{"id":10871,"date":"2016-04-20T10:36:37","date_gmt":"2016-04-20T13:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10871"},"modified":"2016-05-05T23:04:20","modified_gmt":"2016-05-06T02:04:20","slug":"come-morar-o-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10871","title":{"rendered":"Comemorar o qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.funarte.gov.br\/vianninha\/imagens\/vianninha%20127%20reduzida.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><em>Toda farsa tem dois gumes (Mill\u00f4r Fernandes)<\/em><\/p>\n<p>Estive em Montevid\u00e9u no ver\u00e3o de 85. Foi um privil\u00e9gio. O pa\u00eds estava saindo de doze anos de ditadura e comemorava <em>comme il faut<\/em>. Um dos pontos de maior concentra\u00e7\u00e3o popular era o Pal\u00e1cio Legislativo, sede do Congresso, lacrado por muitos anos. Sua abertura simbolizava a volta da pol\u00edtica a c\u00e9u aberto, banida pelos coturnos. Bandeiras de todos os tipos tremulavam, o povo n\u00e3o parava de chegar. <!--more-->Contaminado pela festa, caminhava pela avenida Agraciada, quando me deparei com um cartaz inusitado. Assinado pela organiza\u00e7\u00e3o Sal\u00fa y Anarquia, dizia: <em>Que mierda festejan ?<\/em> Isso mesmo, na contram\u00e3o daquela monumental descompress\u00e3o, longamente aguardada e duramente conquistada, tinha gente que achava que aquilo n\u00e3o passava de uma farsa, era tudo ou nada. Olhei em volta, vi militantes da Frente Ampla que pouco depois come\u00e7aria a vencer elei\u00e7\u00f5es, e pensei: quem estar\u00e1 com a raz\u00e3o ? Sal\u00fa y Anarquia \u00e9, hoje, apenas uma refer\u00eancia exc\u00eantrica na hist\u00f3ria uruguaia, um animal extinto. J\u00e1 a Frente Ampla &#8230;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" \/>O cartaz da Agraciada brotou na mem\u00f3ria depois do espet\u00e1culo bisonho de ontem em Bras\u00edlia. O que h\u00e1 para festejar ? De que sorriam Suas Excel\u00eancias, que transformaram um cen\u00e1rio deliberativo, de interlocu\u00e7\u00e3o respeitosa e vital para a democracia burguesa, em pocilga guerreira e forrada de achincalhe ? Com raras exce\u00e7\u00f5es, os senhores deputados pareciam n\u00e3o ter a menor ideia do que estavam discutindo. Um deles, que fez carreira na pior tradi\u00e7\u00e3o pelega do sindicalismo, renunciou aos argumentos e cantou uma musiquinha ofensiva, de deboche. Outro, que se nutre do fascismo, homenageou um torturador. O baixo clero evocou Deus, filhos, netos, Jerusal\u00e9m (!), empoderamento das mulheres (!!), moradores de rua, agricultores, cristianismo, e por a\u00ed vai, numa prociss\u00e3o med\u00edocre e sinistra, dif\u00edcil de superar. S\u00e3o esses patetas, indignos de Buster Keaton e Ben Turpin, os gloriosos avatares da democracia brasileira. O que h\u00e1 para comemorar ?<\/p>\n<p>A cretinice do processo de impeachment tem seu s\u00edmbolo maior no bol\u00e3o do Paulinho da Farsa, capo da tropa de choque da oposi\u00e7\u00e3o. Listinha em punho, o deputado percorria os sal\u00f5es da C\u00e2mara, recolhendo R$ 100 de quem se dispunha a apostar no placar final da vota\u00e7\u00e3o de ontem. Deputado ou bookmaker ? Plen\u00e1rio ou guich\u00ea do prado ? N\u00edvel de esgoto. O que h\u00e1 para comemorar ?<\/p>\n<p>Ao longo do processo, ergueram-se muros de todos os tipos. Muros f\u00edsicos, como os erguidos em Bras\u00edlia e os cord\u00f5es de isolamento providenciados pela pol\u00edcia em Copacabana. Muros subjetivos, com o n\u00edvel de intoler\u00e2ncia geral cometendo a proeza de quase se igualar \u00e0 barb\u00e1rie das torcidas organizadas, que transformam paix\u00e3o em viol\u00eancia. Disputas de ideias terminaram em rachas familiares, amizades sucumbiram ao fanatismo. Acabo de saber que o tradicional jantar do Pessach, a (mal) chamada P\u00e1scoa judaica, de uma fam\u00edlia paulista foi cancelado por conta dessas disputas. E o Pessach, caramba !, \u00e9 a Festa da Liberdade &#8230; O Brasil virou uma imensa rinha de galos, excitados por interesses disfar\u00e7ados, desinforma\u00e7\u00e3o, f\u00e9 cega e vingan\u00e7as variadas. Pior \u00e9 que essa rinha parece que veio para ficar. N\u00e3o somos apenas Meanies ou Beatles, virtuosos ou canalhas. Perdeu-se a capacidade de travar a luta pol\u00edtica em terreno civilizado, respeitando as diferen\u00e7as. O que h\u00e1 para comemorar ?