{"id":10935,"date":"2016-04-30T20:46:10","date_gmt":"2016-04-30T23:46:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10935"},"modified":"2016-05-20T20:50:09","modified_gmt":"2016-05-20T23:50:09","slug":"a-nova-extrema-direita-mistura-de-neoliberalismo-e-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10935","title":{"rendered":"A nova extrema-direita mistura de neoliberalismo e racismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/RACISMORELIGIOSO.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p>A nova extrema-direita mistura de neoliberalismo e racismo<\/p>\n<p>Anthony Fano Fernandez*<!--more--><\/p>\n<p>Sem resposta para a crise do sistema do capital, s\u00e3o v\u00e1rios os caminhos a que se recorre para criar uma nova extrema-direita com todos os ingredientes de sempre e uma embalagem nova, aparentemente e por enquanto, com uma cara diferente que pretendem mostrar como lavada.<\/p>\n<p>A maioria dos alem\u00e3es est\u00e1 convencida que os trabalhadores imigrantes vivem \u00e1 custa do trabalho dos alem\u00e3es e dos imigrantes qualificados e instru\u00eddos. E, apesar de um estudo do Centro Europeu de Investiga\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica concluir que cada imigrante na Alemanha tem uma contribui\u00e7\u00e3o l\u00edquida positiva (em 2012 pagou, em m\u00e9dia, mais 3.300 euros anuais), persiste o perigo de novas formas de racismo, agora de raiz cultural e religiosa, fruto de uma conflu\u00eancia da doutrina neoliberal atual com um racismo cultural.<\/p>\n<p>O abismo que medeia entre a ideologia e a realidade n\u00e3o poderia ser mais apelativo: de acordo com um estudo do Centro Europeu de Investiga\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica, publicado em Novembro passado, os imigrantes trazem uma contribui\u00e7\u00e3o l\u00edquida positiva aos sistemas de previs\u00e3o e seguran\u00e7a social na Alemanha. O autor do relat\u00f3rio, o economista Holger Bonin, demonstra que, em 2012, cada residente na Alemanha que n\u00e3o tinha passaporte alem\u00e3o pagou em m\u00e9dia mais 3.300 euros de impostos e cotiza\u00e7\u00f5es para a seguran\u00e7a social que o que recebeu sob a forma de transfer\u00eancias do Estado. Apesar disso, as sondagens dizem que dois ter\u00e7os dos alem\u00e3es est\u00e3o convencidos que os imigrantes s\u00e3o um encargo para o sistema de bem-estar do seu pa\u00eds. Independentemente do mau gosto que \u00e9 avaliar a vida humana por crit\u00e9rios econ\u00f3micos, a combina\u00e7\u00e3o do c\u00e1lculo de Bonin com as sondagens mostra uma imagem surpreendente da mentalidade atual dos alem\u00e3es em mat\u00e9ria de imigra\u00e7\u00e3o, e a converg\u00eancia da reconfigura\u00e7\u00e3o neoliberal da sociedade alem\u00e3 com formas racistas de entender estas altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando o ministro da Fazenda do Estado de Berlim, Thilo Sarrazin, publicou o seu livro Deutschland schafft sich ab (Alemanha condena-se), em 2010, poucos observadores reconheceram que anunciava o nascimento de uma nova extrema-direita modernizada na Alemanha, que se separava significativamente da extrema-direita nazi e nacional-conservadora populista da velha escola de h\u00e1 d\u00e9cadas. Ficaram esquecidos os modelos sociopol\u00edticos anteriores e o racismo biol\u00f3gico, substitu\u00eddos pelo casamento da doutrina neoliberal moderna com o racismo culturalista. Esta nova extrema-direita est\u00e1 agora dar forma a uma entidade coerente com contornos bem definidos e a uma divis\u00e3o do trabalho entre diferentes componentes: um partido eleitoral denominado Alternative f\u00fcr Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD); uma ala extraparlamentar combativa, encarnada no movimento PEJIDA (Patriotas Europeus contra a Islamiza\u00e7\u00e3o do Ocidente) e um centro ideol\u00f3gico representado pela revista mensal Compact, editada por J\u00fcrgen Els\u00e4sser, um jornalista que era de esquerda radical, hoje convertido em nacional-populista de extrema-direita.