{"id":10898,"date":"2016-04-22T20:59:18","date_gmt":"2016-04-22T23:59:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10898"},"modified":"2016-05-20T20:47:47","modified_gmt":"2016-05-20T23:47:47","slug":"problemas-com-o-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10898","title":{"rendered":"Problemas com o espelho?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/04\/mauro-iasi-espelho2.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/>Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p><em>\u201cAcho que n\u00e3o podem me escutar\u2026<\/em><br \/>\n<em> e tenho quase certeza de que n\u00e3o podem me ver.<\/em><br \/>\n<em> Alguma coisa me diz que estou invis\u00edvel\u2026\u201d<\/em><br \/>\n\u2013 LEWIS CARROLL, ALICE NO PA\u00cdS DO ESPELHO<!--more--><\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo atr\u00e1s voc\u00ea descobriu com inebriante alegria e espanto sua imagem refletida no espelho, mais ou menos quando voc\u00ea tinha seis meses de idade. Em um momento, nos lembra Jacques Lacan, no qual voc\u00ea era menos inteligente que um chimpanz\u00e9, mas demonstrou a incr\u00edvel capacidade de se reconhecer sua imagem no espelho. Este processo que o psicanalista franc\u00eas afirma se estender at\u00e9 os dezoito anos, o chamado \u201cest\u00e1dio do espelho\u201d, seria uma identifica\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, uma \u201ctransforma\u00e7\u00e3o produzida no sujeito quando assume uma imagem\u201d.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio do espelho seria estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com a realidade, um nexo entre o mundo interior e o mundo exterior, mas deixemos as pertinentes e profundas reflex\u00f5es lacanianas (por vezes impenetr\u00e1veis), por um tempo, para nos debru\u00e7ar na an\u00e1lise de um fen\u00f4meno mais prosaico.<\/p>\n<p>No \u00faltimo domingo, um grupo de pessoas que se caracteriza por ainda guardar alguns resqu\u00edcios de bom senso e capacidade intelectiva, ficou chocado com o ritual grotesco da sucess\u00e3o de discursos que antecediam os votos dos senhores e senhoras deputados e deputadas. Produziu-se em massa um fen\u00f4meno que popularmente conhecido como vergonha alheia, isto \u00e9, o embara\u00e7o que causa uma pessoa que paga um mico colossal e perece ser incapaz de ela pr\u00f3pria expressar a vergonha que lhe caberia, levando as outras pessoas, gentil e sofridamente, a sentirem vergonha por ela.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos come\u00e7ar pelo \u00f3bvio, ou seja, pelo fato dos deputados federais, com um tempo ex\u00edguo, falarem de tudo menos do assunto em pauta. \u00c9 certo que sab\u00edamos que deputado nenhum vai ler mais de trinta pastas e treze anexos, coisa que ele normalmente deixa para o trabalho de assessores. Mas o cara podia ao menos falar do tema, da den\u00fancia, dos argumentos, para depois proferir o voto pelo sim ou pelo n\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, creio que isso n\u00e3o espante mais ningu\u00e9m, com ou sem bom senso. O estranhamento come\u00e7ou antes mesmo daqueles habitantes do lago Cocite, mais conhecido como o nono c\u00edrculo do inferno de Dante, iniciarem sua fala. Acharam por bem se vestir com a bandeira nacional, colocar fitas na cabe\u00e7a, justo eles que tinham a prefer\u00eancia pelo cinza, o terno e o tailleur, como forma de produzir a \u00fanica padroniza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, j\u00e1 que ali ningu\u00e9m \u00e9 igual nem perante a lei.