{"id":10947,"date":"2016-05-03T16:34:44","date_gmt":"2016-05-03T19:34:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10947"},"modified":"2016-05-20T20:50:37","modified_gmt":"2016-05-20T23:50:37","slug":"a-crise-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10947","title":{"rendered":"A crise no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.estadao.com.br\/fotos\/perry_fronteiras.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Perry Anderson* &#8211; O Diario. Info<\/strong><\/p>\n<p>De forma generalizada, a rea\u00e7\u00e3o de seus eleitores foi de que sua vit\u00f3ria [ de [de Dilma] poderia ser qualificada como \u2018estelionato\u2019, ou seja: ela enganou seus apoiadores ao cumprir o programa dos seus advers\u00e1rios de campanha. E isso n\u00e3o gerou apenas desilus\u00e3o, mas tamb\u00e9m raiva.\u00bb<!--more--><br \/>\n\u00ab (\u2026) Somente no ano de 2010, os alugu\u00e9is em S\u00e3o Paulo aumentaram 146%. E nesse mesmo per\u00edodo, havia cerca de 6 milh\u00f5es de apartamentos desocupados, com sete milh\u00f5es de fam\u00edlias sem teto. E ao inv\u00e9s de aumentar a oferta de casas populares, o governo financiou construtoras privadas para constru\u00edrem condom\u00ednios mediante um bel\u00edssimo lucro em \u00e1reas perif\u00e9ricas, cobrando alugu\u00e9is mais caros do que aqueles que os mais pobres poderiam pagar, ao mesmo tempo que ele apoiava as autoridades locais e os despejos feitos em ocupa\u00e7\u00f5es. Diante de tudo isso, os movimentos sociais ganharam f\u00f4lego com os sem-teto e agora s\u00e3o uma das principais for\u00e7as do Brasil: esses movimentos n\u00e3o est\u00e3o dentro, mas sim contra o PT\u00bb.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses dos BRICS est\u00e3o em apuros. Por um tempo eles foram os d\u00ednamos do crescimento global enquanto o Ocidente estava envolto na pior crise financeira e recess\u00e3o econ\u00f4mica desde a Grande Depress\u00e3o, mas agora eles se tornaram a principal fonte de preocupa\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is-generais do FMI e do Banco Mundial. A China, acima de todos eles, por causa do seu peso na economia global: produ\u00e7\u00e3o desacelerada e um Himalaya de d\u00edvidas. A R\u00fassia: sitiada, com a queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e as san\u00e7\u00f5es tirando seu quinh\u00e3o. A \u00cdndia: segurando melhor as pontas, mas com preocupantes revis\u00f5es estat\u00edsticas. A \u00c1frica do Sul: em queda livre. As tens\u00f5es pol\u00edticas emergem em cada um deles: Xi e Putin respondem \u00e0s tens\u00f5es com for\u00e7a bruta, enquanto Modi vai se afundando nas pesquisas e Zuma \u00e9 jogado na lama junto com seu pr\u00f3prio partido. Todavia, em nenhum outro lugar as crises pol\u00edtica e econ\u00f4mica se fundiram de forma t\u00e3o explosiva quanto no Brasil, cujas ruas no \u00faltimo ano viram mais manifestantes do que o resto do mundo combinado.<\/p>\n<p>Escolhida por Lula para a sucess\u00e3o, Dilma Rousseff, a ex-guerrilheira que se tornou chefe de Estado, venceu a disputa presidencial em 2010 com uma maioria esmagadora de votos. Quatro anos depois ela foi reeleita, mas dessa vez com uma margem muito menor de votos, uma vantagem de 3% sobre o seu oponente, A\u00e9cio Neves, governador de Minas Gerais, num pleito marcado por uma polariza\u00e7\u00e3o regional nunca antes vista, com um Sul-Sudeste industrializado voltando-se contra ela e com um Nordeste lhe dando uma vantagem ainda maior do que em 2010, com 72%. Mas, ainda assim, foi uma vit\u00f3ria definitiva, compar\u00e1vel \u00e0 de Mitterrand sobre Giscard, e maior, para n\u00e3o dizer tamb\u00e9m mais limpa, do que a de Kennedy sobre Nixon. Em janeiro de 2015, Dilma \u2013 e nesse ponto vamos abandonar os sobrenomes, como os brasileiros costumam fazer \u2013 come\u00e7ou sua segunda presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas meses, grandes manifesta\u00e7\u00f5es lotaram as ruas das principais cidades do pa\u00eds, com cerca de pelo menos dois milh\u00f5es de pessoas que exigiam sua sa\u00edda. No Congresso, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de Neves e seus aliados, encorajados pelo fato de que as pesquisas mostravam a queda vertiginosa na popularidade de Dilma, se movimentaram para conseguir seu impeachment. No dia Primeiro de Maio, ela n\u00e3o conseguiu nem mesmo dar seu discurso tradicional transmitido pela televis\u00e3o a todo o pa\u00eds. Anteriormente, quando seu discurso no dia Internacional da Mulher foi transmitido, as pessoas come\u00e7aram a bater suas panelas e fazer buzina\u00e7os, numa forma de protesto que ficou conhecida como panela\u00e7o. Da noite para o dia, o Partido dos Trabalhadores (PT), que desfrutara do mais longo e maior \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do Brasil, tornou-se o partido mais impopular do pa\u00eds. Confidencialmente, Lula teria lamentado: \u2018N\u00f3s vencemos a elei\u00e7\u00e3o. No dia seguinte, n\u00f3s a perdemos\u2019. Muitos militantes se questionaram se o partido iria sobreviver a tudo isso.<\/p>\n<p>Como a situa\u00e7\u00e3o chegou a esse ponto? No \u00faltimo ano do governo Lula, quando a economia global estava ainda se recuperando da primeira onda do crash financeiro de 2008, a economia brasileira cresceu 7,5%. Ao assumir o governo, Dilma instituiu uma pol\u00edtica de controle contra o superaquecimento da economia, o que deixou satisfeita a imprensa financista, naquilo que parecia ser uma pol\u00edtica semelhante a que Lula teve durante o in\u00edcio de seu primeiro mandato. Mas t\u00e3o logo o crescimento experimentou uma queda vertiginosa e as finan\u00e7as globais pareceram sombrias novamente, o governo mudou seu prumo, criando um pacote de medidas que visavam priorizar os investimentos em desenvolvimentos subsidiados. As taxas de juros foram reduzidas, as d\u00edvidas trabalhistas foram abatidas, os custos da energia el\u00e9trica foram reduzidos, a moeda se desvalorizou e foi imposto um limitado controle sobre o movimento do capital.[1] No embalo de todo esse est\u00edmulo, durante a primeira metade de sua presid\u00eancia, Dilma desfrutou de um \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o de 75%.<\/p>\n<p>Mas, ao inv\u00e9s de decolar, a economia desacelerou de um crescimento med\u00edocre de 2,72% em 2011 para mero 1% em 2012. Al\u00e9m disso, com uma infla\u00e7\u00e3o que j\u00e1 ultrapassava os 6%, em abril de 2013 o Banco Central aumentou os juros de forma abrupta, minando assim a base da \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d de Guido Mantega, o ministro da Fazenda. Dois meses depois, o pa\u00eds foi acometido por uma onda de protestos de massas cuja origem estava nas passagens de \u00f4nibus em S\u00e3o Paulo e no Rio, mas que rapidamente aumentaram sua dimens\u00e3o tornando-se express\u00f5es generalizadas de descontentamento com os servi\u00e7os p\u00fablicos e, estimulados pela m\u00eddia, tamb\u00e9m de hostilidade contra um Estado incompetente. Rapidamente a aprova\u00e7\u00e3o do governo caiu para a metade. Em resposta, ele bateu em retirada, dando in\u00edcio a redu\u00e7\u00f5es caucion\u00e1rias nos gastos p\u00fablicos e permitindo que os juros aumentassem novamente. O crescimento caiu ainda mais \u2013 ele seria praticamente zero em 2014 \u2013 mas o desemprego e os sal\u00e1rios permaneceram est\u00e1veis. No fim de seu primeiro mandato, Dilma liderou uma desafiadora campanha para reelei\u00e7\u00e3o ao assegurar a seus eleitores que ela continuaria priorizando as melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, assim como atacando o seu oponente do PSDB por planejar reverter os ac\u00famulos sociais feitos pelo PT, cortando benef\u00edcios e atingindo assim os mais pobres. Apesar do cont\u00ednuo ataque ideol\u00f3gico sofrido contra ela pela imprensa, ela conseguiu chegar \u00e0 vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Antes mesmo de seu segundo mandato come\u00e7ar formalmente, Dilma mudou o seu rumo. Ela rapidamente passou a defender que um pouco de austeridade se fazia necess\u00e1ria. O arquiteto da nova matriz econ\u00f4mica foi ent\u00e3o dispensado do minist\u00e9rio da Fazenda e quem assumiu foi algu\u00e9m orientado em Chicago, o diretor da gest\u00e3o de ativos do segundo maior banco privado do Brasil, assumindo um mandato que deveria reduzir a infla\u00e7\u00e3o e restaurar a confian\u00e7a. Os imperativos tornaram-se o corte nos gastos sociais, reduzir o cr\u00e9dito dos bancos p\u00fablicos, leiloar propriedades do Estado e aumentar taxas para trazer o or\u00e7amento de volta a uma situa\u00e7\u00e3o de super\u00e1vit prim\u00e1rio. Rapidamente o Banco Central aumentou sua taxa de juros para 14,25%. E j\u00e1 que a economia se encontrava estagnada, o efeito desse pacote pr\u00f3-c\u00edclico foi de mergulhar o pa\u00eds numa recess\u00e3o generalizada \u2013 queda nos investimentos, sal\u00e1rios diminuindo e o desemprego dobrando. Enquanto o PIB contra\u00eda, as receitas fiscais diminu\u00edam, piorando ainda mais o quadro de d\u00e9ficit e d\u00edvida p\u00fablica. Nenhum \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do governo poderia ter aguentado a rapidez de tal deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Mas a crise da popularidade de Dilma n\u00e3o foi resultado apenas de um resultado previs\u00edvel sobre o impacto da recess\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de vida do povo. Ela tamb\u00e9m foi, ainda que seja mais dolorido admiti-lo, o pre\u00e7o a ser pago por ela ter abdicado das promessas pelas quais ela foi eleita. De forma generalizada, a rea\u00e7\u00e3o de seus eleitores foi de que sua vit\u00f3ria poderia ser qualificada como \u2018estelionato\u2019, ou seja: ela enganou seus apoiadores ao cumprir o programa dos seus advers\u00e1rios de campanha. E isso n\u00e3o gerou apenas desilus\u00e3o, mas tamb\u00e9m raiva.<\/p>\n<p>Ainda que ocultas, as ra\u00edzes dessa debacle vingaram justamente no solo do pr\u00f3prio modelo petista de crescimento. Inicialmente poderia se dizer que seu sucesso dependia de dois tipos de nutrientes: um superciclo de aumento nos pre\u00e7os das commodities e um boom do consumo dom\u00e9stico. Entre 2005 a 2011, os ganhos comerciais do Brasil aumentaram para mais de um ter\u00e7o, pois a demanda por mat\u00e9ria-prima da China e de outras partes do mundo aumentou o valor das suas principais exporta\u00e7\u00f5es, assim como o volume de retorno fiscal para gastos sociais. No final do segundo mandato de Lula, a fatia correspondente da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios dentre as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras subiu de 28 para 41%, no que o espa\u00e7o dos bens manufaturados caiu de 55 para 44%; no final do primeiro mandato de Dilma, as mat\u00e9rias-primas eram respons\u00e1veis por mais da metade do valor das exporta\u00e7\u00f5es. Mas de 2011 em diante, os pre\u00e7os das principais mercadorias comercializadas pelo pa\u00eds entraram em colapso: o min\u00e9rio de ferro caiu de 180 d\u00f3lares para 55 d\u00f3lares a tonelada, a soja caiu de aproximadamente 40 d\u00f3lares a saca para 18 d\u00f3lares, o petr\u00f3leo cru despencou de 140 d\u00f3lares para 50 d\u00f3lares o barril. E reagindo ao fim da bonan\u00e7a do com\u00e9rcio exterior, o consumo dom\u00e9stico tamb\u00e9m entrou em decl\u00ednio. Durante seu governo, a principal estrat\u00e9gia do PT foi expandir a demanda interna ao aumentar o poder de compra das classes populares. E isso foi poss\u00edvel n\u00e3o apenas com o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e com transfer\u00eancias de renda para os pobres \u2013 o \u2018Bolsa Fam\u00edlia\u2019 \u2013 mas tamb\u00e9m por uma massiva inje\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito aos consumidores. Durante a d\u00e9cada de 2005 a 2015, o total de d\u00e9bitos controlados pelo setor privado aumentou de 43% para 93% do PIB, com empr\u00e9stimos aos consumidores atingindo o dobro do n\u00edvel dos pa\u00edses vizinhos. Quando Dilma foi reeleita, em 2014, os pagamentos de juros no cr\u00e9dito mobili\u00e1rio estavam absorvendo mais de 1\/5 da renda m\u00e9dia dispon\u00edvel dos brasileiros. Junto com a exaust\u00e3o do boom das commodities, a \u00e9poca de gastan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o era mais vi\u00e1vel. Os dois principais motores do crescimento tinham estagnado.