<\/p>\n<p>Exige algum esfor\u00e7o desencadear a genealogia deste novo movimento, visto que todos estes componentes t\u00eam origens diferentes: a AfD surgiu como um protesto eleitoral de conservadores contr\u00e1rios \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e aos resgates do euro praticados pelo governo de \u00c1ngela Merkel, enquanto as manifesta\u00e7\u00f5es convocadas pelo PEJIDA representam uma mobiliza\u00e7\u00e3o de base com ra\u00edzes no racismo antimu\u00e7ulmana que impregna o discurso p\u00fablico alem\u00e3o desde h\u00e1 algum tempo. A revista Compact representa a tentativa de criar um bloco \u00abanti-imperialista \u00e0 volta de um fantasmag\u00f3rico eixo Paris-Berlim-Moscovo, para contrariar a hegemonia estadounidense. N\u00e3o obstante, visto que o racismo antimu\u00e7ulmano serve presentemente de ponto de converg\u00eancia destas diversas for\u00e7as, tem sentido esbo\u00e7ar a fun\u00e7\u00e3o do discurso racista contra os mu\u00e7ulmanos na Alemanha durante os \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Em 2007, o soci\u00f3logo George Klauda observou que havia um racismo especificamente antimu\u00e7ulmano confinado fundamentalmente \u00e0 intelectualidade: \u00abA islamofobia tem, pelo menos neste pa\u00eds, alguma relev\u00e2ncia n\u00e3o como fen\u00f3meno de massas, mas como discurso de elite que, partilhado por um consider\u00e1vel n\u00famero de intelectuais de esquerda, liberais e conservadores, permite articular ressentimentos contra imigrantes e militantes antirracistas, de forma que cada um possa aparecer como um brilhante campe\u00e3o dos ilustrados europeus.\u00bb Ainda que esta observa\u00e7\u00e3o fosse correta, quando foi escrita h\u00e1 sete anos, o que, hoje em dia, o PEJIDA representa \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do racismo antimu\u00e7ulmano num fen\u00f3meno de massas, capaz de mobilizar grandes manifesta\u00e7\u00f5es com mais de 20.000 pessoas.<\/p>\n<p>O agora defunto Gruppe Soziale K\u00e4mpfe (Grupo de Lutas Sociais, GSK) teorizou esta transforma\u00e7\u00e3o do discurso racista como parte de uma \u00abculturaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o social\u00bb especificamente neoliberal. O GSK acentuou que, no per\u00edodo imediato ao p\u00f3s-guerra, o racismo na Alemanha concretizou-se na qualifica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de trabalhadores imigrantes como \u00abn\u00e3o alem\u00e3, sobretudo italianos, turcos e jugoslavos. O racismo dirigido contra esta popula\u00e7\u00e3o imigrante estava assente na sua posi\u00e7\u00e3o de estrato mais baixo de uma classe oper\u00e1ria industrial gerada ao abrigo do pacto social fordista na Rep\u00fablica Federal do \u00abmilagre econ\u00f3mico\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Um novo racismo neoliberal e cultural<\/strong><\/p>\n<p>Com a chegada de Helmut Kohl \u00e0 chancelaria em 1982 \u2013 cavalgando a mesma onda conservadora que levou ao poder Ronald Reagan e Margareth Taetcher \u2013 a proclama\u00e7\u00e3o de uma \u00abreviravolta espiritual-moral\u00bb marcou um novo regresso ao conservadorismo \u00abbaseado em valores\u00bb. De um modo id\u00eantico \u00e0 rea\u00e7\u00e3o conservadora no mundo anglo-sax\u00f3nico, \u00e0 volta de quest\u00f5es como o aborto e os direitos dos gays e l\u00e9sbicas, foram-se recuperando quest\u00f5es de \u00abcultura\u00bb e \u00abidentidade\u00bb por parte da direita e, paralelamente, deu-se uma altera\u00e7\u00e3o do discurso racista. Durante o per\u00edodo que vai da reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e a primeira Guerra do Golfo aos atentados de 11 de Setembro e as subsequentes guerras do Afeganist\u00e3o e Iraque, os trabalhadores imigrantes do sul da Europa foram substitu\u00eddos por uma popula\u00e7\u00e3o imigrante caracterizada, racial e culturalmente, como mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Enquanto as antigas formas populistas e fascistas n\u00e3o desapareceram de todo \u2013 basta recordar os pogroms que houve em Rostok-Lichtenhagen, em 1992, o ataque mortal a uma fam\u00edlia turca na cidade de ocidental de Solingen em 1993 ou o \u00eaxito eleitoral do Nationale Partei Deutschlands (Partido Nacional da Alemanha, NPD), um partido abertamente fascista, na Sax\u00f3nia em 2004 \u2013 desenvolveu-se um lento processo de convers\u00e3o no novo racismo \u00abcultural\u00bb. Esta intera\u00e7\u00e3o mistura uma ideologia neoliberal utilit\u00e1ria, que avalia os estrangeiros em termos de \u00abutilidade\u00bb para a \u00abnossa sociedade\u00bb, com a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa que atribui a pouca sorte ou \u00e0 falta de \u00eaxito dos que se encontram no escal\u00e3o mais baixo da escala social \u00e0 sua \u00abalteridade\u00bb cultural e \u00e0 sua \u00abfalta de vontade\u00bb de se \u00abintegrarem\u00bb na sociedade \u00abalem\u00e3\u00bb