{"id":1087,"date":"2010-12-28T12:58:39","date_gmt":"2010-12-28T12:58:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1087"},"modified":"2010-12-28T12:58:39","modified_gmt":"2010-12-28T12:58:39","slug":"virginia-fontes-o-brasil-e-o-capital-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1087","title":{"rendered":"Virginia Fontes: O Brasil e o Capital-Imperialismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Mauro Iasi*<\/p>\n<p>Certos temas s\u00e3o fundamentais para uma reflex\u00e3o de esquerda em nossos tempos: as formas contempor\u00e2neas do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, o sistema internacional da domina\u00e7\u00e3o do capital, a din\u00e2mica da luta de classes atual, as manifesta\u00e7\u00f5es do inconformismo e do amoldamento da classe trabalhadora, a quest\u00e3o da democracia. Virg\u00ednia Fontes nos apresenta uma rica reflex\u00e3o na qual articula todas estas dimens\u00f5es na perspectiva de uma totalidade econ\u00f4mico-pol\u00edtica daquilo que denomina \u2018capital-imperialismo\u2019.<\/p>\n<p>A originalidade deste trabalho \u2014 que \u00e9 o culminar de uma extensa pesquisa e fruto do longo amadurecer de um debate que parte das reflex\u00f5es acad\u00eamicas da autora, mas que se tempera no prof\u00edcuo debate pol\u00edtico com a milit\u00e2ncia e resist\u00eancia da classe trabalhadora diante das manifesta\u00e7\u00f5es inquietantes de \u00abapassivamento\u00bb da rebeldia que marcou os anos 1970 e 1980 \u2014 consiste no paciente trabalho de articular as dimens\u00f5es da determina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pr\u00f3prias da essencialidade do capital e de seu irresist\u00edvel processo de valoriza\u00e7\u00e3o do valor, com as diversas manifesta\u00e7\u00f5es que passam a incidir em todo o tecido da vida social, cultural, ideol\u00f3gica e pol\u00edtica da sociabilidade subsumida ao capital.<\/p>\n<p>Para quem espera um mero atualizar do car\u00e1ter imperialista da forma contempor\u00e2nea do capital, um eterno repetir de si mesmo como fase terminal e parasit\u00e1ria do capitalismo, a an\u00e1lise de Fontes surpreende com argumentos que nos mostram que os elementos essenciais deste momento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, tal como anunciados por Lenin em seu famoso trabalho sobre o tema, est\u00e3o sim mais atuais que nunca, tais como a concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de capitais, a fus\u00e3o do capital industrial com o capital banc\u00e1rio formando o capital financeiro, a exporta\u00e7\u00e3o de capitais e a subsequente partilha e repartilha constante do globo, primeiro entre os monop\u00f3lios e depois entre as na\u00e7\u00f5es que os representam; no entanto, n\u00e3o basta reafirmar a m\u00e1xima manifesta\u00e7\u00e3o destes fatores, mas afirmar que, em um determinado ponto, seu desenvolvimento aponta para uma nova fase contempor\u00e2nea, que seria o capital-imperialismo.<\/p>\n<p>O grau de concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o, o esquadrinhar do globo pelos monop\u00f3lios e o \u00e1pice do processo de valoriza\u00e7\u00e3o e de consequente crise do capital, potencializando a forma\u00e7\u00e3o do capital portador de juros, criou um cen\u00e1rio no qual a exporta\u00e7\u00e3o de capitais e a sua constante valoriza\u00e7\u00e3o se d\u00e3o necessariamente em uma teia internacional de rela\u00e7\u00f5es, num sistema mundial de Estados que s\u00e3o obrigados a pensar suas formas de domina\u00e7\u00e3o a partir desta internacionaliza\u00e7\u00e3o, formando o capital-imperialismo. O essencial no conceito apresentado \u00e9 a possibilidade de compreender o fen\u00f4meno n\u00e3o apenas como uma domina\u00e7\u00e3o de um centro sobre uma periferia, mas como uma rela\u00e7\u00e3o na qual \u00e9 poss\u00edvel que a subordina\u00e7\u00e3o das economias de \u00abcapitalismo tardio\u00bb n\u00e3o impe\u00e7a o protagonismo de pa\u00edses nas diferentes frentes de valoriza\u00e7\u00e3o do capital-imperialismo.