<\/p>\n<p>Em 2011, o alvo da nova matriz econ\u00f4mica de Mantega foi estimular a economia a partir de um aumento nos investimentos. Mas os meios para faz\u00ea-lo tinham diminu\u00eddo. Desde 2006, os bancos estatais passaram a aumentar gradualmente sua quantidade de empr\u00e9stimos, indo de um ter\u00e7o para metade de todo cr\u00e9dito \u2013 o portf\u00f3lio do banco de desenvolvimento do governo, o BNDES, chegou a aumentar em sete vezes seu valor desde 2007. Ao ofertar taxas preferenciais de juros para as grandes companhias num valor muito mais alto do que os outros subs\u00eddios para as fam\u00edlias pobres, a \u2018Bolsa Empresarial\u2019 passou a custar ao tesouro nacional o dobro do que custava a \u2018Bolsa Fam\u00edlia\u2019. Favor\u00e1vel ao agroneg\u00f3cio e \u00e0s construtoras, essa expans\u00e3o direta dos financiamentos p\u00fablicos foi um an\u00e1tema pelo qual a classe m\u00e9dia urbana passou a aderir a um movimento cada vez mais violento anti-PT, com a m\u00eddia nacional \u2013 amplificada pela imprensa financista de Nova York e Londres \u2013 fazendo vitup\u00e9rios sobre os perigos do estatismo. Assim, ao mudar de dire\u00e7\u00e3o, Mantega esperava impulsionar os investimentos do setor privado com concess\u00f5es tribut\u00e1rias e juros mais baixos, mas isso impactou na redu\u00e7\u00e3o dos investimentos nas estruturas p\u00fablicas do pa\u00eds, assim como pela desvaloriza\u00e7\u00e3o do Real que ajudou nas exporta\u00e7\u00f5es manufatureiras. Mas todos esses agrados \u00e0 ind\u00fastria brasileira foram em v\u00e3o. Estruturalmente, as finan\u00e7as s\u00e3o uma for\u00e7a muito maior no pa\u00eds. A capitaliza\u00e7\u00e3o combinada dos dois maiores bancos privados do Brasil, Ita\u00fa e Bradesco, \u00e9 hoje duas vezes maior do que da Petrobr\u00e1s e da Vale, as duas principais empresas extrativas do pa\u00eds, e com finan\u00e7as muito mais saud\u00e1veis. As fortunas desses e de outros bancos foram concebidas de acordo com o maior sistema de juros de longo prazo do mundo \u2013 um horror para os investidores, mas verdadeiro man\u00e1 para os rentistas \u2013 e com um abissal spread banc\u00e1rio, com mutu\u00e1rios pagando de cinco a vinte vezes mais pelos seus empr\u00e9stimos. Al\u00e9m disso, somando-se a esse quadro, h\u00e1 tamb\u00e9m o sexto maior bloco de fundos de pens\u00e3o do mundo, sem falar no maior banco de investimento da Am\u00e9rica Latina, uma verdadeira constela\u00e7\u00e3o de fundos de cobertura e de private equity.<\/p>\n<p>Na esperan\u00e7a de que isso trouxesse o setor industrial para o seu lado, o governo confrontou os bancos ao for\u00e7\u00e1-los a aceitarem a recuarem o patamar sem precedentes de 2% dos juros no final de 2012. Em S\u00e3o Paulo, a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias (FIESP) brevemente expressou satisfa\u00e7\u00e3o perante a medida, para logo depois pendurar bandeiras em apoio aos manifestantes anti-estatistas de Junho de 2013. Os industrialistas ficaram felizes em colher os frutos de altos rendimentos durante o per\u00edodo de crescimento elevado do governo Lula, no qual virtualmente cada grupo social viu sua posi\u00e7\u00e3o melhorar. Mas quando isso terminou durante o governo Dilma e as greves recome\u00e7aram, eles n\u00e3o tiveram qualquer compaix\u00e3o por quem lhes favorecera anteriormente. E n\u00e3o apenas as grandes empresas, assim como suas parceiras do Norte global, se encontravam cada vez mais em holdings financeiros que eram afetados negativamente por conta das pol\u00edticas rentistas \u2013 e por essa raz\u00e3o, n\u00e3o poderiam dar \u00e0s costas totalmente aos bancos e fundos de investimento \u2013, mas o pr\u00f3prio grupo social a que pertenciam a maior parte dos empres\u00e1rios era formado por uma alta classe m\u00e9dia que tornara-se mais numerosa, vocal e politizada do que os antigos grupos de empres\u00e1rios, manifestando assim maior capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o ideol\u00f3gica perante a sociedade em geral. A furiosa hostilidade desse estrato para com o PT foi inevitavelmente seguida tamb\u00e9m pelos industrialistas. Tanto os banqueiros do andar de cima e os profissionais do andar de baixo, ambos estavam comprometidos a derrubar um regime que agora viam como amea\u00e7a aos seus interesses comuns, o que significou que os empres\u00e1rios tinham cada vez menos autonomia.<\/p>\n<p>Contra essa frente, que tipo de apoio o PT poderia esperar? Os sindicatos, ainda que mais ativos no governo Dilma, eram apenas uma sombra do seu antigo passado. Os pobres seguiram sendo benefici\u00e1rios passivos do governo petista, que nunca se disp\u00f4s a educ\u00e1-los ou organiz\u00e1-los, quanto muito mobiliz\u00e1-los em torno de uma for\u00e7a coletiva. Movimentos sociais \u2013 dos sem-terra e dos sem-teto \u2013 foram mantidos distantes do governo. Intelectuais acabaram sendo marginalizados. Mas n\u00e3o houve apenas uma aus\u00eancia de potencializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das energias vindas dos subalternos. Tamb\u00e9m n\u00e3o existiu uma verdadeira pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de riqueza ou de renda: a infame estrutura tribut\u00e1ria regressiva legada de Fernando Henrique Cardoso para Lula, que penalizava os pobres e deixava os ricos intocados, foi mantida. Houve, de fato, alguma distribui\u00e7\u00e3o que acabou melhorando consideravelmente as condi\u00e7\u00f5es de vida dos mais miser\u00e1veis, mas isso foi feito de forma ainda individualizada. Com o \u2018Bolsa Fam\u00edlia\u2019 tomando forma de recompensa para m\u00e3es de filhos em idade escolar, isso era um resultado esperado. Aumentos no sal\u00e1rio m\u00ednimo significaram tamb\u00e9m um aumento no n\u00famero de trabalhadores com \u2018carteira assinada\u2019, o que lhes garantiria acesso aos direitos formais do emprego; mas n\u00e3o houve aumento, e pode ter havido at\u00e9 mesmo uma queda, na sindicaliza\u00e7\u00e3o. Acima de tudo, com a chegada do \u2018cr\u00e9dito consignado\u2019 \u2013 os empr\u00e9stimos banc\u00e1rios com juros altos deduzidos diretamente dos sal\u00e1rios \u2013 o consumo privado cresceu sem amarras e \u00e0s custas dos gastos com servi\u00e7os p\u00fablicos, cujas melhorias teriam sido uma forma mais cara de estimular a economia. A compra de eletr\u00f4nicos, bens de consumo e ve\u00edculos foram estimuladas (a compra de autom\u00f3veis recebeu incentivos fiscais), enquanto o suprimento de \u00e1gua, pavimenta\u00e7\u00e3o, \u00f4nibus eficientes, saneamento b\u00e1sico aceit\u00e1vel, escolas decentes e hospitais p\u00fablicos foram negligenciados. Os bens coletivos n\u00e3o tinham prioridade nem ideol\u00f3gica e nem pr\u00e1tica. Logo, junto com a t\u00e3o necess\u00e1ria melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida dom\u00e9stica, o consumismo em sua forma mais deteriorada se espalhou nas camadas populares atrav\u00e9s de uma hierarquia social em que a classe m\u00e9dia se deslumbrava, ainda que por padr\u00f5es internacionais, com revistas e shopping centers.<\/p>\n<p>O qu\u00e3o prejudicial isso foi para o PT pode ser observado atrav\u00e9s da quest\u00e3o da moradia, onde necessidades individuais e coletivas mais visivelmente se intersectam. Nela, a bolha de consumo se transformou cada vez mais numa dram\u00e1tica bolha imobili\u00e1ria, na qual vastas fortunas foram feitas por empreiteiros e empresas de constru\u00e7\u00e3o enquanto o pre\u00e7o dos im\u00f3veis disparou para a maioria das pessoas que viviam nas grandes cidades e cerca de um d\u00e9cimo da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham acesso a moradias adequadas. Entre 2005 a 2014, o cr\u00e9dito para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e constru\u00e7\u00e3o civil aumentou vinte vezes; em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro os pre\u00e7os por metro quadrado quadruplicaram. Somente no ano de 2010, os alugu\u00e9is em S\u00e3o Paulo aumentaram 146%. E nesse mesmo per\u00edodo, havia cerca de 6 milh\u00f5es de apartamentos desocupados, com sete milh\u00f5es de fam\u00edlias sem teto. E ao inv\u00e9s de aumentar a oferta de casas populares, o governo financiou construtoras privadas para constru\u00edrem condom\u00ednios mediante um bel\u00edssimo lucro em \u00e1reas perif\u00e9ricas, cobrando alugu\u00e9is mais caros do que aqueles que os mais pobres poderiam pagar, ao mesmo tempo que ele apoiava as autoridades locais e os despejos feitos em ocupa\u00e7\u00f5es. Diante de tudo isso, os movimentos sociais ganharam f\u00f4lego com os sem-teto e agora s\u00e3o uma das principais for\u00e7as do Brasil: esses movimentos n\u00e3o est\u00e3o dentro, mas sim contra o PT.<\/p>\n<p>Sem contar com uma for\u00e7a-tarefa popular capaz de lidar com a press\u00e3o das elites do pa\u00eds, Dilma sem d\u00favida torceu para que, ap\u00f3s sua apertada reelei\u00e7\u00e3o, ao bater em retirada economicamente, com uma pol\u00edtica inicial de apertar os cintos semelhante a que Lula fez nos seus primeiros anos no poder, ela poderia ent\u00e3o reproduzir o mesmo tipo de virada de mesa. Mas as condi\u00e7\u00f5es externas impediram qualquer compara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. A dan\u00e7a dos commodities j\u00e1 se foi e uma recupera\u00e7\u00e3o, seja l\u00e1 quando vier, parece n\u00e3o ter sustenta\u00e7\u00e3o. Pode-se argumentar, observando esse contexto, que a extens\u00e3o das atuais dificuldades n\u00e3o deve ser exagerada. O pa\u00eds est\u00e1 passando por uma severa recess\u00e3o, com o PIB caindo 3,7% no \u00faltimo ano e provavelmente a mesma coisa acontecer\u00e1 este ano. Por outro lado, o desemprego ainda est\u00e1 longe de atingir os n\u00edveis da Fran\u00e7a, o que dir\u00e1 da Espanha. A infla\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais baixa do que os anos de FHC e o pa\u00eds possui mais reservas. O d\u00e9ficit p\u00fablico \u00e9 metade do d\u00e9ficit da It\u00e1lia, ainda que com os juros brasileiros o custo de reduzi-la seja bem maior. O d\u00e9ficit fiscal ainda est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia dos Estados Unidos. Tudo isso tende a piorar. Todavia, a atual profundidade do abismo econ\u00f4mico n\u00e3o encontra respaldo no volume do clamor ideol\u00f3gico que existe sobre ele: a oposi\u00e7\u00e3o militante e a fixa\u00e7\u00e3o neoliberal possuem interesses em aumentar o grau de mart\u00edrio do pa\u00eds. Mas isso, por sua vez, n\u00e3o reduz a escala da crise na qual o PT est\u00e1 agora envolto, que n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Pode-se dizer que as origens desse dilema residem na estrutura da Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira. Em praticamente quase todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, presid\u00eancias inspiradas pelo modelo estadunidense coexistem com parlamentos aos moldes europeus: ou seja, Executivos superpoderosos de um lado e, do outro, Legislativos eleitos por um sistema proporcional de representa\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o no modelo distorcido de past-the-post, tal qual nos sistemas anglo-sax\u00f5es. O resultado t\u00edpico desse modelo, ainda que n\u00e3o seja invari\u00e1vel, \u00e9 uma presid\u00eancia com enormes poderes administrativos cuja fraqueza reside no fato de que nenhum partido consegue ter uma maioria parlamentar com poder significativo. Todavia, em nenhum lugar o Executivo se separou tanto do Legislativo como no Brasil. Isso \u00e9 porque, acima de tudo, o pa\u00eds possui o mais fr\u00e1gil sistema partid\u00e1rio do continente. No Brasil, a representa\u00e7\u00e3o proporcional toma forma de um sistema de lista aberta na qual os eleitores podem escolher qualquer candidato dentro de um enorme n\u00famero de indiv\u00edduos que nominalmente est\u00e3o dentro da mesma disputa, em legislaturas que geralmente recebem cerca de pouco mais que dois milh\u00f5es de votos. As consequ\u00eancias dessa configura\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas. Na maioria dos casos, eleitores escolhem um pol\u00edtico que eles conhecem \u2013 ou acham que conhecem \u2013 ao inv\u00e9s de escolherem um partido do qual eles pouco ou nada sabem, enquanto os pol\u00edticos, por sua vez, precisam obter uma grande quantia de dinheiro para financiar suas campanhas e garantir que os eleitores se identifiquem com eles. A grande maioria dos partidos, cujos n\u00fameros aumentam a cada elei\u00e7\u00e3o (atualmente h\u00e1 28 partidos com representa\u00e7\u00e3o no Congresso), n\u00e3o possuem qualquer coer\u00eancia pol\u00edtica, o que dir\u00e1 disciplina pol\u00edtica. O seu prop\u00f3sito \u00e9 simplesmente assegurar favores dos chefes do Executivo diretamente para os seus bolsos e, claro, dar algum retorno para assegurar a reelei\u00e7\u00e3o de seus correligion\u00e1rios, oferecendo aos governos votos favor\u00e1veis nas diferentes c\u00e2maras.<\/p>\n<p>Quando o Brasil emergiu ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de Ditadura Militar em meados dos anos 1980, esse sistema foi criado por uma classe pol\u00edtica que se moldara sobre ela. Objetivamente, a sua fun\u00e7\u00e3o era (e ainda \u00e9) neutralizar a possibilidade de que a democracia levasse \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de algum tipo de vontade popular que amea\u00e7asse a grandeza da desigualdade brasileira, ao anestesiar as prefer\u00eancias eleitorais num miasma de disputas subpol\u00edticas por vantagens venais. Cabe ressaltar que o que acentua os problemas desse sistema \u00e9 tamb\u00e9m sua massiva despropor\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Todo os sistemas federais exigem algum tipo de equaliza\u00e7\u00e3o dos pesos de cada regi\u00e3o, geralmente envolvendo uma sobrerepresenta\u00e7\u00e3o das \u00e1reas menores e rurais numa c\u00e2mara mais alta, \u00e0s custas das \u00e1reas maiores e mais urbanizadas, tal como o Senado dos EUA. Contudo, poucos pa\u00edses chegam perto do grau de distor\u00e7\u00e3o criado pelos engenheiros do sistema brasileiro, no qual a propor\u00e7\u00e3o dessa sobrerepresenta\u00e7\u00e3o entre os pequenos e maiores Estados atinge uma propor\u00e7\u00e3o de 88 para 1 (nos EUA ela fica em torno de 65 para 1). E o problema n\u00e3o \u00e9 apenas o fato de que as tr\u00eas mais pobres e atrasadas regi\u00f5es controlam 3\/4 dos assentos do Senado e contam com cerca de 2\/5 da popula\u00e7\u00e3o (assombradas, na maior parte, pelos mais tradicionais \u2018caciques\u2019 que dominam as clientelas mais submissas). Mas de forma \u00fanica, eles tamb\u00e9m comandam a C\u00e2mara dos Deputados. Ou seja, ao inv\u00e9s de corrigir esse problema conservador do sistema, a democratiza\u00e7\u00e3o o aumentou, criando inclusive novos estados com popula\u00e7\u00e3o pequena, desequilibrando ainda mais o cen\u00e1rio.<br \/>\nNesse cen\u00e1rio, ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que emergiram do dom\u00ednio dos militares nos anos 1980, nenhum partido pol\u00edtico significativo do per\u00edodo anterior \u00e0 ditadura sobreviveu. Na verdade, o palco foi inicialmente ocupado por duas for\u00e7as derivadas das inven\u00e7\u00f5es dos generais: o partido da oposi\u00e7\u00e3o permitida, o Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB), e seu partido de situa\u00e7\u00e3o, a Alian\u00e7a Renovadora Nacional (ARENA) \u2013 ridicularizados por serem vistos como os partidos do \u2018sim\u2019 e do \u2018sim senhor\u2019. O primeiro posteriormente renomeou-se como Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (PMDB) e boa parte do segundo se transformou em Partido da Frente Liberal (PFL). Com a sa\u00edda dos militares, o primeiro governo est\u00e1vel de fato s\u00f3 aconteceu com a presid\u00eancia de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, nascida de um pacto de uma dissid\u00eancia do PMDB que ele ajudara a criar, nominalmente social-democr\u00e1tica, mas na realidade social-liberal (o PSDB), cujo eleitorado se concentrava nas regi\u00f5es Sul e Sudeste. Ao lado do PSDB estava o nominalmente liberal, mas na realidade conservador PFL, cuja base se encontrava nas regi\u00f5es Norte e Nordeste. Esse foi um pacto entre os oponentes moderados e os tradicionais ornamentos da Ditadura e conseguiu construir uma grande maioria no Congresso, agindo a servi\u00e7o daquele que se tornaria o principal programa neoliberal do pa\u00eds, afinado com o Consenso de Washington. Enquanto candidato presidencial, Cardoso \u2013 tomado pelo grande capital como uma garantia contra radicaliza\u00e7\u00f5es \u2013 recebeu enormes quantias de dinheiro: os ricos sabem reconhecer seus amigos. O custo relativo de suas campanhas, num pa\u00eds mais pobre, foi maior at\u00e9 mesmo que os gastos das campanhas de Clinton no mesmo per\u00edodo. Concorrendo contra ele estava Lula, diante de uma montanha de dinheiro que financiava a campanha de Cardoso. Mas assim que assumiu o cargo, FHC geralmente n\u00e3o precisou de dinheiro para comprar o apoio do Congresso \u2013 embora exista pelo menos uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o nessa afirmativa \u2013 pois sua coaliz\u00e3o com os cl\u00e3s das oligarquias do Nordeste, ainda que sujeitas \u00e0s suas disputas regionais, n\u00e3o era meramente oportunista, mas sim baseada numa parceria natural para objetivos comuns. O acordo foi est\u00e1vel e, nos anos recentes, foi muito elogiado por admiradores de Cardoso no Brasil e nos pa\u00edses angl\u00f3fonos, considerado um modelo de \u2018presidencialismo de coaliz\u00e3o\u2019, tomado inclusive como um exemplo esperan\u00e7oso para o resto do mundo, em lugares onde os modelos de governo europeu ou americano raramente conseguem vingar.<\/p>\n<p>Ainda assim, os cofres das campanhas de FHC estavam \u2018limpos\u2019 no sentido dos financiamentos americanos, onde os Super PACs compram votos, e sua coaliz\u00e3o era ideologicamente s\u00f3lida, j\u00e1 que uma vez eleito, nem seus objetivos e tampouco os de seus aliados poderiam ser atingidos por outros meios. Tanto seu vice-presidente, Marco Maciel, assim como seu mais poderoso aliado no Congresso, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, eram verdadeiros eixos da pol\u00edtica repressiva no Nordeste \u2013 ambos instalados pela Ditadura como governadores, o primeiro em Pernambuco e o segundo na Bahia, algo feito t\u00e3o logo eles apoiaram a derrubada do regime democr\u00e1tico em 1964 \u2013 e sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o de alterar esses m\u00e9todos tradicionais. ACM, como gostava de ser chamado, bravateava: \u2018Eu ganho elei\u00e7\u00f5es com um saco de dinheiro na m\u00e3o e um chicote na outra\u2019. Seu filho, Lu\u00eds Eduardo, era o pol\u00edtico favorito de Cardoso no Congresso, o delfim apontado para suced\u00ea-lo e assim seria se n\u00e3o tivesse morrido precocemente. O pr\u00f3prio FHC, que por um bom tempo sustentou que a reforma do sistema partid\u00e1rio era uma prioridade para o Brasil e prometeu entreg\u00e1-la, mudou de ideia t\u00e3o logo chegou no Pal\u00e1cio do Planalto, afirmando que a maior prioridade era revisar a Constitui\u00e7\u00e3o para que ele pr\u00f3prio pudesse ser reeleito para um segundo mandato. Abandonando qualquer tentativa de racionalizar ou democratizar a ordem pol\u00edtica, ele presidiu \u2013 e para isso, sim, foi necess\u00e1rio \u2013 uma campanha direta de subornos a deputados para comprar uma super-maioria no Congresso requerida para passar a emenda da reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Quando Lula foi finalmente eleito em 2002, o PT estava numa posi\u00e7\u00e3o diferente. Assim que ele passou a reassegurar que n\u00e3o atacaria bancos e empresas, e t\u00e3o logo pareceu que sua vit\u00f3ria era certa, essas companhias passaram a financi\u00e1-lo, ainda que numa escala menor do que a de seu predecessor. Mas dentro do Congresso ele n\u00e3o possu\u00eda aliados naturais que tivessem muita express\u00e3o. O PT, apesar de toda a modera\u00e7\u00e3o da campanha de Lula na presid\u00eancia, era visto \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 como um partido radical, posicionado \u00e0 esquerda do verdadeiro p\u00e2ntano que domina o Legislativo. L\u00e1, ele nunca conseguiu mais do que 1\/5 dos deputados, somando uma vota\u00e7\u00e3o tr\u00eas vezes menor do que a do pr\u00f3prio Lula. Como garantir algum tipo de maioria funcional para apoi\u00e1-lo em meio a esse verdadeiro marais? O m\u00e9todo tradicional, concretizado numa escala heroica durante a primeira presid\u00eancia civil ap\u00f3s a Ditadura \u2013 a de Jos\u00e9 Sarney, outro antigo lacaio dos generais \u2013, era o de comprar apoios distribuindo minist\u00e9rios e cargos de confian\u00e7a para aqueles que tivessem interesse e pudessem trazer consigo a maior quantidade de votos. Inicialmente isso ocorreu dentro das fac\u00e7\u00f5es de seu pr\u00f3prio partido, o PMDB, a maior e mais fisiol\u00f3gica entidade pol\u00edtica do pa\u00eds e que, uma d\u00e9cada depois, tornara-se a fossa na qual desaguavam todas os riachos da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O caminho cl\u00e1ssico para o PT era ent\u00e3o fazer acordos com essa criatura, alocando para eles uma boa parte de seus minist\u00e9rios e ag\u00eancias estatais. Todavia, essa solu\u00e7\u00e3o fora rejeitada pelo partido \u2013 h\u00e1 uma disputa sobre quem, dentro da c\u00fapula, estava a favor e quem estava contra \u2013 pois havia receio de que as consequ\u00eancias seriam criar um peso-morto ideol\u00f3gico dentro do governo que poderia neutralizar o momentum progressista que se criara. Ao inv\u00e9s disso, a decis\u00e3o foi de costurar um grupo de apoiadores de uma densa camada de partidos pequenos, sem conceder assim muito terreno para um deles em espec\u00edfico, mas pagando-os com dinheiro em troca de apoio na c\u00e2mara num esquema de propina. De fato, o PT tentou compensar a falta de parceiros naturais (algo que FHC n\u00e3o teve que lidar) e sua recusa em retomar o sistema concebido por Sarney, criando assim um sistema de est\u00edmulos materiais para coopera\u00e7\u00f5es dentro do Congresso e por uma moeda de troca mais barata: ou seja, usando de mesadas para n\u00e3o usar de lugares espec\u00edficos dentro do governo.