p>*Edmilson Costa \u00e9 doutor em Economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor, entre outros, de A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo e A pol\u00edtica salarial no Brasil. Professor universit\u00e1rio, \u00e9 membro da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Edmilson Costa* Os anos 90 do s\u00e9culo passado e os primeiros dez anos deste s\u00e9culo foram marcados por intenso debate entre as for\u00e7as \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10851\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-10851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2P1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10851"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10851\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}