ou \u00abocidental\u00bb devido ao inveterado compromisso com os ideais religiosos ou culturais isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>Escusado ser\u00e1 dizer que esta narrativa cultural n\u00e3o costuma compreender a realidade destes alem\u00e3es ou residentes de origem turca ou curda \u2013 que em muitos casos s\u00e3o laicos e situam-se politicamente na esquerda \u2013 nem a diversidade e as discrep\u00e2ncias internas das comunidades mu\u00e7ulmanas da Alemanha. Mais, essa narrativa serve para racionalizar o estribilho do capitalismo neoliberal em termos de vontade ou incapacidade do \u00abeu empreendedor\u00bb para tomar nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os as r\u00e9deas do pr\u00f3prio destino. O perverso \u00e9 que este racismo cultural e neoliberal representa uma esp\u00e9cie de \u00abvit\u00f3ria\u00bb sobre o velho racismo populista. Em 2000, quando o relativamente novo governo de coliga\u00e7\u00e3o do Partido Social-democrata (SPD) com o Partido Verde tentou instituir um programa de \u00abcart\u00e3o verde\u00bb, com o objetivo de atrair os trabalhadores estrangeiros altamente qualificados em inform\u00e1tica e telecomunica\u00e7\u00f5es e outros campos muito especializados, o presidente da Uni\u00e3o Democrata-Crist\u00e3 do Estado da Ren\u00e2nia do Norte-Westfalia, J\u00fcrgen R\u00fcttgers, apelidou o mobilizador lema racista de \u00abKinder sttat Inder!\u00bb (Crian\u00e7as em vez de \u00edndios!) para resumir a posi\u00e7\u00e3o do seu partido, favor\u00e1vel \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de alem\u00e3es nativos em carreiras de alta tecnologia em vez de se importarem trabalhadores qualificados.<\/p>\n<p>Durante os anos de governo social-democratas e verdes, os Estados federados presididos por pol\u00edticos da CDU conseguiram, apesar de disso, bloquear efetivamente os planos de implementa\u00e7\u00e3o de uma cidadania dual para os que o desejassem adquirir a cidadania alem\u00e3 sem ao mesmo tempo perder a do seu pa\u00eds de origem. Depois, em 2014, a CDU comprometeu-se a promulgar uma lei de dupla nacionalidade com o seu aprceiro de coliga\u00e7\u00e3o, o SPD, com o que colocou o velho racismo de tipo R\u00fcttgers completamente fora de jogo de uma CDU modernizada e neoliberal da chanceler \u00c1ngela Merkel. O que os conservadores tradicionais chamam ami\u00fade de \u00absocial-democratiza\u00e7\u00e3o da CDU\u00bbrepresenta de facto uma converg\u00eancia entre o SPD e a CDU na base de uma ado\u00e7\u00e3o comum da ideologia neoliberal e a \u00abculturaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o social\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Sarrazin, o pioneiro<\/strong><\/p>\n<p>Presentemente podemos ver na nova extrema-direita da AfD, PEGIDA e outras organiza\u00e7\u00f5es uma radicaliza\u00e7\u00e3o na base do que essencialmente \u00e9 um discurso pr\u00f3prio do sistema. Sarrazin desempenhou sobre isso o papel de pioneiro. Como membro do senado berlinense presidido pelo social-democrata Klaus Wowereit de 2002 a 2009, durante o do governo de coliga\u00e7\u00e3o do SPD e PDS (um dos partidos predecessores do Die Linke), Sarrazin ganhou nome tanto pela defesa da uma radical aplica\u00e7\u00e3o da austeridade fiscal no Estado de Berlim que se encontrava em fal\u00eancia, como pelas suas inflamadas declara\u00e7\u00f5es sobre os pobres e outras pessoas marginalizadas. Numa entrevista publicada no semin\u00e1rio Stern, Sarrazin declarou que os benefici\u00e1rios do seguro de desemprego cr\u00f3nico destruidores de energia porque \u00abcostumam estar mais em casa, querem estar quentes e regulam a temperatura com a janela\u00bb, defendendo uma altera\u00e7\u00e3o no sistema de bem-estar em que \u00abcada um pode melhorar o seu n\u00edvel de vida tendo mais filhos, como sucede hoje em dia\u00bb.<\/p>\n<p>Depois de abandonar Berlim para assentar em \u00e1guas mais calmas de um breve mandato no conselho do Bundesbank em Frankfurt, durante uma entrevista com a revista Lettre International sobre a sua experi\u00eancia como senador respons\u00e1vel pelas Finan\u00e7as, Sarrazin declarou o seguinte, a prop\u00f3sito da popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana de Berlim: \u00abN\u00e3o tenho qualquer raz\u00e3o para respeitar quem viva do Estado, ao mesmo tempo rejeita esse Estado, n\u00e3o se ocupa de forma razo\u00e1vel com a educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos e faz continuamente pequenas meninas com v\u00e9u\u00bb. Tudo isto foi um prel\u00fadio da publica\u00e7\u00e3o, em 2010, do seu citado livro, onde desenha um hiperb\u00f3lico afundamento da Alemanha enfraquecida por uma taxa de natalidade da sua popula\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone e de um suposto declive do coeficiente de intelig\u00eancia coletivo nacional devido \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o \u00abmu\u00e7ulmana\u00bb contribuir para o crescimento de uma subclasse permanente.