{"id":10953,"date":"2016-05-03T16:38:21","date_gmt":"2016-05-03T19:38:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10953"},"modified":"2016-05-20T20:50:40","modified_gmt":"2016-05-20T23:50:40","slug":"dirigimo-nos-para-um-governo-chantagista-que-vai-implantar-o-programa-da-grande-rapinagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10953","title":{"rendered":"\u201cDirigimo-nos para um governo chantagista que vai implantar o programa da grande rapinagem\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/blogdonpc.files.wordpress.com\/2009\/11\/dsc_0147.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Escrito por Gabriel Brito, da Reda\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O Senado j\u00e1 aprecia o processo de impeachment de Dilma, que por sua vez parece se concentrar em promover gestos finais de despedida, em especial por conta de envios de projetos de lei de vi\u00e9s progressista que jamais estiveram em pauta quando a vida parecia normal. De toda forma, continuam obscuros alguns pontos que ativaram a ofensiva dos setores dominantes pelo fim de seu mandato e, ao passo que os alguns l\u00edderes discutem o eventual governo de transi\u00e7\u00e3o, o Correio publica entrevista com a historiadora Virg\u00ednia Fontes.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cTem algo muito estranho na origem do processo que deve nos deixar em alerta, pois a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 completamente clara. Parece que h\u00e1 tens\u00f5es em setores dominantes. Tens\u00f5es entre o \u2018clube do milh\u00e3o\u2019 e o \u2018clube do bilh\u00e3o\u2019, uma vez que as estruturas representativas do setor empresarial s\u00e3o muito mais voltadas ao primeiro do que ao pequeno grupo de grandes empresas bilion\u00e1rias, constitu\u00eddas desde o processo de privatiza\u00e7\u00f5es da era FHC. E n\u00e3o est\u00e1 claro o que tudo isso significa\u201d, disse.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Virg\u00ednia afirma que est\u00e1 na ordem do dia o desafio de uma melhor interpreta\u00e7\u00e3o a respeito das caracter\u00edsticas regionais das diversas fra\u00e7\u00f5es da burguesia brasileira, o que ajuda a explicar a primazia do PMDB na media\u00e7\u00e3o do jogo de interesses que costuma excluir os interesses das maiorias das grandes decis\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cO PMDB assume centralidade diante da impot\u00eancia do PT em ser de fato um partido de esquerda e do PSDB de ser algo al\u00e9m de express\u00e3o regional de uma certa burguesia, enclausurada em S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e um peda\u00e7o do Paran\u00e1, enquanto as burguesias brasileiras s\u00e3o mais amplas. Temos o desafio de entender a regionaliza\u00e7\u00e3o da grande burguesia, as estrat\u00e9gias das suas estruturas representativas e o fato de que seu conjunto tenha adotado todos os partidos ao longo dos anos\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de explorar a quest\u00e3o das disputas intercapitalistas, nacionais e internacionais, Virg\u00ednia n\u00e3o deixou de abominar o que considera um aut\u00eantico golpe \u2013 a seu ver j\u00e1 consumado na pr\u00e1tica \u2013 marcado pelo \u201cespet\u00e1culo inadmiss\u00edvel\u201d da vota\u00e7\u00e3o dos deputados em 17 de abril. Por fim, enfatiza que abrem-se as porteiras para um ciclo de explora\u00e7\u00e3o capitalista praticamente sem limites e leis.<\/p>\n<p>\u201cEstamos nos dirigindo para um governo capitaneado por um grupo chantagista que vai implementar o programa da grande rapinagem com um acordo frouxo, por enquanto, dos outros partidos da direita. E tais partidos (incluindo da atual oposi\u00e7\u00e3o) ir\u00e3o aderir na medida em que a rapinagem for aplicada. Mas tenho absoluta certeza de que a massa da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o aguenta mais suportar o que suportou\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>A entrevista completa com a historiadora Virginia Fontes pode ser lida a seguir.