<\/p>\n<p>Quando esse esquema veio \u00e0 tona em 2005, o chamado esc\u00e2ndalo do \u2018Mensal\u00e3o\u2019 (ou seja, de pagamentos mensais aos deputados) fez com que Lula perdesse o apoio do eleitorado de classe m\u00e9dia e por muito pouco n\u00e3o terminou precocemente com sua primeira presid\u00eancia. T\u00e3o logo ele sobrevivera e fora triunfantemente reeleito no ano seguinte, o PT n\u00e3o teve outra escolha sen\u00e3o recuar e aceitar a solu\u00e7\u00e3o que tanto temia em abra\u00e7ar: o PMDB ent\u00e3o entrou no bloco do governo, garantindo assim alguns importantes minist\u00e9rios e postos centrais no Congresso, e assim permaneceu at\u00e9 o primeiro mandato de Dilma e no primeiro ano do segundo mandato. Contudo, isso n\u00e3o significa que a corrup\u00e7\u00e3o tenha diminu\u00eddo e sim que ela aumentou drasticamente. Isso n\u00e3o apenas porque o PMDB era o campe\u00e3o do saque dos recursos p\u00fablicos em \u00e2mbitos municipais e estaduais (por d\u00e9cadas o partido inclusive abandonara as disputas presidenciais), mas tamb\u00e9m porque um gigantesco pote de mel, maior do que tudo que se podia imaginar, estava se concretizando com a expans\u00e3o da Petrobr\u00e1s, a empresa de petr\u00f3leo estatal cujas atividades equivalem a 10% do PIB nacional; nesse momento, uma capitaliza\u00e7\u00e3o a tornaria a quarta mais valiosa empresa do mundo. A constru\u00e7\u00e3o de novas refinarias, petrol\u00edferas, po\u00e7os, plataformas, complexos petroqu\u00edmicos oferecia vastas oportunidades para retribui\u00e7\u00f5es e logo um esquema acabou sendo estabelecido. Leil\u00f5es seriam tomados por um verdadeiro cartel composto pelas principais empreiteiras do pa\u00eds, mas os contratos eram cobrados a partir de grandes somas de dinheiro que iam direto para os bolsos dos diretores da Petrobr\u00e1s e para os partidos pol\u00edticos que estivessem envolvidos \u2013 calcula-se cerca de 3 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em subornos. Esse tipo de pr\u00e1tica n\u00e3o era novidade na hist\u00f3ria da companhia, sendo que FHC preferiu fingir que ela n\u00e3o acontecia, e at\u00e9 a primavera de 2013, a companhia desfrutou da costumeira impunidade oriunda da riqueza e do poder no Brasil.<\/p>\n<p>O que mudou nisso tudo foram tr\u00eas efeitos p\u00f3s-Mensal\u00e3o. A dela\u00e7\u00e3o premiada foi introduzida no Brasil; a pris\u00e3o cautelar, um antigo poder judici\u00e1rio usado para lotar as cadeias do pa\u00eds com pobres, tornou-se pela primeira vez um instrumento aceit\u00e1vel para dobrar aqueles de classes superiores; e as senten\u00e7as na primeira inst\u00e2ncia n\u00e3o podiam mais ser deferidas por interven\u00e7\u00e3o do Supremo, o que permitia apressar as pris\u00f5es. Os dois primeiros efeitos foram as mesmas armas que os magistrados italianos utilizaram para derrubar a classe pol\u00edtica e empresarial italiana nos esc\u00e2ndalos da Tangentopoli, nos anos 1990. Mas o terceiro efeito eles nunca conseguiram. Inclusive no Brasil foi criada uma forma de extrair confiss\u00f5es daqueles sob pris\u00e3o preventiva: amea\u00e7ar a estender o mesmo tratamento \u00e0 esposas e filhos. Em 2013, grava\u00e7\u00f5es feitas num caixa de uma empresa de lavagem de carros (um \u2018lava-jato\u2019) em Bras\u00edlia levou \u00e0 pris\u00e3o de um contrabandista com longa ficha criminal. Mantido em Curitiba, na regi\u00e3o Sul, para proteger sua fam\u00edlia, esse \u2018doleiro\u2019 passou a revelar a escala do sistema de corrup\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s, na qual ele havia sido um dos principais intermedi\u00e1rios na transfer\u00eancia de recursos entre contratantes, diretores e pol\u00edticos dentro e fora do pa\u00eds. Num primeiro momento, as acusa\u00e7\u00f5es ca\u00edram sobre nove das principais construtoras e empreiteiras do Brasil, com seus famosos chefes e diretores sendo presos, junto com outros tr\u00eas diretores da Petrobr\u00e1s, em investiga\u00e7\u00f5es que atingiram ainda mais de cinquenta pol\u00edticos, tanto deputados e senadores como at\u00e9 mesmo governadores.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas principais partidos envolvidos \u2013 eles eram sete no total \u2013 foram o PMDB, o Partido Progressista (PP, um partido oriundo da Ditadura) e o PT. Quem ganhou mais no esquema ainda n\u00e3o est\u00e1 claro. Mas j\u00e1 que n\u00e3o existiam ilus\u00f5es sobre os dois primeiros, foi a exposi\u00e7\u00e3o do terceiro que realmente ganhou relev\u00e2ncia pol\u00edtica. O \u2018Mensal\u00e3o\u2019 foi somente uns trocados em compara\u00e7\u00e3o com a enormidade do \u2018Petrol\u00e3o\u2019, enquanto o primeiro n\u00e3o teve nenhum benef\u00edcio privado para pol\u00edticos do PT, o segundo, por sua vez, apagou completamente os limites entre fundos de campanha e enriquecimento pessoal. Dentre outros detalhes, veio \u00e0 tona que o pr\u00f3prio chefe da Casa Civil de Lula, Jos\u00e9 Dirceu (o arquiteto por tr\u00e1s da forma\u00e7\u00e3o do PT enquanto partido), que havia sido afastado por conta de seu envolvimento no \u2018Mensal\u00e3o\u2019, havia insistido que uma parte do \u2018Petrol\u00e3o\u2019 fosse dirigida para suas pr\u00f3prias contas banc\u00e1rias. Se o grosso dessas retribui\u00e7\u00f5es eram utilizadas para financiar as campanhas e o aparato do partido, a presen\u00e7a cont\u00ednua de grandes somas de dinheiro clandestino n\u00e3o tinha como n\u00e3o corromper aqueles que botavam suas m\u00e3os nele. O soci\u00f3logo Chico de Oliveira alertara, antes mesmo do \u2018Petrol\u00e3o\u2019 ter sido descoberto, que o PT estava caminhando a passos largos para um processo de transfigura\u00e7\u00e3o numa aberrante esp\u00e9cie taxon\u00f4mica de vida pol\u00edtica, algo que n\u00e3o mais podia ser visto como uma met\u00e1fora. [O autor refere-se aqui ao ensaio \u201cO ornitorrinco\u201d, de Chico de Oliveira, publicado no volume da Boitempo Cr\u00edtica \u00e0 raz\u00e3o dualista\/O ornitorrinco].<\/p>\n<p>Liderando o ataque ao \u2018Petrol\u00e3o\u2019, a equipe investigativa de Curitiba se tornou, assim como os ju\u00edzes e policiais de Mil\u00e3o que os inspiravam, verdadeiras estrelas midi\u00e1ticas. Jovens, de cara limpa, queixos quadrados, beneficiando-se de seu treinamento legal em Harvard, o juiz Sergio Moro e o promotor Deltan Dallagnol pareciam sa\u00eddos direto de um desses seriados americanos de tribunais. Sobre o seu zelo no combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e o valor do choque que aplicaram nas elites pol\u00edticas e empresariais do pa\u00eds, n\u00e3o havia d\u00favidas. Mas assim como na It\u00e1lia, objetivos e m\u00e9todos nem sempre coincidiram. A dela\u00e7\u00e3o premiada e a pris\u00e3o preventiva sem acusa\u00e7\u00f5es combinaram induzimento e intimida\u00e7\u00e3o: instrumentos obtusos em busca da verdade e da justi\u00e7a, mas no Brasil eles estavam dentro da lei. Contudo, o vazamento de informa\u00e7\u00f5es, ou \u00e0s vezes at\u00e9 de suspei\u00e7\u00f5es, por parte dos investigadores para a imprensa, n\u00e3o \u00e9 legal: eles s\u00e3o claramente ilegais. Na It\u00e1lia, eles foram constantemente utilizados pela equipe de Mil\u00e3o e foram usados ainda mais ostensivamente pela equipe de Curitiba. Desde o in\u00edcio os vazamentos pareciam seletivos: eles almejavam o PT e, persistentemente, \u2013 ainda que n\u00e3o exclusivamente, pois os estilha\u00e7os se espalhavam \u2013 aparecendo nas principais revistas da bateria anti-governo, como a semanal Veja, que ap\u00f3s semanas de exposi\u00e7\u00e3o fez uma edi\u00e7\u00e3o a ser lan\u00e7ada poucas horas antes da elei\u00e7\u00e3o de 2014 com as imagens de Lula e Dilma sob uma sinistra meia-luz com tons de vermelho e negro com a exclama\u00e7\u00e3o \u201cEles sabiam de tudo!\u201d, alertando os eleitores para quem eram as verdadeiras mentes criminosas por tr\u00e1s do \u2018Petrol\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que o fato dos magistrados terem alimentado a m\u00eddia com vazamentos significa que seus objetivos eram os mesmos, ou seja, que eram fruto \u2013 tal como o PT sustentou \u2013 de uma opera\u00e7\u00e3o comum? Pode-se dizer que o judici\u00e1rio brasileiro, assim como seus colegas de promotoria e Pol\u00edcia Federal, compartilha muito da identidade de classe m\u00e9dia brasileira, cujas camadas eles pertencem, com suas prefer\u00eancias e preconceitos de classe t\u00edpicos. Nenhum partido oper\u00e1rio, por mais emoliente que seja, consegue atrair simpatia particular desse meio. Mas ser\u00e1 que os vazamentos contra o PT s\u00e3o resultado de uma avers\u00e3o militante, ou fruto de uma ideia de que n\u00e3o h\u00e1 melhor forma de enfatizar os horrores da corrup\u00e7\u00e3o do que pegar aquela que \u00e9 a principal for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds por mais de uma d\u00e9cada, que inclusive \u00e9 justamente aquela que a m\u00eddia, por suas pr\u00f3prias raz\u00f5es, estaria mais disposta a divulgar as revela\u00e7\u00f5es? Hist\u00f3rias que atingissem o PMDB seriam banais e o PSDB poderia ser poupado, em \u00e2mbito nacional, pois sendo um partido de oposi\u00e7\u00e3o teria menor acesso aos cofres p\u00fablicos, independente do seu dom\u00ednio dentro dos estados.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo da Lava-Jato estourou de fato na primavera de 2014 e sucessivas pris\u00f5es e acusa\u00e7\u00f5es chegaram \u00e0s manchetes durante a corrida presidencial no outono. A virada econ\u00f4mica de Dilma, t\u00e3o logo eleita, pode ser vista em parte como conduzida pela esperan\u00e7a de aplacar a opini\u00e3o neoliberal o suficiente para que a m\u00eddia moderasse seu discurso sobre o PT, que estava sendo tratado como uma gangue de ladr\u00f5es. Mas se foi isso de fato, ela foi em v\u00e3o. Superando at\u00e9 mesmo o PSDB na virul\u00eancia de seus ataques, uma nova direita passou a ganhar proemin\u00eancia nas manifesta\u00e7\u00f5es massivas contra Dilma em mar\u00e7o de 2015. No Brasil, o slogan tradicional da direita era \u201cDeus, Fam\u00edlia e Liberdade\u201d, verdadeiros banners do conservadorismo que clamou pelo golpe militar que gerou a Ditadura de 1964. Meio s\u00e9culo depois, os gritos dos manifestantes mudaram. Recrutados a partir de uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem de militantes de classe m\u00e9dia, uma nova direita \u2013 e geralmente com orgulho de afirmar-se assim \u2013 passou a falar menos em termos de religiosidade, menos ainda em termos de fam\u00edlia e reinterpretou o sentido de liberdade. Para eles, o livre mercado era a base necess\u00e1ria para todas as outras liberdades, concebendo assim o Estado como uma esp\u00e9cie de hidra de muitas cabe\u00e7as. Essa pol\u00edtica se iniciou n\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es da ordem decadente, mas sim nas ruas e nas pra\u00e7as, onde cidad\u00e3os poderiam se reunir contra um regime de parasitas e ladr\u00f5es. Surfando na onda das manifesta\u00e7\u00f5es massivas contra Dilma, os dois principais grupos dessa direita radical \u2013 \u2018Vem Pra Rua\u2019 e \u2018Movimento Brasil Livre\u2019 \u2013 modelaram suas t\u00e1ticas assimilando elementos do \u2018Movimento Passe Livre\u2019, um movimento de extrema-esquerda que desencadeou os protestos de 2013, inclusive com o MBL deliberadamente fazendo um acr\u00f4nimo com o MPL. Ambas organiza\u00e7\u00f5es da direita eram pequenas, mas dependiam de um intenso trabalho de mobiliza\u00e7\u00e3o de massas por meio da internet. O Brasil possui mais viciados em Facebook do que qualquer outro pa\u00eds, perdendo somente para os Estados Unidos, e tanto o \u2018Vem Pra Rua\u2019 como o \u2018MBL\u2019 e outros grupos da direita \u2013 o \u2018Revoltados On-Line\u2019 (ROL) \u00e9 outro movimento proeminente \u2013 vem conseguindo mobilizar a popula\u00e7\u00e3o com muito mais sucesso do que a esquerda, embora seja importante levar em considera\u00e7\u00e3o o previs\u00edvel perfil de classe de quem adentra na rede social de Zuckerberg. At\u00e9 ent\u00e3o, o efeito multiplicador desses grupos de direita tem sido muito maior.