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que se destaque que aquilo que se internacionaliza ainda \u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e isso \u00e9 essencial, pois a autora, com qualidade te\u00f3rica, sustenta sua an\u00e1lise da forma atual do capitalismo nos fundamentos da cr\u00edtica da econ\u00f4mica pol\u00edtica e na centralidade do trabalho e da lei do valor, configurando uma valiosa trincheira contra as vers\u00f5es que se popularizaram fundadas na afirma\u00e7\u00e3o de uma contemporaneidade \u00abp\u00f3sindustrial\u00bb, \u00abp\u00f3s-capitalista\u00bb, ou qualquer outra metaf\u00edsica que busca obscurecer os reais fundamentos da explora\u00e7\u00e3o do trabalho como base real do ciclo do capital total.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Fontes recusa as sa\u00eddas f\u00e1ceis dos termos como \u00abfinaceiriza\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb, resgatando n\u00e3o apenas o fundamento capitalista da forma presente como o imperialismo como base para compreender as fei\u00e7\u00f5es da domina\u00e7\u00e3o do capital em nossos tempos. Como j\u00e1 confessou o pr\u00f3prio Galbraith: \u00abGlobaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um conceito s\u00e9rio. N\u00f3s, americanos, a inventamos para dissimular nossa pol\u00edtica de entrada econ\u00f4mica nos outros pa\u00edses\u00bb.<\/p>\n<p>Entretanto, o esfor\u00e7o da autora n\u00e3o se restringe a validar tais fundamentos, vai al\u00e9m. Ainda que as bases econ\u00f4micas sejam essenciais, recupera a mais cara tradi\u00e7\u00e3o da renova\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica do marxismo, ou seja, a perspectiva da totalidade.<\/p>\n<p>Seria aqui, talvez, a nota distintiva de originalidade do trabalho. O capital-imperialismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma express\u00e3o da forma atual da domina\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios e da partilha do mundo, formando \u00e1reas de exporta\u00e7\u00e3o de capitais, mas um sistema que tem que equacionar os meios e formas de domina\u00e7\u00e3o e \u00abconsentimento\u00bb, em outras palavras, no conjunto dos meios pol\u00edticos, ideol\u00f3gicos e culturais atrav\u00e9s dos quais a burguesia monopolista enfrenta seu ant\u00edpoda \u2013 os trabalhadores \u2013, com a inten\u00e7\u00e3o de subordin\u00e1-los \u00e1 l\u00f3gica hegem\u00f4nica do capital.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que n\u00e3o nos surpreende, ao lado de Lenin, a presen\u00e7a de Gramsci. Os dois pensadores marxistas buscam compreender suas forma\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas no contexto de um capitalismo mundial que envolve em seu processo de desenvolvimento as na\u00e7\u00f5es \u00abretardat\u00e1rias\u00bb, assim como se defrontam com as manifesta\u00e7\u00f5es de um \u00abapassivamento\u00bb reformista da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Desta forma, o fen\u00f4meno do imperialismo se mescla com o processo pol\u00edtico de busca de estrat\u00e9gias de impor uma hegemonia burguesa que desarme os trabalhadores de sua necess\u00e1ria independ\u00eancia de classe no sentido de um projeto societ\u00e1rio para al\u00e9m do capital.<\/p>\n<p>Ora, as formas econ\u00f4micas e pol\u00edticas da domina\u00e7\u00e3o da burguesia monopolista se aprofundaram e alteraram sensivelmente ap\u00f3s a Segunda Grande Guerra, da mesma forma que o gigantismo da valoriza\u00e7\u00e3o do valor exigiu formas pol\u00edticas capazes de administrar as contratend\u00eancias \u00e0 tend\u00eancia \u00e0 queda da taxa de lucro, entre elas a forma\u00e7\u00e3o do capital portador de juros, e desarmar os trabalhadores, levando a um papel diferenciado do Estado burgu\u00eas, seja na vers\u00e3o cl\u00e1ssica do pacto social-democrata, no Welfare State, seja nas ditaduras na Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia. No bojo das novas e necess\u00e1rias formas de domina\u00e7\u00e3o\/consentimento, a quest\u00e3o da democracia representativa passa a ocupar lugar central nas formas de amoldamento do proletariado aos limites da ordem do capital.