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como avalia a situa\u00e7\u00e3o do Brasil e em especial da presidente Dilma ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o do processo de impeachment na C\u00e2mara dos Deputados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Avalio ser uma situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima, vivemos efetivamente um golpe, embora n\u00e3o seja exatamente como se explica em alguns casos. Significa, fundamentalmente, uma interven\u00e7\u00e3o de uma C\u00e2mara dos Deputados dominada por um grupo extremamente complicado, com processos nas costas e irritados uns com os outros, a avan\u00e7ar sobre o voto popular. N\u00e3o tenho d\u00favidas disso. Tal processo n\u00e3o come\u00e7a na vota\u00e7\u00e3o do impeachment, mas em meados de mar\u00e7o, quando ficam evidentes as formas seletivas de interfer\u00eancia tanto do judici\u00e1rio como nas decis\u00f5es do legislativo. Portanto, um momento grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>Esse momento grav\u00edssimo, a meu ver, n\u00e3o tem uma raz\u00e3o disparadora clara. Por que raz\u00e3o come\u00e7a se a grande burguesia brasileira foi absolutamente contemplada ao longo dos governos Lula e Dilma \u2013 em seu segundo, ainda mais? Se n\u00e3o tem resposta imediata, tal quest\u00e3o n\u00e3o pode ficar obscurecida, porque os fatores disparadores imediatos s\u00e3o v\u00e1rios. Um deles \u00e9 o temor de setores da grande burguesia de irem pra cadeia. E n\u00e3o posso me furtar de dizer que a palavra de ordem da Fiesp \u00e9 a mais esquisita, ou expl\u00edcita, segundo uma leitura freudiana: \u201cn\u00e3o vamos pagar o pato\u201d significa que o empresariado brasileiro n\u00e3o o far\u00e1, mas a popula\u00e7\u00e3o sim.<\/p>\n<p>Tem algo muito estranho na origem do processo que deve nos deixar em alerta, pois a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 completamente clara. Parece que h\u00e1 tens\u00f5es em setores dominantes. Como j\u00e1 disse antes, tens\u00f5es entre o \u201cclube do milh\u00e3o\u201d e o \u201cclube do bilh\u00e3o\u201d, uma vez que as estruturas representativas do setor empresarial s\u00e3o muito mais voltadas ao primeiro do que ao pequeno grupo de grandes empresas bilion\u00e1rias, constitu\u00eddas desde o processo de privatiza\u00e7\u00f5es da era FHC. E n\u00e3o est\u00e1 claro o que tudo isso significa.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Brasil n\u00e3o est\u00e1 clara e \u00e9 muito inquietante. Outro ponto importante de mencionar \u00e9 que, na aus\u00eancia de clareza das tens\u00f5es internas entre setores burgueses, um elemento que se torna mais evidente \u00e9 que a dire\u00e7\u00e3o intelectual e moral \u2013 como diria Gramsci \u2013 do processo vem sendo conduzida por uma alian\u00e7a entre os setores mais retr\u00f3grados da sociedade e alguns mais reacion\u00e1rios, que n\u00e3o s\u00e3o exatamente retr\u00f3grados no sentido de serem herdeiros de per\u00edodos anteriores, mas coligados a setores mais reacion\u00e1rios e \u00e0 direita do cen\u00e1rio internacional e em especial \u00e0 extrema-direita dos EUA. Isso vem sendo expresso atrav\u00e9s do papel de entidades associativas do tipo Instituto Liberal e Movimento Brasil pela Democracia, cujos dirigentes s\u00e3o formados em grupos e escolas pr\u00f3ximos da extrema-direita norte-americana.<\/p>\n<p>Portanto, uma situa\u00e7\u00e3o complexa. Nem o disparador e nem os desdobramentos est\u00e3o claros. Uma situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima e de golpe, em meu ju\u00edzo.<\/p>\n<p><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong>Antes de entrarmos em outras quest\u00f5es da pol\u00edtica brasileira, o que comenta do discurso de Dilma na ONU, que evitou o uso do termo golpe e foi criticada por diversos setores que apoiam a manuten\u00e7\u00e3o do seu mandato?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>\u00c9 preciso analisar a timidez, pra dizer o m\u00ednimo, quando levamos em conta que h\u00e1 dois anos a Dilma n\u00e3o fazia discursos pol\u00edticos em \u00e2mbito internacional. N\u00e3o sei o que forma sua estrat\u00e9gia discursiva, mas n\u00e3o fez discursos de 1\u00ba de maio ou interven\u00e7\u00f5es mais pontuais em quest\u00f5es sociais grav\u00edssimas etc. A meu ver, tem a ver com a ambiguidade na qual vive o governo dirigido por ela. Foi eleita com uma plataforma e no dia seguinte adotou outra. N\u00e3o se apresenta como uma dire\u00e7\u00e3o efetivamente pol\u00edtica para a classe trabalhadora brasileira. Dilma procura se apresentar como p\u00eandulo suspenso acima das classes