<\/p>\n<p>No horizonte de toda essa situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m a amb\u00edgua n\u00e9bula de uma nova religi\u00e3o. Mais de 20% dos brasileiros atualmente s\u00e3o convertidos a alguma variedade de protestantismo evang\u00e9lico. Seguindo o padr\u00e3o da Igreja da Unifica\u00e7\u00e3o do Reverendo Moon, muitas delas \u2013 certamente as maiores \u2013 s\u00e3o verdadeiros balc\u00f5es de neg\u00f3cios que ficam ordenhando o dinheiro de seus fi\u00e9is para erigir verdadeiros imp\u00e9rios financeiros para os seus fundadores. A fortuna de Edir Macedo, o l\u00edder da Igreja Universal do Reino de Deus, cujo gigantesco ekitsch Templo de Salom\u00e3o na regi\u00e3o do Br\u00e1s em S\u00e3o Paulo \u2013 pr\u00f3ximo do menos grotesco, mas ainda impressionante templo da rival Assembleia de Deus, numa esp\u00e9cie de Wall Street religiosa \u2013 onde ocorrem performances de melodram\u00e1ticos exorcismos nos tel\u00f5es e em que os fi\u00e9is cantam e oram, ultrapassa mais de mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. Parte desse imp\u00e9rio se associa tamb\u00e9m ao controle da segunda maior rede de televis\u00e3o do pa\u00eds. Atualmente bastante pr\u00f3spera nas periferias, a organiza\u00e7\u00e3o de Macedo prega uma \u201cteologia da prosperidade\u201d, prometendo sucesso material na Terra, ao inv\u00e9s de mera salva\u00e7\u00e3o celestial. Diferente dos evangelistas americanos, as Igrejas Evang\u00e9licas no Brasil n\u00e3o possuem perfis ideol\u00f3gicos muito espec\u00edficos al\u00e9m de assuntos como aborto e direitos LGBT. Macedo chegou a apoiar FHC como uma forma de impedir o comunismo, mas nas elei\u00e7\u00f5es seguintes apoiou Lula e desde ent\u00e3o vem criando sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas muitas dessas igrejas operam no descr\u00e9dito dos partidos brasileiros: elas s\u00e3o ve\u00edculos a serem contratados, trocando votos por favores, com a diferen\u00e7a de que elas apoiam candidatos de qualquer partido \u2013 a bancada evang\u00e9lica no Congresso, cerca de 18% dos deputados, inclui congressistas de 22 partidos. Seus principais interesses residem em garantir concess\u00f5es de r\u00e1dio e televis\u00e3o, evas\u00e3o fiscal para igrejas e acesso \u00e0 zoneamento urbano para a constru\u00e7\u00e3o de monumentos fara\u00f4nicos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ainda que mais passivas e prom\u00edscuas do que seus iguais nos Estados Unidos, essas Igrejas formam um reservat\u00f3rio conservador para os agressivos l\u00edderes da direita no Congresso. Sintomaticamente, o presidente da Frente Evang\u00e9lica \u00e9 um musculoso pastor e ex-policial que senta na bancada do PSDB. Ali tamb\u00e9m se encontra o Presidente da C\u00e2mara dos Deputados, eleito em fevereiro de 2015 \u2013 esse sendo o cargo mais importante do Congresso e o terceiro da linha sucess\u00f3ria depois do vice-presidente \u2013, o deputado Eduardo Cunha, um corretor da bolsa evang\u00e9lico do Rio e l\u00edder da bancada do PMDB. Geralmente identificado como o mais perigoso inimigo de Dilma \u2013 ela inclusive tentou impedir sua elei\u00e7\u00e3o \u2013 seu jeito garboso e modos imperturb\u00e1veis escondem um excepcionalmente talentoso e cruel pol\u00edtico, um mestre nas artes obscuras da manipula\u00e7\u00e3o parlamentar e na administra\u00e7\u00e3o, uma pessoa a quem grandes n\u00fameros do chamado \u201cbaixo clero\u201d do Congresso tornaram-se dependentes de seus favores desde que assumiu o cargo, enquanto outros vivem acuados diante de sua for\u00e7a sem conseguir enfrenta-lo. E t\u00e3o logo as manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas clamaram pelo impeachment de Dilma, ele logo tornou-se o ponta de lan\u00e7a dentro do Legislativo que garantiria a sa\u00edda da presidente, sob o pretexto de que antes das elei\u00e7\u00f5es ela havia transferido, de forma impr\u00f3pria, fundos dos bancos estatais para contas federais.<\/p>\n<p>Atingindo um crescendo no m\u00eas de setembro, o movimento para dep\u00f4-la atingiu n\u00fameros impressionantes, configurando diferentes for\u00e7as e personagens que se entrecruzavam de diferentes formas, desde os \u201cjovens turcos\u201d do MBL e ROL posando para fotos com Cunha, at\u00e9 pilares da lei como Moro e Dallagnol (que tamb\u00e9m \u00e9 evang\u00e9lico) encontrando-se com pol\u00edticos do PSDB e lobistas pr\u00f3-impeachment, sem contar tamb\u00e9m com a imprensa atacando virulentamente o PT e o Planalto com novas den\u00fancias di\u00e1rias. Ou Dilma havia ilegalmente legado um d\u00e9ficit nas contas do Estado para seguir sendo reeleita, ou ela havia permitido grandes inje\u00e7\u00f5es de verbas ilegais para financiar sua campanha eleitoral\u2026ou ambos \u2013 em qualquer caso, material suficiente para acelerar o processo de retirada dela da presid\u00eancia enquanto afronta a probidade p\u00fablica. Naquele momento, cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o queria que ela fosse embora.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, uma bomba explodiu. Em meados de outubro, as autoridades su\u00ed\u00e7as notificaram o Procurador Geral da Rep\u00fablica em Bras\u00edlia de que Cunha tinha nada mais do que quatro contas secretas na Su\u00ed\u00e7a \u2013 e outra logo em seguida foi descoberta nos Estados Unidos \u2013 uma delas no nome de sua esposa, outra no nome de uma companhia empresa-fantasma em Singapura que recebia direto de outra empresa-fantasma da Nova Zel\u00e2ndia. O valor total era de 16 milh\u00f5es de d\u00f3lares, ou trinta e sete vezes mais a riqueza que ele havia declarado no Brasil. \u00c0 disposi\u00e7\u00e3o do casal tamb\u00e9m havia duas companhias locais \u2013 e, desafiando o esc\u00e1rnio, uma delas se chamava Jesus.com \u2013 al\u00e9m de uma frota de nove limusines e caminhonetes no Rio de Janeiro. As evid\u00eancias de que ele acumulava propinas da Petrobr\u00e1s come\u00e7aram a se acumular. Mesmo para a mais obediente imprensa isso era demais. No Congresso, uma com\u00e9dia \u00e0s avessas tinha in\u00edcio. Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, o Presidente da C\u00e2mara possui o poder solene de dar in\u00edcio \u00e0 mo\u00e7\u00e3o de impeachment presidencial. Por meses o PSDB ficou cortejando Cunha, conferenciando com ele em conclaves \u00edntimos sobre as t\u00e1ticas e o momento do processo. A revela\u00e7\u00e3o da sua caixa-forte na Su\u00ed\u00e7a, com muito mais evid\u00eancias do que aquelas que ca\u00edam sobre Dilma, tornou-se um profundo constrangimento para o partido. O que deveria ser feito? Cunha ainda controlava as chaves para o impeachment, que se fosse bem-sucedido poderia at\u00e9 mesmo anular as elei\u00e7\u00f5es de 2014 e garantir, assim, a vit\u00f3ria de Neves. O partido ent\u00e3o se silenciou sobre as ondas que vinham de Berna, no que vale mencionar que o pr\u00f3prio Cunha ainda n\u00e3o havia se pronunciado e era tomado como inocente at\u00e9 que se provasse o contr\u00e1rio. Mas seus apoiadores na m\u00eddia n\u00e3o conseguiram conter os questionamentos: como pode o partido da moralidade dar cobertura para tamanha criminalidade? Diante do clamor, o PSDB foi for\u00e7ado a bater em retirada e tirar o apoio ao Presidente da C\u00e2mara \u2013 um pequeno partido socialista independente [o PSOL], a essa altura do jogo, havia entrado com recurso para tirar Cunha da C\u00e2mara. Ao perceber que o PSDB deixara de lhe dar apoio, Cunha rapidamente fez um jogo de dupla-face. Negociando a portas fechadas, ele ofereceu trancar o impeachment de Dilma se o PT o protegesse das tentativas de anula\u00e7\u00e3o de seu mandato e expuls\u00e3o do Congresso. E isso rapidamente aconteceu. Os ministros do PT, t\u00e3o desavergonhados quanto os pol\u00edticos do PSDB, concordaram em auxili\u00e1-lo a manter-se no cargo, desde que ele n\u00e3o fizesse nenhum movimento contra Dilma. Esse surreal carrossel foi demais para as bases do partido que estavam afastadas do Congresso e o acordo teve de ser cancelado. Por um breve momento, pareceu que a posi\u00e7\u00e3o de Cunha era insustent\u00e1vel e a causa do impeachment estava t\u00e3o desgastada pela sua exposi\u00e7\u00e3o que havia, portanto, quase nenhuma chance de ela passar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Nos bastidores, contudo, o principal reposit\u00f3rio das esperan\u00e7as de acabar com o PT n\u00e3o tinha desistido. Desde o in\u00edcio da crise, FHC tornou-se onipresente na m\u00eddia \u2013 sua imagem estava em toda parte, numa enxurrada de entrevistas, artigos, discursos, di\u00e1rios. Bastante estimado pelos bar\u00f5es da m\u00eddia e seus lacaios, sua renovada proemin\u00eancia era fruto de um c\u00e1lculo pol\u00edtico mais imediato de ambas as partes. Apresentado como o estadista anci\u00e3o da Rep\u00fablica, a cuja sabedoria se deve a estabilidade atingida, editores e jornalistas esfor\u00e7aram-se para constru\u00ed-lo como um pensador de renome internacional, a voz da sanidade e da responsabilidade diante das mazelas do pa\u00eds, inclusive com a imprensa e a academia angl\u00f3fona cotejando-o, engolindo todo esse coro de sicofantia. A raz\u00e3o para toda essa apoteose \u00e9 bastante simples: a presid\u00eancia de Cardoso administrou ao Brasil uma generosa dose de administra\u00e7\u00e3o pr\u00f3-mercado, um rem\u00e9dio que parecia ser mais urgente do que nunca diante do esc\u00e1rnio populista do PT. O pr\u00f3prio Cardoso, que quando presidente lamentou a \u201cenorme dificuldade\u201d de que \u201co Brasil n\u00e3o gostava do sistema capitalista\u201d, estava tranquilo em exercer esse papel. Mas ele tamb\u00e9m tinha uma quest\u00e3o pessoal no meio de todos esses holofotes. Quando ele saiu da presid\u00eancia, seu \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito mais alto do que o de Dilma hoje, e por oito anos ele sofreu uma dura compara\u00e7\u00e3o com Lula, um presidente muito mais popular que repudiou seu legado e transformou o pa\u00eds de forma decisiva, assegurando ao PT mandatos que duraram o dobro do seu.<br \/>\nIsso foi algo duro de suportar. Ser\u00e1 que a aura do pensador poderia suportar a perda de seu prest\u00edgio como governantes? Objetivamente, o segundo mandato foi \u2013 e isso \u00e9 bastante normal \u2013 menos popular do que o primeiro. Na busca pela presid\u00eancia, Cardoso sacrificou n\u00e3o apenas suas antigas convic\u00e7\u00f5es, que inclusive eram marxistas e socialistas, mas com o tempo at\u00e9 mesmo seus padr\u00f5es intelectuais. A banalidade dessa mudan\u00e7a chega a ser disparatada \u2013 bromas elogiosas para os efeitos da globaliza\u00e7\u00e3o e ansiedade com seus efeitos colaterais. Em raras ocasi\u00f5es ele acabava sendo sincero: \u201cEu devo admitir que, ainda que meu lado intelectual seja forte, eu sou basicamente um Homo politicus\u201d, disse ele certa vez. Mas subjetivamente, a vaidade \u2013 atingida pelo apelo pol\u00edtico grandioso de um ex-oper\u00e1rio sem educa\u00e7\u00e3o formal \u2013 n\u00e3o permite que pretens\u00f5es mais cerebrais sejam colocadas de lado. Tingido pelo verde e amarelo da Academia Brasileira de Letras, uma c\u00f3pia tropical da vers\u00e3o original e pomposa dos franceses \u2013 com uma espada a seu lado, ele declarou que o soci\u00f3logo e o presidente nunca divergiram, demonstrando uma carreira coerente e uma administra\u00e7\u00e3o criativa, inteiramente em sintonia uma com a outra.