<\/p>\n<p>O livro de Sarrazin, que foi um estrondoso \u00eaxito de vendas, tocou a corda sens\u00edvel do zeitgest, ao mesmo tempo que constituiu uma esp\u00e9cie de manifesto de uma vers\u00e3o radicalizada da nova s\u00edntese racista neoliberal-cultural. Este racismo de novo tipo conserva tra\u00e7os do velho racismo, como o lamento de Sarrazin de que \u00abos turcos est\u00e3o a conquistar a Europa exatamente forma como os kosovares conquistaram o Kosovo: atrav\u00e9s de taxas de natalidade mais altas. Eu preferiria que fossem os judeus da Europa Oriental que t\u00eam um coeficiente de intelig\u00eancia 15% mais elevado que a popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u00bb.<\/p>\n<p>Enquanto o livro de Sarrazin tivesse arrasado entre a popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3, ainda teria que passar algum tempo entre o seu \u00eaxito de vendas em 2010 e o sucesso eleitoral da AfD e o surgimento do PEJIDA em 2014. Uma esp\u00e9cie de \u00abponte\u00bb ideol\u00f3gica foi estendida com a cria\u00e7\u00e3o em 2010 da revista Compact, editada por Els\u00e4sser. Na capa do primeiro n\u00famero aparecia uma foto de Sarrazin sob o seguinte t\u00edtulo: \u00abO pr\u00f3ximo chanceler federal?\u00bb A biografia pol\u00edtica de Els\u00e4sser \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o fascinante de como a nova extrema-direita consegue ganhar nomes da \u00abesquerda\u00bb dentro da tentativa de configurar uma nova \u00abrebeli\u00e3o conformista\u00bb. Antigo professor de forma\u00e7\u00e3o profissional em Estugarda, Els\u00e4sser foi primeiramente conhecido como membro da Kommunistischer Bund (Liga Comunista, KB), um partido maoista, em 1990, no decorrer de manifesta\u00e7\u00f5es que provocaram a dissolu\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Els\u00e4sser: da extrema-esquerda \u00e0 extrema-direita<\/strong><\/p>\n<p>Num artigo publicado na revista KB, Arbeiterkampf, intitulado \u00abPor que \u00e9 que a esquerda tem de ser antialem\u00e3?, Els\u00e4sser expressou o medo da esquerda radical alem\u00e3 ocidental sobre o poss\u00edvel ressurgimento de uma Alemanha unificada como grande pot\u00eancia, e ao mesmo tempo estreou o que no decurso do dec\u00e9nio seguinte apareceria como tend\u00eancia diferenciada no seio da pr\u00f3pria esquerda radical alem\u00e3. Como rep\u00f3rter do di\u00e1rio da esquerda Junge Welt, cofundador do seman\u00e1rio Jungle World e, finalmente, como editor da revista mensal da extrema-esquerda, Konkret, Els\u00e4sser passou o resto do dec\u00e9nio a escrever artigos de cariz marcadamente antinacionalista e contr\u00e1rios \u00e0 emerg\u00eancia de um suposto \u00abIV Reich\u00bb alem\u00e3o, um temor que parecia confirmar-se com o papel desempenhado pela Alemanha na fragmenta\u00e7\u00e3o da antiga Jugosl\u00e1via, com o reconhecimento das rep\u00fablicas da Eslov\u00e9nia e da Cro\u00e1cia em 1991 por parte do ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Hans, Dietrich Genscher e da participa\u00e7\u00e3o da Alemanha na guerra do Kosovo em 2000.<\/p>\n<p>Quando rebentou a segunda Intifada em Setembro de 2000, Els\u00e4sser come\u00e7ou a ver o candidato israelense a primeiro-ministro, Ariel Sharon, como uma esp\u00e9cie de Slobodan Milosevic do Levante, um chefe de Estado \u00abantifascista\u00bb atribulado, v\u00edtima do imperialismo hegem\u00f3nico liderado pela Alemanha. No entanto, depois da reafirma\u00e7\u00e3o da hegemonia global dos EUA durante a Guerra do Afeganist\u00e3o em 2001, seguida da Guerra do Iraque, que teve a oposi\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a e da Alemanha sob a dire\u00e7\u00e3o de Jacques Chirac e Gerhard Schr\u00f6der, respetivamente, Els\u00e4sser viu-se obrigado a rever totalmente as suas teorias. Depois de tudo, a Alemanha, apesar da sua import\u00e2ncia dentro da Uni\u00e3o Europeia, n\u00e3o era mais que uma pot\u00eancia regional de segunda classe que oscilava entre o atlantismo e as renovadas apostas de se contituir numa \u00abgrande pot\u00eancia\u00bb rival.