sociais, a procurar coordena\u00e7\u00e3o entre elas, uma posi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de sustentar por algu\u00e9m apoiado por alguma coisa que um dia se chamou Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>Portanto, a ignor\u00e2ncia da exist\u00eancia de classes sociais, a tentativa de fazer concilia\u00e7\u00e3o pelo alto e acatar exig\u00eancias do capital aceitando uma \u201cpiora menor\u201d aos setores populares geram a postura vista na ONU. Significa que n\u00e3o temos uma lideran\u00e7a expressa pela presidente Dilma, com convic\u00e7\u00e3o clara da situa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Voltando ao plano interno, como viu e sentiu o \u201cespet\u00e1culo\u201d da vota\u00e7\u00e3o do impeachment no domingo, 17 de abril? O que comenta da postura dos membros da casa legislativa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>\u00c9 lament\u00e1vel, desastroso e inadmiss\u00edvel o que aconteceu naquele dia. Na verdade, o dram\u00e1tico aconteceu pelo conjunto do processo que se desenha. Uma C\u00e2mara de Deputados sem nenhuma legitimidade, cujo presidente j\u00e1 deveria estar afastado h\u00e1 muito tempo de suas prerrogativas, faz, por uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a pr\u00f3pria, um determinado encaminhamento que \u00e9 uma afronta a qualquer processo democr\u00e1tico burgu\u00eas, por mais limitado que seja. Afronta brutal!<\/p>\n<p>A partir do momento em que tais personagens come\u00e7am a afronta, uma parcela da grande burguesia brasileira, pra n\u00e3o dizer toda, embarca nela. Tal conjunto \u00e9 constitu\u00eddo por um partido sem credibilidade, uma dire\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara sem credibilidade e uma s\u00e9rie de deputados que devem uns aos outros, em prov\u00e1veis esquemas de chantagem que deixam-nos ligados a situa\u00e7\u00f5es no m\u00ednimo envergonhantes. Tal conjunto toma a iniciativa, recebe o apoio de quase toda a classe dominante e inicia um processo altamente perigoso para a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Pra n\u00e3o falar do imenso apoio da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>Acho que qualquer pessoa com o m\u00ednimo de dignidade humana se sente enojada, afrontada. N\u00e3o \u00e9 exatamente surpresa, mas at\u00e9 que ponto \u00e9 poss\u00edvel ir o espet\u00e1culo da degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica? Talvez o caso mais exemplar seja a deputada que votou em nome do marido que no dia seguinte foi preso. E do Bolsonaro, uma afronta a qualquer democracia. Um deputado que declara voto em nome da defesa de procedimentos de tortura na ditadura. Em qualquer pa\u00eds, e olha que eu acompanho debates parlamentares de v\u00e1rios pa\u00edses, \u00e9 inadmiss\u00edvel. Foi inaceit\u00e1vel o espet\u00e1culo, em seu todo.<\/p>\n<p>O conjunto do processo de impeachment \u00e9 o conjunto do processo de golpe. E mais do que sobre a presidente Dilma, \u00e9 um golpe sobre os setores da popula\u00e7\u00e3o brasileira que consideram uma sociedade de iguais condi\u00e7\u00e3o fundamental da exist\u00eancia humana. Isso que precisamos ter claro. N\u00e3o sei se a presidente est\u00e1 de acordo com isso, acredito que n\u00e3o, ante os discursos que faz. Mas aquele golpe colocado \u00e9 contra a classe trabalhadora, contra sua auto-organiza\u00e7\u00e3o e em especial contra todas as parcelas dessa classe que tentam se organizar de forma aut\u00f4noma, independente e com clareza da luta que precisam levar.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Como avalia a postura do PMDB e alguns outros partidos outrora aliados na evolu\u00e7\u00e3o da crise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Aqui tem uma situa\u00e7\u00e3o interessante, porque o partido assumiu uma posi\u00e7\u00e3o central por conta de uma estrutura de chantagem cl\u00e1ssica que perdurou da ditadura para o Estado de direito de uma limitada democracia no Brasil, ap\u00f3s 1989. Limitada em boa medida em fun\u00e7\u00e3o do PMDB, mas n\u00e3o apenas. Tamb\u00e9m pelo funcionamento do DEM e PSDB. Se o PMDB assumiu lugar principal foi exatamente pelo fato de ser quem centraliza ou coordena as estruturas de chantagem no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional. Assim, \u00e9 capaz de trazer ou pelo menos bloquear o conjunto dos outros, trazendo boa parte dos partidos de aluguel e bloqueando os tr\u00eas partidos de fato da esquerda brasileira \u2013 PSOL, PSTU e PCB.