<\/p>\n<p>Por anos ele teve motivos para reclamar que, enquanto oposi\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio PSDB foi insuficientemente leal \u00e0 mem\u00f3ria de seu l\u00edder m\u00e1ximo, evitando qualquer defesa mais vigorosa de sua moderniza\u00e7\u00e3o nacional e seu corajoso programa de privatiza\u00e7\u00f5es. Agora, contudo, diante da crise do \u2018lulopetismo\u2019 \u2013 seu uso mais desdenhoso, implicando algo ainda focado nas bases, mais demag\u00f3gico do que o mero suporte petista, ou \u2018petismo\u2019 \u2013 fica claro o qu\u00e3o certo Cardoso esteve todo esse tempo. Se houve algo de bom durante o governo do PT, isso se deve \u00e0 heran\u00e7a deixada por FHC. Se houve algo desastroso e terr\u00edvel, ent\u00e3o a culpa n\u00e3o \u00e9 dele, pois havia alertado a todos o que aconteceria. Era tempo de erguer novamente as bandeiras de 1994 e 1998, sem qualquer inibi\u00e7\u00e3o, colocando assim um fim ao desgoverno do PT. Ainda que ele mesmo n\u00e3o tivesse evocado o impeachment, ele o reconhecia como um processo leg\u00edtimo, desde que tivesse base legal para isso. E ainda que n\u00e3o tivesse, Dilma ainda poderia ser removida politicamente. Mas \u2013 e aqui os c\u00e1lculos de Cardoso mostram-se diferentes daqueles feitos pela nova gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos do PSDB no Congresso, ansiosos para tomar o poder rapidamente \u2013 era melhor esperar pelo Judici\u00e1rio, que poderia ser tido como um instrumento para que a Justi\u00e7a Pol\u00edtica fosse cumprida.<\/p>\n<p>Essa confian\u00e7a vinha das \u00edntimas conex\u00f5es entre os ju\u00edzes mais veteranos e estava longe de estar errada. Indicado para presidir o caso contra Dilma no Supremo Tribunal Eleitoral estava Gilmar Mendes, um parceiro pr\u00f3ximo indicado pelo pr\u00f3prio Cardoso para o Supremo Tribunal Federal, ocupando este lugar at\u00e9 os dias de hoje \u2013 e que nunca fez nenhum segredo sobre o seu desgosto para com o PT. Mas Dilma era o alvo menos importante. Para FHC, o alvo crucial a ser destru\u00eddo era Lula e n\u00e3o apenas por quest\u00e3o de vingan\u00e7a, embora isso tenha sido muito saboreado no \u00e2mbito privado, mas porque havia risco, dada sua antiga popularidade, de que ele voltasse em 2018 \u2013 supondo que Dilma sobrevivesse at\u00e9 ent\u00e3o, algo que assustava o PSDB e seu programa de orientar o pa\u00eds novamente para uma moderniza\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel. E t\u00e3o logo as deixas de Cardoso come\u00e7aram a encontrar eco, uma s\u00e9rie de vazamentos feitos pela for\u00e7a tarefa da Lava-jato passaram a aparecer na imprensa, implicando Lula em d\u00fabias transa\u00e7\u00f5es financeiras de tipo pessoal: viagens em jatos empresariais, palestras remuneradas por empreiteiras, apartamentos confort\u00e1veis, melhorias num s\u00edtio, sem falar nos ganhos obscuros de um de seus filhos. Logo em seguida veio a apreens\u00e3o de um amigo milion\u00e1rio fazendeiro, acusado de repassar as retribui\u00e7\u00f5es de um contrato da Petrobr\u00e1s para o tesoureiro do PT. Aparentemente, a rede estava se fechando sobre ele.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Rapidamente, durante a primeira semana de mar\u00e7o, uma for\u00e7a-tarefa da Pol\u00edcia Federal chegou na porta da casa de Lula \u00e0s seis da manh\u00e3, levando-o sob cust\u00f3dia para ser interrogado no aeroporto de S\u00e3o Paulo. A imprensa, informada de antem\u00e3o, estava esperando do lado de fora para invadir com suas c\u00e2meras, esperando obter o m\u00e1ximo de publicidade. O pretexto para todo esse show \u00e9 de que se Lula fosse convidado a dar esclarecimentos, ele poderia ter se recusado. Na semana seguinte, a maior manifesta\u00e7\u00e3o no Brasil ap\u00f3s a Ditadura \u2013 de acordo com a pol\u00edcia, com 3,7 milh\u00f5es de pessoas nas ruas \u2013 clamou por justi\u00e7a contra Lula e impeachment para Dilma. Tr\u00eas dias depois, Dilma apontou Lula como \u2018chefe da Casa Civil\u2019 de seu governo \u2013 algo equivalente a um Primeiro Ministro. Como ministro, Lula teria imunidade perante as acusa\u00e7\u00f5es de Moro em Curitiba, possibilitando que ele, assim como os demais membros do governo, respondesse somente ao Supremo Tribunal. Moro n\u00e3o perdeu tempo. Na mesma tarde, ele publicou as grava\u00e7\u00f5es de uma conversa telef\u00f4nica entre Lula e Dilma, na qual ela disse a ele que mandaria os pap\u00e9is necess\u00e1rios para que ele assinasse e assumisse, \u201cse necess\u00e1rio\u201d. Sua fala foi amb\u00edgua. Mas o esc\u00e2ndalo midi\u00e1tico foi ensurdecedor: aqui, pega com a boca na botija, estava uma manobra para fugir da Justi\u00e7a e salvar Lula, deixando-o longe do alcance da lei. Dentro de 24 horas, um juiz em Bras\u00edlia impediu a nomea\u00e7\u00e3o \u2013 um juiz que, como se soube mais tarde, havia postado imagens nas redes sociais de quando ele estava nas manifesta\u00e7\u00f5es pelo impeachment, ostentando alegremente uma camiseta do PSDB. Mas esse juiz rapidamente foi apoiado por Gilmar Mendes e, naquela mesma noite, o PMDB anunciou que estava saindo do governo, no qual ele controlava a vice-presid\u00eancia e outros seis minist\u00e9rios, pavimentando o caminho para uma r\u00e1pida deposi\u00e7\u00e3o de Dilma no Congresso.<\/p>\n<p>Nessa dram\u00e1tica escalada da crise pol\u00edtica, o protagonista central era o Judici\u00e1rio. A no\u00e7\u00e3o de que a opera\u00e7\u00e3o de Moro estava agindo de forma imparcial em Curitiba, inicialmente defens\u00e1vel, acabou sendo prejudicada com a cobertura gratuita e espetaculosa da imprensa sobre a condu\u00e7\u00e3o coercitiva de Lula, o que acabou ainda sendo seguida por uma mensagem p\u00fablica saudando as manifesta\u00e7\u00f5es a favor do impeachment: \u201co Brasil est\u00e1 nas ruas\u201d, anunciou o juiz. \u201cSinto-me tocado\u201d. Contudo, ao publicar as grava\u00e7\u00f5es da conversa entre Lula e Dilma, horas depois do grampo ter sido anulado pela Justi\u00e7a, ele violou a lei duas vezes: violou o sigilo das intercepta\u00e7\u00f5es, ainda que fosse permitido o grampo, e sem falar tamb\u00e9m no princ\u00edpio da confidencialidade que supostamente protegia as comunica\u00e7\u00f5es da chefe do Executivo. Ficou t\u00e3o evidente que essas coisas eram ilegalidades que logo Moro foi repreendido pelo juiz do Supremo respons\u00e1vel por Moro, mas sem qualquer san\u00e7\u00e3o efetiva. Ainda que \u201cinapropriado\u201d, seu superior notou delicadamente que a a\u00e7\u00e3o do juiz havia atingido seu objetivo.<\/p>\n<p>Na maioria das democracias contempor\u00e2neas, a separa\u00e7\u00e3o dos poderes \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o bem-educada, com os Supremos Tribunais \u2013 no que o caso americano \u00e9 uma importante exce\u00e7\u00e3o \u2013 curvando-se perante os governos. Os contorcionismos do Tribunal Constitucional Alem\u00e3o \u2013 geralmente visto como exemplo de independ\u00eancia judicial \u2013 ao sustentar as viola\u00e7\u00f5es do pa\u00eds tanto noGrundgesetz e no Tratado de Maastricht e favorecer os diferentes regimes de Berlim pode ser visto como uma norma geral. No Brasil, a politiza\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o long\u00ednqua. A figura inveross\u00edmil de Gilmar Mendes \u00e9 talvez um caso extremo, ainda que seja revelador. Como presidente, Fernando Henrique Cardoso defendeu seu amigo de acusa\u00e7\u00f5es criminais ao lhe promover como Ministro antes de elev\u00e1-lo ao STF \u2013 e Mendes agora se volta contra Dilma por ela fazer o mesmo com Lula. Ao coloc\u00e1-lo no posto e tentando evitar chamar aten\u00e7\u00e3o, FHC entrava pelo pr\u00e9dio sorrateiramente pelo edif\u00edcio da garagem, encontrando Mendes no estacionamento. Bastante militante em rela\u00e7\u00e3o ao PSDB \u2013 \u2018tucano demais\u2019, considerando que a ave \u00e9 o s\u00edmbolo do partido \u2013 at\u00e9 mesmo para Eliane Catanh\u00eade, uma respeit\u00e1vel jornalista de direita, Mendes geralmente era visto almo\u00e7ando com proeminentes l\u00edderes do partido ap\u00f3s ter sido absolvido das acusa\u00e7\u00f5es e o juiz n\u00e3o hesitou em utilizar dinheiro p\u00fablico para \u2018alistar\u2019 seus subordinados a partir de uma escola privada de advocacia que ele possui, algo feito enquanto ele j\u00e1 era juiz no maior tribunal da na\u00e7\u00e3o. Seus ataques contra o PT s\u00e3o constantes.<\/p>\n<p>Sergio Moro, por sua vez, \u00e9 de uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem e vinho de outra pipa. Os Estados Unidos, pa\u00eds que ele visita com regularidade, \u00e9 sua principal refer\u00eancia. Um sujeito trabalhador e provinciano, ele considera que nada deve aos sistemas de patronagem e compadrio. Mas vale destacar que, quando Moro tinha pouco mais de 30 anos, ele demonstrou tamb\u00e9m sua indiferen\u00e7a com os princ\u00edpios b\u00e1sicos das leis e das regras num artigo exaltando o exemplo dos magistrados italianos nos anos 1990, \u201cConsidera\u00e7\u00f5es sobre a Opera\u00e7\u00e3o Mani Pulite\u201d, nos termos que antecipariam seus procedimentos uma d\u00e9cada depois. Recusando-se a pesquisar na literatura mais extensiva sobre a Tagentopoli, ele utilizou somente duas eulogias feitas pela equipe de Mil\u00e3o e que foram traduzidos para o ingl\u00eas, citados sem qualquer dose de reflex\u00e3o cr\u00edtica, inclusive confiando no depoimento de um chefe da m\u00e1fia que vivia com um sal\u00e1rio do Estado enquanto delator, ainda que ele tenha sido rejeitado pela corte. A presun\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia n\u00e3o poderia ser tida como \u2018absoluta\u2019, tal como ele declarara: ela era apenas um \u2018instrumento pragm\u00e1tico\u2019 que poderia ser desfeita de acordo com a vontade do magistrado. Ele celebrou os vazamentos seletivos para a m\u00eddia como forma de \u2018press\u00e3o sobre os acusados\u2019, usados quando \u2018os meios leg\u00edtimos n\u00e3o podem ser atingidos por outros m\u00e9todos\u2019.<\/p>\n<p>O perigo de ter um Judici\u00e1rio atuando nesse esp\u00edrito \u00e9 o mesmo no Brasil do que foi na It\u00e1lia: uma campanha absolutamente necess\u00e1ria contra a corrup\u00e7\u00e3o se torna t\u00e3o infectada com o desd\u00e9m pelo devido processo, com um conluio t\u00e3o inescrupuloso com a m\u00eddia, que ao inv\u00e9s de instalar qualquer nova \u00e9tica de legalidade, ela acaba confirmando o longo desrespeito social pela lei. Berlusconi e seus herdeiros s\u00e3o a prova viva disso. Todavia, a cena no Brasil se difere da situa\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia por dois aspectos. N\u00e3o h\u00e1 nem Berlusconi ou Rinzi no horizonte brasileiro. Moro, cuja celebridade agora excede qualquer um dos seus modelos italianos, sem d\u00favida est\u00e1 sendo solicitado para suprir o vazio pol\u00edtico, caso a Lava-jato fa\u00e7a de fato uma limpeza sobre a velha ordem. Mas o med\u00edocre destino de Antonio di Pietro, o mais popular dos magistrados de Mil\u00e3o, pode ser lido como um aviso para Moro, por mais puritana que seja a sua apar\u00eancia, evitar a tenta\u00e7\u00e3o de envolver-se na pol\u00edtica. O espa\u00e7o para uma ascens\u00e3o mete\u00f3rica tamb\u00e9m tende a ser menor, pois h\u00e1 uma diferen\u00e7a crucial entre as duas cruzadas contra a corrup\u00e7\u00e3o. O assalto feito pela Tagentopoli foi direcionado contra os principais partidos do pa\u00eds, a Democracia Crist\u00e3 e o Partido Socialista, que estiveram no poder durante trinta anos. A Lava-jato, por sua vez, n\u00e3o parece estar focada nos partidos tradicionais do poder pol\u00edtico no Brasil que, diga-se de passagem, est\u00e3o bastante divididos, mas sim nos sistemas que possibilitaram que eles chegassem l\u00e1. Nesse ponto, ela parece mirar somente num alvo e, sendo assim, mais manipuladora.