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir deste enquadre te\u00f3rico e conceitual que a autora olha para a forma\u00e7\u00e3o social brasileira de maneira provocativa, pol\u00eamica e, por isso mesmo, instigante. O desenvolvimento do capitalismo brasileiro n\u00e3o pode mais ser analisado com os prec\u00e1rios meios conceituais do \u00abdesenvolvimento\u00bb ou \u00absubdesenvolvimento\u00bb, ou da \u00abdepend\u00eancia\u00bb, uma vez que tal an\u00e1lise acaba deformando o fen\u00f4meno imperialista como uma mera domina\u00e7\u00e3o \u00abexterna\u00bb, abrindo espa\u00e7o para a concep\u00e7\u00e3o de uma \u00abburguesia nacional\u00bb ou estrat\u00e9gias de desenvolvimento capitalista fundadas no pacto social entre dominados e dominadores.<\/p>\n<p>O capitalismo brasileiro n\u00e3o apenas fez seu percurso at\u00e9 o capital monopolista, concentrou e centralizou seus capitais, desenvolveu as institui\u00e7\u00f5es de uma sociedade civil burguesa e de um Estado burgu\u00eas que completa sua transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 uma \u00abdemocracia representativa\u00bb, como o fez integrando-se dinamicamente \u00e0 ordem internacional do capital-imperialismo. Sua subalternidade inconteste diante do centro irradiador e determinante do sistema n\u00e3o impede \u2014 pelo contr\u00e1rio, imp\u00f5e \u2014 um papel ativo e diferenciado daquelas forma\u00e7\u00f5es sociais que se convertem em \u2018plataformas de expans\u00e3o\u2019 do capital-imperialismo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a autora n\u00e3o nega as diferen\u00e7as que marcam a subalternidade (o peso e o tamanho comparativo dos monop\u00f3lios nacionais em rela\u00e7\u00e3o aos do centro, a dimens\u00e3o militar irrelevante das FFAA etc.), mas isso n\u00e3o pode ofuscar a percep\u00e7\u00e3o do peso econ\u00f4mico dos monop\u00f3lios, sua presen\u00e7a no cen\u00e1rio internacional e mesmo seu car\u00e1ter evidente de exportador de capitais n\u00e3o apenas no cen\u00e1rio latino-americano como em outras partes do globo.<\/p>\n<p>O Brasil, como parte ativa do sistema do capital-imperialismo, exigia um equacionamento da luta de classes, neutralizando a press\u00e3o dos \u00abde baixo\u00bb. S\u00e3o vistos como unidade o papel de plataforma do capital-imperialismo e o desfecho da luta de classes no Brasil em uma forma pactuada de transformismo e apassivamento da rebeldia prolet\u00e1ria, expressa de forma did\u00e1tica pela trajet\u00f3ria que leva da contesta\u00e7\u00e3o ao amoldamento das organiza\u00e7\u00f5es inicialmente contra-hegem\u00f4nicas, como a CUT e o PT.<\/p>\n<p>Por tudo isso, o livro de Virg\u00ednia Fontes torna-se uma refer\u00eancia para o debate da esquerda brasileira e daqueles que n\u00e3o abandonaram a perspectiva de ruptura com a ordem do capital. Mais do que uma conclus\u00e3o definitiva, o livro \u00e9 um prof\u00edcuo ponto de partida para uma an\u00e1lise necess\u00e1ria.<\/p>\n<p><em><strong>Nota: <\/strong>Virginia Fontes, Professora da Iniversidade Federal Fluminense, Brasil, participou activamente nos Encontros Civiliza\u00e7\u00e3o ou Barb\u00e1rie, organizados por odiario.info.<\/em><\/p>\n<p><em>* Mauro Luis Iasi \u00e9 professor-adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, membro do conselho editorial da Editora Express\u00e3o Popular.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nTeoria e Hist\u00f3ria \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1087\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1087","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-hx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1087"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1087\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}