<\/p>\n<p>Els\u00e4sser come\u00e7ou a publicar livros e artigos onde defendia a constitui\u00e7\u00e3o de um \u00abeixo Berlim-Paris-Moscovo\u00bb oposto a Washington. Depois de uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es explicitamente nacionalistas e de se lhe terem fechado praticamente as portas em todas as principais publica\u00e7\u00f5es de esquerda, Els\u00e4sser lan\u00e7ou a Compact, criando deste modo um centro ideol\u00f3gico coerente para uma pol\u00edtica de extrema-direita de novo tipo: abertamente de extrema-direita passa a bramir temas tradicionais de extrema-direita contra o \u00abcapital financeiro\u00bb, defende a forma\u00e7\u00e3o de uma pot\u00eancia \u00abeuroasi\u00e1tica\u00bb como polo de oposi\u00e7\u00e3o aos EUA e mostra-se decididamente contr\u00e1rio \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que apoia pa\u00edses como o Ir\u00e3o ou a S\u00edria, em pol\u00edtica externa. Esta despropositada mistura encontrou uma audi\u00eancia entusiasta na nova extrema-direita e alguns elementos da ideologia est\u00e3o profundamente arreigadas no cora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade alem\u00e3, como o atesta a presen\u00e7a destacada de Compact nos quiosques das esta\u00e7\u00f5es de caminho-de-ferro.<\/p>\n<p><strong>As duas alas da AfD<\/strong><\/p>\n<p>Era inevit\u00e1vel que a Els\u00e4sser saudasse com entusiasmo o aparecimento da candidatura eleitoral da AfD. Fundada em 2013 como partido monotem\u00e1tico contr\u00e1rio ao euro, a AfD expressou os interesses de uma direita conservadora que j\u00e1 n\u00e3o se sentia representada pela CDU, supostamente \u00absocial-democratizada\u00bb de Merkel. Com uma dire\u00e7\u00e3o composta pelo economista de Hamburgo Bernd Lucke e o ex-editor do Frankfurter Allgemeine Zeitung Konrad Adam, a AfD come\u00e7ou por manter um perfil decididamente \u00abburgu\u00eas\u00bb, distanciando-se dos partidos neonazis tradicionais como o NPD e a Deutsche Volkunion (Uni\u00e3o Popular Alem\u00e3, DVU). Esta ins\u00f3lita alian\u00e7adepois do colapso do Freidemoktarische Partei (Partido Liberal Democr\u00e1tico, FDP) converteu-se num irresist\u00edvel polo de atra\u00e7\u00e3o para toda a esp\u00e9cie de direita que viu na AfD a oportunidade de criar uma poderosa forma\u00e7\u00e3o eleitoral \u00e0 direita da CDU e dos seus aliados B\u00e1varos da CSU.<\/p>\n<p>Com as insuspeitas credenciais burguesas de Lucke e Adam, a AfD parecia estar bem apetrechada para acabar com o tabu do p\u00f3s-guerra, expresso pelo que foi durante muito tempo presidente da Uni\u00e3o Social Crist\u00e3 (CSU) b\u00e1vara, Franz Josef Dtrauss, com a famosa frase de que \u00abn\u00e3o pode haver nenhum partido mais \u00e0 direita que a CSU\u00bb. Ainda que a AfD n\u00e3o conseguido superar a barreira dos 5% para entrar no Bundestag (parlamento federal) nas elei\u00e7\u00f5es de 2013, em 2014 teve 7,1% nas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu e elegeu 7 deputados. Nas elei\u00e7\u00f5es regionais dos Estados federados orientais de Sax\u00f3nia, Brandeburgo e Tur\u00edngia, a AfD j\u00e1 alcan\u00e7ou percentagens melhores percentagens: 9,7%, 12,2% e 10,6%, respetivamente.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da AfD balan\u00e7a entre o liberalismo \u00abrespeit\u00e1vel\u00bb de um Lucke, que se considera ligado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do ministro da Economia do p\u00f3s-guerra, Ludwig Erhard, e da CDU anterior a Merkel, e uma direita mais radical, representada pela presidente da Sax\u00f3nia , Frauke Petry. Entretanto ambas as alas se procuram distanciar do tradicional racismo biol\u00f3gico populista a favor de um populismo neoliberal que preconiza uma pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o \u00abno interesse da Alemanha\u00bb, isto \u00e9, de bra\u00e7os abertos para com os imigrantes \u00abeconomicamente \u00fateis\u00bb, e m\u00e3o pesada contra os que procuram asilo e os \u00abdelinquentes estrangeiros\u00bb, pelo que os conflitos entre elas aparecem claramente na controv\u00e9rsia que se verificou quando quatro eurodeputados da AfD, entre os quais Lucke e Henkel, que votaram a favor das san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, por causa da anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia. Este facto