<\/p>\n<p>Tal manipula\u00e7\u00e3o pode ser acentuada naquilo que se considera como a segunda diferen\u00e7a entre a It\u00e1lia dos anos 1990 e o Brasil de hoje. Quando a Tagentopoli atingiu o sistema pol\u00edtico, a m\u00eddia italiana formou um cen\u00e1rio homog\u00eaneo. Jornais independentes passaram a apoiar o Judici\u00e1rio de Mil\u00e3o em toda parte. O chefe do conglomerado midi\u00e1tico do Olivetti, De Benedetti, cujo jornal recebeu a maior parte dos vazamentos, acusou duramente os democratas crist\u00e3os e socialistas ao mesmo tempo em que ficou quieto sobre as implica\u00e7\u00f5es em outros partidos. O imp\u00e9rio de jornais e televis\u00e3o de Berlusconi enalteceu e instigou os magistrados. E o resultado foi que, com o passar do tempo, havia ainda mais questionamentos sobre as a\u00e7\u00f5es de diferentes esferas do Judici\u00e1rio \u2013 muitas delas bastante corajosas, enquanto outras eram mais d\u00fabias \u2013 do que no Brasil. Ali a m\u00eddia tem sido bastante monol\u00edtica e partid\u00e1ria em sua hostilidade anti-PT e nada cr\u00edtica quanto \u00e0 estrat\u00e9gia de vazamentos e press\u00f5es vindas de Curitiba, do qual a imprensa age como sua porta-voz. O Brasil possui alguns dos melhores jornalistas do mundo, cujos textos vem analisando a atual crise num n\u00edvel intelectual e liter\u00e1rio que vai al\u00e9m do que fazem o Guardian ou o New York Times. Mas tais vozes s\u00e3o sufocadas por uma enorme floresta de conformistas que nada mais fazem do que ecoar as vis\u00f5es de patrocinadores e editores.<\/p>\n<p>Comparar a cobertura da m\u00eddia sobre qualquer vazamento que prejudique o PT com o tratamento dado \u00e0s informa\u00e7\u00f5es ou rumores que afetam a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de medir a extens\u00e3o da sua pol\u00edtica de dois pesos e duas medidas. Enquanto a Lava-jato estava se desenrolando, veio \u00e0 tona um pujante exemplo. Em 1989, num dos mais famosos momentos decisivos da hist\u00f3ria moderna brasileira, Lula \u2013 que na \u00e9poca era visto como um perigoso radical pelas elites \u2013 estava perto de assegurar uma vit\u00f3ria em sua primeira corrida presidencial, quando dias antes da elei\u00e7\u00e3o, uma ex-namorada sua apareceu na televis\u00e3o em nome de Collor, paga pelo pr\u00f3prio irm\u00e3o de Collor, acusando Lula de querer que ela abortasse de um filho de ambos. Aquele momento, amplificado at\u00e9 o limite pela m\u00eddia, foi fundamental na sua derrota eleitoral. Dois anos depois, Cardoso \u2013 na \u00e9poca um proeminente senador do PSDB, j\u00e1 cotado como futuro candidato \u00e0 presid\u00eancia \u2013 ficou conhecido no meio pol\u00edtico por ter uma amante trabalhando na mesma rede de televis\u00e3o que prejudicou a campanha de Lula, a TV Globo. Quando ela teve um filho do ex-senador, ela saiu do pa\u00eds e foi mandada para Portugal. Em meados de 1994, depois de ter sido Ministro da Fazenda, Cardoso estava disputando a presid\u00eancia e o trabalho dela passou a ser somente nominal, ainda que a Globo seguisse pagando seu sal\u00e1rio. T\u00e3o logo FHC foi eleito, seu bra\u00e7o direito, o jovem Magalh\u00e3es, instruiu ela a n\u00e3o retornar para o Brasil por medo de comprometer sua reelei\u00e7\u00e3o. Quando a Globo a tirou da folha de pagamento, um trabalho ficcional foi feito para ela, fazendo pesquisas de mercado na Europa para uma cadeia de lojas duty-free que recebera do pr\u00f3prio FHC direitos monopol\u00edsticos nos aeroportos brasileiros. Por meio dessa firma, ela teria lavado cerca de cem mil d\u00f3lares via uma conta banc\u00e1ria nas Ilhas Cayman \u2013 teria sido pens\u00e3o aliment\u00edcia ou suborno para ficar calada? A hist\u00f3ria veio \u00e0 tona em fevereiro, em meio ao furac\u00e3o das den\u00fancias sobre as reformas no s\u00edtio de Lula. A m\u00eddia fez de tudo para que isso recebesse o m\u00ednimo poss\u00edvel de cobertura. A firma agora est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o por transa\u00e7\u00e3o criminosa. Cardoso protesta sua inoc\u00eancia. E ningu\u00e9m espera que ele sofra qualquer inconveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que isso pode ser generalizado para toda a oposi\u00e7\u00e3o? Moro lan\u00e7ou seus grampos incendi\u00e1rios no dia 16 de mar\u00e7o. Uma semana depois, a pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo invadiu a casa de um dos executivos da Odebrecht, a maior empreiteira da Am\u00e9rica Latina, cujo diretor rec\u00e9m havia sido sentenciado por 19 anos pelo crime de suborno. Na casa os policiais encontraram uma lista com 316 pol\u00edticos com quantias de dinheiro ligadas aos seus nomes. Estavam inclusas figuras tradicionais do PSDB, do PMDB e de v\u00e1rios outros partidos \u2013 um verdadeiro panorama da classe pol\u00edtica brasileira. Objetivamente falando, essa lista produzia muito mais barulho do que a conversa entre Lula e Dilma. Mas era um barulho menos conveniente: diretamente de Curitiba, Moro rapidamente tomou uma posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, ordenando que as listas fossem colocadas sob sigilo para impedir qualquer especula\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o alarme havia soado: a Lava-jato poderia sair do controle. Se Dilma tinha que cair, era preciso faz\u00ea-lo antes que as listas da Odebrecht pudessem amea\u00e7ar seus pr\u00f3prios acusadores. Poucos dias depois, o PMDB anunciara que abandonava o governo e come\u00e7aria uma contagem de votos a favor do impeachment. Os 3\/5 de votos necess\u00e1rios na C\u00e2mara dos Deputados, algo que parecia muito dif\u00edcil de atingir no in\u00edcio das discuss\u00f5es, agora estava mais perto do alcance. A opini\u00e3o p\u00fablica passou a perceber a farsa de um Congresso cheio de ladr\u00f5es, tendo Cunha \u00e0 sua frente, solenemente derrubando uma presidente por crime de responsabilidade fiscal.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as chances de Dilma resistir a esse desfecho e as perspectivas caso o impeachment n\u00e3o aconte\u00e7a? As esperan\u00e7as do Planalto residem em duas conting\u00eancias: de que com suficiente apoio no Congresso se possa bloquear o impeachment, oferecendo assim mais minist\u00e9rios e cargos para partidos menores que n\u00e3o conseguiriam acesso ao governo antes, visando com isso reverter a sa\u00edda do PMDB; e a outra, de que com muitas manifesta\u00e7\u00f5es em defesa do governo possam desestimular as grandes manifesta\u00e7\u00f5es feitas a favor do impeachment. Ambos objetivos exigem o retorno de Lula para Bras\u00edlia, de onde ele poderia \u2013 ainda que lhe seja negado o direito de ocupar formalmente o minist\u00e9rio \u2013 informalmente cumprir ambas tarefas que lhe foram atribu\u00eddas, ou seja, de aproximar-se de deputados relutantes para o campo governista e de estimular o apoio popular vindo das ruas. Mas o cen\u00e1rio est\u00e1 mudando e isso tudo parece cada vez mais distante. As rela\u00e7\u00f5es entre Lula e Dilma se fragilizaram desde que ela optou pela austeridade ap\u00f3s sua reelei\u00e7\u00e3o. Culpando-a pela falta de habilidade pol\u00edtica e pela sua recusa em aceitar conselhos, Lula falaria, no \u00e2mbito privado, que \u201cela foi minha Chefe da Casa Civil e ela ainda age como uma, e n\u00e3o como uma presidente\u201d, ou ent\u00e3o que \u201cela \u00e9 como se fosse a minha filha, que sempre diz pra mim que me ama, mas nunca presta aten\u00e7\u00e3o no que eu falo pra ela\u201d. Mas \u00e9 duvidoso se faria alguma diferen\u00e7a a flexibilidade t\u00e1tica, ainda que importante, diante das dificuldades enfrentadas por ela. Desde o in\u00edcio, sua segunda presid\u00eancia foi pega em um c\u00edrculo vicioso de esc\u00e2ndalos pol\u00edticos e indicadores econ\u00f4micos deteriorados, cuja intera\u00e7\u00e3o forma um obst\u00e1culo nada f\u00e1cil de superar para recuperar sua autoridade. O problema da Petrobr\u00e1s, com in\u00fameras dela\u00e7\u00f5es, vem gerando demiss\u00f5es em massa de trabalhadores; o mesmo vem acontecendo com as empreiteiras cujos diretores e executivos est\u00e3o na cadeia. A incerteza sobre onde soprar\u00e1 a Lava-jato tem feito os investidores mais temerosos e deixado o mercado financeiro assustado: em novembro, o chefe do fundo bilion\u00e1rio BTG-Pactual, o maior banco de investimento do continente, a menina dos olhos do Financial Times e do Economist, foi levado algemado para a delegacia. No Congresso, o corte de gastos neoliberal e o aumento tribut\u00e1rio proposto pelo governo foi derrubado pelo pr\u00f3prio neoliberal PSDB, buscando criar todo um constrangimento pol\u00edtico: o or\u00e7amento de 2016 sequer foi aprovado. Mesmo que um virtuoso trabalho de base feito nos corredores do poder possa conseguir colocar temporariamente o impeachment em xeque, ele n\u00e3o conseguiria resolver o tem\u00edvel impasse do atual governo.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o popular para impedir a sa\u00edda de Dilma, da forma como est\u00e1 pensada, tamb\u00e9m tem problemas. Mas isso est\u00e1 conectado diretamente aos legados dos governos do PT. O partido est\u00e1 numa fr\u00e1gil posi\u00e7\u00e3o para convocar seus benefici\u00e1rios para defende-lo por pelo menos tr\u00eas raz\u00f5es. A primeira \u00e9 simplesmente porque se a corrup\u00e7\u00e3o fez com que a classe m\u00e9dia perdesse a simpatia que o partido antes desfrutou, a austeridade alienou a base de classes populares que tinham conquistado. As manifesta\u00e7\u00f5es feitas para impedir o impeachment foram, at\u00e9 agora, muito menos impressionantes do que aquelas feitas por aqueles que querem que ele aconte\u00e7a. Os manifestantes t\u00eam sido arregimentados principalmente entre funcion\u00e1rios p\u00fablicos e sindicatos: os pobres ainda n\u00e3o t\u00eam comparecido nessas manifesta\u00e7\u00f5es. A for\u00e7a rural do Nordeste onde o PT se consolidou est\u00e3o ainda socialmente dispersos, enquanto as grandes cidades do Sul e Sudeste s\u00e3o as fortalezas da nova direita no momento. H\u00e1 tamb\u00e9m a inevit\u00e1vel desmoraliza\u00e7\u00e3o do partido conforme sucessivos esc\u00e2ndalos surgem com o seu nome, criando um sentido de culpa coletiva difusa, ainda que n\u00e3o expl\u00edcita, mas que enfraquece qualquer esp\u00edrito de luta. E por fim, mas fundamentalmente, na \u00e9poca que Lula chegou ao poder, o partido tornou-se uma m\u00e1quina eleitoral, financiada principalmente por doa\u00e7\u00f5es de grandes corpora\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de \u2013 como ele era em seu in\u00edcio \u2013 pelas doa\u00e7\u00f5es de membros e simpatizantes, com eles inclusive aderindo passivamente ao nome de seu l\u00edder, sem qualquer vontade de construir uma a\u00e7\u00e3o coletiva com os eleitores. A mobiliza\u00e7\u00e3o ativa que fez o PT ser uma for\u00e7a nas regi\u00f5es urbanas e industriais do Brasil tornou-se uma mem\u00f3ria distante conforme o partido passou a ganhar for\u00e7a em regi\u00f5es sem ind\u00fastrias, enraizadas numa tradi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o \u00e0 autoridade e medo da desordem. Isso foi uma cultura pol\u00edtica entendida por Lula e que ele n\u00e3o fez nenhuma tentativa s\u00e9ria de termina-la. Segundo sua pr\u00f3pria vis\u00e3o, ele considerava que mudar isso teria um custo potencial alto demais. Para ajudar as massas ele buscou harmonia com as elites, para as quais qualquer polariza\u00e7\u00e3o vigorosa era um tabu. Em 2002 ele finalmente ganhou a presid\u00eancia, na sua quarta tentativa, com um slogan de \u201cpaz e amor\u201d. Em 2016, diante de um linchamento pol\u00edtico, ele ainda seguiu falando essas palavras para uma multid\u00e3o que esperava por algo mais combativo.