<\/p>\n<p>Portanto, a postura do PMDB, que h\u00e1 tempos domina o Estado, \u00e9 a s\u00edntese do conjunto de partidos da burguesia. S\u00e3o mais de 20 e nenhum destes expressa nenhum setor direto da burguesia. As burguesias brasileiras, desde o primeiro governo Lula, adotaram para elas praticamente todos os partidos que est\u00e3o na disputa eleitoral. Financia todos, divide entre eles os recursos e assim, em seus mais diferentes formatos, as burguesias passaram a ter em sua m\u00e3o o espectro dos partidos, desde a esquerda \u00e0 extrema direita do capital. Todo o espectro conforma o partido da burguesia. Em outros termos, o Partido da Ordem, termo de Marx retomado por Florestan Fernandes, \u00e9 composto por uma quantidade enorme de partidos. E todos eles devem sua penetra\u00e7\u00e3o \u00e0s burguesias brasileiras, em termos de financiamento, acesso \u00e0 m\u00eddia, programas e sobreviv\u00eancia mais imediata.<\/p>\n<p>Dentro disso, o PMDB \u00e9 um daqueles que t\u00eam penetra\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de escala nacional, e \u00e9 s\u00edntese da podrid\u00e3o de uma pol\u00edtica de tal tipo, herdada da estrutura ditatorial. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada porque ocorreu em algum momento o que venho chamando de certo \u201cpaulistocentrismo\u201d, isto \u00e9, uma oposi\u00e7\u00e3o entre PSDB e PT muita clara em SP, mas n\u00e3o tanto assim pelo pa\u00eds, onde o papel de cada um deles \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Pra ficar claro, com exce\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas partidos de esquerda, os demais s\u00e3o partidos da ordem burguesa, inclusive o PT, que faz a esquerda desse partido. Dentre os partidos que est\u00e3o ali, nenhum deles t\u00eam claramente delimitado qual setor e fra\u00e7\u00e3o representa das classes dominantes. Estas, investiram em todos eles, de maneira peculiar. O paulistocentrismo \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o um pouco ir\u00f4nica, porque a classe trabalhadora de S\u00e3o Paulo \u00e9 forte, extremamente variada, rural e urbana, de escala enorme, mas tal conceito n\u00e3o se refere a ela. E de certa forma o PT adotou essa formula paulistoc\u00eantrica, criada na d\u00e9cada de 40 na figura da Locomotivo do Pa\u00eds, que por sua vez deveria seguir os des\u00edgnios ditados de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Entra no jogo o complicador da postura do PMDB e outros partidos. Embora o PSDB tenha veia fundamentalmente paulista e carioca, nunca conseguiu de fato uma distribui\u00e7\u00e3o nacional. PT e PMDB s\u00e3o os \u00fanicos que t\u00eam inser\u00e7\u00e3o, escala e abrang\u00eancia nacionais. Ainda assim, ficamos encolhidos a um debate que op\u00f5e PSDB e PT em escala nacional. O problema dessa limita\u00e7\u00e3o \u00e9 que s\u00f3 sobra o PMDB para medi\u00e1-la, pois abrange estados circunscritos de problemas de organiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da vida social que n\u00e3o podem ser resolvidos pelo PSDB e poderiam, mas n\u00e3o foram, ser enfrentados pelo PT.<\/p>\n<p>O PMDB assume centralidade por diversas raz\u00f5es: a primeira \u00e9 sua escala nacional. A segunda \u00e9 que herda da ditadura as formas mais apequenadas da pol\u00edtica: a negocia\u00e7\u00e3o direta, caso a caso. Dessa heran\u00e7a, constitui uma parcela importante de sua lideran\u00e7a como algo diretamente chantagista, tanto com as classes dominantes como em rela\u00e7\u00e3o aos setores populares.<\/p>\n<p>Nessa circunst\u00e2ncia, o que \u00e9 o pior da nossa pol\u00edtica do ponto de vista de heran\u00e7a hist\u00f3rica, o PMDB assume centralidade diante da impot\u00eancia do PT em ser de fato um partido de esquerda e do PSDB de ser algo al\u00e9m de express\u00e3o regional de uma certa burguesia, enclausurada em S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e um peda\u00e7o do Paran\u00e1, enquanto as burguesias brasileiras s\u00e3o mais amplas.<\/p>\n<p>Portanto, estamos diante de um imenso desafio de compreens\u00e3o, n\u00e3o simplesmente de uma resposta. Temos o desafio de entender a regionaliza\u00e7\u00e3o da grande burguesia, as estrat\u00e9gias das suas estruturas representativas e o fato de que seu conjunto tenha adotado todos os partidos ao longo dos anos.