provocou a oposi\u00e7\u00e3o de Petry e Alexander Gauland, ex-membro da CDU e diretor da chancelaria do Estado de Hesse. Tinha raz\u00e3o Els\u00e4sser quando descreveu o conflito pol\u00edtico surgido no interior do partido como uma confronta\u00e7\u00e3o entre uma \u00abala PEJIDA\u00bb e uma ala EUA\u00bb (seria a que mant\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o atlantista tradicional da CDU p\u00f3s-guerra). As tens\u00f5es atingiram o ponto cr\u00edtico em come\u00e7os de 2015, quando Lucke declarou que havia que mudar a estrutura do partido de modo houvesse um presidente (ainda que ambos os lados se tivessem posto de acordo nesta quest\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>O racismo do PEJIDA<\/strong><\/p>\n<p>Em todo o caso, o movimento PEJIDA continua a ser a prova palp\u00e1vel da amplitude da base social desta nova extrema-direita. As manifesta\u00e7\u00f5es, que no ponto mais alto, reuniam mais de 20.000 pessoas todas as segunda-feira nas marchas pelo centro de Dresden, foram um tema de debate importante durante grande parte do inverno de 2015. O nome do movimento \u2013 Patriotas Europeus contra a Islamiza\u00e7\u00e3o do Ocidente \u2013 parece indicar que se trata de uma iniciativa monotem\u00e1tica, nascida de uma vis\u00e3o paranoica e rid\u00edcula de uma iminente conquista da Alemanha pelo isl\u00e3o. Mas ficar por esta imagem seria subestimar o astuto oportunismo t\u00e1tico de uma iniciativa que pretende criar um movimento xen\u00f3fobo moderno, para o que a palavra \u00abisl\u00e3o\u00bb mais n\u00e3o \u00e9 do que uma refer\u00eancia \u00fatil. Isto torna-se evidente na forma como foi criada a organiza\u00e7\u00e3o: o fundador, Lutz Bachmann, uma estranha personagem com um passado delitos menores, criou no Facebook um grupo chamado PEJIDA com o objetivo de mobilizar o protesto contra uma marcha de simpatizantes do Partido dos Trabalhadores Turcos (PKK) pelo centro de Dresden. Por outras palavras, apesar da pretens\u00e3o de ser um movimento contra a \u00abislamiza\u00e7\u00e3o\u00bb, na realidade, o PEJIDA formou-se para protestar contra os que apoiam uma organiza\u00e7\u00e3o curda laica que atualmente est\u00e1 a combater o Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>\u00c9 um movimento contra a imigra\u00e7\u00e3o, como demonstra a declara\u00e7\u00e3o de 19 pontos, que reclama uma \u00abpol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero\u00bb contra os candidatos a asilo e imigrantes \u00abcriminosos\u00bb; defende uma pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o baseada nos modelos \u00abutilitaristas\u00bb da Su\u00ed\u00e7a, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia; prop\u00f5e-se defender a \u00abcultura judaico-crist\u00e3 do Ocidente\u00bb e formula denuncias t\u00e3o atoleimadas como a que se op\u00f5e \u00e0 inclus\u00e3o da perspetiva de g\u00e9nero em todas as pol\u00edticas p\u00fablicas, juntamente com apelos paranoicos a favor da proibi\u00e7\u00e3o da sharia e das \u00absociedades paralelas\u00bb.<\/p>\n<p>O apoio a uma melhor aten\u00e7\u00e3o aos candidatos a asilo e a procura condi\u00e7\u00f5es mais humanas nas habita\u00e7\u00f5es que se p\u00f5em \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o inclu\u00eddos para criar a imagem de PEJIDA como uma forma\u00e7\u00e3o moderna, \u00abtolerante\u00bb, contr\u00e1ria \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, mas a base abertamente racista do movimento fica perfeitamente refletida numa s\u00e9rie de v\u00eddeos n\u00e3o editados com entrevistas feitas por Panorama, um programa de not\u00edcias da televis\u00e3o p\u00fablica. A\u00ed, articulam os participantes nas manifesta\u00e7\u00f5es do PEJIDAos pontos de vista t\u00edpucos da extrema-direita, como o de que \u00abAlemanha n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds soberano\u00bb e que os imigrantes n\u00e3o s\u00e3o \u00abrefugiados de guerra\u00bb, mas sim \u00abparasitas\u00bb.