<\/p>\n<p>Tal descompasso entre partir para o ataque e o discurso de responsabilidade \u00e9 uma marca comum de um padr\u00e3o que, desde a virada do s\u00e9culo, vem distinguindo a pol\u00edtica do Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina. O pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que viu um conflito de classes se tornar uma crise. Mas em nenhum lugar isso foi t\u00e3o unilateral como no Brasil. Mesmo quando Lula estava no auge de seu prest\u00edgio enquanto estava na presid\u00eancia, sempre houve uma assimetria entre as pol\u00edticas moderadas e comodistas do PT e a hostilidade de uma classe m\u00e9dia enrag\u00e9 e da m\u00eddia contra ele. Nos \u00faltimos dezoito meses, essa express\u00e3o de abomina\u00e7\u00e3o unilateral se tornou ainda mais violenta. Um vereador [Roberval Fraiz, de Araraquara] do PMDB no interior de S\u00e3o Paulo falou publicamente que Lula deveria ser morto como uma cobra, tendo que pisar em sua cabe\u00e7a. No Rio Grande do Sul, no Sul do pa\u00eds, uma pediatra se recusou a atender uma crian\u00e7a de um ano porque a m\u00e3e era uma \u2018petista\u2019, e foi absolvida de infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica pelo Conselho Regional de Medicina e pela Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos. O juiz do Supremo Tribunal, Teori Zavascki, respons\u00e1vel por ter repreendido Moro, foi presenteado com uma s\u00e9rie de faixas e cartazes que o chamavam de \u201ctraidor\u201d e \u201cpilantra do PT\u201d, enquanto manifestantes cantavam sua can\u00e7\u00e3o s\u00edmbolo que fala que o \u201ccapitalismo veio pra ficar\u201d. Conforme aproxima-se do Dia D do impeachment, os militantes fan\u00e1ticos v\u00eam recebendo endere\u00e7os de deputados indecisos ao redor do pa\u00eds e intimidando-os, acampando em frente de suas casas. Meticulosamente deve-se dizer que o mercado de a\u00e7\u00f5es vem mantendo um ritmo: ele subiu quando Lula foi preso, caiu quando ele foi feito ministro e subindo novamente quando a sua posse foi impedida.<\/p>\n<p>Um golpe teatral (um coup de th\u00e9\u00e2tre) ainda \u00e9 poss\u00edvel, com uma virada de eventos salvando Dilma no \u00faltimo minuto, mesmo que n\u00e3o pare\u00e7a que isso ir\u00e1 acontecer. A maior probabilidade \u00e9 de que se forme um regime liderado pelo vice-presidente que a abandonou, o veterano sepulcral do PMDB \u2013 comparado com o mordomo de um filme de terror \u2013 Michel Temer. De fala mansa e cerimonioso, ele preparou o caminho alguns meses atr\u00e1s, criando um programa para deixar claro que o pa\u00eds estaria seguro assim que ele assumisse. Seu pacote trata-se de um plano de estabiliza\u00e7\u00e3o convencional, agilizando privatiza\u00e7\u00f5es, reforma da previd\u00eancia e abolindo os gastos mandat\u00f3rios constitucionais em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, acompanhados de promessas de cuidar dos menos afortunados. Se Dilma sofrer o impeachment, tendo uma maioria de 3\/5 do Congresso lhe apoiando, Temer n\u00e3o teria nenhum problema em formar um governo de coaliz\u00e3o junto com PMDB, PSDB e uma grande quantidade de partidos nanicos, colocando uma pitada de tecnocratas em minist\u00e9rios centrais. J\u00e1 que tal combina\u00e7\u00e3o poderia passar uma s\u00e9rie de leis, \u00e0s quais Dilma n\u00e3o pode, e isso garantiria o retorno da confian\u00e7a do mercado, isso certamente traria melhorias aos indicadores econ\u00f4micos feitos pelos mercados financeiros, n\u00e3o importa o quanto isso custaria aos pobres. Mas dada a conjuntura global adversa e a teimosa baixa taxa de investimentos que persiste no Brasil desde o fim da Ditadura, \u00e9 dif\u00edcil ver qualquer al\u00edvio para o pa\u00eds num horizonte futuro.<\/p>\n<p>Politicamente tamb\u00e9m a estabilidade n\u00e3o estaria garantida. Uma quest\u00e3o \u00f3bvia que surge \u00e9 se ser\u00e1 que o choque do impeachment ir\u00e1 sufocar o que resta do esp\u00edrito de luta daqueles que apoiam Dilma, ou o contr\u00e1rio, ou seja, que isso provoque uma resist\u00eancia ainda mais feroz contra as elites do pa\u00eds. Ambas alternativas n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis para a fileira dos vitoriosos \u2013 se eles de fato conseguirem o impeachment da presidenta. Um juiz do Supremo Tribunal Federal ordenou que Cunha tamb\u00e9m colocasse em vota\u00e7\u00e3o o impeachment de Temer, usando da mesma refer\u00eancia legal do impeachment da Dilma, j\u00e1 que quando ela estava fora do pa\u00eds, ele tamb\u00e9m assinou os decretos de responsabilidade fiscal que s\u00e3o atribu\u00eddos a ela \u2013 algo que pegaria desprevenido aqueles que querem derrub\u00e1-la e esperam instalar Temer como presidente rapidamente. Caso esse ataque seja evitado, outro curioso problema se avizinha. Ainda est\u00e1 pendente no Supremo Tribunal Eleitoral uma acusa\u00e7\u00e3o de que a campanha de 2014 de Dilma e Temer violaram o regulamento eleitoral, uma acusa\u00e7\u00e3o trazida pelo PSDB quando ainda esperava for\u00e7ar uma situa\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es. Se levada adiante, a a\u00e7\u00e3o derrubaria ambos. O processo n\u00e3o pode mais ser retirado e seria um constrangimento se o impeachment de Dilma fosse concretizado e Temer tomasse o poder. Mas desde que Gilmar Mendes torne-se presidente do<\/p>\n<p>\u200bTribunal Superior Eleitoral<br \/>\nem maio, a Justi\u00e7a brasileira provavelmente superar\u00e1 essa quest\u00e3o sem dificuldade. Mas, claro, uma interroga\u00e7\u00e3o maior surge sobre qual o impacto subsequente que a Lava-jato poderia ter sobre os deputados pr\u00f3-impeachment. Acelerar o procedimento do impeachment serviu para desviar os olhares da opini\u00e3o p\u00fablica sobre a lista da Odebrecht. Mas essas listas podem ser apagadas da consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o impeachment? Dentro de suas fileiras, toda a classe pol\u00edtica est\u00e1 em risco. Ser\u00e1 que a Justi\u00e7a brasileira tamb\u00e9m poderia minimizar essa dificuldade, nos interesses, digamos, de uma reconcilia\u00e7\u00e3o nacional?<\/p>\n<p>Que o Partido dos Trabalhadores tenha se juntado, por uma transforma\u00e7\u00e3o ocorrida internamente, \u00e0s deformadas fileiras do resto da fauna pol\u00edtica brasileira \u2013 PMDB, PSDB, PP e o restante da corja \u2013 n\u00e3o pode ser negado. At\u00e9 agora, dois presidentes do partido, dois tesoureiros, um presidente e um vice-presidente da C\u00e2mara dos Deputados e o l\u00edder do partido no Senado foram todos presos, afundados na lama da corrup\u00e7\u00e3o que desconhece fronteiras pol\u00edticas. De forma emblem\u00e1tica, o \u00faltimo dos not\u00e1veis e com a dela\u00e7\u00e3o mais volumosa, o senador Delc\u00eddio do Amaral era um refugiado do PSDB, uma importante engrenagem do partido de FHC nas opera\u00e7\u00f5es da Petrobr\u00e1s. Mais da metade do Congresso est\u00e1 na lista de pagamento das empreiteiras, cujas doa\u00e7\u00f5es financiam suas campanhas eleitorais. A degrada\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico se tornou t\u00e3o evidente que no outono passado o STF \u2013 que est\u00e1 longe de ser algum tipo de are\u00f3pago da integridade imparcial \u2013 finalmente decidiu que o financiamento privado de campanha era mat\u00e9ria inconstitucional e proibiu as empresas de doarem para as campanhas. O Congresso imediatamente reagiu com emendas constitucionais para permitir as doa\u00e7\u00f5es, mas o assunto segue congelado na C\u00e2mara. Se confirmada a decis\u00e3o do Supremo sem ser driblada, a decis\u00e3o permitir\u00e1 uma esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o no funcionamento da democracia brasileira: a \u00fanica coisa inequivocamente positiva em meio a toda essa crise.<\/p>\n<p>O Partido dos Trabalhadores acreditou, durante determinado per\u00edodo, que ele poderia se valer da ordem institucional brasileira para beneficiar os pobres sem prejudicar os ricos \u2013 e at\u00e9 mesmo contando com a ajuda deles. E de fato houve benef\u00edcios aos pobres, tal como eles se propuseram. Mas uma vez aceite o pre\u00e7o de entrar num sistema pol\u00edtico moribundo, a porta para voltarem atr\u00e1s fechou-se. O pr\u00f3prio partido passou a definhar, tornando-se um enclave do Estado, sem qualquer autocr\u00edtica ou dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, t\u00e3o cego que chegou a ostracizar Andr\u00e9 Singer, seu melhor pensador, para colocar uma mistura de marqueteiros e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tornando-se t\u00e3o insens\u00edveis que passaram a conceber o lucro, n\u00e3o importa de onde viesse, como condi\u00e7\u00e3o para o poder pol\u00edtico. Suas conquistas ainda permanecer\u00e3o. Mas se o partido ter\u00e1 o mesmo destino, isso \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto. Na Am\u00e9rica do Sul, um ciclo est\u00e1 chegando ao fim. Por uma d\u00e9cada e meia, sem a press\u00e3o direta dos Estados Unidos, fortalecidos pelo boom das commodities, e amparando-se em grandes reservas de tradi\u00e7\u00e3o popular, o continente foi a \u00fanica parte do mundo em que movimentos sociais rebeldes coexistiram com governos heterodoxos. No despertar de 2008, h\u00e1 agora cada vez mais desses movimentos. Mas n\u00e3o h\u00e1 mais nenhum desses governos. Uma exce\u00e7\u00e3o global est\u00e1 chegando ao seu fim e sem nenhum sinal de mudan\u00e7a positiva no horizonte.<\/p>\n<p>*Perry Anderson, historiador ingl\u00eas e Professor da UCLA nos Estados Unidos, foi editor da New Left Review.<\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o de abril da London Review of Books e em: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/ 2016\/04\/21\/perry-anderson-a- crise-no-brasil\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Pureza<\/p>\n<blockquote data-secret=\"XpJJzJ1c4E\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4000\">7\u00ba Congresso da CONTAC &#8211; Jo\u00e3o Pedro Stedile &#8211; Dia 29.11 &#8211; Com o tema :Soberania Alimentar<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4000\/embed#?secret=XpJJzJ1c4E\" data-secret=\"XpJJzJ1c4E\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;7\u00ba Congresso da CONTAC &#8211; Jo\u00e3o Pedro Stedile &#8211; Dia 29.11 &#8211; Com o tema :Soberania Alimentar&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Perry Anderson* &#8211; O Diario. 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