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>O que pensa da postura da oposi\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a vitoriosa vota\u00e7\u00e3o pelo impeachment, por ela tamb\u00e9m apoiado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Continuamos numa situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima e longe de amainar. O fato de que todos tenham aderido a uma aventura golpista e uma vez, tamb\u00e9m devido a isso, que estejam todos numa bola de neve com a qual n\u00e3o podem brincar, n\u00e3o significa que n\u00e3o estejam com medo.<\/p>\n<p>Em alguns artigos escrevi, e continuo pensando assim, que a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e o medo de grandes empres\u00e1rios de serem presos s\u00e3o temores reais, inclusive de partid\u00e1rios do impeachment, porque as opera\u00e7\u00f5es da PF atingiram apenas o PT at\u00e9 o momento. Por um lado, h\u00e1 um temor real do que pode acontecer, um movimento que fuja de seu controle, afinal, como dissemos, o disparador de tudo isso ainda \u00e9 um tanto inc\u00f3gnito.<\/p>\n<p>A chantagem, a meu ver, se antecipa ao medo. E no caso \u00e9 o medo de ser preso. Respeito os argumentos da crise econ\u00f4mica, mas n\u00e3o me convencem que tenham sido as raz\u00f5es principais do processo. Creio que temos a conjun\u00e7\u00e3o de crise econ\u00f4mica e fratura do pacto social um pouco mais complexa, relacionada tamb\u00e9m ao cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>A certa cautela da oposi\u00e7\u00e3o nos primeiros momentos ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara se deve ao temor do esc\u00e2ndalo em que se meteu, coisa que o mundo inteiro reconhece e ela sabe. O Brasil n\u00e3o \u00e9 uma republiqueta, como dizem, mas uma das dez maiores economias do planeta. Ao se abrir aqui uma situa\u00e7\u00e3o que possa inaugurar um cen\u00e1rio de tens\u00e3o social permanente, a Am\u00e9rica Latina toda pode se incendiar.<br \/>\nEles toparam a chantagem n\u00famero 1, junto com um conjunto expressivo da grande burguesia brasileira, e ao mesmo tempo temem os desdobramentos. \u00c9 absolutamente vergonhoso assistir, porque n\u00e3o h\u00e1 nenhum posicionamento que seja claramente pol\u00edtico. N\u00e3o h\u00e1 proposta, n\u00e3o h\u00e1 projeto. A \u00fanica proposta \u00e9 de rapina. Avan\u00e7ar na DRU, portanto, sobre os recursos da previd\u00eancia, de tudo aquilo que a Constitui\u00e7\u00e3o definiu como recursos p\u00fablicos que n\u00e3o dever\u00e3o financiar o capital. H\u00e1 pelo menos 70 projetos de lei na C\u00e2mara e Senado de retirada de direitos do trabalhador.<\/p>\n<p>Portanto, entram como aves de rapina no processo, de maneira avassaladora, a fim de retirar direitos, mas uma coisa retroage sobre a outra \u2013 a chantagem pol\u00edtica feita pelo PMDB, admitida pelo PSDB, depois de este tentar se colocar como um ente limpo, quando nunca houve tentativa de limpeza alguma e os demais partidos s\u00e3o apenas de aluguel. Por isso, querem diminuir o n\u00famero de partidos, o que visa excluir exatamente aqueles que n\u00e3o lhes pertencem. Nesse processo, tais partidos temem o que pode acontecer, mas agora n\u00e3o t\u00eam como brecar o movimento iniciado por eles pr\u00f3prios. Por isso \u00e9 grav\u00edssima nossa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Acredita que Dilma tem chance de sobreviver ao processo no senado? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Sou historiadora, n\u00e3o sou futur\u00f3loga. Para mim, independentemente de sobreviver ou n\u00e3o, a sinaliza\u00e7\u00e3o que ela tem dado \u00e9 de fazer a pol\u00edtica que eles est\u00e3o determinando. O golpe em boa parte j\u00e1 foi dado. Eliminou a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo brasileiro a sua capacidade de lideran\u00e7a. Esse golpe j\u00e1 foi dado.<\/p>\n<p>Subsequentemente, alguma possibilidade h\u00e1 de a Dilma voltar ao governo. Sempre h\u00e1 uma possibilidade alucinada qualquer de o Senado votar diferentemente da C\u00e2mara ou de ela voltar 180 dias depois. Isso n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ou se faz mobiliza\u00e7\u00e3o popular para enfrentar qualquer que seja o dirigente que saia desse processo, a fim de exigir respeito aos recursos p\u00fablicos, o fim da rapinagem na estrutura pol\u00edtica (totalmente coligada e dependente dos grandes capitais brasileiros e estrangeiros) e exigir e impor dec\u00eancia aos representantes ou vamos descer ladeira abaixo.