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter racista do PEJIDA levou Merkel a criticar publicamente o movimento no seu discurso de Ano Novo e a defender a urg\u00eancia dos cidad\u00e3os n\u00e3o participarem nas suas manifesta\u00e7\u00f5es. Apesar disso, o PEJIDA granjeou as simpatias pol\u00edticas de proced\u00eancia previs\u00edvel: em janeior de 2015, Petry convidou a dire\u00e7\u00e3o do PEJIDA para uma reuni\u00e3o com o grupo parlamentar da AfD no parlamento regional da Sax\u00f3nia para falarem das coincid\u00eancias entre o movimento e aquele partido. Petry defendeu nos media o PEJIDA das acusa\u00e7\u00f5es. Apesar disso, as mesmas tens\u00f5es inerentes ao projeto AfD tamb\u00e9m provocou uma crise aguda no PEJIDA devido \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o entre a postura de respeitabilidade burguesa e a necessidade de manter uma base fiel e o apelo ao eleitorado tradicionalmente de extrema-direita. O discurso racista antimu\u00e7ulmano herdado da intelectualidade liberal ajudou a nova extrema-direita a p\u00f4r um p\u00e9 na porta da respeitabilidade discursiva, mas \u00e0 medida que esta posi\u00e7\u00e3o dava lugar a convites para debates televisivos e manifesta\u00e7\u00f5es de \u00abpreocupa\u00e7\u00e3o\u00bb dos pol\u00edticos pelos \u00ableg\u00edtimos\u00bb temores dos cidad\u00e3os, acaba por entrar em conflito com o n\u00facleo claramente racista do movimento.<\/p>\n<p>Um exemplo claro foi a controv\u00e9rsia que surgiu \u00e0 volta do fundador, Lutz Bachmann, devido \u00e0 publica\u00e7\u00e3o na sua p\u00e1gina do Facebook de uma fotografia em que aparecia disfar\u00e7ado de Hitler. Al\u00e9m de algumas declara\u00e7\u00f5es em que qualifica os estrangeiros de \u00abalimanhas\u00bb e \u00abesc\u00f3ria suja\u00bb. Ainda que Bachmann, inicialmente, se tenha demitido com espetacularidade da presid\u00eancia do PEJIDA, para n\u00e3o prejudicar o movimento (que desde 2014 tinha adquirido a condi\u00e7\u00e3o legal de \u00abassocia\u00e7\u00e3o registada\u00bb), insistiu em manter um papel na organiza\u00e7\u00e3o, o que provocou a demiss\u00e3o de apoiantes de Kathrin Oertel, a autonomeada \u00abassessora econ\u00f3mica\u00bb e \u00abperita imobili\u00e1ria\u00bb que desempenhava a fun\u00e7\u00e3o de tesoureira do movimento, e pretendia mostrar um PEJIDA de uma respeit\u00e1vel cara burguesa no ep\u00f3nimo debate televisivo de G\u00fcnther Jauch.<\/p>\n<p>Um Bachmann irremediavelmente manculado e contr\u00e1rio a qualquer associa\u00e7\u00e3o com o movimento LEJIDA da cidade de Leipzig, cuja dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 ainda mais explicitamente ancorada na extrema-direita organizada, o grupo de apoiantes de Oertel fundou a organiza\u00e7\u00e3o Direkte Demokratie f\u00fcr Europa (Democracia Direta para Europa, DDfE). A declara\u00e7\u00e3o fundacional da DDfE constitui a tentativa de alargar a fixa\u00e7\u00e3o inicial do PEJIDA no isl\u00e3o e na imigra\u00e7\u00e3o \u00e0 inclus\u00e3o do apoio ao pedido de plesbicitos, iniciativas legislativas populares, \u00e0 \u00abliberdade de express\u00e3o\u00bb, \u00e0 \u00abseguran\u00e7a cidad\u00e3\u00bb, \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ao tratado TTIP de livre com\u00e9rcio, \u00e0 retirada das san\u00e7\u00f5es da UE \u00e0 R\u00fassia decretadas devido \u00e0 crise da Ucr\u00e2nia, mas mantendo a respeitabilidade pequeno-burguesa, que tinha ficado prejudicada com a revela\u00e7\u00e3o de que Bachmann n\u00e3o passava de um arruaceiro racista.<\/p>\n<p>A DDfE n\u00e3o conseguiu reunir em 8 de fevereiro de 2015 mais de 500 pessoas na sua primeira manifesta\u00e7\u00e3o em Dresden, ao passo que o PEJIDA juntou cerca de 2.000, um n\u00famero muito inferior ao que costumava verificar-se uns meses antes. O que \u00e9 interessante na cis\u00e3o da DDfE \u00e9 que a sua tentativa de se distanciar do PEJIDA n\u00e3o implica, de forma alguma, um afastamento real das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da extrema-direita; na verdade, a sua \u00abexpans\u00e3o\u00bb num movimento mais amplo e favor\u00e1vel \u00e0 democracia popular e a uma pol\u00edtica mais conciliadora com a R\u00fassia e contr\u00e1ria ao livre com\u00e9rcio, etc., encaixa perfeitamente na orienta\u00e7\u00e3o preconizada por Els\u00e4sser e nas \u00abmanifesta\u00e7\u00f5es das segundas-feiras\u00bb do novo \u00abMovimento pela Paz 2014\u00bb. Em vez disso, a aposta da DDfE pela respeitabilidade n\u00e3o se baseia em nenhuma rejei\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de extrema-direita, mas antes no desejo de se apresentar como uma organiza\u00e7\u00e3o formada por gente \u00abnormal\u00bb do \u00abcentro da sociedade\u00bb.