<\/p>\n<p>Logo em seguida o estranhamento se expressa na ansiosa necessidade de aparecer, portanto cartazes rid\u00edculos, mas ainda assim, menos rid\u00edculos que as fei\u00e7\u00f5es dos que os portavam. Os nobres parlamentares comportavam-se como aquela malta que desprezam. Como aquele sujeito que se coloca atr\u00e1s do entrevistado nas ruas para aparecer no enquadramento da c\u00e2mara, para logo em seguida n\u00e3o saber para onde olhar, expressando em sua face o pensamento rec\u00f4ndito que grita para si mesmo, \u201cmam\u00e3e estou na TV\u201d, com um sorriso bobo e o olho indo de um lado para outro, como que procurando algu\u00e9m que pudesse depois comprovar o feito.<\/p>\n<p>O choque que se produz na nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. Em um momento dram\u00e1tico e s\u00e9rio da vida pol\u00edtica, que pode culminar em nada menos que o afastamento de uma presidente eleita (porque tem tamb\u00e9m os presidentes que n\u00e3o s\u00e3o\u2026), aqueles deputados estavam, para dizer o m\u00ednimo, euf\u00f3ricos. Manifestavam uma alegria infantil. Bastava algu\u00e9m com presen\u00e7a de esp\u00edrito forrar a mesa com decora\u00e7\u00f5es do homem aranha ou da pequena sereia, distribuir bal\u00f5es e chapeuzinhos, colocar um bolo e umas velinhas e todos cantariam parab\u00e9ns a voc\u00ea (na vers\u00e3o da Xuxa).<\/p>\n<p>Mas, a\u00ed eles come\u00e7aram a falar. O companheiro Gilberto Calil, num \u00edmpeto estat\u00edstico e sadomasoquista, resolveu copilar as palavras chaves que abriam os discursos, at\u00e9 as 23h10, quando se somava 477 votos. A grande maioria (92 cita\u00e7\u00f5es) referiu-se \u00e0 sua fam\u00edlia (esposa, filhos, pai, m\u00e3e, av\u00f3, av\u00f4\u2026 gostaria de lembrar aqui minha querida tia Antonieta que sempre guardarei na mem\u00f3ria com afeto e admira\u00e7\u00e3o). Segue-se a referencia a Deus (43 cita\u00e7\u00f5es) que, preocupado com a crise pol\u00edtica e moral brasileira, certamente est\u00e1 preparando um dil\u00favio ou algo mais forte, al\u00e9m das seis pragas que faltam (a primeira, que \u00e9 o mosquito multitransmissor de dengue, zika e chikungunya, j\u00e1 veio) para ver se consegue acertar o Cunha de alguma forma.<\/p>\n<p>Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o o fato que as refer\u00eancias ao Brasil (60 cita\u00e7\u00f5es) e aos eleitores, que v\u00eam logo em seguida, perdem para as referencias diretas ao estado do deputado(a) e sua cidade (69 cita\u00e7\u00f5es). Aquelas figuras s\u00e3o deputados federais. O bairrismo grosseiro \u00e9 algo assustador, voto aqui pelos mineiros, os baianos que se virem, voto aqui pela progressista cidade de Cotia (o que me lembra que esqueci de citar um amigo de meu av\u00f3 paterno).<\/p>\n<p>Significativamente, o fim da corrup\u00e7\u00e3o foi citado apenas dezesseis vezes. As chamadas pedaladas foram citadas apenas duas vezes. D\u00e1 at\u00e9 para imaginar um colega deputado tentando soprar para o cara do microfone, \u201cPsiu, fala das pedaladas!\u201d, \u201cO que, pedaladas? O que tem haver as pedaladas? Queria agradecer aqui publicamente ao meu <em>personal trainer<\/em>!\u201d<\/p>\n<p>Uma pessoa de bem \u2013 certamente haver\u00e1 algumas pessoas de bem naquela malta grotesca \u2013 ao tentar encadear um racioc\u00ednio elementar, considerando as den\u00fancias apresentadas, os argumentos jur\u00eddicos e pol\u00edticos apresentados, refletindo sobre o processo or\u00e7ament\u00e1rio e aquela sugest\u00e3o indicativa que recebe o nome de Constitui\u00e7\u00e3o Federal, receberia a reprova\u00e7\u00e3o dos olhares bovinos de seus colegas e ouviria do r\u00e9u confesso que presidia a sess\u00e3o: \u201ccomo vota o deputado\u201d!