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Assim, chegaria a ser irrelevante a continuidade do mandato de Dilma.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Ela pode continuar no mandato com o golpe j\u00e1 feito e completamente ref\u00e9m. Ela j\u00e1 era ref\u00e9m do que estava posto no in\u00edcio do mandato, por isso digo que tem alguma coisa opaca no disparador de todo o processo. Dilma foi eleita com uma plataforma na campanha e na semana seguinte \u00e0 sua posse adotou uma pol\u00edtica oposta. De quem ela adotou tal pol\u00edtica? Dos grandes grupos brasileiros e estrangeiros que aqui atuam. Portanto, o tipo de enfrentamento que estamos assistindo n\u00e3o faria muito sentido.<\/p>\n<p>Mas por que tal enfrentamento ocorre? Porque h\u00e1 uma disputa. A meu ju\u00edzo temos duas disputas subterr\u00e2neas. Uma \u00e9 sobre a continuidade da investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal para al\u00e9m do PT. E apesar da seletividade que a Pol\u00edcia Federal e o Minist\u00e9rio P\u00fablico j\u00e1 demonstraram, essa \u00e9 uma amea\u00e7a latente e patente na situa\u00e7\u00e3o brasileira. Ningu\u00e9m sabe se S\u00e9rgio Moro continuar\u00e1 fazendo investiga\u00e7\u00f5es sobre outros grupos. Mas a massa que foi para a rua contra a corrup\u00e7\u00e3o o fez apoiando um S\u00e9rgio Moro que n\u00e3o foi al\u00e9m.<\/p>\n<p>Portanto, tem um problema a\u00ed e a Fiesp diz que ela n\u00e3o vai pagar o pato, o que significa que nenhum empres\u00e1rio ser\u00e1 preso e o resto que pague o pato. Outro problema \u00e9 a captura do programa com acordo da presid\u00eancia e de uma grande parcela do PT desde o primeiro governo Lula.<\/p>\n<p>Nesse momento aparece a quest\u00e3o: \u201cse ela faz o programa deles, por que est\u00e1 acontecendo tudo isso\u201d? Uma quest\u00e3o \u00e9 a Pol\u00edcia Federal. O PT jamais p\u00f4de control\u00e1-la \u2013 e n\u00e3o porque n\u00e3o quisesse, mas porque n\u00e3o podia. Al\u00e9m disso, quem leu o Valor Econ\u00f4mico, O Globo, a Folha e o Estado de S. Paulo nos \u00faltimos dois meses sabe que as promessas, e eles falam todos os dias, s\u00e3o jogar baldes de \u00e1gua nas opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal, estabelecer um grande cen\u00e1rio de pacifica\u00e7\u00e3o nacional e diminuir o impacto das investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, tanto entre as empresas brasileiras quanto em algumas entidades do Estado, a exemplo da pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Esse \u00e9 um dos elementos.<\/p>\n<p>O segundo elemento \u00e9 que um dos setores mais corrompidos do PMDB assume o enfrentamento: o setor do Eduardo Cunha. Essas duas circunst\u00e2ncias capturaram o processo em um ponto em que n\u00e3o houve nenhum enfrentamento, at\u00e9 o Cardozo dizer que se tratava de um golpe. Mas n\u00e3o houve um enfrentamento ao golpe do ponto de vista partid\u00e1rio e da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma lideran\u00e7a no pa\u00eds, de modo que a burguesia quer prender o Lula e impedi-lo de falar, porque ele \u00e9 uma lideran\u00e7a. Por mais que eu discorde do Lula e dos governos petistas, algo que sempre deixei bem claro, a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9: uma parcela grande da burguesia associada a parlamentares completamente corro\u00eddos quer impedir que surja qualquer lideran\u00e7a com algum cheiro popular. Isso porque eles dispararam um processo que n\u00e3o ter\u00e3o como frear e amea\u00e7a abrir lutas sociais que eles n\u00e3o ter\u00e3o como controlar.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Dentro de todo esse jogo, que inclui o esfacelamento do lulismo como mediador dos conflitos de classes e interesses, como avalia a declara\u00e7\u00e3o de Fernando Haddad, prefeito de S\u00e3o Paulo, a afirmar que o PT deve abdicar de se apresentar como lideran\u00e7a majorit\u00e1ria da esquerda brasileira? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Primeiro tenho um pouco de d\u00favida sobre a capacidade nacional de lideran\u00e7a do Haddad. Ele tem uma postura muito centrada em S\u00e3o Paulo. Apesar de ter sido ministro da Educa\u00e7\u00e3o sua postura \u00e9 muito centrada em S\u00e3o Paulo e, portanto, temos novamente a disputa PT-PSDB, que \u00e9 muito caracter\u00edstica de S\u00e3o Paulo. Em segundo lugar, a minha avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco diferente da dele.<\/p>\n<p>O PT j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma lideran\u00e7a da esquerda brasileira h\u00e1 muito tempo. O PT \u00e9 a lideran\u00e7a de uma esquerda voltada para o capital. O que \u00e9 uma \u201cesquerda voltada para o capital\u201d? Esse \u00e9 o t\u00edtulo de um belo livro do Eurelino Coelho, que se chama \u201cUma esquerda para o capital\u201d, em que ele mostra como a expans\u00e3o do capitalismo brasileiro precisou trazer para si, ou seja, para dentro do setor burgu\u00eas, as lideran\u00e7as que emergiam entre os trabalhadores, adequando-os \u00e0 gest\u00e3o do capital e se apresentando como uma esquerda capaz de lidar com o capitalismo. N\u00e3o era mais uma socialdemocracia que fazia tal papel, estava mais pr\u00f3ximo de um social-liberalismo, mas era essa a postura.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso qualificar melhor o que estamos chamando de esquerda e o Haddad n\u00e3o est\u00e1 qualificando. Est\u00e1 simplesmente considerando que o PT historicamente expressa a esquerda, mas que esquerda expressa o PT? O PT j\u00e1 expressou uma esquerda, mas desde quando ele parou de express\u00e1-la, desde agora?<\/p>\n<p>Provavelmente, como um partido \u00e0 esquerda do capital o PT n\u00e3o perde seu papel e nele continuar\u00e1. Certamente, n\u00e3o \u00e9 mais o papel de atuar como lideran\u00e7a m\u00e1xima, uma vez que ao longo dos seus per\u00edodos de governo perdeu a capacidade convocat\u00f3ria que lhe dava acesso fundamental de esquerda conveniente para o capital.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o estamos assistindo a isso somente no Brasil; acontece no mundo inteiro. Os partidos oficiais que v\u00eam de uma tradi\u00e7\u00e3o, seja do socialismo, do trabalhismo ou de qualquer vi\u00e9s de esquerda e se colocaram para atuar como uma m\u00e3o esquerda do capital, est\u00e3o perdendo rapidamente credibilidade social e capacidade aglutinativa. Basta ver o caso do PSOE espanhol, do Partido Socialista Portugu\u00eas, do Partido Socialista Franc\u00eas e de outros tantos partidos que transigiram tanto tempo com o capital. Eles foram perdendo espa\u00e7o, inclusive de atua\u00e7\u00e3o como m\u00e3o esquerda do capital, e abriram espa\u00e7o, desgra\u00e7adamente, para a ascens\u00e3o de uma extrema-direita que vem calcada em valores que tais partidos da esquerda do capital perderam, que s\u00e3o os valores da negocia\u00e7\u00e3o a qualquer custo com a domina\u00e7\u00e3o. Estamos assistindo no cen\u00e1rio internacional \u00e0 ascens\u00e3o de uma direita difusa, muito articulada e bastante truculenta, ao lado do crescimento de formas de express\u00e3o da rebeldia popular descrentes dos partidos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o precisamos ir muito longe. Temos o Podemos na Espanha e o Movimento \u201cNuit Debout\u201d (\u201cNoite Desperta\u201d) na Fran\u00e7a, cujos participantes passam noites em p\u00e9 na pra\u00e7a da Rep\u00fablica em Paris e em v\u00e1rias outras cidades francesas. S\u00e3o express\u00f5es da rebeldia popular com a clareza de que est\u00e3o lutando pela classe trabalhadora e de recusa aos partidos. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica porque n\u00f3s precisamos de organiza\u00e7\u00e3o. Precisamos da jun\u00e7\u00e3o desses movimentos sociais \u00e0s formas de organiza\u00e7\u00e3o que ainda resistem nas classes trabalhadoras. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito inquietante, mas podemos remontar mais atr\u00e1s ao <em>Occupy Wall Street<\/em> e outras formas anteriores, como a <em>Gera\u00e7\u00e3o \u00e0 Rasca<\/em> de Portugal, o Syriza na Gr\u00e9cia, entre tantas outras.<\/p>\n<p>Vivemos no mundo uma situa\u00e7\u00e3o muito peculiar. E no caso brasileiro, com a situa\u00e7\u00e3o golpista, \u00e9 ainda mais complexo. Sequer as regras burguesas de funcionamento tradicionais v\u00eam sendo respeitadas. Por essas raz\u00f5es que a declara\u00e7\u00e3o do Haddad me pareceu pretensiosa, ao partir do pressuposto de que o PT liderava, at\u00e9 agora, a esquerda brasileira.