<\/p>\n<p>Um estudo publicado em janeiro de 2015, feito por uma equipa de investiga\u00e7\u00e3o da Universidade T\u00e9cnica de Dresden, deu credibilidade a esta imagem, dizendo que 70% dos participantes tinham emprego e trabalhavam, tinham rendimentos ligeiramente superiores \u00e0 m\u00e9dia e um n\u00edvel educativo universit\u00e1rio ou de forma\u00e7\u00e3o profissional especializada. Apesar de outros acad\u00e9micos do Centro Cient\u00edfico de Berlim e do instituto de opini\u00e3o p\u00fablica FORSA, o classificarem de n\u00e3o representativo (65% dos pedido de resposta \u00e0 sondagem recusaram faz\u00ea-lo), o estudo lan\u00e7a uma luz interessante sobre o movimento PEJIDA, do ponto de vista da sua continuidade com os movimentos tradicionais da extrema-direita.<\/p>\n<p>Naturalmente, qualquer an\u00e1lise que trate de uma manifesta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da extrema-direita tem de responder \u00e0 quest\u00e3o \u00abque fazer?\u00bb Em v\u00e1rias cidades da Alemanha Ocidental tem havido admir\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es contra as tentativas dos nazis locais de formar PEJIDAs e outros grupos com nomes diferentes terminados em \u00abgida\u00bb. A potencial base de massas da extrema-direita na Alemanha Ocidental \u00e9 bastante limitada e continuar\u00e1 a s\u00ea-lo num futuro previs\u00edvel. Muito mais impressionantes foram as manifesta\u00e7\u00f5es massivas contra a marcha LEJIDA em Leipzig, ainda que as circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m fossem mais favor\u00e1veis, devido ao car\u00e1ter abertamente fascista deste movimento e \u00e0 continuidade de um forte sentimento antifascista no seio da esquerda nesta cidade.<\/p>\n<p>Um elemento problem\u00e1tico que n\u00e3o foi suficientemente analisado nos debates da esquerda radical sobre a nova extrema-direita \u00e9 a resist\u00eancia de muitos ativistas de esquerda em abordar a especificidade do racismo antimu\u00e7ulmano. Se \u00e9 certo que a hostilidade abertamente expressa contra os mu\u00e7ulmanos oculta uma posi\u00e7\u00e3o mais alargada de car\u00e1ter racista para com os estrangeiros que, demasiadas vezes, os ativistas de esquerda alem\u00e3es recusaram tratar o tema de como racismo antimu\u00e7ulmano, dominante na intelectualidade liberal e at\u00e9 em partes da esquerda radical, abriu caminho \u00e0 extrema-direita.<\/p>\n<p>Uma admir\u00e1vel oposi\u00e7\u00e3o ao antissemitismo que ainda grassa na sociedade europeia conduziu, depois da segunda Intifada e das guerras do Afeganist\u00e3o e Iraque, a um alarmante racismo antimu\u00e7ulmano numa parte da esquerda radical alem\u00e3. At\u00e9 os setores que n\u00e3o ca\u00edram nessa armadilha n\u00e3o tiveram o cuidado de n\u00e3o confundir uma cr\u00edtica materialista geral da religi\u00e3o, enquanto tal, com um discurso racista que pretende apresentar os mu\u00e7ulmanos como pessoas particularmente patol\u00f3gicas ou amea\u00e7as \u00e0 \u00abilustra\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00e0 \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb. A transi\u00e7\u00e3o de uma figura como Els\u00e4sser, de propagandista \u00abantialem\u00e3o\u00bb a figura de proa da nova extrema-direita nacionalista, deveria dar que pensar \u00e0queles militantes da esquerda radical alem\u00e3 que procuram evitar o confronto com discursos especificamente antimu\u00e7ulmanos e os difusos entre a defesa da \u00abracionalidade da ilustra\u00e7\u00e3o\u00bb e os movimentos que clamam pela prote\u00e7\u00e3o do Ocidente.<\/p>\n<p>*Ativista antirracista e escritor residente na Alemanha.<\/p>\n<p><em>Este texto foi publicado em <a href=\"https:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=211042\" target=\"_blank\">https:\/\/www.rebelion.org\/<wbr \/>noticia.php?id=211042<\/a><\/em><\/p>\n<blockquote data-secret=\"YHqRATxU0Q\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3989\">7 de Dezembro na Argentina: Um passo a mais rumo \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3989\/embed#?secret=YHqRATxU0Q\" data-secret=\"YHqRATxU0Q\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;7 de Dezembro na Argentina: Um passo a mais rumo \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A nova extrema-direita mistura de neoliberalismo e racismo Anthony Fano Fernandez*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10935\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-10935","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Qn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10935"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10935\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}