<\/p>\n<p>As pessoas de bom senso est\u00e3o como que atordoadas. N\u00e3o \u00e9 exatamente raiva que sentimos, seria um misto de espanto e pena, al\u00e9m, evidente, de uma vergonha que quase nos leva a comprar um bloco de papel de carta e come\u00e7ar a escrever a todos os povos do mundo para que busquem compreender, se poss\u00edvel relevar e, quem sabe um dia, nos perdoar por este espet\u00e1culo grotesco.<\/p>\n<p>Creio que h\u00e1 duas express\u00f5es, muito distintas, que expressam a carnavaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nos foi imposta. O deputado do Solidariedade, not\u00f3rio pelego, corrupto comprovado e deputado med\u00edocre, um rato chamado Paulinho da For\u00e7a, encaminhando o voto daquilo que chama de partido, cantou uma parodia tendo por base uma m\u00fasica de Vandr\u00e9 (\u201cPara n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores\u201d) em que enxotava Dilma e pedia que levasse o \u201cvagabundo do Lula com voc\u00ea\u201d. Outra foi a homenagem do fascista Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Imediatamente, centenas de corpos dilacerados levantam-se de suas tumbas, conhecidas ou n\u00e3o, carregam seus hematomas, as unhas arrancadas, as feridas abertas na carne e na alma, se fazem acompanhar de aus\u00eancias, de fam\u00edlias destru\u00eddas, de filhos que n\u00e3o conheceram seus pais, de abra\u00e7os no vazio, de cadeiras sentadas \u00e0 mesa do sofrimento, de oceanos cruzados por ex\u00edlios, de poetas escrevendo com sangue e ira, de m\u00fasicos calados, artistas em busca de suas m\u00e3os e sonhos, de militantes\u2026 levantando como uma onda de propor\u00e7\u00f5es tsun\u00e2micas diante da pequenez med\u00edocre daqueles vermes engravatados.<\/p>\n<p>Talvez nunca consigamos apagar a ignom\u00ednia deste ato. S\u00e3o daquelas marcas que n\u00e3o saem com \u00e1gua e sab\u00e3o, com autocr\u00edtica e perd\u00e3o, s\u00e3o cicatrizes que persistir\u00e3o para sempre para nos lembrar, para n\u00e3o nos deixar esquecer.<\/p>\n<p>As pessoas sensatas, que gostam de acreditar que s\u00e3o racionais, olhavam para o v\u00eddeo que azulava \u00e0 noite irracional. Nosso desconforto aumentava a cada vez que ouv\u00edamos uma express\u00e3o hecat\u00f4mbica: \u201crepresentantes\u201d.<\/p>\n<p>Eis que a tela da TV convertia-se em um espelho. Aquilo\u2026 somos n\u00f3s? A dial\u00e9tica temporal das proje\u00e7\u00f5es e reflexos que impactam o sujeito pelas imagens que o constituem, deformam-se, fragmentam-se, produzem o \u201crompimento do c\u00edrculo do mundo interno para o mundo externo, gerando a quadratura inesgot\u00e1vel das enumera\u00e7\u00f5es do eu\u201d (Lacan, \u201cO est\u00e1dio do espelho\u201d). O corpo despeda\u00e7ado. Como num filme de terror, ou em um pesadelo, quando olhamos para o espelho e de l\u00e1 nos olha algu\u00e9m que n\u00e3o somos n\u00f3s, at\u00e9 que pela m\u00e3o do diretor ou da psicanalista, chegamos \u00e0 dram\u00e1tica senten\u00e7a: \u201cTu \u00e9s isto\u201d.<\/p>\n<p>Aqui, no \u00e2mbito do ju\u00edzo pol\u00edtico, podemos coletivamente nos insurgir contra o espelho, ainda que como indiv\u00edduos isolados nos reste a depress\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o somos isto. Isto \u00e9 aquilo no que nos transformaram. J\u00e1 passou da hora de aprender com Alice e olhar o que est\u00e1 atr\u00e1s do espelho.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/04\/20\/problemas-com-o-espelho\/\">Problemas com o&nbsp;espelho?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. \u201cAcho que n\u00e3o podem me escutar\u2026 e tenho quase certeza de que n\u00e3o podem me ver. 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