<\/p>\n<p><strong><strong><strong>Correio da Cidadania: <\/strong><\/strong>Apesar de toda a discuss\u00e3o e o quadro complicad\u00edssimo, qual poderia ser a melhor sa\u00edda para a crise em sua vis\u00e3o? E como imaginaria um \u201cgoverno de transi\u00e7\u00e3o\u201d capitaneado pelo PMDB?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Fontes: <\/strong>Como Gramsci, sou uma pessimista da raz\u00e3o e uma otimista da vontade. Vamos para os dois aspectos. Primeiro, o pessimismo da raz\u00e3o. Do ponto de vista de uma an\u00e1lise absolutamente fria do que vem acontecendo, estamos nos dirigindo para o pior. Estamos nos dirigindo para um governo capitaneado por um grupo chantagista que vai implementar o programa da grande rapinagem com um acordo frouxo, por enquanto, dos outros partidos da direita. E tais partidos ir\u00e3o aderir na medida em que a rapinagem for aplicada. O PSDB, por exemplo, est\u00e1 oscilando, esperando as elei\u00e7\u00f5es, mas quando a rapinagem for flagrante estar\u00e1 ao lado. Algumas das suas lideran\u00e7as inclusive j\u00e1 o declararam. Do ponto de vista do pessimismo da raz\u00e3o, eu diria que vamos para uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil, na qual certamente teremos lutas dur\u00edssimas.<\/p>\n<p>Antes de entrar no aspecto do otimismo da vontade vou introduzir outro elemento que o Gramsci n\u00e3o considera, que \u00e9 a raz\u00e3o conflitual. Do ponto de vista dessa raz\u00e3o conflitual, tais grupos n\u00e3o t\u00eam apoio social para implementar o programa de rapinagem que querem e, portanto, ter\u00e3o de defrontar-se com lutas que n\u00e3o sabemos quais s\u00e3o. N\u00e3o sabemos quem conduz, nem que posi\u00e7\u00e3o ou partido e nem quais movimentos emergir\u00e3o para tentar unificar os setores e grupos contr\u00e1rios \u00e0 rapinagem. Mas sabemos que surgir\u00e3o. Isso porque a sociedade brasileira \u00e9 uma sociedade complexa, hoje altamente urbanizada e j\u00e1 mostrou que n\u00e3o quer perder direitos \u2013 e o que est\u00e1 proposto \u00e9 uma devasta\u00e7\u00e3o dos direitos da maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Portanto, eu n\u00e3o tenho d\u00favidas de que o pessimismo que a dire\u00e7\u00e3o principal do processo traz tem de ser temperado por essa raz\u00e3o conflitual. \u00c9 a raz\u00e3o conflitual que me permite dizer, como Gramsci, que existe um otimismo da vontade. A popula\u00e7\u00e3o brasileira, ap\u00f3s um experimento de democracia, ainda que mitigada, dificilmente aceitar\u00e1 uma ditadura levada adiante pelo pior que essa sociedade j\u00e1 produziu. Vamos enfrentar lutas poderosas e eu tenho confian\u00e7a de que se n\u00e3o for de maneira instant\u00e2nea, mas a curto ou m\u00e9dio prazo, estaremos aqui enfrentando situa\u00e7\u00f5es nas quais a classe trabalhadora dir\u00e1 claramente que \u00e9 insuport\u00e1vel aceitar alguma coisa do tipo que se desenha.<\/p>\n<p>Sou pessimista pelo encaminhamento das nossas dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias altamente comprometidas, basta ver o que est\u00e3o fazendo e que s\u00e3o rapinantes, oportunistas e sem nenhuma responsabilidade sobre o conjunto da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Assim, com eles sou pessimista. Mas tenho absoluta certeza de que a massa da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o aguenta mais suportar o que suportou. E em boa parte suportou pelo PT porque o pr\u00f3prio PT dizia ser em seu nome. Agora n\u00e3o ter\u00e1 quem diga ser em seu nome, portanto, a raz\u00e3o conflitual tende a emergir. Ao emergir, temos chances de ir muito al\u00e9m do que j\u00e1 fomos at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>http:\/\/correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=11627<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Escrito por Gabriel Brito, da Reda\u00e7\u00e3o O Senado j\u00e1 aprecia o processo de impeachment de Dilma, que por sua vez parece se concentrar \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10953\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-10953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2QF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}