<\/p>\n<p>Em qual pa\u00eds do mundo um parlamento tem 60% de seus membros envolvidos em alguma forma de crime\/irregularidade ? Em qual pa\u00eds do mundo a C\u00e2mara dos Deputados \u00e9 presidida por um cavalheiro com o prontu\u00e1rio de Eduardo Cunha ? Qual \u00e9 a sociedade que acha natural que o chefe do Executivo seja julgado por crime de responsabilidade antes mesmo de se transformar em r\u00e9u ? Em que lugar deste planeta ensandecido soltam-se fogos para celebrar o teatro medonho que Bras\u00edlia patrocinou ontem ? O que h\u00e1 para comemorar ?<\/p>\n<p>A presidente da Rep\u00fablica faz um p\u00e9ssimo governo, seu n\u00edvel de articula\u00e7\u00e3o com a sociedade \u00e9 t\u00e3o canhestro que deixa qualquer amador ruborizado. A pol\u00edtica saiu das ruas e dos movimentos sociais e migrou para as manobras de bastidores. A base de sustenta\u00e7\u00e3o parlamentar, nutrida pelo toma-l\u00e1-d\u00e1-c\u00e1 e por alian\u00e7as com inimigos confessos dos interesses populares, demonstrou ser t\u00e3o s\u00f3lida quanto o \u201cdispositivo militar\u201d de Jango. Na hora do conflito, a cavalaria est\u00e1 chegando tarde. Fica dif\u00edcil mobilizar os trabalhadores, meros coadjuvantes de um partido que pretendia represent\u00e1-los. No v\u00e1cuo, a direita aprendeu o caminho das ruas e a gente j\u00e1 ouve a revoada dos corvos. Despolitizada, desmobilizada, a classe trabalhadora est\u00e1 praticamente fora do radar.<\/p>\n<p>Nada disso, entretanto, justifica as manobras pr\u00f3-impeachment. O jogo \u00e9 c\u00ednico e tem protagonistas \u00f3bvios. Embora eu n\u00e3o esteja muito interessado em r\u00f3tulos, trata-se claramente de um golpe. Promovido pelo Comit\u00ea Central da burguesia, a Fiesp, amamentado pelos conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o e apoiado por um n\u00edvel de histeria que, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Brasil. N\u00e3o sou leviano, sei que nem todos os que apoiam o impeachment s\u00e3o Meanies. H\u00e1 gente s\u00e9ria que se convenceu, honestamente, da legitimidade das acusa\u00e7\u00f5es contra a presidente. Delas, entretanto, divirjo. N\u00e3o est\u00e3o em julgamento os casos de corrup\u00e7\u00e3o ou a compet\u00eancia de Dilma. O que poderia justificar seu afastamento, tema controverso e de grande complexidade t\u00e9cnica, jamais foi abordado com seriedade por parlamentares patetas. O que se viu foi um festival de gritos, bizarrices e baixarias, falta de respeito ao p\u00fablico e de decoro pol\u00edtico. Prevaleceu o que o jornalista Marcelo Coelho chamou de imp\u00e9rio da ignor\u00e2ncia. Eu concordo com ele. O que h\u00e1 para comemorar ?<\/p>\n<p>Janio de Freitas, leitura sempre obrigat\u00f3ria, n\u00e3o evitou um travo amargo em sua coluna de ontem na Folha de S\u00e3o Paulo. Antevendo o desfecho da vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara, sentenciou: \u201cDemocracia n\u00e3o \u00e9 para qualquer um, e o Brasil n\u00e3o tem aptid\u00e3o para viv\u00ea-la. \u00c9 historicamente inapto, como provam suas poucas e v\u00e3s tentativas\u201d. Entendo o desalento, mas prefiro adubar esperan\u00e7as. Como o poeta Thiago de Mello: \u201cFaz escuro, mas eu canto\u201d. H\u00e1 muito o que aprender com o que est\u00e1 acontecendo. O tempo hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 o mesmo da biologia, tem manhas e caprichos que guarda num cofre invis\u00edvel. Quem sabe chegou a hora de costurar, com paci\u00eancia e sem ilus\u00f5es, uma frente de esquerda que n\u00e3o seja a esquerda mais ou menos (porque, a\u00ed, ela sempre equivaler\u00e1 \u00e0 direita mais ou mais) ? Com programa unit\u00e1rio, anticapitalista e constru\u00eddo junto com as massas, protagonistas de sua hist\u00f3ria ? Soa antigo ? Venha aqui, Vianinha, e lembre o inesquec\u00edvel Manguari Pistol\u00e3o, do <em>Rasga Cora\u00e7\u00e3o<\/em>: \u201cNem tudo o que \u00e9 novo \u00e9 revolucion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o<\/p>\n<p><em>Jacques<\/em><\/p>\n<p><em>\u200b Gruman\u200b<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Toda farsa tem dois gumes (Mill\u00f4r Fernandes) Estive em Montevid\u00e9u no ver\u00e3o de 85. Foi um privil\u00e9gio. 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